O Capitão América de Brubaker e Epting: sucesso de público e crítica.

Para quem quer assistir a Capitão América – O Primeiro Vingador e também conhecê-lo um pouco mais nos quadrinhos, há duas boas dicas. A editora Panini – que republica o material da Marvel Comics no Brasil – acabou de lançar sob a forma de encadernados para as livrarias os dois primeiros arcos do Capitão América escritos por Ed Brubaker e desenhados por Steve Epting. A dupla tirou o personagem do ostracismo e tornou, surpreendentemente, sua revista não só em uma das melhores da Marvel na década de 2000, mas também, em uma das mais vendidas do mercado de quadrinhos.

O encadernado da Panini com o início do trabalho da dupla.

A primeira é Capitão América – O Soldado Invernal, que traz o primeiro arco em 13 edições de sua revista mensal. A sinopse oficial é a seguinte:

Abalado pela dissolução violenta dos Vingadores, o Capitão América agora se vê diante de estranhas lembranças de seu próprio passado, da época da 2ª Guerra Mundial. Para piorar, o surpreendente assassinato do Caveira Vermelha traz à tona uma lenda da Guerra Fria. Mas quem é o Soldado Invernal? A resposta a essa pergunta mudará para sempre a vida da Sentinela da Liberdade. O roteirista vencedor do prêmio Eisner Ed Brubaker (Criminal) e o ilustrador Steve Epting (Vingadores) dão vida à mais aclamada fase do Capitão América de todos os tempos!

Em seguida, vem o segundo arco, Capitão América – Ameaça Vermelha, cuja sinopse oficial é:

O segundo volume: a trama se aprofunda.

Na trilha de seu recém-reencontrado parceiro Bucky, o Capitão América vai à Inglaterra e luta ao lado de dois ex-colegas Invasores — Spitfire e Union Jack — para impedir que o Caveira Vermelha arrase Londres com um pesadelo dos tempos da 2ª Guerra Mundial. Para isso, porém, ele terá de enfrentar inúmeras ameaças, como o novo Grande Mestre, Ossos Cruzados e Pecado, a insana filha do Caveira Vermelha! No segundo volume da fase do premiado roteirista Ed Brubaker (Criminal), novos e surpreendentes desafios aguardam a Sentinela da Liberdade!

Não é nenhuma grande mistério que o Soldado Invernal do primeiro arco é James Buchanan Barnes, o Bucky Barnes, o parceiro mirim do Capitão América nos anos 1940. Aqui se faz necessárias rápidas considerações editoriais e cronológicas.

As histórias originais de Simon e Kirby nos anos 1940.

Quando Joe Simon e Jack Kirby criaram o Capitão América em 1941, decidiram seguir a moda dos infames “parceiros mirins” – como o Robin – e dotaram o supersoldado da Marvel de Bucky Barnes, o “mascote” do exército, um adolescente mascarado que acompanhava o Capitão em suas aventuras.

As aventuras dos dois fizeram sucesso no período da II Guerra Mundial, mas as vendas decaíram após o fim do conflito e foram canceladas em 1949. O Editor-Chefe da Marvel, Stan Lee, tentou um relançamento da dupla entre 1953 e 1954, mas não deu certo e a medida foi abandonada.

No início dos anos 1960, Stan Lee e Jack Kirby estavam criando o Universo Marvel tal qual conhecemos, com a criação de diversos novos heróis, como Quarteto Fantástico, Hulk, Thor, Homem-Aranha, Homem de Ferro, os X-Men e os Vingadores, juntamente a outros artistas. E na quarta edição da revista dos Vingadores, em 1964, Lee e Kirby escreveram a história em que a superequipe encontra o Capitão América, que estava congelado desde o fim da II Guerra.

Porém, como Stan Lee detestava os “parceiros mirins” – afinal, como adolescentes sem poderes poderiam combater o crime contra adultos? – o escritor criou a história em que, em uma missão no fim da II Guerra, Capitão e Bucky tentam impedir que um avião-bomba exploda sobre Londres. A dupla conseque, mas ao custo da morte de Bucky na explosão e do Capitão ser lançado nas águas gélidas do Ártico onde seria congelado até ser revivido décadas depois.

(Para detalhes, veja o post do HQRock sobre a história do Capitão nos quadrinhos aqui: https://hqrock.wordpress.com/2011/03/22/capitao-america-faz-70-anos/).

O elenco de apoio do personagem ganhou mais importância nas mãos de Brubaker e Epting.

Quando Ed Brubaker assumiu a revista do Capitão América, em 2004, o personagem precisava de uma revivida. O ambiente pós-11 de setembro havia afetado demais o personagem e suas histórias tinham passado por uma fase muito ruim. Coube a Brubaker desfazer o engodo e dar um novo direcionamento para ele. O escritor investiu em ameaças clássicas do universo ficctício do Capitão – o Caveira Vermelha e seus asseclas, Pecado e Ossos Cruzados; a organização terrorista I.M.A; vilões dos anos 1970, como Dr. Faustus e Armin Zola – mas colocadas em um novo contexto mundial global, em uma trama extremamente complexa, envolvendo novos personagens, o fim dos Vingadores tradicionais e o surgimento dos Novos Vingadores, a rede de aliados do Capitão (como o Falcão, a SHIELD e a Viúva Negra) e o relacionamento complicado com a ex-namorada e agente da SHIELD, Sharon Carter.

Outro elemento importante nas tramas eram as consequências da Guerra Fria, tal qual os produtores da franquia cinematográfica de 007 fizeram na revisão dos anos 1990 (os anos Pierce Brosnan). Nisso, retratou o submundo do crime russo e o Soldado Invernal, um misterioso agente secreto da KGB que agiu no auge da Guerra Fria.

O vilão Ossos Cruzados.

Como ingrediente a mais, Brubaker trouxe uma abordagem totalmente nova de Bucky Barnes, revistindo-lhe de realismo. Como um jovem comum poderia acompanhar o Capitão América na II Guerra? Brubaker deu a resposta: ele não era um adolescente, mas um soldado jovem, mas que foi extremamente bem treinado. Além disso, Bucky lutava a “guerra suja” que o Capitão América como símbolo político não poderia fazer. Por isso, o Capitão usava apenas um escudo, enquanto Bucky usava metralhadoras e facas. O primeiro saía em batalha em campo aberto, o segundo lutava escondido, matando os inimigos sorrateiramente.

Essa abordagem abriu o caminho para que Barnes fosse revelado como o tal Soldado Invernal da KGB: o jovem não morreu na explosão (embora tenha perdido o braço esquerdo), foi encontrado pelos russos e sofreu uma lavagem cerebral, agindo como um mercenário. Para que sua arma secreta não envelhecesse com o tempo, os soviéticos deixavam o Soldado Invernal em animação suspensa, de modo que ele chegou aos nossos dias ainda bastante jovem.

O que acontece quando o Capitão América descobre que seu velho amigo está vivo e se tornou um assassino, mesmo contra a vontade?

Os dois encadernados da Panini trazem as primeiras respostas a essas perguntas em uma trama envolvente de Brubaker e no traço realista e eficiente de Epting, o que fez a dupla ser muito premiada.

Os dois volumes custam caro, mais de R$ 60,00 cada, mas compensam isso com acabamento de luxo e material extra.