Após uma série de adiamentos causados pela pandemia de Covid-19, chegou às comics shops dos EUA a 12ª edição da maxissérie Batman/Catwoman, que encerra a longa temporada do escritor Tom King com o universo do cavaleiro das trevas. E a revista traz a prometida e adiada união matrimonial de Bruce Wayne e Selina Kyle! Ou será que não? Vejamos…

Batman pede a Mulher-Gato em casamento.

Em primeiro lugar, é preciso contextualizar: Tom King estreou como roteirista da revista Batman (que teve sua numeração zerada para a chegada do escritor) em 2016, e causou um enorme impacto em arcos aclamados, como Suicida Noiva ou Ladra. Inicialmente, os planos eram de uma temporada de 100 edições da revista Batman, mas King encerrou sua participação no número 75, com City of Bane, em 2019. 

O ponto alto de sua temporada foi Batman 50, que trazia a culminância de algo que ele desenvolvia desde o início: o relacionamento de Bruce Wayne e Selina Kyle. Batman e Mulher-Gato se conheciam desde o início da carreira de ambos em lados opostos da Lei, mas gradativamente, a ladra foi deixando de ser uma vilã para ser mais tipo uma anti-heroína e uma aliada valiosa do homem-morcego. Especialmente a partir do arco Silêncio, de Jeph Loeb e Jim Lee, publicado na mesma Batman, entre 2002 e 2003, o relacionamento deu um passo firme adiante: o cavaleiro das trevas revelou sua identidade secreta para ela e os dois chegaram a ter um relacionamento firme pela primeira vez (embora, os dois já tivessem namorado sob suas identidades civis, antes dela saber que Bruce e Batman eram a mesma pessoa).

Tom King levou isso ao ponto final: com a relação sólida e madura, Bruce pediu Selina em casamento e o enlace ficou agendado para Batman 50, de 2018, contudo, na trama, nos pés do altar, a Mulher-Gato dá para trás e o casamento não se consuma, com a história mostrando que isso não aconteceu por causa de uma manipulação do vilão Bane com a irmã adotiva de Selina, Holly Robinson.

A saída de King da revista Batman após a edição 75 também é algo nebuloso na história editorial da DC Comics, e aparentemente, esteve relacionada à conflitos criativos com a direção da DC Comics, em particular, Dan Didio, que queria dar início a um novo reboot cronológico da editora com uma saga chamada 5G, que traria versões do futuro dos personagens da DC. No fim das contas, a Warner (empresa-mãe da DC) terminou vendida à AT&T e, depois, de novo, para a Discovery, o que resultou em várias mudanças editoriais na casa e nas mudanças de planos.

Mas independente disso tudo, como um tipo de “prêmio de consolação”, foi dada a King a maxissérie Batman/Catwoman, com 12 edições, nas quais ele fecharia, mais ou menos, o escopo das 100 edições previstas e poderia contar a história que planejou desde o início. Com arte de Clay Mann, a série foi lançada em 2020 e atrasou diversas vezes em meio à pandemia, sendo concluída apenas agora.

A trama ousada de King mostrava a relação de Batman e Mulher-Gato sob a perspectiva de três olhares distintos: a do passado (na cronologia corrente da DC); no presente, com as consequências dos arcos de histórias do autor; e no futuro, com Bruce já falecido e Selina lidando com o legado do marido e seus inimigos.

Na edição 12, que encerra a série, de maneira não planejada e por impulso, Bruce e Selina decidem se casar numa igreja que mimetiza a metodologia da Las Vegas da vida real, com cerimônias relâmpagos com caráter legal duvidoso a qualquer preço. Na trama, Selina não resiste ao promover o casamento em uma “igreja” na qual o próprio Batman é o tema e o oficial que realiza a cerimônia está vestido como o homem-morcego de Adam West (da série de TV dos anos 1960). Precisando de duas testemunhas para concretizar o enlace, Bruce convida o Superman e Lois Lane, com o casamento realizado e o fim.

A pegadinha é que, em vista da eterna confusão que é a cronologia da DC Comics, sequer é sabido se Batman/Catwoman é uma série canônica, ou seja, se sua trama faz parte da cronologia oficial ou é uma realidade alternativa.

Por isso, é preciso aguardar um pouco mais para saber se haverá repercussão ou não dessa história nas demais revistas do cavaleiro das trevas e isso não depende de King, e sim, da direção da DC Comics, cujo nome mais importante atualmente é o desenhista Jim Lee. Mas tudo pode mudar caso a Discovery decida reestruturar a seção de quadrinhos tal qual está fazendo na divisão de cinema.