Nesta semana, o cantor e compositor canadense Neil Young surpreendeu o mundo da música ao solicitar que seu catálogo musical fosse excluído do Spotify, a maior plataforma de streaming do mundo. O motivo, bem ao estilo combativo do artista, foi um protesto contra a manutenção do podcast Joe Rogan Experience, que é fonte de desinformação sobre a pandemia, divulgação de fake news, desestímulo à vacinação e promoção de tratamentos ineficazes contra a doença.

Por causa de contratos diversos com várias gravadoras ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, Young só conseguiu garantir que os discos dos últimos 27 anos tenham sido excluídos, aqueles realizados com a Reprise Records, parte da Warner Records. Mas em uma nota oficial, o músico solicitou que as gravadoras de seu trabalho inicial fizessem o mesmo.

Em meio ao risco de um processo judicial ruidoso, o Spotify atendeu de pronto à solicitação de Young, e isso gerou um impacto enorme na indústria musical, com outros artistas já anunciando também seu descredenciamento da plataforma, como a cantora e compositora Joni Mitchell, e vários outros grande nomes cogitando seguir o mesmo caminho.

Além disso, o impacto maior ao Spotify é na sua imagem, elemento primordial num mundo movido por ações na bolsa e capital especulativo: estimativas divulgadas pela Variety demonstram que a plataforma já perdeu US$ 2 bilhões em valor de mercado apenas entre os dias 26 e 28 de janeiro, enquanto a bolsa de uma maneira geral sofreu um movimento de alta.

Isso levou a uma carta aberta de Daniel Ek, um dos fundadores do Spotify, uma figura que já entrou em debates com outros artistas sobre temas como royalties. Na carta, Ek diz:

Pessoalmente, existem diversos indivíduos e visões no Spotify que eu discordo fortemente. Sabemos que temos um papel crítico em apoiar a expressão dos criadores, enquanto equilibramos isso com a segurança dos nossos usuários. (…)

Confio nas nossas regras, nossa pesquisa e nossa expertise. (…) Isso não significa que sempre acertamos, mas estamos comprometidos a aprender, crescer e evoluir.

O executivo ainda acrescentou que o Spotify vai incluir avisos de conteúdo duvidoso e disponibilizar links com fontes confiáveis em materiais como o que está sendo criticado e reforça que a plataforma auxiliou na divulgação de informações críveis sobre a Covid-19 e doou dinheiro para a Organização Mundial de Saúde (OMS) e para a COVAX, instituição que distribuía vacinas a países pobres.

Daniel Ek não faz menção a uma represália direta ao motivo da discórdia, e parece assumir a postura tipicamente estadunidense de “liberdade de expressão”. Todavia, o direito internacional entende que há uma diferença entre liberdade de expressão e a responsabilidade por divulgação de notícias enganosas, desinformação e perjúrio; além de que a propagação de mensagens de ódio e preconceito precisam ser ajuizadas, com penas duras a seus propagadores.

Por seu turno, Neil Young também tem seus problemas com o Spotify para além das questões relacionadas às fake news: o roqueiro sempre foi crítico da má qualidade de áudio da plataforma (que mantém o padrão de 128 kb do formato MP3), segundo ele, a menor qualidade de som dentre as plataformas mais usadas (como Deezer ou iMusic); enquanto outros artistas, como David Crosby – companheiro de banda de Young na Crosby, Stills, Nash & Young – criticam severamente o mau pagamento de royalties do Spotify.

Se a decisão do músico canadense desencadear um efeito dominó na indústria musical, essa questão continuará na pauta pelas próximas semanas.

Neil Young (segundo da esquerda) ao lado da banda Crazy Horse.

Neil Young nasceu em 1945 em Toronto, no Canadá, mas emigrou para os Estados Unidos e se lançou com sucesso na banda The Buffalo Springfield, ao lado do também cantor e guitarrista Stephen Stills. O grupo conseguiu compactos e um álbum de estreia com bastante sucesso em 1967, mas os desentendimentos internos levaram Young a se desligar da banda em duas ocasiões em apenas um ano, o que fez estar ausente na histórica apresentação no Monterey Pop Festival, o primeiro dos grandes festivais, naquele mesmo ano, em meio ao chamado Verão do Amor.

Lançando seu primeiro álbum solo em 1968, e conseguiu um sucesso moderado com seu segundo, Everybody knows this is Nowhere (1969), antes de se unir ao Crosby, Stills and Nash, supergrupo formado por David Crosby (The Byrds), Stephen Stills (Buffalo Springfield) e Graham Nash (The Hollies), três cantores e compositores que fizeram muito sucesso em suas bandas prévias. Agora chamado Crosby, Stills, Nash & Young, a banda se apresentou no Festival de Woodstock, em 1969, e lançou o álbum Déja Vu (1970) que foi um fenômeno incrível de vendas, sucedido pelo ao vivo For Ways Street (1971).

Crosby, Young e Stills nos concertos de 1974: em estádios pela primeira vez.

O CSNY se transformou numa banda no nível de sucesso de Beatles e Rolling Stones, o que tornou a vida dos músicos uma loucura completa. Cada um dos membros lançou um álbum solo para desanuviar – o de Young, After the Gold Rush (1970), foi um enorme sucesso – mas as engrenagens do showbizz desmotivaram uma reunião do grupo, que só ocorreria em 1974 para uma grande turnê por estádios dos EUA, mas o plano de gravar um novo álbum em seguida não se concretizou, devido aos desgastes emocionais, as drogas e os problemas pessoais.

Entrementes, Young se firmou como um dos mais importantes compositores da época, lançando álbum de grande prestígio, como Harvest (1972), On the Beach (1974), Rust Never Sleeps (1978), Freedom (1989), Harvest Moon (1992), Mirror Ball (1995), além da The Stills-Young Band (Long May You Run, 1976), e ocasionais reuniões do CSNY (American Dream, 1988; Looking Forward, 1999). Mantendo a independência artística e a veia crítica, Young permanece como um dos roqueiros mais relevantes de todos os tempos e dono de uma obra majestosa.