Jim Shooter: de menino prodígio à tirano odiado?

O boato era antigo, mas agora vem confirmado pelo ex-“todo poderoso” (temido e odiado) Editor-Chefe da Marvel Comics, Jim Shooter: de fato, nos anos 1980, a Marvel chegou muito perto de publicar os heróis de sua eterna rival, a DC Comics.

Para aqueles que não conhecem a fundo o mercado dos quadrinhos, a Marvel publica heróis como Homem-Aranha, X-Men, Quarteto Fantástico, Motoqueiro Fantasma, Demolidor e a “franquia” dos Vingadores, com Capitão América, Thor, Hulk e Homem de Ferro. A DC Comics, por sua vez, é o lar de Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Flash e toda a Liga da Justiça, além de controlar outros “universos”, como os dos heróis de Watchmen, o selo Vertigo (John Constantine e Monstro do Pântano) e o selo Wildstorm (The Authority e Astro City).

Em seu blog pessoal, o ex-editor afirmou que, a DC Comics enfrentava uma grave crise financeira desde o fim dos anos 1970, algo que nem o sucesso dos filmes do Superman, na época, conseguiram remediar. A Marvel, em contrapartida, dominava 70% do mercado de quadrinhos. Por isso, a Warner Bros., que era a proprietária (e ainda é) da DC Comics desde 1969, decidiu se livrar da divisão de quadrinhos – porque não dava lucros – e se dedicar apenas ao licenciamento daqueles personagens para outras mídias, como o cinema – além do Superman, a Supergirl ganhou um longametragem e já havia planos para o Batman, além dos desenhos animados como Os Super-Amigos.

Vislumbre do que poderia ter sido: os Vingadores (Marvel) combatem o vilão Darkseid (DC). Arte de John Byrne.

Segundo Shooter, a Warner continuaria a ser a proprietária dos personagens, mas a Marvel teria o licenciamento para publicar os quadrinhos deles, inclusive, com grande liberdade criativa. O licenciamento era uma prática comum e a Marvel era a melhor nesse ramo, pois publicava os quadrinhos de Star Wars, Indiana Jones, Transformers, G.I Joe: Comandos em Ação, He-Man e muito mais. A Marvel, por sua vez, pertencia ao conglomerado Cadence Industries, que também produzia para TV e cinema, mas os executivos da empresa ficaram receosos da proposta.

Então, Shooter criou um plano editorial para absorver a “linha” de personagens da DC e prometeu um lucro de US$ 3,5 milhões em dois anos, o que era uma grande soma de dinheiro em 1984, quando aconteceu a negociata. O plano do editor envolvia o lançamento de uma linha com sete títulos – Superman, Batman, Wonder-Woman, Justice League, Green Lantern, The New Teen Titans e LEGION of Super-Heroes – e as histórias do homem de aço escritas e desenhadas por John Byrne, que na época cuidava do Quarteto Fantástico e era a maior estrela da indústria de quadrinhos da época.

Os Vingadores (Marvel) e a Liga da Justiça (DC) se uniram em uma história especial em 2003. Como seria em um mesmo universo? Arte de George Perez.

Os executivos da Cadence se animaram, mas então, uma pequena editora de quadrinhos chamada First Comics entrou com um processo contra a Marvel na Justiça dos EUA acusando-a de monopólio e movimentando as leis antitruste que existem no país. Com isso, a Cadence/Marvel pensou que adicionar os heróis da DC aumentaria ainda mais seus problemas, porque sua fatia do mercado cresceria.

Então, o negócio não foi para a frente e a DC promoveu uma reestruturação interna que resultou em mudanças editoriais (uma aproximação do “estilo Marvel”) e criaram o megaevento Crise nas Infinitas Terras para reformular sua cronologia e potencializar a chegada de novos leitores. A empreitada deu certo e a editora conseguiu não apenas se reerguer, mas criou fases de sucessos (como o próprio Superman escrito por John Byrne) e uma linha de revista de altíssimo nível, como as graphics novels de Alan Moore (Watchmen, V de Vingança) ou uma série de histórias clássicas do Batman.

Resta imaginar o que teria acontecido se as coisas fossem diferentes: teria a Marvel absorvido os heróis da DC? Superman e Batman integrariam os Vingadores?

Em seu blog, Shooter exibe um documento que prova a intenção de fusão.

Jim Shooter nasceu em Pittsburgh, na Pennsylvania, nos Estados Unidos, em 1951, e se transformou em um pequeno fenômeno dos quadrinhos quando, aos 14 anos, em 1966, começou a escrever as histórias da Legião dos Super-Heróis – um grupo de adolescentes vindos do futuro, do século XXX e que agia com o Superboy, a versão adolescente do Superman – na revista Adventure Comics e a tornou um grande sucesso. A DC Comics não sabia de sua idade, porque recebia os roteiros pelo correio, só vindo a descobrir meses depois, quando o jovem foi convidado a visitar os escritórios da editora em Nova York. O sucesso levou Shooter a também produzir material para a revista Action Comics, com aventuras do Superman, onde criou o vilão Parasita. Curiosamente, no fim dos anos 1960, Shooter se afastou dos quadrinhos porque terminou o colegial e as vendas de Adventure Comics caíram drasticamente. Aguns anos depois, ele voltou à DC e lançou a revista Suberboy and the LEGION of Super-Heroes, mas por pouco tempo, mudando-se para a concorrente Marvel.

Na Marvel, Shooter rapidamente foi promovido a editor assistente e assumiu a revista dos Vingadores, produzindo uma famosa e apreciada fase entre 1977 e 1979. Enquanto isso, a editora, apesar de fazer sucesso, tinha dificuldades em manter um direcionamento mais planejado por causa da grande rotatividade de Editores-Chefes. Stan Lee fora o Editor-Chefe da Marvel entre 1946 e 1972, mas depois dele, a cadeira não mais esquentou, tendo Roy Thomas, Len Wein, Marv Wolfman e Archie Goodwin ocupado o cargo por no máximo dois anos cada. Desse modo, Shooter assumiu a função em 1978, sendo o Editor-Chefe da Marvel até 1987.

Os Vingadores escritos por Jim Shooter são bastante apreciados pelos leitores da "velha guarda". Capa desenhada por Jack Kirby.

O período em que comandou a maior editora de quadrinhos dos EUA foi também um período de grande criatividade, com fases memoráveis, como os X-Men de Chris Claremont, o Homem-Aranha de Roger Stern, o Quarteto Fantástico de John Byrne, o Demolidor de Frank Miller etc.; bem como o período em que a editora licenciou em quadrinhos quase tudo o que fez sucesso. Por outro lado, sua gestão coincidiu com o tempo em que o (então) Publisher Stan Lee saiu de Nova York, onde ficava o escritório da Marvel, e mudou-se para Los Angeles, onde podia acompanhar mais de perto as adaptações dos personagens da editora para desenhos animados, TV, filmes e brinquedos. Muitos creditam à ausência física de Lee o fato de Shooter ter se tornado um tirano, imposto histórias, mudado tramas, modificado personagens e, com isso, colecionado uma orda de inimigos dentro da editora.

Em 1987, ele criou uma nova empreitada chamada Novo Universo, onde a Marvel lançaria uma série de novos personagens, mas o projeto foi um fracasso e serviu de desculpa para sua demissão, com o cargo repassado para Tom DeFalco. Shooter, então, criou a Valliant Comics, uma editora de prestígio que publicou material entre 1989 e 1992 e lançou vários novos artistas, como o desenhista Joe Quesada, outro futuro Editor-Chefe da Marvel. Depois de demitido da Valliant, a carreira de Shooter se tornou mais irregular, mas ele voltou à DC Comics em 2007 para escrever novamente a Legião dos Super-Heróis, embora sem tanto sucesso dessa vez.