A capa de Please Please Me: 50 anos de Beatles.
A capa de Please Please Me: 50 anos de Beatles.

50 anos atrás, o rock ganhava um marco definitivo. Em 22 de março de 1963, a banda britânica The Beatles lançava seu primeiro álbum, Please Please Me.

Em primeiro lugar, porque isso é importante? Primeiramente, é o primeiro álbum da banda, um marco. Em segundo lugar, os Beatles dão o ponta pé ao rock clássico e ajudam a definir o que chamamos hoje de rock. Isso porque, apesar do rock ter surgido nos Estados Unidos e se desenhado nos anos 1950, o rock só foi ter sua “cara” de verdade na Grã-Bretanha dos anos 1960, com o fenômeno cultural conhecido como Invasão Britânica, quando as bandas da Inglaterra “invadiram” os EUA e fizeram sucesso no mundo todo.

Os Beatles foram a primeira banda relevante a gravar e lançar suas músicas no mercado, sendo, portanto, os pioneiros de sua geração. E sua geração definiu o que é rock.

Foi o sucesso dos Beatles que abriu as portas para outras bandas seminais dos anos 1960, como The Rolling Stones e The Who, consolidando a geração daquela década, que traria ainda Cream, Pink Floyd, Led Zeppelin, Black Sabbath etc.

Please Please Me, por isso, é antes de tudo, um marco histórico. E além, é uma obra interessante, realizada em um contexto mais interessante ainda. Vale uma conferida.

Abrindo o caminho aos ponta-pés

Os Beatles no início: criando uma linguagem.
Os Beatles no início: criando uma linguagem.

Os Beatles tem uma longa pré-história antes do sucesso alçado com Please Please Me. Depois disso, ficou bem mais fácil para qualquer jovem pegar uma guitarra, cantar suas músicas, formar uma banda e ser contratado por uma gravadora. Mas o Beatles tiveram que abrir caminho aos ponta-pés…

Não havia uma “cena de rock” consolidada na Grã-Bretanha. E para dizer a verdade, sequer uma “cena pop” jovem de verdade. A programação de rádio e TV era controlada pela estatal BBC, que não via o rock com bons olhos e o excluía de sua programação.

Assim, antes da fama, os Beatles eram representantes de uma cultura extremamente subversiva, mal vista pelos establishment. Mas usando seu talento e carisma, o grupo conseguiu chegar lá. E abriu espaço para todos os outros.

O Caminho do Sucesso

Os Beatles em 1959, com Tony Moore na bateria.
Os Beatles em 1959, com Tony Moore na bateria.

O embrião dos Beatles germinou em 1956, na cidade de Liverpool, no norte da Inglaterra. O rock and roll norteamericano explodia no mundo inteiro com Chuck Berry, Little Richard, Elvis Presley e Bill Halley e os adolescentes britânicos queriam entrar na onda. Mas o contexto britânico do pós-guerra era totalmente diferente do dos EUA. A Inglaterra estava destruída e empobrecida.

Jovens como John Lennon amavam o rock, mas não podiam comprar uma guitarra elétrica importada. Assim, a juventude aderiu ao Skiffle, que era um tipo de música britânica que misturava o blues rural dos EUA com a tradicional música acústica anglo-saxônica. E àquela juventude perverteu tudo, porque acrescentou o rock à mistura, dando ao rock britânico uma sonoridade distinta do rock norteamericano.

Harrison, o baixista Stuart Sutcliffe e John Lennon em Hamburgo, em 1960.
Harrison, o baixista Stuart Sutcliffe e John Lennon em Hamburgo, em 1960.

John Lennon fundou, em 1956, uma banda de skiffle chamada The Quarrymen, juntamente a colegas da escola. Eles tocavam em festas escolares, quermesses locais, bailes e clubes, com instrumentos acústicos e improvisados. Em 1957, Lennon conheceu Paul McCartney, dois anos mais novo, mas um guitarrista talentoso, e o convidou a ingressar na banda. Em pouquíssimo tempo, a dupla criou uma grande afinidade musical e passou a compor suas próprias canções.

Em 1958, foi a vez de George Harrison, um colega da escola de McCartney, ser convidado para entrar na banda, porque ainda tocava melhor do que os outros dois. Com uma linha de frente de três guitarras (Lennon, McCartney e Harrison) mais baixo, bateria e piano, os Quarrymen ficavam cada vez mais populares. Contudo, o fim da escola desmotivou vários membros – que precisavam arranjar empregos – e restou apenas o trio principal, que continuou tocando com outros nomes, como Johnny and the Moondogs.

Os Beatles como quinteto em Hamburgo, ainda antes da entrada do baterista Ringo Starr.
Os Beatles como quinteto em Hamburgo, ainda antes da entrada do baterista Ringo Starr.

Em 1959, a banda começa a se profissionalizar, aderindo definitivamente aos instrumentos elétricos. Após um período errante, conseguem outros dois membros fixos nas figuras do baixista Stuart Sutcliffe e do baterista Pete Best. Para celebrar o novo momento, John Lennon cria um novo nome para a banda: The Beatles! Mistura de Beetles (besouros) com Beat (batida, ritmo).

Em 1960, a banda vai para Hamburgo na Alemanha, onde ficam três meses se apresentando em bares e boates de strip-tease. Tocando sete horas por noite, a banda se aprumou e se profissionalizou. De volta à Liverpool, eram outra banda: eram selvagens no palco, usavam roupas de couro, estavam mais confiantes. Foram um sucesso. Logo, logo, The Cavern Club se tornaria a principal casa de shows de Liverpool e “a casa” da banda.

A formação definitiva, com Ringo Starr.
A formação definitiva, com Ringo Starr (esq.).

De volta à Hamburgo em 1961, os Beatles perderam o baixista Stuart Sutcliffe, que saiu para se dedicar às artes plásticas (e morreria um ano depois), com Paul McCartney se tornando o baixista e a banda virando um quarteto. Também na Alemanha, gravaram seu primeiro compacto, servindo de acompanhantes para o cantor e guitarrista Tony Sheridan. O single My Bonnie foi lançado e fez sucesso, chegando ao 5º lugar das paradas germânicas. No fim daquele ano, também conseguiram um empresário, Brian Epstein, que conseguiu uma audição na gravadora Decca, uma das maiores da Inglaterra, mas foram dispensados porque a gravadora não via futuro em bandas de rock.

Em 1962, conseguiram um teste com o selo Parlophone, da gigante EMI. O produtor George Martin os ouviu e gostou, contratando-os sob a condição de trocarem de baterista. Pete Best, que tinha problemas de relacionamento com os outros membros, foi demitido e substituído pelo baterista mais famoso de Liverpool: Ringo Starr, da banda Rory Storm and the Hurricanes. O compacto Love me do, de autoria de Lennon e McCartney foi lançado em outubro e chegou ao 17º lugar das paradas.

Gravando Please Please Me, o single

Os Beatles ainda em Liverpool, em 1963.
Os Beatles ainda em Liverpool, em 1963.

Quando os Beatles chegaram ao estúdio Abbey Road da EMI, em Londres, em julho de 1962, o produtor George Martin já tinha ouvido a gravação-teste da Decca, registrada pouco tempo antes. Via potencial na banda, mas acha uma polida necessária. Começou pelo baterista, tirando Pete Best.

repertório dos Beatles mistura composições próprias (de Lennon & McCartney) e covers de outros artistas. Não era comum artistas gravarem suas próprias canções na época, por isso, é um feito em si só os Beatles terem conseguido por Love me do como seu primeiro single.

Com o sucesso do compacto, os Beatles logo voltaram à EMI para gravar um segundo compacto. Mas George Martin achava que o grupo não tinha nada melhor do que Love me do, então, quis impor uma canção de um outro artista, chamada How do you do it. A banda a achou tola e protestou. O produtor foi pragmático e disse: “se tiverem algo melhor, eu gravo”.

Capa do single Please please me, de 1963.
Capa do single Please please me, de 1963.

Por isso, John Lennon se empenhou em criar algo. Inspirado por Only the lonely, de Roy Orbison (cantor que mais tarde faria sucesso com Oh, pretty woman), criou uma balada de R&B chamada Please please me. Mostrou-a a George Martin, que gostou, apenas sugerindo: acelere mais. Na sessão seguinte, em 26 de novembro de 1962, Lennon e os Beatles trouxeram a canção rearranjada: rápida, com vocais frenéticos, frases velozes de guitarra e uma gaita matadora. A banda a gravou e ao fim da sessão, Martin lhes disse: “rapazes, vocês acabam de gravar o seu primeiro número um das paradas”.

O produtor estava certo. Lançada como compacto em janeiro de 1963, Please please me foi um grande sucesso e chegou ao primeiro lugar das paradas da Grã-Bretanha.

Com dois compactos nas paradas, era chegado o momento de gravar um álbum completo.

Preparativos para o álbum

Os Beatles ao vivo no Cavern Club, em 1962.
Os Beatles ao vivo no Cavern Club, em 1962.

Atendendo a uma sugestão do empresário Brian Epstein, George Martin foi a Liverpool assistir uma apresentação dos Beatles no Cavern Club. Assim como o primeiro, Martin ficou impressionado com a energia do lugar e a frenética apresentação da banda. A primeira ideia, então, era gravar o primeiro álbum dos Beatles ao vivo no Cavern Club.

Apesar de ser uma ideia maravilhosa, infelizmente, se tornou impraticável. O Cavern era – e ainda é – um porão profundo, pequeno, apertado entre três corredores estreitos com arcos e paredes de pedra e teto baixo. Por isso, não é adequado às gravações. Após alguns testes, não foi possível extrair um som de qualidade do lugar, então, tiveram que gravar o álbum no estúdio mesmo.

Contudo, a ideia ainda era captar a grande energia dos Beatles ao vivo. Por isso, decidiram gravar o álbum em uma grande sessão “ao vivo” no estúdio, simplesmente tocando as faixas uma atrás da outra.

Gravando o álbum

Os Beatles gravando no Abbey Road, no início de 1963.
Os Beatles gravando no Abbey Road, no início de 1963.

À exceção das quatro faixas gravadas nos dois compactos anteriores – Love me do/ P.S. I love you e Please please me/ Ask me why – todas as demais canções do álbum Please Please Me foram gravadas em um único dia, em 11 de fevereiro. Foram três longas sessões no Estúdio 2 de Abbey Road: de 10 às 13h; uma pausa para o almoço, volta de 14h30 às 18h; pausa para o jantar, e 19h30 às 22h30. Tirando os intervalos, foram menos de 10 horas corridas de gravação.

Os Beatles chegaram mais cedo ao estúdio e fizeram uma hora de ensaio antes de começar a gravar. A banda não estava em sua melhor forma física: haviam acabado de terminar uma turnê pelo interior da Inglaterra, acompanhando outros artistas, como a cantora Helen Shapiro, sucesso na época. Aquele era o maior inverno que o país conhecia desde sempre e os músicos estavam meio resfriados, com John Lennon gripado e com dor de garganta. Ele era o principal cantor do grupo, portanto, sua voz era a mais exigida. Lennon passaria o dia inteiro chupando pastilhas para a garganta, de modo que pudesse cantar.

As gravações começaram às 10h da manhã, com o produtor George Martin e o engenheiro de som Norman Smith, dupla que trabalharia com a banda pelos próximos três anos. Na sessão da manhã foram gravadas apenas duas canções. Começaram com There’s a place, canção reflexiva de Lennon, na qual canta e faz a gaita. Na verdade, a gaita foi deixada para depois e a banda executou os instrumentos tradicionais (duas guitarras, baixo e bateria), com a voz de Lennon e os backings de McCartney.

Lennon e McCartney se distinguiam por produzir o próprio material.
Lennon e McCartney se distinguiam por produzir o próprio material.

A segunda faixa foi a explosiva I saw her standing there, cantada por McCartney com Lennon no backing.

Na hora do almoço, o grupo decidiu não sair e permaneceu ensaiando enquanto os funcionários do estúdio foram lanchar em um pub da vizinhança.

Às 14h30, as gravações reiniciaram e a banda precisava correr, pois só duas faixas havia sido tentadas. A primeira foi uma valsa tipicamente britânica chamada A taste of honey, cantada por McCartney. Foi a única canção do dia que ganhou um overdub (sobreposição) de vocais, na qual McCartney cantou duas vezes e as vozes foram fundidas para ficar um resultado mais forte. Depois, voltaram a mais um número original, Do you want to know a secret?, de Lennon & McCartney, mas cantada por George Harrison.

Em seguida, veio uma parada para sobreposições. Além da citada A taste of honey, a banda gravou um acompanhamento de palmas para I saw her standing there e a gaita de There’s a place.

As canções propriamente ditas foram retomadas – já no fim da tarde – com Misery, outra balada de Lennon e McCartney, cantada em dueto. Houve uma pausa para o jantar e, agora, a banda parou para descansar um pouco.

Capa do compacto de Please please me na Itália.
Capa do compacto de Please please me na Itália.

A sessão noturna começou 19h30 com o R&B Hold me tight. Apesar das 13 tentativas, apenas duas ficaram completas. A banda ainda pensou em unir os takes 7 e 9 para formar uma só faixa, mas terminaram desistindo dela e passando adiante. Esta canção não entraria no disco, sendo regravada para o segundo álbum do grupo mais tarde.

A etapa final das sessões correu rápido, com gravações dos covers que o grupo escolheu para compor o disco. Como tocavam essas canções constantemente nos palcos, todas foram gravadas bem rápido: Anna (go to him) em apenas 3 takes; Boys, com vocais do baterista Ringo Starr em um único take; Chains em 4 takes; e Baby it’s you em 3 takes.

Nesta última, a voz de John Lennon já está bem falha, perceptível na versão final em sua rouquidão. Quando a terminaram, já eram 22h e estava próximo do encerramento das atividades do estúdio. Tinham meia hora para finalizar e faltava uma canção.

O grupo fez uma pequena pausa e foi com Martin e Smith à cantina do estúdio para discutir que canção seria esta e como fazê-la. Tinham dúvidas em qual escolher. A preferida da banda era Twist and shout, que havia sido gravada pelos Isley Brothers, mas na interpretação dos Beatles virara uma explosão de energia. Porém, era Lennon quem fazia os vocais principais e sua voz já estava comprometida.

John Lennon toca gaita em várias das faixas.
John Lennon toca gaita em várias das faixas.

O cantor, contudo, achou que deviam arriscar. Tomou mais pastilhas e bebeu leite para acalmar a garganta e toda a banda se concentrou para fazer o registro mais certeiro possível da canção que animava o final de seus shows. Cansados, mas concentrados, a banda fez a contagem e registrou uma única tentativa de Twist and shout. E é ela que se ouve no disco e nos aparelhos de som até hoje!

Com a voz rouca, Lennon apenas grita a letra a plenos pulmões de uma maneira incrível; McCartney e Harrison dão tudo de si nos poderosos backing vocals e Starr faz uma bateria forte e matadora. É uma gravação explosiva, cheia de energia e urgência, um dos melhores registros da história do rock e uma das interpretações mais famosas dos Beatles. E foi tudo feito ali, às 22h30 da noite, após um dia inteiro de gravações e em uma única tentativa. Preste atenção que ao final da canção ainda é possível ouvir Lennon tossindo longe do microfone.

Na verdade, a banda ainda arriscou um segundo take de Twist and shout, mas a voz de Lennon já havia sumido. Então, o take 1 foi usado mesmo.

No final das contas, foram 10 canções finalizadas em menos de 10 horas. Uma maratona.

O lançamento do álbum

Contracapa do álbum.
Contracapa do álbum.

O álbum Please Please Me reuniu aquelas 10 faixas às quatro canções já lançadas nos dois compactos anteriores, fechando, como era padrão na época, 14 músicas nos dois lados do LP.

A capa foi fotografada por Angus McBean, um distinto fotógrafo que trabalhava para a família real. Na impossibilidade da fazer as fotos no Zoológico de Londres – porque a administração colocou muitos empecilhos – o grupo foi registrado no próprio prédio de escritórios da EMI, na Manchester Square, em Londres. As mais famosas fotos foram tiradas na escadaria frontal do edifício e na galeria das varandas internas, estas as quais escolhidas para a capa.

A coletânea 62-66: sucesso até hoje.
A coletânea 62-66: sucesso até hoje.

Hoje a capa é considerada expressiva, a primeira dentre as várias capas fortes da banda. A imagem também ilustrou a coletânea The Beatles 1962-1966, lançada em 1973 com muito sucesso.

Please Please Me chegou às lojas britânicas no dia 22 de março de 1963 e, antecipada pelo compacto de mesmo título, teve um caminho rápido ao topo das paradas britânicas. Foi galgando posições até atingir o número 01 no início de maio. E logo de cara foi batendo recordes: ficou 30 semanas no primeiro lugar das paradas britânica! E só perdeu a posição em agosto daquele ano, justamente para o segundo álbum da banda, With the Beatles. Por causa disso, o ano de 1963 só teve três álbuns no topo das paradas e dois deles foram dos Beatles.

Chegando aos EUA

A versão americana de Please Please Me.
A versão americana de Please Please Me.

Os Estados Unidos não estavam nem aí para o rock britânico. Por isso, a subsidiária da EMI no país, a Capitol Records, sequer cogitou lançá-los por lá. Assim, o produtor George Martin e o empresário Brian Epstein assinaram um contrato com a pequena gravadora Vee-Jay. Ainda assim, Please Please Me teve o título trocado para o genérico e sem graça Introducing… The Beatles, saindo quase um ano depois, em janeiro de 1964.

Além disso, o mercado fonográfico norteamericano era mais ávido do que o inglês. Assim, em vez das 14 faixas, Introducing só tinha 12. A Vee-Jay teve a “brilhante ideia” de deixar de fora justamente o compacto Please please me e Ask me why. Por algum motivo obscuro, um mês depois, em fevereiro, a gravadora lançou outra versão do mesmo disco, só que com aquelas duas faixas no lugar de Love me do e PS I love you. Então, existiam duas versões do disco no mercado.

O álbum Please Please Me tal qual foi concebido para o Reino Unido só foi lançado nos EUA em 1975, quando a EMI universalizou o catálogo dos Beatles no mundo todo, acabando com as versões regionais que eram comuns até então. Seu lançamento em CD se deu em 1987.

Brasil

A versão brasileira (e mutilada) de Please Please Me.
A versão brasileira (e mutilada) de Please Please Me.

Please Please Me, em sua forma original, não foi lançado no Brasil nos anos 1960. Como de costume, a banda só aportou no país após o sucesso nos EUA. Desse modo, o primeiro álbum dos Beatles lançado no Brasil foi chamado Beatlemania, trazendo em sua maior parte o conteúdo do With The Beatles, o segundo disco britânico. Algumas das faixas de Please Please Me foram lançadas em um álbum chamado Beatles Again, já em 1964.

O Brasil só conheceu o Please Please Me original em 1975, quando o catálogo da banda foi universalizado.

O show deve continuar

Quando Please Please Me chegou às lojas britânicas, em março de 1963, na verdade, os Beatles já estavam trabalhando em outros materiais. O terceiro compacto, From me to you e Thank you girl, já havia até sido gravado!

A banda prosseguiu com o seu sucesso cada vez mais crescente. Primeiro no Reino Unido, depois no resto da Europa e, por fim, atingiram os Estados Unidos em fevereiro de 1964, quando a canção I want to hold your hand chegou ao primeiro lugar das paradas daquele país. Aos EUA coube espalhar o sucesso da banda pelo mundo. Era o início da beatlemania

Legado

McCartney e Lennon mudaram o panorama da música mundial.
McCartney e Lennon mudaram o panorama da música mundial.

A importância do disco está em seu marco histórico, mas também em sua qualidade. Muito embora, o disco seguinte, With The Beatles, seja melhor, o álbum Please Please Me é cheio de grandes qualidades. Primeiramente, a banda é enérgica e seu som é muito bem preenchido dentro do escopo sonoro, um diferencial da banda desde sempre. Por isso, não soa tão datado, mesmo 50 anos depois.

Além da qualidade das canções, chama a atenção o fato de metade do disco ser composto por composições de John Lennon e Paul McCartney, que era um feito inédito para a época. Naquele tempo, havia uma divisão entre compositores profissionais e músicos e cantores profissionais. Nenhum cantor de sucesso cantava suas próprias composições.

Visto à distância, o álbum chega a ser “engolido” pelo fenômeno cultural que desencadeou – o sucesso esmagador dos Beatles, a Invasão Britânica, o surgimento do rock tal qual o conhecemos – mas uma audição mostra a força de algumas canções, especialmente a faixa-título, I saw her standing there, There’s a place e Twist and shout.

O álbum faixa a faixa

Os Beatles ao vivo na TV americana.
Os Beatles ao vivo na TV americana.

I SAW HER STANDING THERE

(Lennon-McCartney)

O disco abre com um rockão. Após a contagem, explodem as guitarras de Lennon e Harrison, junto ao baixo pulsante de McCartney e à bateria marcada de Starr. Na instrumentalização, o baixo é o destaque, com um movimento melódico incomum para a época. Esta canção havia sido composta há pouco tempo, principalmente por McCartney, e era um dos momentos fortes da banda no palco do The Cavern Club. Curiosamente, apesar de não ser uma das canções mais famosas dos Beatles, ela parece que deixou uma marca na banda e nos fãs. Tanto que sempre aparece em momentos especiais da história. Quando John Lennon se apresentou ao lado de Elton John em um concerto no Madison Square Garden, em 1974, I saw her standing there foi uma das faixas que tocaram. Quando os Beatles foram premiados no Hall da Fama do Rock, em 1989, uma constelação de estrelas executou essa canção ao vivo: Mick Jagger, Bruce Springteen, Billy Paul nos vocais; George Harrison e Jeff Beck nas guitarras; Elton John no piano; Ringo Starr na bateria e muitos outros. Por fim, quando Paul McCartney fez uma apresentação especial no Cavern Club, em 2000, também tocou essa canção, ao lado do guitarrista David Gilmour (do Pink Floyd) e do baterista Ian Paice (do Deep Purple).

MISERY

(Lennon-McCartney)

Balada menor da dupla de compositores, é uma canção simpática, mas sem grandes atrativos. Foi composta para ser entregue à cantora Helen Shapiro, que nunca a gravou.

ANNA (GO TO HIM)

(Arthur Alexander)

Canção do obscuro cantor de R&B Arthur Alexander é um número forte, beneficiado pela interpretação apaixonada de John Lennon aos vocais. O ritmo cadenciado do violão (de Lennon) e da guitarra (de Harrison) também é uma marca dessa interpretação.

Os Beatles ao vivo em Washington-DC.
Os Beatles ao vivo em Washington-DC.

CHAINS

(Gerry Goffin-Carole King)

Outra canção menor do repertório da banda, pertencente à dupla de compositores profissionais Goffin e King, que teriam muitos hits no início dos anos 1960 e serviam de inspiração para Lennon e McCartney. É cantada a três vozes (Lennon, McCartney e Harrison), com o último tendo um pequeno interlúdio solo. Não é grande coisa. Curiosamente, no anos 1970, Carole King assumiria uma identidade folk e se tornaria uma das cantoras de maior sucesso do mundo.

BOYS

(Luther Dixon-Wes Farrell)

A estreia do baterista Ringo Starr nos vocais principais era uma grande brincadeira, ainda permitida nos anos 1960, já que a letra tem conteúdo feminino. Foi gravada originalmente pelas Shirelles, um dos grupos vocais femininos de maior sucesso da época. Acostumados a tocá-la ao vivo, os Beatles a gravaram em uma única tentativa. Lennon, McCartney e Harrison fornecem backing vocals.

ASK ME WHY

(Lennon-McCartney)

Lançada originalmente no Lado B do compacto Please Please me, é a primeira das quatro canções não-inéditas do álbum. É uma balada típica do início dos anos 1960, bem no estilo consagrado no Brasil pela Jovem Guarda.

Os Beatles tocam Please please me ao vivo no The Ed Sullivan Show, em 1964.
Os Beatles tocam Please please me ao vivo no The Ed Sullivan Show, em 1964.

PLEASE PLEASE ME

(Lennon-McCartney)

O Lado A do LP se encerrava com a faixa-título. É uma canção explosiva, com muita energia vocal e instrumental. É uma interpretação pungente dos Beatles e um clássico de sua primeira fase. A gaita tocada por John Lennon dá uma característica especial à canção, enquanto ele provém, também, vocais muito fortes e seguros. McCartney e Harrison fornecem os backings vocais e este último também acrescenta um curto interlúdio de guitarra muito interessante. O que o público atual deixa passar é o conteúdo picante da letra: de maneira disfarçada, Lennon fala sobre sexo oral. O texto diz: “Na noite passada/ Eu disse essas palavras para a minha garota/ Eu vejo que você nem tenta, garota/ Então, vamos, vamos, vamos…/ Por favor, me agrade, como eu te agrado”. Na tradução, perde-se o duplo sentido da palavra “please”, que quer dizer “por favor” e o verbo “agradar” ao mesmo tempo. O duplo “please” passa uma mensagem de urgência e prazer. E se a dúvida do significado ainda persistir, que tal o “come on, come on, come on” em crescendo até um clímax? Como um orgasmo?

LOVE ME DO

(Lennon-McCartney)

O Lado B do LP iniciava com o primeiro single da banda. Entretanto, esta não é a mesma versão lançada no compacto, mas outra gravada posteriormente. Esta versão é mais encorpada e bem tocada. A versão original de Love me do pode ser ouvida na coletânea de singles Past Masters.

PS I LOVE YOU

(Lennon-McCartney)

Seguindo a sequência cronológica, em seguida vem o Lado B do compacto Love me do. É uma canção tocada quase como um bolero, com letra estruturada como se fosse uma carta. A voz principal é de McCartney.

BABY IT’S YOU

(Burt Bacharach/ Barney Williams/Mack David)

Composta pelo célebre Burt Bacharach e também gravada pelas Shirelles, essa canção ganha uma versão definitiva com os Beatles. Apesar dos “sha-la-las” soarem estranhos aos ouvidos de hoje, é uma boa canção. A voz de John Lennon está rouca, porque já foi no fim da sessão de gravação, mas isso dá um charme ao registro.

Paul McCartney e John Lennon em dueto.
Paul McCartney e John Lennon em dueto.

DO YOU WANT TO KNOW A SECRET?

(Lennon-McCartney)

Estreia de George Harrison como cantor solo, é uma composição principalmente de John Lennon, inspirado em uma canção da trilha sonora de Branca de Neve e os Sete Anões. De estrutura simples, poderia ter sido um grande sucesso se a banda se dedicasse a promovê-la. Tanto que foi lançada pelo grupo Billy J. Kramer and the Dakotas e chegou ao primeiro lugar das paradas da Inglaterra. Pouco mais tarde, o grupo The Hollies também faria sucesso cantando a canção.

A TASTE OF HONEY

(Bobby Scott/ Ric Marlow)

Canção composta para uma peça de teatro homônima, é uma valsa tipicamente britânica e ganhou várias versões ao longo dos anos. Paul McCartney gostava de cantar números advindos do teatro britânico, como faria depois com Till there are you. A bateria tem tons jazzisticos, feita com vassourinhas e o baixo é bem marcado.

THERE’S A PLACE

(Lennon-McCartney)

Último original da dupla de compositores do disco, é uma boa faixa, esquecida dentro do enorme repertório dos Beatles. A letra reflexiva traz os primeiros elementos existencialistas de John Lennon, que iria refiná-los um pouco mais tarde. A execução da banda é muito forte, com backings vocais, baixo melódico, bateria pesada e uma gaita discreta. Por ter sido a primeira a ser gravada na maratona das sessões, é a que traz o vocal de Lennon com mais frescor, dentre as 10 inéditas.

Compacto com Twist and shout: marco do rock.
Compacto com Twist and shout: marco do rock.

TWIST AND SHOUT

(Phil Medley/ Bert Russell) 

Canção de R&B gravada pelos Topnotes em 1961 e pelos Isley Brothers, em 1962, ganhou sua versão definitiva com os Beatles, que começaram a tocá-la nos clubes de Hamburgo na Alemanha e faziam dela o encerramento de seus shows no The Cavern Club de Liverpool. Gravada em uma única tentativa, com a voz de John Lennon indo embora por causa da rouquidão, virou um clássico absoluto dos anos 1960. Foi um grande sucesso nas rádios europeias ao longo de 1963 e permaneceu sendo uma das canções favoritas dos shows da banda nas turnês mundiais de 1964 e 1965. No Canadá, a faixa batizou o segundo álbum da banda, lançada pela gravadora Capitol canadense. Nos EUA, Twist and shout foi lançada em compacto em 1964 e chegou ao segundo lugar das paradas, atrás de outro disco da banda, Can’t buy me love. Desde o início, a canção foi um marco no cancioneiro internacional, mas ganhou uma segunda onda de sucesso após sua inclusão no filme Curtindo a Vida a Doidado, de 1986, que fez um grande sucesso e associou definitivamente a canção ao desbunde.

***

Os Beatles surgiram em 1962, advindos da cidade britânica de Liverpool, e alçaram sucesso imediato na Inglaterra, que rapidamente se espalhou para a Europa, para os Estados Unidos e daí para o resto do mundo. Formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, foram a banda pioneira do movimento da Invasão Britânica que fundou o rock clássico e criou as bases modernas do gênero. Lançaram 13 álbuns e são recordistas até hoje em canções de sucesso. Encerraram as atividades em 1970, quando cada um dos membros saiu em carreira individual, todos com sucesso em níveis variados.