Ontem, no dia 16 de outubro completaram exatos 25 anos da estreia de Smallville, a série de TV que por 10 temporadas (!) mostrou a jornada do jovem Clark Kent de um adolescente do ensino médio descobrindo seus poderes até se tornar o Superman, o maior defensor da Terra e da humanidade. Estrelada por Tom Welling, o programa marcou a primeira década do novo século e foi o experimento pioneiro na ideia de adaptar o riquíssimo Universo DC para a mídia com atores. Embora não tenha gerado spin-offs, não há a menor dúvida de que foi Smallville o grande percursor que permitiu ao público do mundo se interessar por ver mais desse universo integrado e permitiu, apenas alguns anos depois, que existisse o Arrowverse com suas várias séries de heróis da DC – inclusive, uma nova versão do homem de aço – e o agora chamado DCEU nos cinemas, com um protótipo (mal engembrado, é verdade) dos heróis DC na tela grande.

Para celebrar esse marco tão importante, os criadores do programa, Alfred Gough e Miles Millar, conversaram com o The Wrap sobre seu legado e as possibilidades de sequências daquela história. A dupla ficou famosa por Smallville, mas tem um longo e bem sucedido currículo, que envolvem o roteiro de filmes como Homem-Aranha 2 (2004), Hanna Montana, Os Fantasmas se Divertem 2 e de algumas outras séries de TV, incluindo, o enorme sucesso de Wandinha, atualmente em produção.
Alfred Gough comenta sobre o legado do programa no dias de hoje, ao mesmo tempo em que lembra que, lá no início, em 2001, foram estimulados pela rede de televisão da Warner, a retirar todos os elementos “super-heroísticos” da história, porque eles tinham vergonha e receio de mostrar os heróis uniformizados nas telas…
Seu legado é ser, tipo, o primeiro programa de super-heróis da televisão que realmente explorou o personagem além de seu uniforme. Isso é algo que estávamos muito orgulhosos na época. (…) [Naquele tempo] a última versão do Superman [na TV] tinha sido Lois and Clark, e na verdade, a rede de TV nos pediu para, tipo, nos afastarmos ao máximo de qualquer elemento de super-herói que pudesse ter.

Gogh diz que os executivos usavam de modo depreciativo a expressão “comic-booky” para falar sobre esses elementos e que queriam distância disso. Smallville foi desenvolvida porque, ao mostrar as origens do personagem antes de se tornar o homem de aço, não teria que lidar com uniformes ou vilões espalhafatosos, na visão dos executivos. O lema que vendeu o programa à produção foi “sem voos, sem uniformes”, demarcando que a abordagem seria mais realista e os poderes (em desenvolvimento) de Clark Kent seriam mais controlados e não envolveriam, em hipótese nenhuma, voar.
Como o HQRock já explorou em alguma sorte de detalhes – veja aqui o sensacional Dossiê Especial das adaptações em live action do Superman, incluindo filmes e séries! – Gough e Millar inicialmente apresentaram à Warner Bros., no ano 2000, a proposta de produzir uma série de TV mostrando as origens do Batman, na qual iríamos acompanhar o longo período de 7 anos no qual o jovem Bruce Wayne se prepara para se tornar o homem-morcego, viajando pelo mundo e aprendendo tudo sobre artes marciais e técnicas de investigação. Contudo, eles não sabiam, naquele momento estava em desenvolvimento um filme em longametragem de origem do personagem – que se tornaria Batman Begins, de Christopher Nolan, lançado em 2005 – dentro do setor de cinema, o que inviabilizava a proposta de uma série. Mas como os executivos gostaram do material de Gough e Millar, sugeriram que eles fizessem o mesmo com o Superman, cujo projeto de um filme estava estacionado por uma série de problemas criativos e de negócio. Algumas semanas depois, a dupla apresentou a proposta de Smallville e o projeto foi aprovado para produção, com o episódio piloto filmado no início do ano de 2001 (com uma superprodução fora dos padrões da época, o que mostra a confiança do estúdio no projeto) e, mediante a sua aprovação diante dos executivos, foi comissionada uma temporada completa, que estreou em 16 de outubro daquele ano com um sucesso estrondoso de audiência: 8 milhões de pessoas, um recorde para a emissora.

Público e crítica gostaram da abordagem ao personagem, mostrando elementos dramáticos de um jovem de 15 anos com habilidades especiais, muito superior a dos humanos normais, tentando saber mais sobre si mesmo até descobrir que sua origem é alienígena, o que é um grande baque. Além disso, Gough e Millar, que também foram os roteiristas não apenas do Piloto, mas dos principais episódios do início da série, criaram um elemento interessante de culpa e responsabilidade no jovem Clark Kent: a chegada de sua nave espacial vinda de Krypton veio embalada no meio de uma chuva de meteoros que devastou a cidade de Smallville e causou muitas mortes, inclusive, a dos pais de Lana Lang, que será seu interesse amoroso no futuro. O incidente também inundou o solo da cidade e região de kryptonita, o mineral radioativo que é a maior fraqueza do futuro homem de aço, e pode matá-lo, mas em outra criação original da série, essa radioatividade passou a afetar humanos expostos de modo prolongado, transformando-os em mutantes com habilidades especiais ou bizarras, quase sempre direcionando-os ao crime ou à loucura.
Miles Millar falou sobre isso ao The Wrap:
Havia uma complexidade moral no personagem, que não havia antes. Eu acho que, pelo fato de não sermos ávidos aficionados pelos quadrinhos, tivemos nossa própria liberdade criativa para mudar a mitologia e realmente expandi-la para fazer coisas diferentes. (…) Adicionamos a chuva de meteoros, fizemos Clark e Lex [Luthor] amigos, o elemento Lana, tudo isso. Criamos Lionel Luthor, então, Lex tinha um pai. Todo esse material foi completamente de nossa invenção e não parte do cânon. Nós não poderíamos fazer isso [hoje].
Millar ainda acrescentou que eles tiveram sorte de trabalharem numa época na qual, segundo ele, “ninguém no estúdio ligava para o Superman”, e eles tiveram liberdade para trabalhar com ele.

Smallville mudou ao longo dos tempos, claro, e gradativamente foi ficando mais fantasiosa na medida em que avançavam as temporadas e as ameaças enfrentadas por Clark Kent escalonavam em perigo e consequência, mas também ao mesmo tempo em que diversos outros personagens (e super-heróis) da DC eram inseridos na continuidade do programa, como Arqueiro Verde (que virou um personagem fixo do programa na etapa final), Aquaman e alguns outros. O sucesso foi o suficiente para a Warner considerar criar spin-offs desses dois personagens – o do Aquaman chegou até a ser filmado um piloto, mas não foi aprovado – e na esteira da sensação das temporadas finais, a Warner também chegou a produzir um piloto para uma série da Mulher-Maravilha, não vinculada à continuidade de Smallville, mas que também não foi aprovado.

Mas os frutos vieram. Ao fim de Smallville, o canal The CW desenvolveu uma série do Arqueiro Verde, com uma nova abordagem, em outra continuidade, e o sucesso de Arrow foi tanto que deu origem ao chamado Arrowverse, um universo mais ou menos integrado de heróis que gerou várias séries de sucesso variável, como The Flash, Legends of Tomorrow, Supergirl, Black Lightning e Batwoman.
Millar ainda adiciona uma história de bastidores sobre as dificuldades de produção da série que não era totalmente conhecida. Gough e Millar começaram a produção da série no canal The WB da Warner Bros., mas após algumas temporadas, aquele canal foi fundido com outro, o UPN, nascendo o The CW. Contudo, a equipe de liderança da antiga The WB foi demitida e os líderes da UPN à frente do The CW foram hostis contra Smallville:
Não haveria Arrowverse sem Smallville. Nós fomos desafortunados de termos uma mudança de regime justamente quando começamos a produzir nossos spin-offs e tudo aquilo. The CW basicamente se tornou um amálgama da UPN e The WB. Os caras da The CW foram tipo colocados na rua, e a UNP veio e eles tinham um ponto de vista diferente sobre o que uma emissora deveria ser… e definitivamente, não era algo como Smallville. Eles tentaram “matar” Smallville pelo restante do tempo em que estiveram lá. Eles não achavam que se encaixavam na versão deles de uma emissora, e foi apenas depois que esse regime também foi posto na rua que as coisas mudaram.

A dupla refletiu sobre a carreira de seu elenco, percebendo que nomes como Tom Welling (Clark Kent), Kristin Kreuk (Lana Lang), Michael Rosenbaum (Lex Luthor), John Glover (Lionel Luthor) e Erica Durance (Lois Lane) prosseguiram com carreiras de sucesso na TV e não somente continuam ativos hoje em dia, como permanecem amigos, participando constantemente de convenções de quadrinhos juntos. Eles comentaram sobre o caso de Allison Mack (Chloe Sullivan), claro: a atriz foi presa em 2018 acusada de participar de uma seita (disfarçada de curso de autoajuda) cujo objetivo era escravizar mulheres para fins sexuais dos líderes do culto, incluindo ela própria, o que lhe valeu alguns anos de prisão e vida hoje sob condicional. Ela saiu da prisão no ano passado e deu uma entrevista ao seu ex-colega de elenco, Rosenbaum, que comanda um podcast chamado Inside of You, dizendo que sofreu um tipo de lavagem cerebral participando do grupo por mais de uma década.
Além de seu podcast de entrevistas com atores, atrizes e diretores de cinema ou TV, Rosebaum criou outro podcast, dessa vez ao lado de Welling, chamado Talkville, no qual comentam cada um dos episódios de Smallville e trazem participações de outros membros do elenco ou da equipe técnica.
Millar também falou sobre o que queriam fazer e não conseguiram em Smallville…
Nós sempre quisemos fazer o Batman, o jovem Bruce Wayne, sempre quisemos colocá-lo no fim. A jovem Mulher-Maravilha também. Esses eram dois que eram sempre impedidos. Mesmo Lois Lane [que foi introduzida na 4ª temporada], nós imploramos, imploramos e imploramos até que eles disseram que só poderíamos usá-la por quatro episódios ou algo assim, e então, não obedecemos. Simplesmente a mantivemos no programa. Não tínhamos a autorização, apenas a mantivemos lá. Fizemos nossas próprias coisas e acho que eles esqueceram, o que foi ótimo!

Ele também refletiu sobre a diferença entre programas como Smallville – feitos à velha maneira – com 22 episódios por temporada, 218 no total, enquanto Wandinha, por exemplo, são temporadas de 8 episódios lançadas a cada dois anos, e o grau de investimento necessário para consumir todo esse material. Mas ao mesmo tempo, percebem como existe uma forte nostalgia por Smallville, relacionado à sua qualidade – bom elenco, boa história, ótimos efeitos especiais (que funcionam ainda hoje, 25 anos depois!) – e que aqueles que assistiram na época, hoje são pais e mostram aos seus filhos, ao passo que o elenco continua, como dito, participando do circuito de convenções e conversando com os fãs.
Então, o The Wrap faz a pergunta que todos fazem: haveria uma sequência para Smallville após 25 anos?
Alfred Gough responde diretamente:
Nós nunca dizemos nunca. Quer dizer, isso é algo que certamente estamos abertos a explorar. De novo, com todas essas mudanças de regime [na Warner, que trocou de dono várias vezes nos últimos anos e acabou de ser vendida à Paramount-Skydance] e as coisas na DC, é um pouco complicado… Há obviamente as outras versões do Superman em tela, nos filmes ou na TV, mas é com certeza algo que estamos abertos a explorar de novo.
E Millar acrescenta:
Há muito o que explorar, e eu amaria ver onde eles estão 25 anos depois. Eu acho que cairia muito, muito bem, e acho que as pessoas realmente gostariam, e amaríamos escrever algo como aquilo. [Mas] quando falamos sobre isso, a resposta usual é recebermos um “não”.

A dupla não entra em detalhes, porém, já houve uma proposta concreta de sequência para Smallville: Rosenbaum e Welling propuseram criar uma série animada que serviria para continuar a história da série, usando os atores originais para dublar os personagens. Obviamente, não houve sinal verde. Mas não é algo impossível. O elenco já afirmou estar pronto para fazê-lo e Gough e Millar estariam no barco.
De concreto houve dois pequenos spin-offs de sequência de Smallville, se é que podemos dizer: a DC Comics lançou quadrinhos digitais que serviram como uma 11ª temporada, mostrando o início da carreira de Clark como Superman; e Welling e Durance gravaram uma pequena participação especial reprisando seus personagens numa idade mais velha no especial Crise nas Infinitas Terras do Arrowverso, no qual, numa trama de multiverso, eles são uma das realidades alternativas possíveis, e Clark desistiu de seus poderes para viver com Lois e ter filhos.
Com uma base de fãs constante ao longo das décadas e a nostalgia alimentada pelas convenções e o podcast Talkville, não é impossível que algum dia o DC Studios resolva dar espaço para a produção de algum tipo de sequência à série, como o proposto desenho animado com o elenco original. Numa era em que reboots e revivals alimentam os cofres de Hollywood com reinterpretações de obras consagradas, pode ser que Smallville reencontre seu lugar ao sol em algum momento. O desenho é uma boa ideia, porque é mais barato e elimina qualquer problema de caracterização dos personagens, em vista que se a trama buscasse continuar a história de onde parou ou mesmo uma década depois de onde a história parou, seria preciso muito trabalho para que os atores parecessem joviais como eram em 2011, quando o programa se encerrou.

Em Smallville, ao longo das 10 temporadas, vemos Clark Kent descobrir seus poderes, suas origens e amadurecer como pessoa, ao mesmo tempo em que seu amigo Lex Luthor é consumido pelo ódio alimentado por seu pai psicopata e se converte em um criminoso ambicioso e sem freios morais. Após descobrir o segredo de Clark, Lana Lang segue sua vida, inspirada pelo ex-namorado em ajudar as pessoas, enquanto Clark e Lois Lane vão se aproximando gradualmente até ela também descobrir o segredo dele e eles terminarem juntos. Ao longo do caminho, Clark vai encontrando outros heróis como ele (Arqueiro Verde, Aquamn, Flash, Canário Negro etc.) que vão se associando num time (a futura Liga da Justiça) ao mesmo tempo em que aumentam as ameaças metahumanas. Nesse caminho, Clark vai evoluindo de um jovem extremamente relutante que usava suas “habilidades” apenas quando o perigo aparecia diante de si e dos seus, para alguém que abraça a possibilidade de ajudar aos outros em total segredo e anonimato, quando é apelidado pela imprensa como o “Borrão Azul e Vermelho” (porque sua velocidade permite se ver apenas isso, um borrão), até entender que sua ação e sua presença é um tipo de inspiração necessária à humanidade. No último episódio da série, após anos de alguma relutância, ele abraça sua herança kryptoniana e usa o uniforme gerado pela Fortaleza da Solidão para combater o mal de cara limpa, se transformando no Superman.

