A banda britânica Pink Floyd finalmente anunciou o lançamento da versão remixada de seu álbum Animals, de 1977. O lançamento estava travado há quatro anos por causa de uma disputa entre o guitarrista David Gilmour e o ex-membro, o baixista Roger Waters, principal compositor da obra.

Roger Waters (topo à esquerda) com o Pink Floyd nos anos 1970.

Refletindo o delay, o novo disco mantém o título Animals 2018 Remix, mas aparentemente, não trará o que foi o grande objeto de disputa entre os dois líderes da banda: um texto escrito para o encarte de autoria de Mark Blake, biógrafo da banda, autor do livro Os Bastidores do Pink Floyd, a mais completa obra literária sobre o grupo. Em junho de 2021, Roger Waters divulgou uma nota no Twitter trazendo a íntegra do texto de Blake e dizendo que fora vetado por Gilmour, segundo Waters, porque dava ao ex-baixista a maior parte dos créditos na criação do álbum.

Gilmour se recusou a comentar na época, mas já havia mencionado em outras entrevistas que Waters era “ávido demais” na retenção dos créditos e citava como exemplo, justamente, uma faixa de Animals, Piggies, na qual dizia ter composto 60% da canção e não levou credito nenhum, ficando tudo com Waters, que criou a letra e o esboço da música.

O Pink Floyd em 1972: Waters, Mason, Gilmour e Wright.

Nos créditos oficiais de Animals, que tem cinco faixas, todas as canções têm letra e música assinadas por Waters, exceto Dogs, que é de coautoria de Gilmour. Isso contrasta com as obras imediatamente anteriores do grupo – os megassucessos Darkside of the Moon (1973) e Wish You Were Here (1975) – na qual as faixas traziam, em sua maioria, créditos coletivos entre Waters e Gilmour, e também do tecladista Richard Wright; mas encontra acordo nas obras posteriores – The Wall (1979) e The Final Cut (1983) – que são quase exclusivamente assinadas por Waters. Depois deste último, Waters saiu da banda.

De qualquer modo, o novo Animals chegará em breve às lojas físicas e virtuais com uma nova mixagem criada por James Guthrie, engenheiro e produtor de som que trabalha com a banda há 40 anos, sob a supervisão de Gilmour. O pacote inclui um livro com 32 páginas cheias de textos e imagens inéditas tanto das gravações quanto da turnê que se seguiu, e da famosa sessão de fotografia da capa do disco.

Como de praxe, o álbum será lançado em vários formatos: em CD, LP, blu-ray, SACD e numa box set de luxo que trará os formatos LP, CD, blu-ray, DVD e o livro. Os formatos blu-ray e DVD trarão o remix nos formatos estéreo e 5.1 Surround Sound, além do stereo mix original de 1977.

A descrição oficial do remix também apresenta o conceito do disco:

Animals é um álbum conceitual, focado nas condições sócio-políticas da Grã-Bretanha de meados da década de 1970, e foi uma mudança no estilo do material inicial da banda. O álbum foi desenvolvido de uma coleção de canções sem relação para um conceito que descrevia o aparente declínio social e moral da sociedade, conectando a condição humana com a dos animais. Tomando inspiração de A Revolução dos Bichos, de George Orwell, o álbum descreve as diferentes classes de pessoas como animais, com os porcos sendo o topo da pirâmide social, descendo para as ovelhas, que seriam os descerebrados que obedeciam tudo o que aqueles diziam; os cachorros como os chefes dos negócios, ficando gordos com dinheiro e poder que eles tiram dos outros. Embora já tenha se passado bastante tempo desde 1977, a narrativa do álbum ainda ressoa hoje em nossa situação social e econômica, que espelha aqueles tempos.

Para além da nova mixagem, dos novos formatos e do material gráfico, não há faixas bônus no pacote, trazendo apenas as cinco canções originais do disco.

David Gilmour ouve o material gravado em Abbey Road.

Animals representou uma mudança no Pink Floyd por vários motivos, por um lado, ainda mantém a atmosfera progressiva do som da banda e é amarrado pelo conceito das letras, tal qual as obras imediatamente anteriores, como Darkside of the Moon e Wish You Were Here; mas por outro, é um disco com menos beleza, mais frio e aparentemente, menos colaborativo, no sentido de que, exceto Dogs (com coautoria de Gilmour), todas as demais levam apenas a assinatura de Waters, que também é, pela primeira vez desde a estreia da banda 10 anos antes, o vocalista principal de todo o disco. Desde que ingressara no grupo, em 1968, cabia a Gilmour a maior parte dos vocais, mas em Animals, ele assume os microfones apenas na primeira metade de Dogs.

Isso era um preâmbulo para o que viria depois, com Waters sendo o compositor e vocalista majoritário em The Wall e The Final Cut, dando início a uma fase de muitas tensões internas no grupo, com Gilmour, Wright e o baterista Nick Mason se queixando do comportamento tirânico de Waters, no que resultou neste saindo da banda, em 1985; enquanto que Gilmour, Wright e Mason prosseguiram sem ele, lançando mais discos e fazendo turnês.

Capa de Animals, de 1977: tempos difíceis.

Falando nisso, também vale uma nota para a turnê de Animals, que foi chamada de In the Flesh e rodou Europa e Estados Unidos em 1977 e foi a última grande excursão da formação clássica da banda, embora, pela primeira vez, o grupo se utilizou de um músico fixo de apoio: o guitarrista Snowy White. Foi a primeira vez que o Pink Floyd fez uma turnê inteiramente em estádios e a grande dimensão dos espetáculos, o distanciamento do público e o fato de tocarem não somente mais para os seus fãs, mas uma nova leva de curiosos atraídos pelo grande sucesso de seus álbuns anteriores (e que não estavam interessados no experimentalismo do grupo, mas somente em ouvir os hits), criou estranhezas e tensões dentro da banda e dos músicos com o público.

O Pink Floyd ao vivo na turnê In the Flesh, com Snowy White.

Inclusive, foi num show da turnê em que ocorreu o episódio em que, frustrado com um “fã” que não parava de gritar do pé do palco para que a banda tocasse o hit Money, Waters se desequilibrou e cuspiu na cara do rapaz. O músico ficou aturdido com o próprio comportamento e transformou aquelas sensações no ponto central de The Wall, que inclusive, abre com uma faixa chamada In the flesh?.

Voltando ao novo lançamento, Animals também ganhou uma nova arte atualizando sua icônica capa, que mostra um porco inflável (chamado Algie) sobrevoando a Battersea Station, principal estação de energia de Londres na época. A capa foi idealizada pelo grupo Hipnosis, que criou muitas das icônicas capas da banda, liderado pelo artista Storm Thorgerson, já falecido. Foram necessários três dias de trabalho para conseguir a melhor imagem e, no segundo dia, Algie se desprendeu de suas amarras e voou livre pelos céus da capital britânica, obrigando até ao fechamento temporário do aeroporto de Heathrow, antes de cair em uma fazenda em Kent.

O prédio da Battersea hoje foi transformado em um complexo de edifícios de apartamentos de luxo e salas comerciais, e a capa ganhou uma releitura de Aubrey “Po” Powell, também membro da Hipnosis e parceiro de Thorgerson.

Animals 2018 Remix está disponível para pré-venda e chega às lojas em 16 de setembro em suas versões separadas, com a Deluxe Edition chegando em 07 de outubro.

E este nem será o único lançamento do Pink Floyd na temporada: a canção Hey hey rise up, que a banda lançou especialmente nas redes sociais e no YouTube em abril passado como uma forma de apoiar a Ucrânia, atingida pela guerra contra a Rússia, também será lançada de forma física. O compacto sai no Reino Unido e Europa em 15 de julho, chegando ao Japão em 03 de agosto e nos EUA em 21 de outubro.

O compacto terá como Lado B uma nova versão de A great day for freedom, faixa lançada originalmente no álbum The Division Bell (1994), e uma canção composta a partir da queda do Muro de Berlim. Não há detalhes do que consistirá nessa nova versão, mas pode ser uma remixagem ou uma regravação parcial, comandada por Gilmour (que pode ter gravado novos vocais e guitarra, por exemplo), já que o texto de divulgação diz que a faixa é “retrabalhada” por Gilmour “a partir das fitas originais, que trazem o baterista Nick Mason e o tecladista Richard Wright, mais backing vocals de Sam Brown, Claudia Fontaine e Durga McBroom“.

Hey hey rise up foi a primeira faixa inédita criada pelo Pink Floyd em mais de 25 anos, pois foi uma canção inteiramente nova criada por David Gilmour e Nick Mason, que contaram com o apoio de Guy Pratt (baixo), Nitin Sawhney (teclados) e conta com a participação especial do músico ucraniano Andriy Khlyvnyuk (da banda Boombox) nos vocais principais. Ela é uma releitura de uma tradicional canção ucraniana.