John Lennon e seu piano branco: marca na história da música.

Parece que muitos álbuns importantes fazem aniversários “redondos” em 2011. O HQRock já comentou outros casos, como Nevermind do Nirvana ou Acthung Baby do U2, mas há vários outros, como o clássico Imagine de John Lennon, lançado originalmente em 08 de setembro de 1971.

John Lennon era o líder e fundador dos Beatles, a banda de maior sucesso da história do rock, e saiu em carreira solo antes mesmo do fim do grupo, em 1970. Imagine foi seu álbum mais bem sucedido entre o público e a crítica e rendeu vários clássicos, dentre eles, o mais famosos de todos foi a faixa-título, um hino à paz entoado até hoje em manifestações e nas rádios de sucessos.

Assim como toda a sua obra, Imagine, o disco, não pode ser entendido fora de seu contexto e, em se tratando de John Lennon, o contexto sempre era turbulento. O compositor se sentia acuado dentro dos Beatles e foi quem deu o fim à banda. Seu primeiro disco após a ruptura, Plastic Ono Band, de 1970, assustou público e crítica com o conteúdo veemente das letras e crueza do som. Mensagens diretas sobre as drogas, as religiões e apolítica, misturadas com toques dolorosos de sua autobiografia era descritas de maneira direta, com palavrões e sem “papas na língua”, embaladas por uma sonoridade de apenas guitarra, baixo e bateria, gravados da maneira mais simples possível, com som saturado e sujo, cheio de graves. Um disco punk seis anos antes da ecolsão do movimento.

A capa do álbum, de 1971.

Obviamente, tal ousadia teve um preço: Plastic Ono Band chegou “apenas” ao 10º lugar das paradas da Billboard, o que era pouco para alguém como Lennon, acostumado ao primeiros lugares frequentes dos Beatles. Para a empreitada seguinte, o compositor decidiu manter a força das letras, mas produzir um som um pouco mais elaborado e palatável.

Lennon montou um estúdio em sua casa, em Ascot, próximo a Londres, e convidou alguns amigos e conhecidos para fazer um som. Assim, vieram o ex-companheiro de Beatles George Harrison, fazer a guitarra solo; o pianista dos Rolling Stones, Nick Hopkins; o futuro baterista do Yes, Alan White; o velho amigo Klaus Voorman para o baixo; além de outras participações especiais, como os bateristas Jim Gordon (do Derek and the Dominos de Eric Clapton) e Jim Keltner; o famoso saxofonista King Curtis; e vários outros. Para a produção, foi chamado o superstar Phil Spector, o excêntrico principal produtor musical dos EUA no início dos anos 1960 e que, na época, estava dando uma “volta por cima”.

As gravações foram rápidas e o álbum lançado no fim do verão na Inglaterra e nos Estados Unidos. Imagine fez sucesso de imediato e cheogu ao primeiro lugar da Billboard, além de ter sido aclamado pela crítica. Com o passar dos anos, continuou a ser apontado como o mais importante disco solo de John Lennon.

As faixas do disco

O álbum já inicia dizendo a que veio: Imagine, a canção, é uma singela balada levada no piano tocado por Lennon. O arranjo é simples, com acompanhamento discreto de baixo e bateria (Voorman e White), mais algumas cordas, como violinos e violoncelos. A letra é famosa e traz a imaginação de um mundo sem guerras, sem fome, sem propriedades, revelando o lado político do autor por um viés doce. Veja o clipe dela abaixo:

Os ex-beatles John Lennon e George Harrison nas gravações do álbum.

A segunda faixa é Crippled Inside, um country bem rústico onde o destaque é um dobro (violão com cordas de aço) tocado por George Harrison. A letra fala que não adianta você ter “tudo de bom”, nem esconder tudo o que sente, se você está “aleijado por dentro”. Alguns interpretam a mensagem como uma crítica ao ex-parceiro de composições Paul McCartney, a quem acusava de ser “vendido”, mas na verdade, a maior crítica ao amigo viria depois.

Em seguida, vem outra das canções mais famosas de Lennon: Jealous guy, uma balada de sonoridade doce na qual a linha de frente é um elaborado piano tocado pelo fantástico Nick Hopkins. A letra é uma autocrítica em que o músico pede desculpas por ser ciumento demais. Uma curiosidade: esta canção havia sido composta por Lennon em 1968 durante o retiro dos Beatles na Índia (onde foram estudar meditação transcendental), mas sua letra original era uma mensagem ecológica chamada Child of nature; e chegou a ser ensaiada pela banda em versões acústicas (existem gravações por aí); porém foi deixada de lado até ser repaginada.

A quarta faixa é It’s so hard uma letra simples sobre a dificuldade de manter um relacionamento embalada em um blues rock envernizado pelo sax de King Curtis, que morreu pouco depois das gravações. A canção também traz o grande Jim Gordon na bateria, embora a mixagem não previlegie seu instrumento. Originalmente, o Lado A se encerrava com I don’t wanna be a soldier, mama, uma crítica veemente à Guerra do Vietnã gravada como uma jam session, com Jim Keltner na bateria. Um curiosidade: o roqueiro brasileiro Raul Seixas gravou meio que um plágio dessa canção chamada Mamãe eu não queria.

Lennon cercado por Klaus Voorman e Nick Hopkins.

O Lado B começava com uma das faixas mais fortes do álbum: Gimme some truth, uma crítica política ao governo de Richard Nixon (presidente dos Estados Unidos) e um grande rock em que o destaque é a bela guitarra solo de George Harrison. Foi por manifestações como esta que Lennon foi perseguido pelo Governo dos EUA quando se mudou para lá no ano seguinte. O Governo Nixon utilizou uma prisão por porte de drogas como pretexto para deportá-lo, mas Lennon se cercou de advogados e manteve uma batalha judicial de quatro anos até vencer nos tribunais e ganhar o green card em 1976. Nesse meio tempo, o compositor revelou em uma entrevista na TV que estava sendo seguido na rua e que seu telefone estava grampeado. Foi chamado de paranóico, mas após sua morte, em 1980, um historiador descobriu centenas de páginas de arquivos do FBI (a polícia federal americana) sobre Lennon que mostravam que ele foi mesmo vigiado pela agência até o fim de sua vida. As autoridades temiam que seu posicionamento de esquerda o levasse a causar uma rebelião na juventude norteamericana.

Segue-se uma bela balada chamada Oh! My love em que uma letra simples de amor é embalada por um arpejo de piano do próprio Lennon, a guitarra de Harrison, baixo e bateria por Klaus Voorman e Alan White, mais outro piano dedilhado por Nick Hopkins. O DVD Gimme Some Truth – The Making Off of the Imagine Album mostra a canção sendo mostrada aos músicos, um ensaio e sua gravação. Veja abaixo:

Lennon com o produtor Phil spector (esq.) gravando backing vocals.

Depois da “pausa doce”, outra canção tensa aparece: How do you sleep?, que mistura um rock pesado e arrastado com pitadas de reagge. A letra é um ataque direto a Paul McCartney, com versos como: “tudo o que você fez foi Yesterday e desde que você se foi, você ficou Another Day (…)/ o som que você faz é ‘música de elevador’ para mim/ Você deveria ter aprendido algo após todos aqueles anos/ (…) aqueles malucos tinham razão quando disseram que você tinha morrido”. Apesar do veneno, a música é ótima e tem bons solos de Harrison e Hopkins em seus respectivos instrumentos.

A penúltima faixa é How? uma canção existencialista levada no piano em que o compositor tenta se justificar seu temperamento por causa de sua infância difícil em versos como “Como posso amar/ Se amor é algo que nunca tive?”.

O álbum se encerra com a balada Oh! Yoko de letra e estrutura simples, mas com o atrativo de trazer um dueto entre Lennon e o produtor Phil Spector nos refrões, um piano animado de Hopkins e um bom trabalho de gaita, instrumento na qual Lennon sempre foi muito bom, mas apesar de usá-la bastante no início da carreira dos Beatles (ou talvez justamente por isso), depois deixou de lado e quase não mais utilizou.

Um homem de seu tempo

John Lennon nasceu em Liverpool, no norte da Inglaterra, em 1940, exatamente no momento em que a cidade era bombardeada por aviões alemães durante a II Guerra Mundial. O compositor vinha de uma família empobrecida, descendentes de irlandeses, usuários do sotaque scourse, o mais “ralé” de todos num país marcado pela hierarquia social providenciada pela Nobreza Real.

Lennon com os Beatles em Hamburgo, em 1960.

Abandonado pelo pai e pela mãe, Lennon foi criado pela tia Mimi. O pai só buscou contato com o filho quando este ficou famoso e quanto a mãe, Lennon se reaproximou dela na adolescência – foi ela quem o ensinou a tocar banjo, de onde ele migrou para o violão – mas Julia Lennon morreu atropelada por um policial bêbado. Pouco antes disso, Lennon tinha fundado uma banda de skiffle (um folk blues acústico), The Quarry Men, com colegas da escola, em 1956. No ano seguinte, Paul McCartney assistiu a um show da banda e ficou impressionado, mas como também tocava violão muito bem, foi convidado para ingressar. O “núcleo duro” do que seriam os Beatles se formou já em 1958, quando George Harrison (um colega de escola de McCartney) também entrou para os Quarry Men.

Em seguida, a banda mudou de nome várias vezes – Johnny and the Moondogs é um dos mais lembrados – e começou a se tornar conhecida nos circuitos de bailes, festas e feiras. Em 1960, já se chamando The Beatles, o grupo se consolidou como “elétrico” com a entrada do baixista Stuart Sutcliffe e do baterista Pete Best, enquanto Lennon, McCartney e Harrison tocavam guitarras. Como um quinteto, os Beatles foram convidados a tocar em Hamburgo, na Alemanha, que tinha um grande circuito de bares “inferninhos” em sua área portuária. A banda ficou lá por cinco meses e as sete horas diárias de palco serviram para turbinar o som e o repertório da banda, além de criar o primeiro círculo de fãs.

Paul McCartney e John Lennon formaram a maior dupla de compositores do século XX.

Stucliffe preferiu ficar na Alemanha, estudando arte, enquanto os Beatles se tornaram um quarteto pela primeira vez, com McCartney no baixo. As idas e vindas entre Liverpool e Hamburgo a tornaram a banda mais quente das duas cidades e o número de fãs aumentou bastante. Em fins de 1961, conseguiram um novo empresário na figura de Brian Epstein, um rico comerciante judeu dono da maior loja de discos do norte da Inglaterra. Epstein conseguiu testes com várias gravadoras, mas foram rejeitados em todas, até conseguirem uma audiência com George Martin, diretor artístico do selo Parlophone da EMI. A audição agradou e a banda foi contratada para dois compactos com uma condição: trocar de baterista. Assim, Pete Best foi substituído por Ringo Starr, que tocava em outra popular banda de Liverpool chamada Rory Storm and the Hurricanes.

O primeiro single, Love me do, lançado em 1962, fez um sucesso razoável para uma banda estreante: 17º lugar nas paradas nacionais e o lançamento seguinte, Please please me, chegou ao disputadíssmo n.º 01. Daí para a beatlemania foi um pulo: seus álbuns e compactos se cristalizaram no topo das paradas; o sucesso se espalhou por toda a Europa, Estados Unidos e o mundo e abriu espaço para toda uma geração de músicos britânicos que fizeram o rock and roll (esquecido desde o fim dos anos 1950) voltar ao centro da cultura mundial; a Invasão Britânica liderada pelos Beatles permitiu a revelação de Rolling Stones, The Who, The Yardbirds e muitas outras bandas, além de abrir espaço para bandas norteamericanas dentro dos próprios EUA, como Beach Boys, The Byrds, Simon & Garfunkel, The Mamas and the Papas, Sonny & Cher e muito mais.

A capa de “Sgt. Peppers” dos Beatles, em 1967.

A partir de 1965, os Beatles começaram a levar sua música mais a sério e amadureceram seu som, culminando no ano seguinte darem start ao movimento psicodélico que tomou conta do rock e do mundo. Em 1967, o álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band se transformou em um fenômeno cultural sem precedentes. Mas a morte de Brian Epstein e o acirramento das diferenças dentro da banda começaram a estremecê-la. O peso da fama também era muito forte e o fato dos Beatles abandonarem os concertos em 1966 só resolveu o problema em parte.

Lennon (ao centro) com os Beatles em 1969.

O chamado White Album, de 1968, mostrava os Beatles partidos, cheios de canções individuais, mas tudo piorou nos meses seguintes. A banda quase se desfez em meio às gravações do que viria a ser o álbum Let it Be, em 1969, então abandonaram aquele projeto e embarcaram em um novo, Abbey Road, o último disco gravado pelos Beatles e lançado no fim de 1969. Let it Be seria lançado postumamente em 1970.

Sem os Beatles, John Lennon deu maior vazão ao seu posicionamento político e visão crítica do mundo, o que lhe tornou um artista extremamente engajado. Isso, por um lado, serviu para lhe dar relevância artística, mas por outro, trouxe uma série de problemas, dentre as quais certa dificuldade em fazer muito sucesso e a perseguição por parte do Governo dos EUA quando foi morar lá em 1972.

No fim das contas, após anos de uma turbulenta carreira, Lennon se afastou da vida pública em 1975 após o nascimento de seu segundo filho, Sean Lennon, e virou um “dono de casa” para poder se dedicar exclusivamente à criança, algo que não fizera com seu outro filho, Julian Lennon, que havia nascido em 1963, justamente em meio à loucura da beatlemania. O isolamento durou cinco anos e Lennon voltou à tona em 1980 com o álbum Double Fantasy, feito em parceria com sua esposa Yoko Ono, e cujo compacto (Just like) Starting over estava subindo nas paradas quando o compositor foi assassinado na porta de casa, em Nova York, por um fã maluco dos Beatles, em 08 de dezembro.

Lennon gravando a canção “Imagine” na capa do compacto da faixa.

A morte de John Lennon nessas condições mudou o mercado musical, além de ser um marco simbólico do esgotamento do rock clássico produzido desde os anos 1960. Contudo, seu legado musical (inclusive na carreira solo) só fez crescer nos anos seguintes. A importância de suas gravações individuais entre 1970 e 1980 pode não ser tão importante quanto àquela que produziu à frente dos Beatles, mas garante sua relevância na história musical do rock e do século XX de modo geral.

E o álbum Imagine é um dos pontos mais altos dessa produção individual, um clássico que sobrevive muito bem ao tempo.

Ah, e uma dica para as bandas contemporâneas: todos deviam dar uma olhada nas letras de John Lennon e perceber como escreve um dos maiores compositores de todos os tempos.

Ficha técnica:

Produção:
Phil Spector, John Lennon

Músicos:
John Lennon:
vocal, guitarra, violão, gaita e piano; George Harrison: guitarra-slide e violão; Klaus Voorman: baixo; Alan White: bateria; Jim Keltner: bateria; Jim Gordon: bateria; Mike Pinder: pandeiro; Nick Hopkins: piano; Kings Curtis: saxfone; Joey Molland, Tom Evans e Rod Linton: violões; John Barham: harmonio e vibrafone;  Steve Brendell: contrabaixo acústico; Torrie Zito: arranjos para cordas; Phil Spector: backing vocals.

Faixas:
Lado 1:
01. Imagine
02. Crippled Inside
03. Jealous Guy
04. It’s So Hard
05. I Don’t Want To Be A Soldier Mama
Lado 2:
01. Give Me Some Truth
02. Oh My Love
03. How Do You Sleep?
04. How?
05. Oh Yoko!