A capa do álbum: clássico conceitual dos loucos anos 1970.

Em 06 de junho de 1972, ou seja, há 40 anos atrás, chegava às lojas britânicas uma das maiores obras do rock clássico: o álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars, do cantor e compositor David Bowie. O disco, que trouxe sucessos como Starman e Ziggy Stardust entrou para a história com suas ótimas composições, arranjos simples e criativos e a louca história contada em suas letras, além de um grande momento na carreira de um grande artista.

Ziggy Stardust, o álbum, conta a história de um jovem astro do rock homônimo que acredita ser o arauto da vida de seres alienígenas à Terra para salvá-la, pois a vida irá se encerrar no planeta nos próximos cinco anos por causa do esgotamento dos recursos naturais. Cria-se um culto em torno do rapaz, mas o aliens, chamados Infinities, chegam mesmo, porém, não podem se materializar porque vêm de um universo de antimatéria. Assim, Ziggy se suicida em pleno palco para que sua matéria seja transferida aos Infinities e estes possam se materializar.

O performático David Bowie em ação encarnando Ziggy Stardust.

Mais anos 1970 impossível!

A história é contada de modo meio ininteligível ao longo de suas 11 faixas que, além das já citadas, traz outras como Five years, Lady Stardust, Suffragetti City e Rock’n’Roll suicide, nas quais uma formação básica de violão, guitarra, baixo, bateria e piano é, por vezes, completada por alguns outros instrumentos e efeitos sonoros. A sonoridade do álbum é fabulosa, no estilo sem excessos de Bowie em sua melhor fase.

O disco gerou, ainda, uma série fabulosa de concertos, nas quais as Aranhas de Marte, a banda de Ziggy, se materializava com os ótimos músicos Mick Ronson na guitarra, Trevor Bolder no baixo e Mick Woodmansey na bateria, com o próprio Bowie tocando violão, guitarra ou piano ocasionalmente. Nos shows, o repertório do disco-conceito era complementado por outras faixas do compositor que se encaixavam na história, como John, I’m only dancing, Velvet goldmine e The Jean Gennie, lançadas antes ou depois do disco em Lados B ou álbuns.

A cada novo trabalho, uma nova faceta.

A recepção da crítica foi excelente e o disco chegou ao 5º lugar das paradas britânicas, mantendo o status de “roqueiro alternativo de sucesso” que Bowie havia conseguido cerca de um ano antes. Nos EUA, o disco não teve impacto nenhum, pois o país permanecia cego para o talento do “camaleão do rock”: Bowie só faria sucesso nos EUA em 1974.

Contudo, na Inglaterra, ninguém falava de outra coisa senão David Bowie: o artista incorporou a persona de Ziggy Stardust e andava por aí como se fosse o personagem, usando um cabelo vermelho, maquiagem feminina no rosto, roupas vermelhas de vinil e os shows eram marcados por performances teatrais muito loucas. Fazer um disco contando uma história não era novidade: a banda britânica The Who lançou o formato em 1969 com a ópera-rock Tommy, também de cunho messiânico; mas em seus shows, o conjunto de Pete Townshend não fazia performances num sentido teatral, apenas executavam as faixas do disco. David Bowie, não: ele interpretava literalmente o disco no palco!

O disco também foi muito bem produzido, trabalho que coube ao sempre competente Ken Scot, um rapaz que começou a carreira como engenheiro de som nos aclamadíssimos estúdios da EMI em Abbey Road, em Londres. Lá, trabalhou como engenheiro em gravações famosas de bandas como o Pink Floyd e nos álbuns Magical Mystery Tour e White Album dos Beatles e o fantástico Truth do The Jeff Beck Group, nos anos de 1967, 1968 e 1968 respectivamente. No fim dos anos 1960, Scot se mudou para o Trident Studios, onde trabalhou com Elton John, Harry Nilsson, a banda America e o ex-beatle George Harrison em seu aclamado All Things Must Pass, de 1970.

Bowie popularizou o uso de maquiagens que daria origem ao glam rock e foi seguido, depois, por várias correntes do rock, inclusive no heavy metal.

Já como produtor musical, Ken Scot por fim trabalhou com David Bowie entre 1971 e 1974 e com vários outros, como o Supertramp.

Comemorar e revisitar Ziggy Stardust and the Spider From Mars é lembrar de uma época em que o rock viva uma fase absolutamente genial e a ousadia era uma característica da maioria dos principais artistas da época. O que dizer de um período em que aquele disco teve que competir nas paradas com outros como Machine Head do Deep Purple ou Exile on Main Street dos Rolling Stones (leia sobre este aqui).

Além disso, o sucesso de Ziggy Stardust lançou todo um novo movimento, o glam rock, na qual as estrelas usavam maquiagem e visual andrógeno para chamar a atenção e construir uma nova estética diferenciada dos hippies dos anos 1960. Na onda, vieram artistas e bandas como Elton John, Marc Bolan and T-Rex, Slade e, é claro, a banda Queen, liderada por Freddie Mercury.

E, por fim, não podemos deixar de anotar que mais de quase 20 anos depois, a banda de rock gaúcha Nenhum de Nós fez um sucesso imenso no Brasil, em 1989, com uma versão nacional para Starman, chamada aqui de Astronauta de Mármore. O próprio Bowie aprovou a versão e deu seu aval naquele mesmo ano, quando tocou no país pela primeira vez e fez menção à versão durante seu concerto.

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Capa de Aladdin Sane, outro clássico, de 1973.

Nascido David Robert Jones, em 1947, em Brixton, em Londres, Inglaterra, o rapaz se envolveu com rock e dança desde cedo. Foi dançarino na escola, elogiado por seus movimentos, mas terminou voltando seus esforços para o rock na adolescência. Começou em uma banda de skiffle – um tipo de fusão entre o blues rural dos EUA e a música folk britânica – com instrumentos improvisados, mas depois que ingressou numa escola de belas artes, terminou aprendendo a tocar saxofone, ingressando em suas primeiras bandas, todas mal sucedidas comercialmente.

Ainda assim, assinando como David Jones, participou da forte cena de R&B (rhythm and blues) de Londres na primeira metade dos anos 1960, mesmo movimento que geraria astros imediatos, como Rolling Stones, Eric Clapton e The Animals; e outros mais tardios, como o próprio Bowie, Elton John e o Led Zeppelin, que só ficariam famosos no fim da década.

Bowie desistiu de usar seu verdadeiro nome porque virou um homônimo de Davey Jones, o vocalista da banda norteamericana The Monkees, adotando o nome do desbravador norteamericano Jim Bowie, que popularizou um tipo especial de faca. O primeiro sucesso, em carreira solo, veio com o single Space Oddity, de 1969, pegando carona no frisson do filme 2001 – A Space Odissey, de Stanley Kubrick. A mítica canção fala de um astronauta cuja nave se perde no espaço e é um dos contos mais fantásticos de toda a história do rock.

Bowie nos dias de hoje: atividades reduzidas.

Embora os dois primeiros álbuns, David Bowie (1969) e The Man Who Sold the World (1970) não tenham emplacado; o sucesso veio em seguida com Hunky Dory, de 1971, que chegou ao 3º lugar das paradas britânicas e rendeu hits como Changes, Oh! You pretty things e a belíssima Life on Mars?. Sua popularidade só aumentou com The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars, no ano seguinte, seguindo com Aladdin Sane em 1973, que chegou ao 1º lugar das paradas.

David Bowie prosseguiu como uma das maiores estrelas do rock dos anos 1970 assumindo uma persona camaleônica, em que conviviam várias identidades diferentes, de estilos (visuais e musicais) distintos que se alternavam de tempos em tempos, mas mantendo sua integridade artística e seriedade. O músico diminuiu sua atuação nos últimos anos – e correm rumores de que já estaria aposentado dos palcos (sua última turnê foi em 2007), mas sempre será um dos maiores compositores do rock clássico e representante-mor dos anos 1970.