A esta altura, todo mundo conhece a história: após aparecer como o cavaleiro das trevas em Batman vs Superman e (no mal fadado) Liga da Justiça, Ben Affleck iria escrever, dirigir e protagonizar The Batman, a aventura solo do homem-morcego dentro do DCU, até que desiludido pelo processo conturbado do time da equipe e mergulhado em problemas pessoais (que envolveram divórcio e alcoolismo), Affleck desistiu de tudo e pendurou a capa e o capuz, deixando seus dias de Bruce Wayne para trás. E Matt Reeves assumiu o projeto com um direcionamento totalmente novo, focado na juventude do herói com Robert Pattinson como o novo cruzado embuçado.

Mas por que Reeves jogou fora o roteiro de Affleck e Geoff Johns (escritor de HQs que na época era presidente da DC Films) e zerou tudo? O diretor falou sobre o tema pela primeira vez na semana passada numa entrevista com a revista Esquire.

Matt Reeves assumiu The Batman após desistência de Ben Affleck.

A publicação perguntou como era o roteiro de Affleck e Johns:

[O roteiro] Era muito direcionado à ação. Estava profundamente conectado ao DCU com outros grandes personagens dos outros filmes aparecendo. Eu logo soube, quando eu li esse roteiro em particular, que não era o jeito que eu queria fazê-lo.

E por que não?

Eu disse pra eles que já havia tido grandes filmes por lá, mas se eu tivesse que fazer isso, eu teria que fazê-lo de modo mais pessoal, então, eu poderia entender o que estava fazendo, eu saberia onde colocar a câmera, e assim, eu saberia o que dizer para os atores, e assim, eu saberia que história seria.

Esta abordagem, eu disse pra eles apontando para o roteiro, é uma abordagem totalmente válida e excitante. É quase jamesbondiana, mas não é algo com o qual eu possa me relacionar [enquanto diretor].

Para a surpresa de Reeves, a Warner se interessou para saber mais sobre como o diretor faria seu filme, e ele disse que nem sequer poderia elaborar uma ideia mais precisa, pois estava no meio dos trabalhos com O Planeta dos Macacos naquele momento, e que entendia que o estúdio não poderia esperar e passaria o trabalho para outro diretor.

Mas para meu total choque e surpresa, eles disseram: “Sabe de uma coisa? Nós realmente gostaríamos que você fizesse isso. E vamos esperar”.

É totalmente compreensível que Reeves quisesse ter uma abordagem mais pessoal e realista, afastando-se da versão mais fantasiosa – e mais relacionada às HQs – do Batman no DCU de então, e por outro lado, a resposta da Warner demonstra a insatisfação e insegurança gerada pelos controversos longas da Era Zack Snyder, que acumularam algumas boas críticas, uma certa base de fãs, mas ao mesmo tempo, estiveram muito longe de serem unanimidade e, mais importante para o estúdio: nem de perto geraram as bilheterias esperadas.

Ben Affleck como Bruce Wayne.

Tendo em vista os bons filmes escritos e dirigidos por Ben Affleck – que já ganhou um Oscar pelo roteiro de Gênio Indomável e outro de Melhor Filme por Argo – seria muito interessante ver como ele abordaria o Batman em um filme solo. Seu Bruce Wayne quarentão, calejado e apenas recuperando a fé na humanidade após um período de cinismo, poderia gerar um texto e interpretação densos e tensos como os melhores trabalhos dele. No entanto, a pressão para vinculações excessivas com o DCU e prioridade à ação poderiam mesmo atrapalhar o negócio.

The Batman de Affleck traria Bruce Wayne enfrentando o Exterminador (Deathstroke) de Joe Manganiello – que apareceu na cena pós-créditos de Liga da Justiça (em duas versões diferentes, na do cinema e na de Snyder). Na trama, aparentemente, o mercenário Slade Wilson receberia a identidade secreta do cavaleiro das trevas como brinde das mãos de Lex Luthor e tornaria sua vida um inferno. Parece algo que sinaliza à trama que o homem-morcego teve com outro mercenário nas HQs: David Cain.

Nas histórias, Cain era o pai de Cassandra, que se transforma na segunda Batgirl, depois que a original, Barbara Gordon, fica presa à uma cadeira de rodas. Irritado por Batman “corromper” sua filha, Cain vê uma oportunidade surgir quando é contratado por Lex Luthor, então, presidente dos EUA, para incriminar Bruce Wayne de um assassinato em represália ao empresário ter interferido em seus negócios. Luthor nem sabia que Wayne era o Batman. Mas Cain, sim! Ele matou a namorada de Wayne, Vesper Fairchild, e o playboy foi acusado do crime, levando o herói a ser preso e, ao mesmo tempo em que precisa provar sua inocência (inclusive para seus amigos), tem que descobrir o verdadeiro responsável e impedir que sua identidade secreta se torne pública, como visto no arco (e megaevento) Bruce Wayne: Assassino, no início dos anos 2000.

É provável que Affleck e Johns usassem pelo menos alguns desses elementos numa trama contra o Exterminador, que traria à tona outros pesadelos do passado do Batman, especialmente, a morte do Robin nas mãos do Coringa.

Ben Affleck como Batman. Nâo mais?

Por outro lado, Affleck nunca ficou satisfeito com o roteiro e disse em uma entrevista que ele nunca foi terminado, o que significa que, apesar de circular nos corredores da Warner – e ter sido mostrado a Matt Reeves posteriormente – Affleck ainda queria melhorar o texto e atingir algo que não encontrara ainda.

Bom, ao menos que no futuro Affleck e Johns lancem a história como uma HQ, um livro ou um desenho animado, jamais saberemos com certeza. The Flash, o filme vindouro do velocista escarlate trará a última aparição do Bataffleck, provavelmente, em uma aparição curta e com sua morte (em algum sentido). E como será um filme que lidará com realidades alternativas – tal qual Homem-Aranha – Sem Volta para Casa será substituído, de alguma maneira, pelo Batman de Michael Keaton, que retoma o papel que exercera 30 anos atrás em Batman – O Filme e Batman – O Retorno (de 1989 e 1992, respectivamente). É dito que Keaton será o homem-morcego do DCU daqui em diante e terá aparições, inclusive, no filme da Batgirl do HBO Max.

Em paralelo, o Batman de Robert Pattinson chega em março próximo em outra dessas realidades, com Matt Reeves comandando uma trama que promete focar no lado detetive do cavaleiro das trevas, que terá uma abordagem mais humana e realista e se situará no Ano Dois da guerra de Bruce Wayne contra o crime.