A Warner Discovery reestruturou o DC Studios para relançar seus filmes em uma nova continuidade, chamada DCU, e o primeiro produto, Superman, estreia em 2025 com direção de James Gunn. A “antiga” versão do DCU – que agora é chamado de DCEU para diferenciar do novo – foi principalmente comandada pelo diretor Zack Snyder e sua visão influenciou a estrutura daquele universo, findo com os lançamentos de The Flash e Aquaman e o Reino Perdido no ano passado. E Snyder voltou à baila essa semana ao dar uma declaração defendendo que Batman matasse em seus filmes, no que foi rebatido por uma carta pública pelo escritor de quadrinhos Grant Morrison.
Isso nos abre um bom debate… Batman deve ou não matar?
Sim, é o tipo de pergunta que nos faz pensar… “por que temos que fazer essa pergunta”, mas vamos lá…

Primeiro aos fatos… O velho DCEU foi inaugurado por Superman – O Homem de Aço, em 2013, dirigido por Zack Snyder, estrelado por Henry Cavill, mostrando um novo filme de origem de Kal-El e dele iniciando sua vida dupla como Clark Kent e o homem do amanhã. O filme já gerou uma grande polêmica ao fim, pois na batalha final, na medida que o mais experiente General Zod, kryptoniano como o Superman, vai se tornando mais poderoso, o herói, que apenas havia acabado de assumir sua capa e se revelado ao mundo, não vê outra alternativa senão quebrar o pescoço de Zod e matá-lo.

Ainda assim, a desastrosa batalha dos dois aliens consumiu uma grande parte da cidade de Metrópolis, e deixou o mundo atônito. E vem então, Batman vs Superman – A Origem da Justiça, também de Snyder, no qual vemos que, vivendo na vizinha Gotham City, Bruce Wayne (vivido por Ben Affleck) ficou enfurecido com toda aquela destruição, e pensa que o Superman é monstro que deve ser detido. Com 20 anos de experiência no combate ao crime “street level”, o Batman se prepara para a missão de sua vida: matar o Superman. E em sua soberba, Wayne não percebe que está sendo manipulado pelo jovem e louco empresário Lex Luthor, que também encontrou uma forma de jogar Clark Kent contra o homem-morcego.
A dupla de heróis se confronta, Batman consegue vencer usando uma armadura especial e uma lança de kryptonita, que enfraquece o Superman, mas quando está prestes a matá-lo, a coincidência de ambos terem as mães chamadas Martha, e a aparição de Lois Lane, fazem Wayne cair em si, e os dois se unirem à Mulher-Maravilha (sim, que apareceu assim, meio do nada) contra o plano final de Luthor: um clone kryptoniano que é um monstro imbatível e uma máquina de matar… aquele que nas HQs é chamado Apocalypse (Doomsday). Os heróis vencem, mas ao custo da vida do Superman.
E isso nos leva ao terceiro filme, Liga da Justiça, cuja a trama não interessa para nossa discussão aqui.

Batman teve apenas algumas outras aparições no DCEU, pontas soltas em filmes como Esquadrão Suicida e The Flash, mas o mais importante aqui é A Origem da Justiça, no qual o cavaleiro das trevas não apenas quer matar o Superman, mas marca bandidos com ferro em brasa e, numa determinada perseguição (que serve para mostrar o Batmóvel em ação), sai matando e atropelando os capangas de Luthor sem dó nem piedade. Ele dá golpes muitos duros quando invade um galpão e luta contra os criminosos no mano a mano, mas agora, de memória – me perdoem – não lembro se, para além da violência gráfica típica de Snyder, ele efetivamente mata alguém com os punhos.
Mas é fato: o Batman de Zack Snyder, vivido por Ben Affleck, um sujeito durão, alto e muito forte, calejado por 20 anos de combate ao crime, que lutou contra ameaças como o Coringa, a Arlequina e o Pistoleiro (e presumivelmente o Crocodilo, também), e perdeu pelo menos um Robin, é uma máquina de matar.

Na época, alguns fãs se queixaram desse “detalhe”, mas a maioria estava encantada demais pelo fato de vermos o cavaleiro das trevas interagindo com o Superman e o restante do Universo DC pela primeira vez nos cinemas, e alguns defensores levantaram a voz – com alguma razão – mostrando que a trama do filme dava a entender que o Batman vinha se tornando mais “descontrolado” nos últimos tempos, sendo esse um dos motivos que chamou à atenção de Clark Kent como jornalista para investigar.
Enquanto lança seu novo trabalho, Rebel Moon, Zack Snyder está dando uma série de entrevistas esses tempos, então, foi questionado sobre o tópico “Batman mata” e deu sua resposta.

As pessoas estão sempre, tipo, “Batman não pode matar”. Então, Batman não pode matar é canônico. E eu sou do tipo: ok, então, a primeira coisa que eu quero fazer quando você diz isso é que eu quero ver o que acontece.
E eles vão dizer: “bem, não coloque ele na posição em que ele tem que matar alguém”. E eu fico tipo: “bem, isto é você apenas tentando proteger o seu deus de um jeito estranho, certo? Você está fazendo o seu deus irrelevante.
A declaração causou algum burburinho na internet, afinal Snyder tem uma base de fãs articulada – cuja campanha maciça somada à crise da pandemia de Covid-19 até mobilizou a Warner a voltar atrás e lhe dar dinheiro para lançar a sua Versão do Diretor de Liga da Justiça – ao mesmo tempo que tem uma horda de detratores.

E no meio disso, o/a escritor/a escocês/a Grant Morrison veio com uma resposta em sua newsletter. Para quem não conhece, Morrison é um/a dos/as mais aclamados/as escritores/as dos quadrinhos, responsável por obras monumentais, como Asilo Arkham, All-Star Superman e Batman e Filho (que é a base do próximo filme do personagem dentro do novo DCU). Artista de gênero não-binário, elu escreveu:
Eu estava lendo como o diretor cinematográfico Zack Snyder pensa que Batman deveria matar como parte da missão autoimposta do personagem de acabar com o crime. Se Batman mata seus inimigos, ele é o Coringa, e o Comissário Gordon deveria trancafiá-lo.
O fato de Batman colocar a si mesmo em perigo todas as noites e reiteradamente se recusar a matar é um elemento essencial da psicose magnífica, horrenda e infantil do personagem.
Isso é fundamental na grandeza dele como um herói fictício de aventura. Isso não é óbvio?
O argumento de Morrison é simples e efetivo. Mas antes… Snyder não está sozinho em sua empreitada… praticamente todas as versões cinematográficas do Batman mataram seus inimigos. Nos filmes de Tim Burton, embora o homem-morcego não seja um assassino sanguinário, ele mata: em Batman (1989), ele tira a vida de alguns capangas do Coringa e é meio responsável pela morte do vilão, amarrando uma pesada gárgula de pedra no pé do palhaço do crime, enquanto ele tenta escapar pela escada de um helicóptero, o que o faz, claro, cair para a morte; em Batman – O Retorno (1992), o cavaleiro das trevas amarra uma bomba no peito de um dos capangas do Pinguim e o lança para explodir em um bueiro. Até as versões mais “família” de Joel Schumacher mataram em Batman Eternamente (1995) e Batman e Robin (1997).

A Trilogia Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan , estrelada por Christian Bale, aborda o tema de modo mais ingênuo… Batman prende o Espantalho (Begins) e o Coringa (O Cavaleiro das Trevas), enquanto Bane é morto pela Mulher-Gato e Talia Head morre em um “acidente” (O Cavaleiro das Trevas Ressurge).
De novo em Begins, Bruce Wayne interrompe seu treinamento com Rãs Al Ghul quando lhe pedem que sacrifique um ladrão (cena que define o seu caráter), e ele põe fogo na cabana que a Liga das Sombras mora nas montanhas do Himalaia. Ele luta para salvar seu mentor Henri Ducard (e consegue), mas explode tudo. Não morreu ninguém ali? Na batalha final contra o vilão, ao se aproximar do ponto em que o trem irá cair do trilho elevado, Batman opta por pular (à salvo por sua capa asa delta) deixando Al Ghul morrer no acidente que segue.
Em O Cavaleiro das Trevas, mesmo que não intencionalmente, Batman mata Harvey Dent/ Duas Caras quando salta para impedi-lo de matar o Comissário Gordon e causa sua queda do terceiro andar.
De novo, Snyder trabalhou em cima de antecedentes.
Todavia, o argumento de Morrison é: Batman não mata e isso é parte da personalidade do personagem e torna sua missão ainda mais incrível, quando ele impõe esse limite para si. E não menos importante: se ele sair por aí matando seus inimigos, o que o diferencia do Coringa?

Falamos muito do cinema, vejamos os quadrinhos… Alguém pode argumentar que Batman matava em suas primeiras histórias, e isso é verdade. Quem ler as incríveis histórias escritas por Bill Finger e Bob Kane (criadores do personagem) ali nos anos de 1939 e 1940 verá um personagem bastante violento, que combate o crime com os punhos e, ocasionalmente, os mata, lançando-os de cima de prédios para morte certa e coisas do tipo. Em uma ou outra ocasião ele até usou uma arma de fogo e matou dois vampiros com uma bala de prata em uma de suas primeiras aventuras. O Robin era retratado como um menino de 10 anos de idade e ele também matava os bandidos do mesmo jeito.
(Quer saber mais? O HQRock tem um Dossiê sensacional com a trajetória do Batman nos quadrinhos, que foi atualizado e ampliado recentemente! Clique aqui!)
Sim. Mas isso durou pouco. Bem rapidamente, a DC Comics impôs um limite à violência, na medida em que o sucesso das HQs do início dos anos 1940 chegava a níveis nunca mais repetidos na história, e os pais e autoridades dos EUA começaram a notar como aquelas HQs de super-heróis eram violentas, o que rendeu a intervenção de um “grupo de controle” formado por educadores e psicólogos para orientar os roteiristas. As aventuras continuaram sombrias e violentas por um tempo, mas o Batman deixou de matar.

E estamos falando dos primeiros dois ou três anos de publicação de um personagem que irá bater os 85 anos publicado todos os meses desde a estreia! Então, sim, sr. Snyder, o Batman não matar é canônico. O desenvolvimento do personagem transformou isso numa característica de personalidade: Bruce Wayne é o maior lutador e o maior detetive do mundo, tem todas as habilidades para matar um homem forte com um único golpe, mas se recusa a isso, porque o que o colocou no caminho do vigilantismo foi o assassinato de seus pais quando criança. E por uma arma de fogo! Daí, que ele não usa uma, preferindo armas não letais, como bumerangues cortantes. E os punhos.

O escritor Tom King – que é um dos roteiristas do novo filme do Superman – escreveu uma aclamada longa fase do personagem em anos recentes e adicionou uma ou duas camadas nessa psiquê do Batman: no fundo, Bruce Wayne é um suicida que espera morrer em ação (algo que aconteceu mesmo de verdade em uma história de Grant Morrison! E foi revertido depois, claro) e, também, embora não se orgulhe disso, Wayne usa os punhos porque é sádico e gosta de bater nos bandidos.
A abordagem do Batman nas HQs é profunda e cheia de nuances psíquicas de modos que nenhum dos filmes jamais conseguiu dar conta. Batman Begins, O Cavaleiro das Trevas e The Batman foram os que mais chegaram perto, é bem verdade. Mas no papel, o homem-morcego é sempre mais profundo do que na telona.
E voltemos ao cinema. Hollywood tem uma ética estranha na qual a pena de morte é a única punição que satisfaz. Qualquer filme “tradicional” tem que terminar com a morte do vilão. A cadeia nunca parece ser o suficiente. O público e os executivos de cinema querer um desfecho definitivo. E sangue. E já que o vilão tem que morrer, que seja pelas mãos do herói.
Snyder faz parte disso. Ok.

Mas seu argumento – e vamos lhe dar o benefício da dúvida, por ter sido uma mera entrevista sem tempo para aprofundar o tópico – soa incrivelmente infantil. Não sou eu quem diz, é ele: “se você me diz que Batman não pode matar, então, é exatamente isso que eu vou fazer ele fazer”. Que tipo de criança mimada é essa? Se te digo o que não pode fazer é justamente o que você irá fazer? É o que crianças de 5 anos fazem para firmar a autoidentidade quando percebem que não fazem parte da mãe como corpo e como ser. Snyder é o quê? Um anarquista contra o status quo da moral?
O outro argumento ainda é pior: defender que Batman não deve matar (como Morrison fez) é “defender o seu deus de um modo estranho”. Porque defender que um herói não mate seus inimigos é estranho? Que tipo de moral é essa? Os policiais devem, então, matar todos os bandidos? Quando um casal for se divorciar perante um juiz, o magistrado deve matar logo os dois e resolver a questão? Devo matar o meu chefe e os meus colegas de trabalho, porque se não fizer isso vou ser estranho?
Não quero viver no mundo de Zack Snyder.

Realmente é esse tipo de argumento que faz o Superman parecer um personagem antiquado, porque ele encarna a bondade e a esperança. E tornamos o mundo tão cínico que não se aceita que o Batman não mate os criminosos. E temos policiais usando a logo do Justiceiro (temos uma discussão sobre isso num post a partir de uma declaração de Gerry Conway, o homem que criou o personagem).
Não matar virou old fashion, já pensou? Não será o mesmo ódio que movimenta as redes sociais, discursos raivosos pautados na eliminação do diferente…?
Snyder tem uma visão mitológica dos super-heróis, algo que expressou em seus filmes, e isso é um mérito, mas seus argumentos sobre o Batman são inaceitáveis. Ele se coloca como aqueles “artistas” de Hollywood que não querem se submeter a determinadas características dos personagens de HQs (que eles chamam de “limitações”), porque julgam que a “sua visão” (claro) é sempre “superior”. Claro, porque pensam que o cinema é uma arte maior do que os quadrinhos. Então, porque vou me submeter aos quadrinhos?

O Batman não mata? E daí? Eu sou o diretor e na minha visão ele mata, e pronto! Quem liga para o que o personagem é nos quadrinhos?
Além de Snyder, o melhor exemplo desse pensamento é o de Tim Burton, quando tentou fazer um filme do Superman nos anos 1990. E isso não é piada: Burton queria que o seu Superman não voasse, não fosse tão forte, não usasse seu uniforme azul e vermelho, mas uma armadura flexível preta, e que tivesse um carro preto possante. Entenderam a referência?
Tal postura é tão cristalizada que você tem diretores de cinema que fazem filmes adaptando os quadrinhos sem sequer ler as histórias em que se baseiam. Sério! Burton é um desses. Bryan Singer (que dirigiu filmes dos X-Men e do Superman) também. Imagina você adaptar Shakespeare sem ler Shakespeare? Ou não vamos tão longe: que tal adaptar livros como Duna ou O Senhor dos Anéis e não ler os livros? Para, como disse Singer, não ser influenciado pelo conteúdo deles. What that f…
E chegamos no ponto… que tal fazer um filme de Hamlet no qual em vez de vingar o espírito do pai, o rei da Dinamarca vire um ator de teatro e saia em turnê pela Europa com sua amada? Por não? E vamos fazer um Romeu e Julieta, no qual Romeu é um vampiro que mata a Julieta e transforma Mercúrio num lobisomem para poder passar férias de verão em Veneza. Não é bom? Eu topo um Senhor dos Anéis, sem anel de poder e Hobbits e no qual em vez de velhos magos medievais e elfos, porque não termos carros voadores e armas laser lutando contra uma aranha gigante?
Se não quer adaptar um material como ele é, faça outra coisa, senhor diretor. Mas embora o parágrafo acima pareça absurdo, é assim que diretores e executivos de cinema pensam e trabalham com os materiais que lhes “inspiram”.
Ninguém subverte Shakespeare por respeito ao autor, à obra e aos personagens. Porque o mesmo não pode ser feito pelos quadrinhos?
Fazer o Batman matar nos filmes é o mesmo que transformar Sherlock Holmes em um chefe de quadrilha que atrapalha a polícia. Holmes é um detetive cerebral, algo frio e insensível, mas de bom coração e genial. É o que faz o personagem.

Batman não mata como um estranho código de honra que dificulta sua vida, mas lhe dá sentido ao mesmo tempo. É parte do que ele é. Qual a dificuldade de fazer um filme no qual o vilão vai para a cadeia ou para o Asilo de Arkham?
Se Snyder complementar com o argumento de que isso não é realístico, então, podemos contra-argumentar que um bilionário que gaste suas noites surrando criminosos em uma roupa de morcego e um carro possante é igualmente irreal. A suspensão de descrença pela própria existência do Batman não é maior do que o fato dele não matar. Isso é uma escolha não somente artística, mas ética.
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Batman foi criado por Bob Kane e Bill Finger e estreou em Detective Comics 27, de 1939, publicado pela editora hoje chamada DC Comics. Desde então, ele continua todos os meses em suas revistas de papel e é um dos personagens fictícios mais famosos em todas as mídias que existem.

