A coluna “Disco Clássico” (não necessariamente óbvio) se dá ao trabalho de desenterrar álbuns (sabe, aquele conjunto de canções reunidas em um meio físico, como LP de vinil, fita K7 ou mesmo CD que anda tão fora de moda?) na perspectiva de apresentar trabalhos interessantes que possam ser ouvidos nos dias de hoje não importe por qual meio, mesmo como canções dispersas na opção aleatória dos MP3 Players.

Abbey RoadDisco de Hoje: ABBEY ROAD

Artista: The Beatles – banda britânica.

Quando: 1969.

Quantas bandas você conhece fazem de seu último álbum o melhor de todos? Creio que bem poucas. A trajetória normal é ter logo os primeiros como melhores e depois decair. Alguns provocam admiração por suas obras “tardias”, porque trazem algo de maturidade, mesmo sem a força de outrora, como é o caso de Bob Dylan ou The Doors. Alguns chegaram ao auge após uma fase inicial, de modo que o apogeu veio no “segundo momento”, como Rolling Stones, Pink Floyd e Eric Clapton.

Mas não os Beatles: seu último disco é o melhor! Depois de apenas sete anos de carreira fonográfica, três turnês mundiais, de deixar o mundo boquiaberto com o Sgt.Peppers Lonely Hearts Club Band, de popularizar as religiões orientais no Ocidente e virarem símbolos da juventude daqueles tempos, os Beatles acabaram. Mas antes, fizeram Abbey Road.

Os Beatles se apresentam no telhado da Apple, em janeiro de 1969.

O clima para a gravação do disco não era nada favorável, mas a banda foi adiante, com aquela determinação ímpar que precede o expiro final. Em janeiro de 1969, decidiram filmar os preparativos para uma volta aos palcos, num projeto chamado Get Back; mas os ensaios ficaram tensos, George Harrison quase saiu da banda e, então, desistiram daquilo, se contentando em fazer o concerto no telhado do prédio da Apple (a gravadora deles) para fechar o “filme do ensaio do show que nunca aconteceu”. Depois, as finanças da Apple declinaram e a empresa quase faliu. A editora das canções da banda, a Northern Songs, foi vendida sem eles serem consultados, e John Lennon e Paul McCartney perderam a propriedade de suas próprias composições. Os Beatles decidiram contratar um novo empresário, Allen Klein, mas McCartney foi contra porque queria o novo sogro no cargo. Klein foi contratado e McCartney se desligou informalmente da Apple. Lennon e McCartney não conseguiam mais compor juntos diante as crescentes diferenças pessoais e musicais. Harrison estava cada vez mais infeliz porque queria mais espaço.

A banda na época do início das gravações.

Com tudo isso, em abril de 1969, os Beatles se reuniram nos estúdios da EMI na rua Abbey Road, norte de Londres, e começaram a gravar. Havia o sentimento de que aquele seria o último, então, todos se empenharam.

As gravações começaram com o produtor Chris Thomas, mas como os resultados não foram satisfatórios, o tradicional George Martin (de todos os outros álbuns) foi chamado de volta. Algumas canções foram feitas, contudo, em maio, o trabalho foi interrompido porque estava tenso demais. O grupo tirou um mês de férias.

Em junho, as gravações foram retomadas, mas sem John Lennon, porque este sofreu um acidente de carro na Escócia e estava hospitalizado. Depois de 10 dias, Lennon retornou e o grupo ocupou os três estúdios de Abbey Road trabalhando freneticamente até o fim de agosto, quando os quatro Beatles se reúnem pela última vez e gravam o meddley com Polythene Pam/She came in through the bathroom window.

O resultado é um disco maravilhoso. Pela primeira (e única) vez, os Beatles gravaram um álbum inteiramente na tecnologia de oito canais e o resultado se reflete no som: cada instrumento está límpido, podendo ser ouvido em detalhes e revelando a tapeçaria que compõe a musicalidade da banda. Todos estão afiados em seus instrumentos.

Lennon grava sua parte.

O Lado A do LP é mais “simples e direto”, formado por canções que se desenvolvem sozinhas. Abre com Come together, canção de teor político que Lennon compôs para a campanha do psiquiatra “papa do LSD” Timothy Leary ao Governo da Califórnia. O produtor George Martin gosta de afirmar que esta é a gravação dos Beatles preferida dele: uma sonoridade pulsante. Segue-se a balada Something, talvez a melhor composição de George Harrison nos Beatles, com um arranjo forte e sequências de acordes não-usuais. E o disco continua com a fraca Maxwell’s silver hammer; o R&B Oh! Darling; a composição do baterista Ringo Starr Octopus’s garden e o blues lento e pesado de I want you (she so heavy).

O Lado B traz duas baladas famosas – Here comes the sun de George Harrison e Because de Lennon – e dá início a uma suíte musical na qual várias canções estão unidas: o final de uma é o começo da seguinte e assim por diante. É um efeito muito interessante que começa com a roqueira You never give me your money, passa à psicodélica Sun king e segue por Mean Mr. Mustard, Polythene Pam, She came in through the bathroom window, Golden slumbers, Carry that weight e The End.

Harrison e McCartney gravam vocais.

Nesta última, há uma longa passagem instrumental com um solo de bateria e uma parte na qual McCartney, Harrison e Lennon tocam cada um uma sequência de solo de guitarra que vai se sucedendo. No fim, um piano e, a três vozes, o grupo canta seu epitáfio: “E no fim/ o amor que você recebe/ é igual ao que/ você dá”.

Depois:

Abbey Road foi o maior sucesso dos Beatles entre os “discos de linha” (sem contar coletâneas): 12 milhões de cópias só nos Estados Unidos.

Starr e Harrison experimentam o mini-moog: "Abbey Road" foi o primeiro álbum de música popular a usar sintetizadores.

A capa em que atravessam a faixa de pedestres se tornou uma das imagens mais famosas do rock. E também popularizou o boato de que Paul McCartney estava morto.

O engenheiro de som Alan Parsons, que ficaria famoso por seu trabalho com o Pink Floyd e faria sucesso com sua própria banda, The Alan Parsons Project, também foi engenheiro de som de Abbey Road.

Os Beatles acabaram quase imediatamente após as gravações, mas o anúncio oficial só ocorreu em abril de 1970.

As gravações do projeto Get Back foram lançadas em maio de 1970 no álbum Let it Be, portanto, depois de Abbey Road, mas foram feitas antes. O filme Let it Be também foi lançado e ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original.

Os quatro membros dos Beatles saíram em carreiras individuais de sucesso.

A banda nunca se reuniu. John Lennon foi assassinado em 1980 e George Harrison morreu de câncer em 2001.