Numa era de imediatismo, mesmo tendo 007 – Sem Tempo para Morrer sido lançado há pouco tempo (em setembro de 2021), já há toda uma expectativa dos fãs de quando virá o próximo e quem será o novo James Bond do cinema. Mas tenham paciência: vai demorar! O personagem terá que ser reinventado e deve demorar uns dois anos para que as filmagens do próximo filme ocorram. Foi o que informou a produtora Barbara Broccoli, principal responsável pela franquia do mais famoso agente secreto do cinema (e da literatura).

Barbara Broccoli e seu irmão Michael G. Wilson, proprietários da Eon Productions, que detém os direitos de 007 para cinema e literatura, foram homenageados por sua contribuição ao cinema britânico em um jantar da British Film Institute (BFI), que ocorreu no Claridge’s Hotel, no centro de Londres, na segunda-feira, dia 11 de julho, com a presença de figuras ilustres da sétima arte inglesa, como o diretor Terry Gilliam (ex-membro do Monty Python), o casal de atores Kate Mara e Jamie Bell, o diretor Edgar Wright e o fundador do IMDB, Col Needham, além de executivos importantes, como Tolley Shields (da Netflix), o diretor executivo do BFI, Ben Roberts e o anfitrião, o presidente do BFI, Tim Richards, totalizando 150 convidados. A noite contou ainda com a apresentação do compositor David Arnold num grand piano, e mensagens de vídeo de Daniel Craig (último 007 dos cinemas), Dame Judi Dench (que interpretou M, a chefe de Bond, em vários filmes), Lea Seydoux (par romântico de 007 nos dois últimos filmes), Rami Malek (vilão de Sem Tempo para Morrer) e Sam Mendes (diretor de Skyfall e Spectre).

Fiennes, Broccoli, Wilson e Harris na homenagem.

O prêmio a Broccoli e Wilson foi entregue pelos atores Ralph Fiennes e Naomie Harris, que interpretaram M e Moneypenny nos últimos filmes de 007; e a honraria não diz respeito apenas à franquia de James Bond, mas porque a Eon também produz filmes independentes no cinema britânico e a dupla de produtores atuam como apoiadores da The London Film Academy e fundaram uma escola de filmes inovativos na capital britânica, ao lado de Tim Bevan, Eric Fellner, Lisa Bryer e David Heyman.

Daniel Craig e Barbara Broccoli na época da estreia de Spectre.

Na ocasião, claro, Broccoli foi questionada sobre quando veremos o novo Bond nos cinemas, já que Daniel Craig encerrou sua temporada no personagem definitivamente em Sem Tempo para Morrer e o nome de seu substituto é um dos tópicos mais quentes das casas de apostas da Inglaterra. Porém, a produtora disse que vai demorar, porque o personagem será reinventado:

Ninguém está na disputa [para ser o novo Bond]. Estamos trabalhando sobre para onde iremos com ele, estamos passando por isso. Não há um roteiro e não podemos ter um até decidirmos como iremos abordar o próximo filme, porque, na verdade, é uma reinvenção de Bond. Estamos reinventando quem ele é e isso toma tempo. Eu diria que estamos há pelo menos dois anos de distância das filmagens.

Tal janela de tempo aponta para que o novo 007 só deve chegar aos cinemas em 2025 ou mais.

Árabes, negros e latinos no 007 mais recente.

Questões sobre representatividade, negação do machismo que marcou o personagem e a franquia no passado, mais diversidade e questões sobre como lidar com o passado colonial do Império Britânico são dilemas que já assolam a franquia cinematográfica há alguns anos. Particularmente, os três últimos filmes (Skyfall, Spectre e Sem Tempo para Morrer) tentaram avançar nessas questões, com o personagem revendo seu comportamento em relação às mulheres e fatos como personagens femininas ganhando mais peso e importância nas tramas, além de mais diversidade, com negros, árabes, latinos e asiáticos.

Idris Elba: o novo 007?

Ao mesmo tempo, as discussões nas redes avançavam com solicitações de fãs para que James Bond fosse negro no próximo filme – com Idris Elba sendo o mais forte candidato – ou mesmo uma mulher. Esta última questão não passou incólume à Eon, ao ponto de ser “referendada” em Sem Tempo para Morrer, quando na trama Bond se aposenta do serviço secreto para viver com a esposa, e seu lugar como 007 – que é um cargo, lembrem-se – passa a ser ocupado pela personagem da atriz Lashana Lynch.

Contudo, era apenas um aceno: em uma entrevista da época, Broccoli reafirmou que James Bond continuará a ser um personagem masculino e que isso não impede dos filmes trazerem mulheres fortes e interessantes nem de retratar o sexo feminino de uma maneira digna e importante.

Mas sem dúvida, Bond é muito ligado à representação que ganhou nos cinemas, como um machão que conquistava todas as mulheres, o que denotava uma visão machista e de superioridade masculina, sem contar as questões da Guerra Fria e do imperialismo britânico.

Bond (Sean Connery) e Blofeld em Diamantes são Eternos.

Isso não quer dizer que já há muito tempo a franquia não tenha o trabalho de se reatualizar. Por exemplo, ainda em 1971, o filme 007 – Os Diamantes são Eternos, estrelado por Sean Connery, fazia ironia sobre o papel secundário da Grã-Bretanha na disputa de poder geopolítico: na trama, quando Blofeld, líder da organização terrorista SPECTRE, chantageia os líderes mundiais sob a ameaça de bombardeá-los com um poderoso raio laser via satélite e 007 vai ao confronto do vilão, este exclama, “Mas a sua pequena ilha sequer foi ameaçada”.

Ademais, se o leitor ler o Dossiê Especial do HQRock sobre todos os filmes de 007 (recomendamos 😉 ) verá que, ao contrário dos livros, no cinema quase nunca a União Soviética e os Russos foram os vilões, a despeito do clima de Guerra Fria, mas este papel cabia à SPECTRE ou outros megalomaníacos malvados e milionários.

Goldeneye: novo Bond, nova pegada.

Após um hiato da franquia pós-Queda do Muro de Berlim, fim da União Soviética e fim da Guerra Fria, a fase iniciada com 007 Contra GoldenEye mostrava um James Bond mais antenado ao fim do século, fazendo sexo seguro e abandonando o hábito de fumar, ainda que continuasse a beber. Na renovação seguinte, mais ou menos 10 anos depois, na Era Daniel Craig, Bond foi retratado como mais humano e sem os traços misóginos do passado.

O que vem por aí?

Na literatura e no cinema, James Bond é um escocês caucasiano, descendente da baixa aristocracia, advindo de uma família de background decadente que, após ficar órfão, encontrou prumo na vida na carreira militar, servindo na Marinha Britânica e chegando a Comandante, antes de ir para o Serviço Secreto (MI-6) e, por volta dos 36 anos de idade, se tornar um dos poucos agentes com permissão para matar (o duplo zero), com o título de 007.

No mundo em que vivemos, muitos desses elementos podem ser questionados e denotar problemas, quanto ao passado imperialista da Grã-Bretanha, por exemplo.

O que provavelmente irá acontecer é que o James Bond cinematográfico ganhará uma nova franquia do zero com uma representação mais diversa e representativa, o que implica que Bond poderá ser negro, latino, indiano ou árabe, advindo das colônias britânicas; deverá ter uma postura mais rebelde e questionadora da ordem, menos devoção à Rainha e à Monarquia e uma postura totalmente diferente em relação às mulheres, não sendo difícil imaginar a ganhar uma companheira fixa – um interesse amoroso à lá Lois Lane (para o Superman) ou Mary Jane Watson (para o Homem-Aranha) – e/ou parceira de aventuras. Transformar Bond em alguém LGBTQIA+ não é impossível, porém, o mundo ainda é muito carregado de preconceito e é muito mais “tolerante” à representação lésbica (há algumas delas no MCU, por exemplo!) e bem menos aos gays homens.

As mudanças têm alguns desafios, por exemplo, como abordar a relação de um homem da Commonwealth no Serviço Secreto sem isso escancarar uma relação simbólica de subserviência de uma ex-colônia, como por exemplo, a Jamaica ou a Índia, em relação ao velho Império. A menos que o novo Bond não seja um agente do MI-6, mas alguém independente: um mercenário a quem a Inglaterra apela como último recurso numa situação desesperada. Isso seria uma ruptura grande demais com o material original? Talvez…

O fato é que o fã deve manter a cabeça aberta, pois é muito provável que o próximo James Bond dos cinemas deverá ser algo muito diferente do que conhecemos atualmente.

Então, quanto ao ator que vestirá o smoking (será que 007 ainda vestirá smoking em 2025?) nem adianta se alvoroçar, pois falta tanto tempo que é provável que o próximo Bond será alguém que ainda está fora de nosso radar.

E se você sonhava em ver alguém como Henry Cavill, Tom Hiddleston ou Tom Hardy como 007, é melhor não guardar esperanças: a probabilidade desse tipo de perfil fenótipo se manter no personagem é quase nula. Ao mesmo tempo, não devemos ver Idris Elba na pele do espião, pois ele está (infelizmente) velho demais para o papel.

Vamos discutindo…