No dia 08 de maio de 1970, há 50 anos atrás, os Beatles lançavam seu último álbum: Let it Be, que também foi acompanhado por um filme de mesmo título mostrando as suas gravações. O disco tem uma das mais longevas e complicadas histórias da carreira do quarteto de Liverpool e dizer que o grupo o lançou é um eufonismo: quando o LP chegou às lojas a banda não existia mais, sendo seu primeiro lançamento póstumo.

Let it Be foi o último álbum original lançado pela banda, mas não foi o último gravado. O conjunto se reuniu pela última vez para o álbum Abbey Road, lançado em 26 de setembro de 1969, porém, Let it Be já tinha sido gravado, mas só chegou às lojas mais de um ano depois de ter sido gravado.

Let it Be foi gravado em janeiro de 1969, mas uma série de problemas fizeram com que esse material só fosse lançado em maio de 1970 e já depois do anúncio oficial da separação dos Beatles, que ocorreu em 10 de abril de 1970.

O HQRock tem um post especial sobre o fim dos Beatles, confira, clicando aqui!

Criado como uma tentativa de fazer uma “volta aos palcos” dos Beatles, após dois anos sem realizar concertos, as sessões – inicialmente chamadas de Get Back e só bem mais tarde rebatizadas de Let it Be – terminaram por ser desastrosas, com um clima ruim, a banda brigando, faltando foco e crescendo animosidade dentro do grupo. O saldo positivo foi o The Rooftop Concert, um show improvisado da banda no telhado de sua gravadora, a Apple, em Londres.

Mas o gosto ruim do projeto foi tão grande que demoraria mais de um ano inteiro para que chegasse às lojas e até seu lançamento foi motivo de briga entre os Beatles e sua finalização foi a gota d’água que motivou Paul McCartney a declarar o fim da banda em abril 1970. Let it Be ficou lembrado, assim, como o momento da fratura dos Beatles. E o filme homônimo lançado só reforça essa impressão.

O “gosto ruim” do projeto foi tão grande que a banda entregou ao engenheiro Glyn Johns autonomia total para escolher os takes e montar o álbum já mixado. Ainda assim, Johns entregou quatro versões que foram negadas pela banda, que não gostava do resultado. Então, passaram a produção para o badalado produtor norteamericano Phil Spector – uma das grandes estrelas dos anos 1960 e que revolucionou a produção musical – a missão que criar a versão final do álbum Let it Be, que foi a que chegou às lojas. McCartney não gostou, mas foi voto vencido, dando o passo final à sua saída do grupo e seu fim.

É esta complicada e triste história que narraremos em absolutos detalhes neste post.

Por isso, pegue uma guitarra Epiphone e outra Fender Telecaster, ligue num amplificador Fender Twins, se cerque de canções legais em um ambiente ruim, mal iluminado e frio e vamos agora conhecer a longa e sinuosa estrada que levou à gravação e à demora no lançamento de Let it be.

Um Depois do Próximo: A jornada até ali

Primeiro, claro, é preciso contextualizar. Let it Be chegou num momento muito delicado dos Beatles, em que a banda já via sérios problemas em se manter unida, desgastada pelos anos de convivência, o sucesso arrebatador e os problemas nos negócios.

Vamos lá!

Os Beatles ao vivo em 1964: disco relançado.

Após ter sido a banda de maior sucesso no mundo após estourarem nos Estados Unidos, em 1964, menos de dois anos depois de gravarem seu primeiro compacto, os Beatles causaram um enorme impacto cultural e social no mundo e realizaram três turnês mundiais: em 1964, em 1965 e em 1966. Cada uma delas foi um pandemônio, com um tumulto em cada local em que a banda chegava, plateias histéricas que não paravam de gritar e impediam os músicos de ouvir a si mesmos, prejudicando irreversivelmente a performance no palco e os deixando insatisfeitos como músicos. Vale lembrar que na época dos Beatles, os amplificadores tinham apenas 100 watts de potência – uma caixinha de som doméstica de hoje em dia – e não havia os amplificadores e PAs modernos de hoje em dia, de forma que o som da plateia se sobressaía ao dos alto falantes.

Isso ao mesmo tempo em que, ao contrário da maioria das bandas, os Beatles não deitaram nos louros do sucesso e investiam pesadamente em experimentação, descobrindo novas técnicas de gravação, usando instrumentos exóticos, criando efeitos sonoros e escrevendo letras relevantes.

Os Beatles ao vivo em 1966.

Essa dualidade entre shows caóticos e trabalho em estúdio de vanguarda, claro, não podia durar muito tempo. Cansados da turbulência e da impossibilidade de fazer boa música no palco, os Beatles decidiram abandonar os shows definitivamente e realizaram seu último show oficial ao vivo no Candlestick Park de San Francisco, na Califórnia, em 29 de agosto de 1966.

Isso aconteceu quase ao mesmo tempo em que o álbum Revolver (1966) chegava às lojas cheio de canções experimentais e cheio de efeitos sonoros, como loops e gravações de trás para frente. Nenhuma canção do novo disco foi tocada naquela turnê, um prenúncio do fim. E livre dos shows, os Beatles tiraram férias de verdade pela primeira vez desde que iniciaram a carreira e, na volta, lançaram sua obra mais importante em termos artísticos, o álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, que chegou às lojas em 01 de junho de 1967, se tornou o maior sucesso do grupo até então, e virou um dos maiores marcos culturais do século XX, talvez o disco mais importante do século.

A belíssima capa do compacto Penny Lane/ Strawberry Fields Forever.

Mas a maré de bom momento também escondia uma série de problemas graves: John Lennon se via afundado no uso de LSD e ficava cada vez mais perdido; George Harrison se via preso dentro da banda, sem espaço para tocar as próprias canções e incomodado com uma posição em segundo plano. Pior de tudo: o empresário e amigo Brian Epstein morreu de uma overdose acidental de drogas e remédios em 1967, deixando o império econômico dos Beatles sem rumo.

Para resolver isso, a banda decidiu fundar, em 1968, a Apple Corps. um conglomerado que incluía gravadora de discos, estúdio de cinema, editora de livros etc. Na visão deles, seria uma forma de serem independentes dos engravatados burgueses e dar espaço a artistas relevantes que não teriam espaço dentro da mídia tradicional. Mas eles eram músicos e não empresários, então, em pouco tempo, a Apple virou uma grande dor de cabeça, com inúmeros problemas financeiros que podiam levar o grupo mais famoso do mundo à falência.

Foi nesse clima que a banda gravou o álbum duplo oficialmente chamado The Beatles, mas que ficou para sempre conhecido como The White Album (Álbum Branco), que chegou às lojas em 22 de novembro de 1968, após um longuíssimo processo de gravação que durou de maio a outubro.

Gravações do White Album, em 1968.

A tensão chegou a um nível máximo durante essas sessões de gravação, de modo que, do meio para o fim, embora os Beatles se unissem para gravar as bases instrumentais, todo o trabalho de pós-produção (overdubing, vocais definitivos, mixagem) era realizado em separado, com as três salas dos estúdios da EMI na Abbey Road, em Londres, sendo usados ao mesmo tempo, com John Lennon, Paul McCartney e George Harrison, cada um finalizando as próprias músicas.

A tensão ficou tão forte que até o baterista Ringo Starr, o mais “boa praça” dos caras, ficar tão frustrado que decidiu largar a banda no meio das gravações. Saindo batendo a porta e ficando duas semanas fora, voltando após apelos incessantes dos colegas.

O HQRock tem um post especial sobre o The Beatles/ The White Album/ Álbum Branco, clique aqui!

Daí que, ao fim de 1968, era preciso um projeto muito especial para reunir os Beatles de novo em um estúdio. E Paul McCartney pensava que tinha um. Era só o começo da epopeia mais drástica a qual o grupo se meteu.

Eu Tenho uma sensação: os Beatles (ou apenas McCartney?) querem algo novo

A ideia de Paul McCartney era ótima no papel: gravar um disco inédito ao vivo diante de uma plateia. E filmar todo o processo para lançar em um especial para a TV.

O título do projeto era Get Back (de volta ou volte) porque resgatava o espírito inicial da banda, quando tocava ao vivo. No início da carreira, a tecnologia de gravação ainda era mais precária e os Beatles gravavam praticamente ao vivo. O primeiro álbum do grupo, Please Please Me, lançado em março de 1963, por exemplo, foi gravado ao vivo no estúdio em uma longa sessão de 10 horas em um único dia.

O HQRock tem um post especial sobre o álbum Please Please Me, leia aqui!

A ideia de voltar a tocar ao vivo também era uma coisa que vinha rodando os Beatles.

Os Beatles ao vivo no Candlestick Park, seu último show oficial, em 1966.

Depois do Candlestick Park, em 1966, a banda trabalhou quase que exclusivamente em estúdio – que quem trabalha com música sabe muito bem que é muito diferente de tocar ao vivo, ainda mais diante de uma plateia – mas ainda assim se apresentou rapidamente ao vivo em algumas ocasiões.

Os Beatles tocam All you need is love ao vivo na TV, em 1967.

Os Beatles tocaram ao vivo All you need is love num especial de TV chamado Our World, em 25 de junho de 1967, que promoveu a primeira exibição mundial via satélite, com participação de vários países, cada um demonstrando um número artístico. Os Beatles representaram o Reino Unido e tocaram All you need is love ao vivo, que foi lançada como single pouco tempo depois. A gravação que se ouve até hoje é a performance ao vivo da banda no programa.

Em setembro de 1968, os Beatles apresentaram ao vivo duas canções também para a TV, Hey Jude e Revolution, que tinham sido lançadas em um compacto.

Lennon toca Yer Blues no Rock and Roll Circus, com Eric Clapton (esq.) e Keith Richards (dir.). Embaixo, o diretor Michael Lindsay-Hogg.

Tocar diante de uma plateia acendeu uma chama, especialmente em McCartney e Lennon. E Lennon inclusive estreou solo ao vivo tocando numa banda improvisada chamada The Dirty Mac, com Eric Clapton na guitarra, Keith Richards no baixo e Mitch Mitchell na bateria, no especial Rock’n’Roll Circus dos Rolling Stones, em 11 de dezembro de 1968, onde tocaram Yer blues, faixa do White Album. O especial da TV não foi exibido na época – os Stones não gostaram da própria performance – mas mostrou que Lennon estava disposto a voltar aos palcos.

Contudo, o convite dos Stones foi para os Beatles, e Harrison negou e McCartney também.

Mas McCartney realmente levou a história à sério. Quem dirigiu o Circus foi Michael Lindsay-Hogg, que já tinha trabalhado com os Beatles nos clipes de Paperback writer e Rain, em 1966, e esteve também por trás das câmeras nas performances de Hey Jude e Revolution; por isso, se tornou a escolha perfeita para o novo projeto de McCartney. Ops, dos Beatles.

Volta!: Os Beatles de volta às raízes

Como já era costume nos tempos finais dos Beatles, Paul McCartney criou o conceito do projeto Get Back e apresentou aos demais companheiros de banda. A ideia era: ensaiar um repertório novo, fazer um show com canções inéditas para uma plateia relativamente pequena (e controlada), gravar tudo em filme e exibir como um especial de TV, lançar um disco inédito ao vivo.

O conceito por trás era fazer os Beatles voltarem às suas raízes, como uma banda que toca suas canções em uma pequeno palco. Era uma forma de (re)unir os membros do grupo para criar músicas juntos, se afastando da música experimental e montada em estúdio dos últimos anos.

John Lennon explicou em entrevistas posteriores que acatou a ideia porque “não tinha nada mais para fazer”, enquanto Harrison, o mais traumatizado emocionalmente pelos excessos da beatlemania, não queria nem pensar em voltar a um palco. Porém, como ele disse na autobiografia dos Beatles, The Anthology, “vamos lá, é ano novo, um projeto novo, vamos tentar”.

McCartney tinha realmente a esperança de que o grupo se reconectasse ao tocar ao vivo sem trucagens de estúdio e redescobrisse o prazer de estarem juntos e voltarem a ser uma boa banda de palco. No íntimo, o baixista tinha a esperança de que os Beatles voltassem a fazer uma turnê.

Ele não podia estar mais errado. Em tudo.

Mas vamos por partes.

O diretor Michael Lindsay-Hogg (dir.) entre McCartney e Lennon.

Como a ideia era ensaiar um repertório novo e filmar tudo, os Beatles – por meio da Apple Films, contrataram Michael Lindsay-Hogg para comandar as filmagens e o crew. A ideia era, na fase dos ensaios, ter duas câmeras (A e B) filmando a banda e, no show, usar uma equipe bem maior, incluindo até uma grua, algo que não era usado nas filmagens de concerto na época. E mesmo hoje é pouco usado, para dizer a verdade.

A ordem de Lindsay-Hogg era filmar os Beatles em todos os momentos, com música ou não, desde o momento em que o primeiro membro chegasse até o último ir embora. A captação de som era feita por um equipamento especial, mas daqueles usados para filmagem, não para gravação de discos; já que não era uma gravação, mas um ensaio.

O local do pretenso show não estava definido quando tudo começou, mas várias ideias rondaram a mesa. De início, a banda pensou em um local pequeno, um dos clubes de Londres, como o The Roundhouse, um dos mais “quentes” da época. Na medida em que o projeto começou a andar, ideias mais excêntricas começaram a surgir, como tocar em uma balsa no rio Tâmisa ou ir para a Tunísia, na África, e tocar nas ruínas de um velho anfiteatro grego, opção que era a favorita de Lindsay-Hogg.

A pressa que marcou o projeto tinha como motivo o fato de que Ringo Starr iria começar a trabalhar no filme The Magic Christmas no dia 01 de fevereiro, que iria protagonizar ao lado do célebre ator Peter Sellers. Isso foi um erro de cálculo da banda, pois o tempo curto para os ensaios e o show (menos de um mês), terminou inviabilizando tudo.

Contudo, para facilitar o trabalho da equipe de filmagens, os Beatles decidiram por não usar os estúdios da EMI em Abbey Road, mas ir para um estúdio de cinema mesmo, o Twickenham Studios, no distrito homônimo no oeste de Londres. Essa se mostraria uma decisão desastrosa, pois o clima frio e sem graça do grande galpão, sem cenário e apenas enfeitado com luzes coloridas não ajudou em nada no ânimo da banda.

Paul McCartney, Glyn Johns e Mick Jagger no Olympic Studios, em 1968.

Para o som os Beatles mostraram que queriam algo meio diferente, porque apesar de contarem com o tradicional produtor George Martin, que fizera todos os álbuns do grupo até então, trouxeram o engenheiro de som Glyn Johns, que era o nome mais “quente” do mercado e já trabalhava intensamente com os Rolling Stones, The Who e estava começando uma longeva parceria com o Led Zeppelin. Hoje, Johns é lembrado como capaz de criar um grande som para as bandas que gravou e criar uma técnica especial de gravar a bateria, que se tornou notória entre as três bandas citadas.

Além de Martin e Johns, o técnico de som assistente era um jovem Alan Parsons, que ficaria famoso como engenheiro de som nos anos 1970, particularmente com seu trabalho com o Pink Floyd, e ficou tão famoso que lançou sua própria banda, The Alan Parsons Project, que fez sucesso na virada daquela década para os 80.

As sessões de ensaio começaram em Twickenham em 02 de janeiro de 1969, mas terminaria interrompidas 10 dias depois, por causa das brigas dos Beatles e até a saída temporária de George Harrison. Reagrupados, decidiram regressar, mas mudaram para o novo estúdio da Apple, no centro de Londres, e lá continuaram os ensaios, mas agora, gravando tudo de modo profissional com duas mesas de 8 canais, entre os dias 21 e 31 de janeiro, incluindo aí, o famoso The Rooftop Concert, o show no telhado, no dia 30. E fim.

Mas vamos detalhar essa história.

Para a sua Tristeza: As sessões começam

As sessões de Get Back – e só mais tarde rebatizadas de Let it Be – se iniciaram logo após o Feriado de Ano Novo, em 02 de janeiro de 1969. Era inverno em Londres, o clima estava muito frio e o ar condicionado do Twichenham Studios não era tão bom, deixando seu ambiente espaçoso frio e pouco aconchegante. A “decoração” escolhida pela equipe dos Beatles não podia ser pior: nada, só panos, cadeiras e luzes coloridas, que deixavam tudo impessoal, feio e pouco convidativo.

A rotina também se mostraria um problema: desde há muito tempo os Beatles tinham se acostumado a gravar de madrugada, pois se sentiam mais ativos à noite. Em Abbey Road, suas sessões começavam às 19 horas e iam até 03 ou 05 horas da manhã. Mas para filmar as sessões de Get Back, o grupo precisou se submeter aos horários do Sindicato da Indústria Cinematográfica, que determinava o horário comercial padrão, respeitando os fins de semana. Numa busca de meio termo, as sessões do novo projeto começavam por volta das 11 horas da manhã e seguiam até por volta das 13 horas; seguindo por uma pausa rápida para o almoço de uma hora; e voltando até por volta das 19 horas.

O trabalho começou com a equipe de filmagem filmando a equipe dos Beatles, em particular o roadie Mal Evans, montando o equipamento da banda, o que serviu como abertura do filme Let it Be.

No dia 02, curiosamente, Paul McCartney chegou mais de uma hora atrasado, o que não era do seu feitio – usuário do transporte público, aparentemente, ficou preso em um atraso fora do padrão. Foi a deixa para que John Lennon e George Harrison, demonstrando a camaradagem que desenvolveram nos últimos tempos – e teria consequências nas carreiras pós-Beatles de ambos -, se sentarem um de frente para o outro e mostrarem as canções novas que traziam ao projeto.

De cara, Lennon apresentou versões iniciais de Don’t let me down e Everybody had a hard year, esboço que terminaria virando a parte final de I’ve got a feeling. Com poucas canções novas escritas então, resgatou outras duas que já haviam rodado as sessões de The White Album no ano anterior, mas não haviam sido gravadas: Sun King (que terminaria em Abbey Road) e On the road to Marrakesh, que antes se chamava Child of nature, uma canção com boa melodia, mas letra nem tanto, que soava estranha. Ela terminaria abandonada e, com outra letra, viraria Jealous guy, que Lennon gravaria em seu álbum solo, Imagine, em 1971.

George Harrison também apresentou várias canções que pensava para o projeto, como All things must pass e Let it down. Como se verá a seguir, Harrison tinha muitas canções prontas para trabalhar e veria serem sequencialmente negadas ou ignoradas, o que contribuiria muito para se distanciar da banda e para que esta terminasse.

Quando McCartney chegou, a banda discutiu o projeto, como ele próprio tomando as rédeas e apresentar empolgado o que pensava, recebendo uma reação fria e indiferente dos demais. Parte dessa conversa está no filme Let it Be na sequência inicial.

Obviamente, a primeira canção a ser trabalhada pela banda foi de McCartney, que queria ter controle de tudo: I’ve got a feeling, construindo um arranjo e ficando como a faixa mais completa do 1º dia, mas também foram tocadas Don’t let me down e Two of us.

Em Don’t let me down, uma curiosidade: a banda discutiu usar um tecladista para a faixa e o nome de Nick Hopkins foi citado, pois era o melhor pianista de Londres e tinha tocado em Revolution dos Beatles no ano anterior. Ele tocou com os Rolling Stones, The Who e Jeff Beck, e seria um parceiro de Lennon em sua carreira solo, mas não voltaria a tocar com os Beatles. Mas um tecladista viria para as sessões: Billy Preston, como veremos depois.

No dia 03 de janeiro, foi a vez de Paul McCartney chegar mais cedo e o músico gastou um tempão tocando sozinho no piano, treinando algumas de suas novas canções, como Oh! Darling e Let it be. Ele também tocou a canção Adagio for strings (de Samuel Barber, um dos principais compositores eruditos britânicos do século XX), que terminou servindo como abertura do filme.

Ringo Starr também chegou cedo e mostrou uma de suas novas canções, A trip to Carolina, mas que não seria trabalha pelo quarteto.

Na parte da manhã, grande parte do trabalho se focou em criar um arranjo para Don’t let me down, de John Lennon, mas o grupo também brincou um pouco com canções antigas, tocando versões de I’m so tired (cantada por McCartney em vez de Lennon) e Ob-la-di, ob-la-da. Depois, Lennon e McCartney relembraram uma série de canções que haviam composto na adolescência, no início dos Beatles, como Won’t you please say goodbye, Thinking of linking, I’ll wait ‘till tomorrow, Because I know you love me so e One after 909. A ideia é que, tendo em vista o conceito do projeto, de volta às raízes, seria interessante resgatar algumas dessas canções. Seria One after 909, que Lennon escrevera aos 17 anos e que os Beatles tinham tentado gravar em 1963, mas não gostaram do resultado.

Depois da pausa do almoço, Lennon ficou um tempo sozinho na guitarra e tocou duas canções para investir no projeto: Sun king (já apresentada no dia anterior) e Gimme some truth. Nenhuma das duas terminaria selecionada, mas esta última seria lançada no álbum Imagine, de sua carreira solo.

A parte da tarde foi ocupada principalmente por duas canções: All things must pass (Harrison), que foi tocada 37 vezes nesse dia (!); e Maxwell silver hammer (McCartney), cujo um dos primeiros takes, no qual o compositor canta os acordes da canção, terminaria no filme Let i be, com o assistente Mal Evans batendo um martelo em uma bigorna para dar ênfase ao título da canção.

Lennon e McCartney cantam a versão rápida de Two of us, conforme visto no filme.

Depois da pausa (obrigatória pelo sindicato dos trabalhadores em filmagens) do fim de semana, os Beatles continuaram os ensaios no dia 06 de janeiro, novamente desenvolvendo o arranjo de Don’t let me down; seguindo em Two of us, que a esta altura era uma canção de ritmo rápido – é vista sendo tocada dessa forma no filme Let it be – e durante o ensaio dessa canção ocorreu a célebre briga entre McCartney e Harrison, com o primeiro tentando controlar o tempo inteiro o que os outros tocavam e ditando como os outros deviam tocar e Harrison ficando de saco cheio disso e explodindo.

Momentos antes da briga captada no filme Let it Be.

“Precisamos colocar a guitarra em toda a Hey Jude?” – o que era um calo para Harrison, cujas frases de guitarra gravadas para aquela canção foram praticamente todas excluídas da versão final, mantendo-se quase que uma única frase. Então, Harrison disse nervosamente:

“Eu toco o que você quiser, ou não toco nada se você quiser, também. Eu não me importo. O que você quiser que eu faça, eu faço. Desde que você se decida”.

Depois disso, como um tipo de “desculpas”, McCartney deu espaço para os Beatles tentarem algumas composições de Harrison e o grupo ensaiou Hear me Lord, All things must pass e For you blue.

Outras novas canções foram tentadas, como Carry that weight e She came in through the bathroom window (ambas só seriam lançadas em Abbey Road). Na pausa no almoço, Ringo Starr apresentou outra composição sua, Octopus’s garden; e Lennon resgatou duas canções antigas para fazer a banda tocar: de novo One after 909 e Across the universe, a balada folk-mística que os Beatles já haviam gravado em fevereiro de 1968 (ainda antes das sessões do Álbum Branco), mas não haviam lançado até então.

No dia 07, várias dessas canções continuaram a ser ensaiadas, com destaque para Across the universe e Don’t let me down, cada qual com 12 takes; I’ve got a feeling, com 14; mas a campeã foi Maxwell silver hammer, com 18 tentativas. Várias outras foram ensaiadas, como Oh! Darling, Golden slumbers, She came in through the bathroom window, Gimme some truth, For you blue e One after 909, que já se aproximava de sua forma final.

Lennon tocou a nova Dig a pony para os colegas pela primeira vez nesse dia e, como ficaria cada vez mais comum, os Beatles embarcaram em uma série de jam sessions tocando velhos covers de rock and roll, com destaque, nesse dia, para uma boa versão de Rock and roll music, de Chuck Berry, que o grupo havia lançado no álbum Beatles For Sale, de 1964.

Mas outro grande destaque do dia 07 foi que Get back – a canção que ganhou o título do projeto – foi tocada pela primeira vez.

No dia 08, a rotina já se estabelecia, tocando as canções que iam se estabilizando no repertório, com Two of us, Don’t let me down, I’ve got a feeling e One after 909; além de prosseguir na formatação de outras que terminaram não ficando no álbum Let it Be, como She came in through the bathroom window e Maxwell’s silver hammer (ambas seriam lançadas em Abbey Road), mas esta última teve a versão exibida no filme, agora, mais bem estruturada. Outra canção tocada neste dia cuja performance terminou no filme foi uma nova composição de Harrison, I me mine.

Este dia foi importante porque foi a primeira vez que a banda trabalhou em duas canções-chave de McCartney para o projeto: Let it be e The long and winding road.

Buscando ainda velhas canções, Lennon e McCartney lembraram de Too bad about sorrows, e a tocaram em breves versões. A parte da conversa também terminou no filme. Em meio a essas brincadeiras, Lennon disse a frese “Queens say not to pot-FBI smoking members” (A Rainha diz não para os membros do FBI fumantes de maconha), que seria o único trecho gravado em Twickenham que terminaria no álbum Let it Be, inserida antes de For you blue.

No dia 09, mais uma vez o grupo buscou consolidar o repertório, com aquelas canções já bem definidas, mas com destaque especial para For you blue, de Harrison, que aqui ainda era mais rock e ganhou 15 takes; e Across the universe, tocada 12 vezes. Outro destaque do dia foi Let it be, que a partir de então passou a contar com Lennon no baixo, pois McCartney estava no piano e a intenção seria tocá-la ao vivo, sem overdubs.

Neste dia, a banda tocou uma canção meio improvisada de Lennon chamada Suzy’s Parlour, cuja performance terminaria no filme Let it Be, porém, curiosamente, na hora de registrar o copyright, a equipe da Apple se equivocou e a intitulou Suzy Parker.

Meu, Meu, Meu: George Harrison sai dos Beatles

No dia 10 de janeiro, o projeto ganhou uma grande reviravolta. Primeiramente, tudo ia normal e a banda trabalhou bastante em Get back, que foi tocada 22 vezes (!), inclusive, alguns takes com John Lennon nos vocais principais.

Mas o grupo também avançou bastante na discussão sobre onde seria realizado o concerto para o qual estavam ensaiando. Neste dia, a ideia de fazer o show em um antigo anfiteatro grego na Tunísia, no norte da África, ganhou força, algo bastante incentivado pelo diretor Michael Lindsay-Hogg, que achou que o visual ficaria sensacional.

Frustrado com suas canções sendo deixadas de lado ou tocadas sem convicção, e não querendo fazer um show ao vivo de jeito nenhum, Harrison aproveitou a hora do almoço para dizer que estava largando o grupo.

“Vejo vocês nos clubes”, foi a frase que disse antes de sair com sua guitarra.

Sempre existiu um boato de teria havido uma briga de socos entre Harrison e Lennon nesse dia, algo que sempre foi negado por ambos e outros participantes da história. Numa entrevista, o diretor Lindsay-Hogg também não fez menção nenhuma a tal briga, dizendo que foi apenas uma discussão no meio do almoço na cantina do estúdio, no qual apenas Lennon e Harrison estavam presentes junto com outros membros da equipe. McCartney e Starr estavam almoçando fora.

Segundo ele próprio, no livro The Anthology, a autobiografia dos Beatles, Harrison foi para casa e compôs a canção Wah-wah naquela tarde, que acabaria no seu primeiro álbum solo, All Thing Must Pass (notaram o título?).

De tarde, apenas como um trio com Lennon, McCartney e Starr, os Beatles tocaram raivosos e frustrados, fazendo versões hard rock de Get back e tocando A quick one while he’s away, a canção do The Who. Até Yoko Ono improvisou uma de suas gritarias com a banda.

Durante as conversas, Lennon cogitou a possibilidade de Harrison não retornar mais e sugeriu:

“Devíamos chamar Eric Clapton para o seu lugar”, que era um grande músico (“o deus da guitarra”, como pichado nos muros britânicos) e um grande amigo dele e de Harrison, também.

Era uma sexta-feira e os ensaios entraram em outro intervalo no fim de semana. Mas no dia 12, domingo, os quatro Beatles fizeram uma reunião na casa de Ringo Starr para acertar a volta de Harrison à banda. Tudo terminou em uma nova árdua discussão e o guitarrista saiu de novo batendo a porta.

Por isso, os ensaios foram retomados no dia 13 de janeiro, a segunda-feira, novamente com os Beatles apenas como um trio, tentando tocar Dig a pony e Get back, enquanto Lennon e McCartney conversavam sobre o que fazer sobre o futuro da banda e Lennon insistia de novo que deveriam convidar Eric Clapton para entrar no grupo.

No dia 14, o trio continuou as sessões, com a banda fazendo uma versão de Woman, canção de McCartney que havia sido lançada pela dupla Peter & Gordon em 1964 e havia chegado ao 1º lugar das paradas dos EUA, sendo o único registro dos Beatles executando tal faixa. Em um dos intervalos, McCartney e Starr brincam tocando um boogie woogie no piano (uma canção que foi registrada como Jazz piano song), que terminou sendo vista no filme Let it Be.

Depois, Lennon tocou sozinho na guitarra uma série de canções que considerava para o projeto, cujo nenhuma delas terminaria na versão final, como Mean Mr. Mustard (que sairia em Abbey Road), Madman e Watching rainbows.

Porém, estava claro que os Beatles não funcionavam como um trio e Lennon e McCartney decidiram interromper o projeto até encontrarem uma solução ao problema de Harrison. Tudo foi finalizado e o equipamento desmontado.

Já no dia seguinte, 15 de janeiro, os quatro Beatles se reuniram de novo para uma reunião de conciliação, desta vez, nos escritórios da banda no prédio de quatro andares da Apple, no número 3 de Saville Row, no centro de Londres.

Na conversa, Harrison concordou em retornar à banda e ao projeto, mas sob duas condições: primeiro, não haver mais o show; e segundo, não retornar a Twickenham. Os demais concordaram, pois não havia escolha.

British singer, musician and member of The Beatles John Lennon playing guitar beside his wife, the Japanese-born American artist and musician Yoko Ono. 1970 (Photo by Mondadori Portfolio by Getty Images)

Uma questão discutida foi: se não haveria mais o show, para quê os Beatles manteriam uma equipe de filmagem? Sobre o que seria o filme? Ficou decidido que a banda prosseguiria com o conceito de uma “volta às origens”, de fazer um rock direto sem overdubs, e gravar um álbum assim. Ou seja, gravar um novo disco ao vivo no estúdio sem plateia. Como havia sido o Please Please Me, o primeiro álbum deles, lá em 1963. Os Beatles continuariam ensaiando até obterem versões satisfatórias das canções novas, enquanto eram filmados, e o resultado seria um disco novo e um filme documentando tudo.

Esse seria o novo conceito de Get Back dali em diante.

Ninguém gostava da atmosfera fria e cavernosa de Twickenham e pensaram em uma alternativa, pois não era viável levar a equipe de filmagem para os estúdios da EMI em Abbey Road. A solução estava literalmente debaixo do nariz deles: usar o novo estúdio de gravação da própria Apple no porão do prédio.

O problema é que o espaço não estava pronto, mas o quarteto deu um ultimato a Alex Mardras, o grego responsável pela Apple Electronics, para finalizar o estúdio em cinco dias e o eletricista prometeu entregar um moderno estúdio de 16 canais – quando até então a banda só tinha usado 8 canais nas sessões finais de The White Album, após vários anos gravando apenas em 4 canais.

Os Beatles (e Yoko Ono) na mesa de controle dos estúdios da Apple.

Mas Mardras era um charlatão e quando a banda se reuniu, pela primeira vez em 10 dias, em 20 de janeiro, no novo estúdio para testar o equipamento, percebeu que Mardras tinha realizado um trabalho horrendo e amador. Glyn Johns ficou extremamente horrorizado e disse que era inútil usar aquilo. Tendo em vista que Michael Lindsay-Hogg e a equipe de filmagem estavam agendados para regressar no dia seguinte, não houve opção ao grupo senão alugar da EMI duas mesas mais antigas de 4 canais e conectá-las a uma novíssima mesa de 8 canais da 3M que a Apple tinha comprado anteriormente.

Johns e o engenheiro Alan Parsons correram e vararam a noite para montar o equipamento, de modo que estivesse pronto no dia seguinte.

Dois de Nós: As sessões são retomadas

O projeto Get Back foi retomado oficialmente no dia 21 de janeiro, com equipe de filmagem e tudo, agora, no ambiente mais amigável, aquecido e confortável dos novos estúdios da Apple.

Antes da banda começar a tocar propriamente, McCartney apresentou uma composição nova, Every night (que terminaria em seu primeiro álbum solo) e Harrison também tocou uma nova, Window, window (que jamais seria lançada oficialmente); enquanto Lennon trazia Madman, tocada na sessão anterior, e a nova All I want is you, que terminaria adicionada dentro de Dig a pony, como seu refrão, abertura e encerramento.

Falando nela, Dig a pony seira o grande destaque do dia e seria tocada 21 vezes. Em meio às tentativas, Lennon disse a frase “I dig a pigmy by Charles Hawtrey and the deaf aids. Phase one, in which Doris gets her oats” (uma frase sem sentido e de humor negro, sobre pigmeus e servas surdas, terminando com uma singela referência à masturbação feminina), que terminaria sendo usada como abertura do álbum Let it Be, embora antes de Two of us e não antes de Dig a pony como em seu contexto original.

Retomando os trabalhos, era normal retomar algumas faixas, como foi o caso de I’ve got a feeling, Don’t let me down e She came in through the bathroom window, esta última, agora tocada com Lennon em um piano elétrico Rhodes, cujo um dos takes terminaria no álbum de raridades, Anthology Vol. III, de 1996. Isso a torna o primeiro take (cronologicamente falando), dentre todos os que foram tocados até aqui, a ser lançado em disco (pois alguns, como já citados, terminaram no filme Let it Be).

No dia 22, George Harrison chegou mais cedo e tocou algumas canções sozinho na guitarra, com destaque a uma que já havia esboçado antes, Let it down, e que traria para a banda trabalhar.

Billy Preston chega aos estúdios da Apple.

Mas o grande evento do dia seria a chegada do tecladista Billy Preston, convidado por Harrison para acompanhar os Beatles nas sessões e dar um pouco mais de musculatura e “liga” na musicalidade da banda. Sua personalidade alto astral e simpática também seria uma enorme adesão ao ambiente local. O documentário Anthology trouxe um pequeno segmento da chegada de Preston e do grupo apresentando o projeto.

Os Beatles conheceram Preston lá atrás, em 1962, quando estavam em Hamburgo, na Alemanha, e o tecladista chegou como membro da banda de Little Richard (ídolo do grupo), para quem iam abrir os shows.

O ingresso de Preston no time gerou frutos muito rápido, de modo que Don’t let me down já ganhou uma estrutura próxima da final; mas principalmente, as versões desse dia de I’ve got a feeling e Dig a pony terminariam no Anthology III.

Foi um dia tão produtivo que versões de Don’t let me down, I’ve got a feeling (a mesma do Anthology) e Dig a pony terminariam na versão de Glyn Johns para o álbum Get Back (falaremos mais adiante). E o engenheiro e produtor ainda selecionaria outras duas canções desse dia no disco: a jam session Rocker e o cover de Save the last dance for me (dos Impressions).

No dia 23, Ringo Starr chegou mais cedo e começou a tocar no piano sua composição Octopus’s Garden.

Porém, o destaque do dia foi o trabalho em Get back, que ganhou 43 tentativas nesse dia, e cujo o trabalho no piano elétrico de Preston ajudou a dar a formatação final, inclusive, com Lennon fazendo a guitarra solo. Uma dessas versões terminaria no álbum montado por Glyn Johns. Uma canção que foi retomada nesse dia, depois de algum tempo fora, foi Oh! Darling.

No dia 24, o trabalho pesado em Get back continuou, com outras 21 execuções e a banda aproveitando para experimentar algumas mudanças, uma delas foi com Lennon usando um slide guitar. O outro destaque do dia foi Two of us, que foi tocada também 21 vezes e foi estruturada em definitivo nesse dia, com um dos takes aparecendo no Anthology III e outro usado no álbum montado por Glyn Johns.

Porém, foi um dia produtivo para o grupo tocar várias outras músicas, pensando em ocupar as últimas vagas ainda sobrando para o álbum. Assim, Teddy boy (McCartney) foi tocada de novo e parte de um dos takes (no qual Lennon faz um “convite” a uma barn dance) foi usada no Anthology III e esse take completo terminaria no álbum de Glyn Johns. Outro trio de composições de McCartney também foi tocada praticamente apenas nesse dia, com Every night, Hot sun e Her majesty, esta última com Lennon fazendo o slide guitar (a canção terminaria em Abbey Road).

McCartney e Glyn Johns em pé, com Harrison, Lennon e Starr ouvindo as fitas.

Lennon apresentou suas últimas tentativas em Polythene Pam, que só foi tocada nesse dia, e Maggie Mae, uma canção tradicional e suja de Liverpool sobre uma prostituta lendária no porto. O grupo a tocou apenas duas vezes, mas uma delas terminaria no álbum Let it Be. Harrison tentou outra vez a canção Window, window.

Por fim, Lennon comandou a banda na improvisação de Dig it, que nesse momento era um blues de novo com o músico usando o slide guitar. Em um dos takes ele disse a frase: “That was Can You Dig It by Georgie Wood, and now we’d like to do Hark the angels come”, que seria usada no álbum Let it Be ao final daquela canção e antes da faixa título.

No dia 25, o grande destaque foi For you blue (Harrison), que foi tocada 28 vezes e estruturada definitivamente, também trazendo Lennon na guitarra slide, tanto McCartney quanto Preston nos pianos e sem baixo. Um dos takes seria usado na versão final do álbum Let it Be, outro aparece no Anthology III e outro na versão de Glyn Johns. Outras canções de Harrison foram tocadas nesse dia, como Isn’t it a pity e Window, window.

Let it be também já estava praticamente pronta neste dia e foi tocada 18 vezes, uma delas, apareceria no Anthology III. A primeira composição de McCartney, I lost my little girl – composta quando ele tinha 14 anos de idade – foi tocada neste dia, uma delas, com Lennon nos vocais e que se transformou numa longa jam session de mais de 10 minutos.

McCartney e Lindsay-Hogg (de costas) inspecionam o telhado para usá-lo nas filmagens.

Nesse dia, a ideia do show do telhado veio à tona, como uma possibilidade de dar um fim ao projeto e ao filme. Afinal, todos sabiam que o prazo final se aproximava, pois Ringo Starr iria realizar seu filme a partir de 01 de fevereiro. Então, McCartney e Michael Lindsay-Hogg subiram ao telhado do prédio da Apple para verificar se era viável.

Harrison e Starr tocam ensaiam Octopus’s garden como visto no filme.

No dia 26, George Harrison chegou mais cedo e tocou sozinho versões de Isn’t it a pity, Let it down e Window, window… todas canções que ele ainda esperava trabalhar com a banda nesses últimos dias do projeto. Em seguida, Ringo Starr chegou e, de novo, começou a tocar a sua Octopus’s garden no piano, que ele queria que fosse sua contribuição dentro do projeto. Harrison se juntou a ele, inclusive, sugerindo uma troca de acordes. A dupla tocou e cantou a canção, enquanto Lennon também chega ao estúdio e se une a eles na bateria. Essa sequência aparece no filme Let it Be.

Nesse dia, as duas composições chave de McCartney, Let it be e The long and winding road foram os destaques, tocadas 28 e 16 vezes, respectivamente. Let it be já ficou praticamente pronta, enquanto The long and winding road teve seu take definitivo, que seria usado na versão final do álbum Let it Be (acrescida de orquestra) e cuja versão despojada apareceria no Anthology III.

Os Beatles e Billy Preston fizeram uma longa jam session nesse dia, tocando vários covers de Rock and roll, como Rip it up e Shake rattle and roll (ambas aparecendo no filme Let it Be) e acrescidas de Blue suede shoe incluídas no Anthology III; além de Miss Ann, Kansas City e You really got hold on me, todas também aparecendo no filme. Outra jam foi um número original liderado por Harrison e Preston, I told you before. No meio disso tudo, a banda tocou de novo a improvisação de Lennon, Dig it, numa versão de 12 minutos, cujo um extrato de pouco menos de 60 segundos seria usado no álbum Let it Be; e uma parte maior aparece no filme.

No dia 27, com o tempo acabando, os Beatles começaram a simplesmente polir as canções que estavam consolidadas, buscando boas versões para serem usadas no tal álbum ao vivo. De novo, Get back, a principal faixa do projeto, foi o destaque do dia, com 32 tentativas e assumindo sua feição final. Inclusive, um dos takes foi usado como a versão que seria lançada em compacto, exceto pela coda que viria do dia seguinte. Também em meio a essas sessões, Lennon disse a frase “Sweet Loretta Fart, she though she was a cleaner, but she was a frying pan”, que terminaria sendo usada antes da faixa no álbum Let it Be. A versão do disco de Glyn Johns também saiu desse dia.

Let it be, The long and winding road, Don’t let me down e I’ve got feeling foram tocadas também para sua consolidação. Oh! Darling também e uma versão de sete minutos (diminuída via edição) apareceria no Anthology III.

A canção de Old brown shoe de Harrison também foi tocada nesse dia e depois retomaram I told you before, a jam com Preston.

Outra coisa que teria bastante importância na carreira dos Beatles aconteceu nesse dia após as sessões: John Lennon se encontrou com o empresário dos Rolling Stones nos Estados Unidos, Allen Klein, e se convenceu de que ele era o nome certo para comandar os negócios dos Beatles.

No dia 28, o grande destaque foi I’ve got a feeling, tocada 17 vezes e ganhando seu polimento final. Alguns dos takes tiveram os vocais principais de Lennon, em vez de McCartney, e um deles virou uma jam session de 15 minutos. Dig a pony também ganhou seu polimento final, tocada 12 vezes.

Também foram tocadas algumas versões definitivas: Don’t let me down teve a versão que seria lançada em disco gravada neste dia e Get back teve a coda final selecionada para emendar na versão escolhida do dia anterior.

Mas os Beatles sabiam que não tinham ainda canções suficientes para encher um álbum e tentaram estabelecer as últimas “vagas”. Lennon apresentou hoje I want you (que terminaria em Abbey Road) e de novo trouxe On the road to Marrakesh, a antiga Child of nature, que terminaria virando Jealous guy, no álbum solo Imagine, de 1971. McCartney trouxe de novo Teddy boy, e um dos takes foi usada como a primeira seção da canção usada no Anthology III, emendada com a versão de um dia anterior.

Harrison também arriscou várias para que fossem sua nova contribuição, tocando 8 takes de Old brown shoe, 5 tentativas de Something e 4 de All things must pass.

Depois que as sessões terminaram, os Beatles subiram aos escritórios da Apple e tiveram uma reunião com Allen Klein. Lennon estava decidido que ele fosse seu representante; Harrison e Starr estavam propensos a aceitar também; mas McCartney não queria.

No dia 29, os Beatles sabiam que só tinham mais dois dias antes do projeto acabar. Ficou definido que fariam o concerto no telhado no dia seguinte, como forma de dar um final ao filme, mesmo com a relutância de Harrison, que não estava disposto a isso.

Então, o dia foi tirado para “passar” as canções buscando versões finais de cada uma delas, embora, curiosamente, nenhum dos takes das canções originais desse dia ficaria para a posteridade. Nesse momento, além das canções que terminariam no disco, foram tentadas também She came in through the bathroom window e I want you.

Harrison tentou várias canções: For you blue, Something, All things must pass, Let it down e Old brown shoe.

Ainda houve tempo para algumas jam sessions, incluindo um take humorístico de Besame mucho – hit latino que os Beatles tocavam no início da carreira, nos tempos de Hamburgo e The Cavern – que pode ser vista no filme Let it Be; e também tocaram várias canções de Buddy Holly, uma delas, Mailman, bring me no more blues, terminaria lançada no Anthology III.

Eu Abro uma Cova: O Show no Telhado

O dia 30 de janeiro foi tomado todo para o The Rooftop Concert, ou o show do telhado. O então assistente Alan Parsons comprou várias unidades de meias-calças femininas para cobrir os microfones porque estava ventando bastante naquele inverno londrino. Ele e Glyn Johns montaram o palco sem divisórias entre os músicos, mesmo a bateria, usando apenas um conjunto comum de toalhas de mesa para abafar um poucos os tambores da bateria. Mas Johns, como já escrito, era um craque em gravar a bateria e conseguiu fazer a captação de modo excelente.

Apesar da adversidade do clima e do ambiente aberto, com as temperaturas em torno dos 5ºC, e ventando, o trabalho de Johns e Parsons foi excepcional, aliado aos Beatles estarem bastante afiados, de modo que a performance do show do telhado foi tão boa que das cinco canções tocadas, nada menos do que três terminaram na versão final do álbum Let it Be.

No aspecto fílmico, também houve um investimento maior para capturar o momento: cinco câmeras foram posicionadas no telhada, outra no prédio atrás da banda, outra dentro do prédio da Apple e uma na rua, com um entrevistador perguntando às pessoas o que achavam daquele evento.

Infelizmente, alguém da vizinhança denunciou o barulho à polícia, que tinha uma estação literalmente na esquina do prédio da Apple. A polícia fez o seu papel e parou o show.

Os Beatles subiram no telhado (sem ironias) na hora do almoço. Estavam bem humorados, à exceção de Harrison, sério o tempo quase todo. À exceção de McCartney, todos usavam casacos grossos para combater o frio, com destaque à grande plumagem marrom de Lennon (que na verdade pertencia à namorada Yoko Ono) e a capa de chuva vermelha de Starr (que também pertencia à esposa, Maureen Cox).

Os Beatles no fim da carreira.

Para testar o equipamento e as câmeras, os Beatles começaram com um ensaio descompromissado de Get back. Enquanto a banda tocava (mais Billy Preston no piano elétrico) e as câmeras registravam, centenas de metros de cabos captaram cada microfone e amplificador e o levavam à mesa de som do estúdio do porão da Apple, monitorada por Alan Parsons.

Com tudo aprovado por George Martin e Glyn Johns, a banda iniciou o show propriamente dito com o primeiro take de Get back. Depois, se seguiu Don’t let me down, que teve uma grande performance, embora Lennon tenha se atrapalhado na letra do segundo estrofe. Em seguida, I’ve got a feeling ecoou pelos edifícios e, à esta altura, uma grande aglomeração de pessoas já se encontrava na rua e gente vinha de todos os lugares e subia nos telhados vizinhos pelo rápido boato que se espalhou pelo centro de Londres: “os Beatles estão tocando no teto da Apple!”. One after 909 foi tocada com grande desenvoltura.

O show no telhado da Apple, em 30 de janeiro de 1969.

O grupo combinou algumas entradas de Dig a pony antes de começar a tocar a faixa propriamente dita. Esta teve um início falso, pois a banda ia começar a tocar quando Ringo Starr pediu para esperarem enquanto ele guardava os seus cigarros. Foi outra grande performance!

Nesse momento, Alan Parsons mandou uma mensagem lá de baixo pedindo uma pequena pausa para trocar as fitas. Até ali os Beatles tinham rendido performances tão boas de I’ve got a feeling, Dig a pony e One after 909 que as três terminariam no álbum Let it Be tiradas daqui.

Enquanto as fitas eram trocadas, os Beatles tocaram de brincadeira o hino do Reino Unido, God saves the Queen. Quando o procedimento ficou pronto, a banda repetiu a sequência de I’ve got a feeling e Don’t let me down, para dar mais opções às câmeras e às fitas, porém, nenhuma dessas duas seria usada para nenhuma dessas finalidades.

Harrison (dir.) com os Beatles no concerto no telhado da gravadora Apple, em 1969.

A esta altura a polícia já tinha chegado ao telhado, mas ainda assim, os Beatles tocaram outra vez Get back. Porém, talvez assustado pela ordem da polícia de parar o show, o assistente Mal Evans desligou o amplificador de Lennon e, depois o de Harrison, embora, McCartney, Starr e Preston tenham continuado a tocar. Lennon se moveu e religou seu amplificador e, percebendo o próprio erro, Evans religou o de Harrison. O grupo foi até o fim – essa performance pode ser vista também no filme e no Anthology III -, mas equipe já havia assumido o compromisso com a polícia de interromper o concerto.

Quando a banda terminou, Maureen Cox, a esposa de Starr aplaudiu veementemente, acompanhada pelas dezenas de pessoas que estavam nos telhados vizinhos, e McCartney agradeceu sem muita convicção: “thanks, Mo”. Enquanto Lennon sagazmente disse a frase:

I’d like to say thank you in behalf of the group and ourselves, and I hope we’ve passed the audition (Eu gostaria de agradecer em nome do grupo e da gente e espero que a gente tenha passado no teste).

A frase foi usada para encerrar o álbum Let it Be e serviu como uma epítome dos Beatles, já que o disco foi o último lançado pela banda.

Ainda assim, restava um último dia das sessões do projeto e os Beatles voltaram ao estúdio no porão da Apple no dia 31 de janeiro para realizar as versões definitivas das canções que não foram tocadas no telhado. O dia foi divido com a manhã para as faixas de guitarra e à tarde para as de piano.

Os Beatles tocam Two of us no filme.

Então, a primeira a ser tocada foi Two of us, em 7 takes, um dos quais usado no filme e também no álbum Let it Be. Com o tempo sobrando, os Beatles ainda se aventuraram em algumas improvisações, especialmente de I want you (um dos takes com McCartney nos vocais principais) e Oh! Darling.

À tarde, começaram com The long and winding road e, apesar da versão que seria usada no disco já ter sido gravada no dia 29, o grupo ainda insistiu em 19 takes, um dos quais foi usado no filme Let it Be e que também terminaria em Let it Be… Naked, em 2003.

A última canção tocada no projeto que ainda se chamava Get Back foi Let it be e essa foi bem mais trabalhosa ao longo do dia. Foram 22 takes até o grupo se dar por satisfeito, num processo que irritou bastante Lennon e Harrison, como é visível no filme. Em determinado momento, Lennon (que detestava a canção, porque a interpretava como um tipo de ode cristã ou mariana, enquanto na verdade, a letra falava da mãe de Paul, cujo o nome era Mary) soltou sua frustração fazendo o vocal da faixa, embora não de modo sério. O take chamado 27A seria aquele usado tanto para a versão em compacto quanto a versão do álbum (que tiveram mixagens e overdubs diferentes), mas no filme, a performance foi editada com trechos do take 27B (com a letra alternativa “There’s be no sorrow” em vez de “There’s be a answer”).

Após uma árdua trajetória de um mês, para alívio dos Beatles, o projeto Get Back chegava ao fim.

Mas ainda estava longe de acabar!

Deixa Estar: Os Beatles vão fazer Abbey Road no lugar

Terminado o projeto Get Back, os Beatles não queriam mais voltar àquele universo. Num ato sem precedentes em sua própria história, a banda repassou os tapes (as fitas) das gravações para o engenheiro de som Glyn Johns e lhe incumbiu de montar um álbum a partir das sessões com total liberdade para escolher as canções e os takes que quisesse e só depois submeter à aprovação da banda.

Os Beatles em abril de 1969.

Enquanto isso, após um tempo para desanuviar a cabeça, os Beatles voltaram a trabalhar, mas não mais em Get Back.

Há apenas um epílogo: em 22 de fevereiro, os Beatles se reuniram ao tecladista Billy Preston e a Glyn Johns na produção para gravar, no Olympic Sound Studios, a canção I want you. Provavelmente, John Lennon queria que a faixa fosse incluída dentro do pacote de Get Back, já que não chegou a ser finalizada nas sessões. O grupo gravou vários takes e chegou a um que pensou ser definitivo, mas I want you – mais tarde acrescida do subtítulo (She’s so heavy) – terminaria no álbum Abbey Road.

E isso nos leva à questão: em abril de 1969, após três meses do término das sessões de Get Back, os Beatles iniciariam a gravação de um novo álbum, que seria o Abbey Road e teria a sua própria jornada. Nenhuma das faixas finalizadas em Get Back foi usada no novo disco, porém, muitas daquelas já esboçadas terminariam vindo à tona, como Oh! Darling, Sun king, Mean Mr. Mustard, She came in through the bathroom window, Octopus’s garden, Her majesty, Something e a já citada I want you.

No fim das contas, o álbum Abbey Road seria o último gravado pelos Beatles, mas as sessões de Get Back, agora sob o nome de Let it Be, só seriam lançadas depois.

O HQRock tem um Dossiê Especial sobre o álbum Abbey Road, clique aqui.

Através do Universo: As versões de Get Back de Glyn Johns

Coube a Glyn Johns a árdua tarefa de montar um álbum a partir das sessões de Get Back/ Let it Be. Porém, sua feitura problemática e algo traumática para os Beatles terminou fazendo com que o processo, que devia durar um mês, durasse literalmente um ano inteiro!

Glyn Johns: um dos grandes engenheiros de som da história do rock.

Quando entraram na última semana de produção de Get Back, em 24 de janeiro de 1969, os Beatles já encomendaram a Glyn Johns que ele começasse a selecionar os melhores tapes. Assim, dali até o dia 31, ao final de cada dia, Johns permanecia no estúdio da Apple a fim de separar os melhores takes de cada canção tocada.

Provavelmente seguindo uma instrução da banda, Johns começou a organizar o material em dois “blocos”: um com as canções originais e outro com covers e jam sessions. Por algum tempo, rondou na cabeça de Lennon e McCartney a ideia de lançar um álbum duplo, com o primeiro com as canções novas e o segundo com os Oldies em jams, mas isso não foi adiante.

Terminadas as sessões, Johns voltou ao estúdio da Apple no dia 05 de fevereiro para fazer uma mixagem do show do telhado, mas esta foi uma ação isolada, provavelmente, apenas para não perder o frescor do momento.

O estúdio da Apple não seria mais usado no projeto, porque entrou em uma grande reforma para se tornar um dos mais modernos estúdios da Inglaterra, no fim de 1970.

Starr, Johns e McCartney.

Contudo, o trabalho de selecionar os tapes começou mesmo no dia 10 de março de 1969. Aparentemente, foi dado um mês para que Glyn Johns “descansasse os ouvidos” das sessões e pudesse, agora, montar o álbum Get Back. O produtor foi para o Olympic Sound Studios, na Church Road, em Barnes, um dos mais avançados da Inglaterra e que foi lar de grandes gravações de nomes como Rolling Stones, The Who, The JImi Hendrix Experience, Led Zeppelin, Elton John e muito mais.

No Olympic, Johns selecionou as melhores faixas e começou a mixá-las, trabalhando apenas no material gravado na Apple entre os dias 21 e 31 de janeiro e mais o show no telhado no dia 30, ignorando totalmente qualquer ensaio de Twickenham, porque não foram gravados em multipista.

Essa primeira etapa, envolveu a escolha dos tapes, entre os dias 10 e 13 de março, e a mixagem do material selecionado, entre os dias 03 e 07 de abril, e rendeu a primeira versão do álbum Get Back, tal qual montado por Glyn Johns, que seguiu o seguinte setlist:

  1. Get back
  2. Teddy boy,
  3. Two of us
  4. Dig a pony
  5. I’ve got a feeling
  6. The long and winding road
  7. Let it be
  8. Rocker
  9. Save the last dance for me
  10. Don’t let me down
  11. For you blue
  12. Get back (reprise)
  13. The walk

Entre as especificidades dessa primeira versão do álbum, está a presença de dois covers, Save the last dance for me e The walk, além de uma jam session, Rocker; e duas versões da canção Get back, incluindo uma padrão e outra mais solta, marcada por uma improvisação de vocal de McCartney com uma marcante risada – a mesma usada no filme Let it Be nos créditos finais. Também não veria a versão final a canção Teddy boy, a qual Johns gostava bastante.

Além das faixas selecionadas para o álbum, Johns também mixou outras, como duas versões de Dig it (uma mais curta, outra mais longa) e uma de Maggie Mae, a infame canção tradicional de Liverpool sobre uma prostituta; além de uma lista de covers que não seriam usados, como Shake, rattle and roll, Kansas City, Miss Ann, Lawdy miss clawdy, Blue suede shoe e You really got hold on me – boa parte delas seriam mostradas rapidamente no filme Let it Be.

Glyn Johns e Jimmy Page.

Um resultado concreto dessa primeira rodada de Johns se deu no dia 07 de abril, quando foi mixado o compacto Get back/ Don’t let me down, que os Beatles escolheram para ser seu novo lançamento, chegando às lojas no dia 11 de abril. O disquinho teria a especificidade de não trazer – pela única vez na história da banda – o crédito de produtor, porque o próprio grupo não ficou confortável com o imbróglio dos papeis de George Martin, que oficialmente produziu as sessões de Get Back/ Let it Be, e de Glyn Johns, que foi quem realmente pôs a mão na massa, cuidou da engenharia de som, selecionou e mixou as faixas.

O Beatles na sala de controle do estúdio da Apple, com George Martin e Yoko Ono.

Outra coisa curiosa é que o single Get back/ Don’t let me down foi creditado a The Beatles with Billy Preston, única vez em que isso aconteceu e que, sem dúvidas, foi algo muito importante para a carreira de Preston, que se lançaria como cantor e compositor naquele mesmo ano apadrinhado pelos Beatles na Apple Records. O compacto do quarteto de Liverpool chegou ao primeiro lugar das paradas nos dois lados do Atlântico.

Voltando ao álbum Get Back, não há detalhes conhecidos, pois não ficaram registros, porém, provavelmente, Glyn Johns prensou um acetato – uma versão barata de LP de vinil, usado para demos – e passou para os Beatles a primeira versão do álbum Get Back, que ficou conhecido entre os fãs como Compilation 1. A banda não gostou e repassou algumas instruções do que queria para Johns que voltou ao trabalho.

Starr, Harrison e Lennon nos estúdios de Abbey Road.

Enquanto isso, no dia 14 de abril, os Beatles retornavam aos estúdios, também indo para o Olympic Studios, para o que seria o início das gravações de Abbey Road. Entre as faixas desses primeiros dias, estava Old brown shoe, uma das canções de George Harrison tentadas nas sessões de Get Back e que não havia ganho sua versão final, agora, era gravada de modo apropriado e terminaria lançada também single, no Lado B de The Ballad of John Yoko.

Apesar do conceito das Get Back Sessions ser o da banda tocando ao vivo, havia problemas. Por exemplo, até o fim, George Harrison não definiu bem o solo de guitarra de Let it be. Nenhuma das versões escolhidas por Glyn Johns tinha um bom solo, então, ficou decidido fazer um novo. Em 30 de abril, Harrison sozinho gravou um novo solo nos estúdios de Abbey Road, extremamente simples, mas definido.

De volta ao Olympic Studios, Johns trabalhou em uma nova mixagem e montagem do material entre os dias 02 e 06 de maio, com o produtor montando a segunda versão do álbum Get Back, que os fãs chamam de Compilation 2, que tinha o seguinte setlist:

  1. One after 909
  2. Rocker
  3. Save the last dance for me
  4. Don’t let me down
  5. Dig a pony
  6. I’ve got a feeling
  7. Get back
  8. For you blue
  9. Teddy boy
  10. Two of us
  11. Maggie Mae
  12. Dig it
  13. Let it be
  14. The long and winding road
  15. Get back (reprise).

A Compilation 2 era bastante similar à anterior, mas com algumas pequenas diferenças nas faixas, com a inclusão de Dig it e Maggie Mae, enquanto alterava principalmente aspectos de mixagem. Os Beatles – ou pelo menos Lennon e McCartney – compareceram ao Olympic Studios nos dias 07 e 09 de maio para escutar o trabalho e fizeram algumas recomendações.

Naquele ponto, os Beatles pareciam confiantes de que o álbum sairia logo, pois contrataram o fotógrafo Angus McBean, que tinha produzido a capa do primeiro álbum da banda, Please Please Me (1963), e repeti-la com o visual de então dos músicos. McBean voltou ao prédio de escritórios da gravadora EMI, na Manchester Square, em Londres, e verificou que não podia repetir exatamente a mesma posição de antes, porque havia sido construída uma nova varanda no lugar.

Porém, ciente da importância dos Beatles, a EMI simplesmente mandou demolir a varanda nova e, duas semanas depois, McBean voltou para verificar que estava tudo pronto para a foto. Os Beatles foram fotografados no dia 13 de maio e o design de capa foi feito para replicar exatamente a capa de Please Please Me, com as mesmas cores e fontes, mas agora, referindo a Get Back. A capa não seria usada, mas terminaria, anos depois, ilustrando a coletânea The Beatles: 1967-1970, de 1973.

Quanto às modificações solicitadas, o processo dessa vez foi mais rápido e, entre os dias 15 e 28 de maio, Glyn Johns fez a terceira mixagem do álbum Get Back, a Compilation 3, que foi prensada basicamente com a mesma lista de faixas, mas mudanças sonoras.

  1. One After 909
  2. Rocker
  3. Save The Last Dance For Me
  4. Don’t Let Me Down
  5. Dig A Pony
  6. I’ve Got A Feeling
  7. Get Back
  8. For You Blue
  9. Teddy Boy
  10. Two Of Us
  11. Maggie Mae
  12. Dig It
  13. Let It Be
  14. The Long And Winding Road
  15. Get Back (Reprise)

Daí em diante a história fica nebulosa. O fato é que Glyn Johns não voltaria a trabalhar nesses tapes até dezembro de 1969, ou seja, sete meses depois (!). Não se sabem os motivos disso, além do fato dos Beatles estarem insatisfeitos com o material.

Glyn Johns numa mesa de controle nos anos 1970.

Talvez, os Beatles estivessem ocupados demais gravando Abbey Road para regressar a esse assunto. Talvez, a produção musical parou na espera de que a edição do filme ficasse pronta. Talvez, Glyn Johns ficou ocupado gravando o segundo álbum do Led Zeppelin e saindo em turnê com eles e com os Rolling Stones.

A Longa e Sinuosa Estrada: O Fim dos Beatles

O fato é que os Beatles estavam acabando antes de Glyn Johns terminar o trabalho. As gravações de Abbey Road terminaram no dia 20 de agosto de 1969 e dois dias depois a banda fez a sua última sessão de fotos. Naquele ponto, as relações do grupo estavam muito deterioradas por causas dos problemas da Apple Corps. e as disputas internas.

John Lennon já havia começado a lançar compactos solo – lançando Give peace a change em junho e Cold turkey em outubro, com ambas chegando às paradas – e, após a experiência de tocar ao vivo sozinho no Rock’n’Roll Circus dos Rolling Stones no ano anterior, ele repetiu a experiência se apresentando com a Plastic Ono Band no Rock and Roll Revival Festival, em Toronto, em 13 de setembro de 1969.

Uma das últimas fotos dos Beatles reunidos, em 1969.

Numa reunião na Apple no dia 22 de setembro, enquanto discutiam os termos da renovação do contrato do grupo com a gravadora EMI, McCartney sugeriu que os Beatles voltassem a tocar ao vivo, pensando que isso seria bom para o grupo. O Festival de Woodstock tinha ocorrido no mês anterior e os shows e festivais se tornavam um elemento crucial dentro do novo panorama do rock.

Mas Lennon não estava interessado e informou que estava fora da banda, que era o fim.

McCartney ficou furioso e desesperado, mas o empresário Allen Klein pediu a Lennon que não tornasse a decisão pública para não atrapalhar no novo contrato e ele aceitou. Mas para Lennon a decisão estava tomada.

McCartney e mesmo Harrison pensaram que o companheiro iria reconsiderar com o tempo.

Mas mesmo com a banda “terminada”, os processos seguiam em frente e, àquela altura, a edição do filme Get Back estava bem adiantada. Com o diretor Michael Lindsay-Hogg definindo a estrutura básica do filme, os Beatles decidiram que o álbum correspondente deveria seguir mais ou menos a mesma lista de faixas, pois tecnicamente era sua trilha sonora.

Por isso, Glyn Johns foi chamado de volta para reestruturar pela quarta vez o álbum Get Back. As instruções agora eram eliminar todos os covers e como o filme trazia performances de I me mine e Across the universe (ambas ainda nos ensaios de Twickenham), estas deviam ser acrescentadas. O filme trazia performances de Octopus garden e Maxwell silver hammer, também, mas como ambas já tinham sido lançadas em Abbey Road, estavam dispensadas.

No dia 15 de dezembro, Johns retornou ao Olympic Sound Studios para retomar o trabalho, mas tinha dois grandes problemas: como I me mine e Across the universe, no filme, haviam sido tocadas em Twickenham, não tinham sido gravadas em uma mesa de vários canais, mas apenas em um captador stereo de som para cinema. Não dava editar um álbum com esse tipo de gravação.

Para Across the universe, havia uma solução: a canção fora gravada em fevereiro de 1968 durante as sessões que renderam o compacto Lady Madonna/ The inner light, e da qual sobraram Across the universe e Hey Bulldog. Esta última acabaria no filme Yellow Submarine, mas a outra ficou inédita.

É interessante, porque Lennon gostava dela e podia tê-la lançado no White Album, mas não o fez. Ele terminou doando a faixa para a WorldWild Found (WWF), uma instituição beneficente que protege animais silvestres, por isso, uma sessão em 02 de outubro de 1969 acrescentou sons de animais como pássaros voando. Lennon produziu uma versão para o álbum beneficente, acelerando a gravação, mas decidiu que a faixa também devia aparecer no Get Back.

Nas sessões de mixagem dos dias 15 e 21 de dezembro, Glyn Johns editou uma nova versão a partir dos takes originais de 1968.

Mas para I me mine não tinha jeito. Os Beatles tinham que gravar uma versão para o álbum ou nada. Seria a única forma de manter a tradição de dar duas faixas para Harrison cantar existente desde o início da carreira da banda.

Então, foi agendada uma nova sessão de gravação dos Beatles, aquela que seria a última de toda a história do grupo. No dia 03 de janeiro de 1970, basicamente um ano após o início do projeto Get Back, George Harrison, Paul McCartney e Ringo Starr se reuniram nos estúdios de Abbey Road com George Martin e Glyn Johns, mas John Lennon não se fez presente. Ele manteve sua decisão de que estava fora da banda.

O trio Harrison, McCartney e Starr gravou uma boa versão de I me mine, mas a fizeram de modo tradicional, usando overdubs, rompendo com o aspecto “ao vivo” que marcava o projeto Get Back. Àquela altura isso não importava mais.

Raro momento de união entre Harrison e McCartney.

Por isso, no dia 04 de janeiro, o trio retornou a Abbey Road para realizar uma série de overdubs em Let it be, que tinha sido escolhida para ser o novo compacto da banda, usado para divulgar (finalmente) o lançamento do álbum e do filme. Let it be (a canção) ganhou uma maquiagem completa nesse dia, com Harrison gravando um novo solo de guitarra (dessa vez com efeitos de distorção da caixa de som Leslie), novos trechos de piano por McCartney, mais trechos de bateria de Starr e até uma peça de orquestra. Paralelamente, Harrison também refez os vocais principais de For you blue.

Feitas as novas gravações, no dia 05 de janeiro de 1970, Glyn Johns mixou as últimas faixas e editou a quarta versão do álbum Get Back, a Compilation 4. a diferença básica entre as anteriores é o acréscimo de Across the universe e I me mine, mas todas as canções foram remixadas.

  1. One After 909
  2. Rocker
  3. Save The Last Dance For Me
  4. Don’t Let Me Down
  5. Dig A Pony
  6. I’ve Got A Feeling
  7. Get Back
  8. Let It Be
  9. For You Blue
  10. Two Of Us
  11. Maggie Mae
  12. Dig It
  13. The Long And Winding Road
  14. I Me Mine
  15. Across The Universe
  16. Get Back (Reprise)

Mas este era o fim da estrada. Bom, pelo menos para Glyn Johns. Os Beatles – e em particular, Lennon e Harrison – não estavam satisfeitos com o resultado e rejeitaram a quarta versão do álbum e dispensaram os trabalhos do famoso produtor. Para chamar outro ainda mais famoso!

Ainda assim, a canção Let it be foi lançada como o novo single dos Beatles em 06 de março de 1970, dessa vez, creditado como produzido por George Martin e com engenharia de som de Glyn Johns. O Lado B do compacto foi uma velha canção improvisada gravada em 1967, You know my name (look up at the number), em nada relacionada ao projeto.

Glyn Johns seguiu adiante, continuando a trabalhar com Led Zeppelin, Rolling Stones e The Who, e também gravando The Eagles e Eric Clapton, nos anos 1970.

Não me Decepcione: Phil Spector produz a versão final

John Lennon estava tocando sua vida e, depois de ter lançado Cold turkey, em outubro de 1969 e feito sucesso, prosseguia sua carreira solo. Em 27 de janeiro, ele soube que o badalado produtor norteamericano Phil Spector estava em Londres e o convidou imediatamente para conduzir a sessão de gravação de sua nova canção, Instant Karma!, nos estúdios Abbey Road. George Harrison também se fez presente, tocando violão.

John Lennon performing Instant Karma on Top Of The Pops, with publicist BP Fallon holding tambourine on far left, Yoko Ono wearing blindfold and bassist Klaus Voorman back centre, 11th February 1970. (Photo by Ron Howard/Redferns)

Spector era conhecido por ter moldado a música pop nos EUA com um estilo grandiloquente de produção. Comandando atrações como The Ronettes, The Crystals (grupos vocais femininos que influenciaram bastante os Beatles) e The Rightouts Brothers, Ike & Tina Turner e muitos outros, Spector conseguiu uma coleção de sucessos e criou a chamada Wall of Sound (parede sonora), na qual reunia numerosos times de músicos para reforçar o som de cada instrumento, produzindo uma sonoridade muscular, que preenchia todos os espaços. Seu estilo de produção foi copiado, por exemplo, por Brian Wilson, dos Beach Boys.

Lennon e a esposa Cynthia Powell com Phil Spector no voo para os Estados Unidos.

Os Beatles já conheciam o produtor há muito tempo. Logo no início da Invasão Britânica, Spector passeou por Londres e conheceu os músicos, inclusive, trabalhando com os Rolling Stones. Quando os Beatles foram fazer sua primeira turnê nos Estados Unidos, em fevereiro de 1964, por coincidência, Spector estava no mesmo voo e acompanhou o grupo na sua chegada, mas realmente só trabalharam juntos a partir de 1970, com o compacto de Lennon, que dali em diante passaria vários anos tendo Spector como parceiro de trabalho, inclusive, do álbum Imagine, enquanto o produtor também foi o responsável pelo primeiro álbum solo de George Harrison, All Things Must Pass, bem como o Concert For Bangladesh.

Lennon gostou bastante de trabalhar com Spector – eles continuariam a parceria em vários álbuns da carreira solo dele – e convenceu Harrison de que o produtor era o nome certo para finalizar o álbum Get Back. McCartney também aceitou e naquele momento estava mais preocupado em gravar seu primeiro álbum solo. Lennon resumiu a situação pouco tempo depois na entrevista para a revista Rolling Stone:

{Spector] sempre quis trabalhar com os Beatles e foi dado para ele o maior monte de bosta má gravada com maus sentimentos em tudo e fez alguma coisa daquilo. Ele fez um ótimo trabalho.

Phil Spector, lendário produtor norte-americano.

Spector assumiu o trabalho com seriedade e se debruçou por 10 dias sobre o material das fitas. Começou no dia 23 de março, na Sala 4 de Abbey Road, remixando cada uma das canções. Seu estilo era diferente e ele aplicava efeitos, reverb, eco e muitas outras truncagens para tornar o som mais encorpado. E de fato, isso é perceptível na versão final do álbum.

Spector fez modificações profundas no material prévio de Glyn Johns. Em primeiro lugar, ao contrário deste, selecionou 3 das 5 faixas do show do telhado para o disco, mantendo com isso algo do espírito original do projeto. Em Let it be, usou o novo solo de guitarra gravado em 4 de janeiro, aplicando ainda mais efeitos de distorção e o deixando bem alto, também dando ênfase às cordas e sopros gravados por George Martin; além de ter prolongado a faixa com a repetição do refrão no fim. Encurtou Dig it de 6 minutos (que já era um resumo da versão original em 12 minutos) e a transformou apenas em uma vinheta de menos de um minuto.

A pedido de McCartney, Spector excluiu Teddy boy do setlist, porque o baixista já iria lançar sua própria versão da faixa em seu álbum solo. Também ficou decidido que o cover Save the last dance for me e a jam session Rocker seriam excluídos. Em Across the universe, ao contrário da versão do álbum beneficente, Spector diminuiu a velocidade da canção, deixando-a mais lenta. E em I me mine repetiu os 55 segundos finais para que a canção tivesse mais de 2 minutos.

Lennon e Spector gravam vocais juntos no álbum Imagine, em 1971.

Com certeza orientado por Lennon, Spector criou uma série de piadinhas no disco, trazendo diálogos humorísticos – quase sempre do próprio Lennon – e quase sempre antes das canções de McCartney, tirando sarro do baixista.

No dia 01 de abril de 1970, Spector reuniu uma orquestra de 33 peças para acrescentar em três faixas: The long and winding road, Across the universe e I me mine. Richard Hewson escreveu a partitura e conduziu a orquestra, mas Spector trouxe o estilo “americano” de produção: só comunicou os músicos e os pagou por duas faixas e, na hora, tentou emplacar a terceira. Os músicos britânicos, muito organizados e com um sindicato ativo, simplesmente se recusaram e já iam embora até Spector voltar atrás e garantir o pagamento da terceira canção.

Phil Spector e George Harrison nas gravações de All Things Must Pass.

Além disso, Spector se mostrou impaciente e até grosseiro com os músicos, o que lhe rendeu uma “chamada” de Ringo Starr, o único Beatle presente, que o puxou de lado e pediu para ter calma. Starr estava presente porque o produtor queria que ele tocasse bateria junto à orquestra para dar mais força a The long and winding road, assim como um guitarrista anônimo.

A mudança em The long and winding road se mostraria a mais polêmica de todas entre os fãs e Paul McCartney.

Spector terminou as mixagens no dia 02 de abril e mandou cópias para os Beatles, Lennon, Harrison e Starr se deram por satisfeitos, mas McCartney, não. Porém, o baixista não tinha mais poder de veto e, como minoria, foi vencido. Este ato foi provavelmente a gota d’água para McCartney também decidir “sair” do grupo.

Spector e Lennon em 1973.

Outro processo que correu nesses primeiros dias de abril foi a decisão por mudar o nome do álbum e do filme de Get Back para Let it Be. Apesar ter sido Get Back o tempo todo, àquela altura a canção Get back já tinha sido lançada como compacto há quase um ano e lançar o filme e o disco com esse mesmo título daria uma ideia “velha”. Let it Be era o novo compacto e a canção mais comercial do disco, então, foi a nova escolha.

A data de lançamento do álbum ficou agendada para 08 de maio de 1970, mas Lennon e Harrison descobriram que McCartney havia agendado o lançamento de seu primeiro álbum solo para menos de um mês antes, em 16 de abril. Ringo Starr foi enviado em uma missão para ir na casa do colega e o convencer a adiar o lançamento do disco solo e McCartney explodiu, expulsando o baterista de sua casa.

Furioso e magoado, McCartney não apenas manteve a data de lançamento do disco, justamente chamado McCartney, como ainda produziu uma entrevista publicitária para divulgá-lo e a publicou no dia 10 de abril de 1970 com a mensagem clara: os Beatles tinham acabado!

Mas apesar de tudo, o álbum Let it Be chegou nas lojas no dia 08 de maio e foi um grande sucesso, chegando ao primeiro lugar das paradas tanto do Reino Unido quanto nos EUA. Obviamente auxiliado pelo fato dos Beatles terem terminado, nos EUA, o álbum recebeu mais de 3 milhões de pedidos antecipados, o que foi um recorde absoluto.

Também nos EUA, como tinha um mercado mais agressivo, The long and winding road foi lançada como um segundo compacto e chegou ao 1º lugar.

A primeira edição de “Let it Be” veio em um box com um livro de fotografias.

Uma curiosidade é que, na Inglaterra, o álbum Let it Be foi lançado em um pacote especial, com um livro de fotografias (captadas por Ethan Russell, autor da maioria das imagens que compõem este post) e custando 1 libra a mais do que o comum. O disco só foi lançado no Reino Unido em uma versão mais simples e barata em dezembro de 1970.

Você Consegue Encarar?: O Álbum Let it Be faixa a faixa

Vamos agora analisar o álbum Let it Be em sua versão oficial, faixa a faixa.

TWO OF US

(John Lennon, Paul McCartney)

  • John Lennon: Vocais, violão, assobio
  • Paul McCartney: Vocais principais, violão
  • George Harrison: Guitarra
  • Ringo Starr: Bateria

O álbum Let it Be começa com uma piada suja de John Lennon:

“I dig a pigmy by Charles Hawtrey and the deaf aids. Phase one, in which Doris gets her oats”.

Curiosamente, a tal frase foi originalmente gravada em meio aos ensaios de Dig a pony, mas foi posicionada por Lennon e Spector antes desta canção de abertura. A menção à masturbação feminina no fim dá uma malícia inexistente à tocante letra de Two of us, a balada folk de McCartney sobre sua relação com Linda Eastman. O tom saudosista faz muitos acharem que a letra – afora suas aspirações românticas – serve à própria relação entre Lennon e McCartney.

Além de uma metáfora à jornada dos dois compositores-chefe da banda, muita gente viu também um tipo de singela despedida, pois é um bonito momento em que Lennon e McCartney dividem as vozes e o violão em um dueto de verdade, como há algum tempo não faziam, e não só o esquema de backing vocals. McCartney faz o vocal principal em seu tom normal de canto, mas Lennon acompanha com um tom mais grave a aberto, usando um truque de garganta. Ao longo do disco, a dupla realiza outros duetos, como em One after 909 ou mesmo em Maggie Mae, mas Two of us é o mais efetivo deles.

A banda toca Two of us no filme Let it Be.

A canção começou a ser tocada pela banda já no primeiro dia do projeto, em 02 de janeiro de 1969, e seguiu por todas as sessões nos dias seguintes. Curiosamente, no início, Two of us era acelerada em um rock de meio tempo – o filme Let it Be mostra uma versão desse tipo gravada no dia 06 de janeiro. Inclusive, foi nessa mesma sessão em que ocorreu a famosa briga entre McCartney e Harrison, que também aparece no filme.

Two of us ganhou mais corpo e estrutura (com o arranjo acústico) no dia 24 de janeiro, quando foi tocada 21 vezes – uma das quais aparece no Anthology III. Outro take desse dia foi o selecionado para a versão de Get Back de Glyn Johns. Mas Phil Spector preferiu um take mais polido do último dia do projeto, 31, quando foi tocada 7 vezes. O take escolhido foi o mesmo que está no filme, embora Spector tenha editado o assobio de Lennon, mantendo as melhores partes.

DIG A PONY

(John Lennon, Paul McCartney)

  • John Lennon: Vocais, guitarra base
  • Paul McCartney: Backing vocals, baixo
  • George Harrison: Guitarra solo
  • Ringo Starr: Bateria
  • Billy Preston: Piano elétrico

Dig a pony aparece no disco com sua versão ao vivo no The Rooftop Concert, o show do telhado. Spector manteve o início falso, quando o grupo vai começar a tocar e Ringo Starr pede para parar, porque ainda estava guardando os seus cigarros.

A letra é meio enigmática, mas trata de uma pessoa (Yoko Ono) que pode fazer tudo. O refrão “All I want is you” era na verdade outra canção separada, que Lennon uniu à primeira, o que dá a singela característica dela ter um compasso terciário nos versos e quartenário no refrão, do mesmo modo que outra composição de Lennon, Lucy in the sky with diamonds. O ritmo da faixa é muito singular e é difícil de ser tocado por uma banda e usa um truque que os Beatles usaram algumas vezes, sempre com ótimo efeito: Lennon e Harrison fazem juntos em suas guitarras o riff da canção (usado na introdução e na finalização), com o primeiro nas notas graves e o segundo nas agudas, Lennon na Epiphone Cassino e Harrison na Fender Telecaster.

Dig a pony foi trazida por Lennon ainda nos ensaios de Twickenham, mas não foi desenvolvida seriamente até o primeiro dia de trabalho (e gravação) no Apple Studio, em 21 de janeiro de 1969, quando ganhou 21 takes, num dos quais Lennon fala a frase que abre o disco. No dia seguinte, com a adesão de Billy Preston no piano, a canção ficou mais estruturada, de modo que um dos takes aparece no Anthology III. Mas seria no telhado, no dia 31, que a faixa obteve sua performance definitiva.

Ainda assim, a versão ao vivo no telhado sofreu uma pequena edição de Phil Spector, que retirou o verso “All I want is you”, que abre e encerra a faixa. Na versão ao vivo – e isso pode ser visto no filme – no riff final Lennon entra um pouquinho antes e isso foi corrido por Spector para o álbum. Em contrapartida, o produtor diminuiu na mixagem o piano de Billy Preston, que se torna mais evidente na versão que está no Let it Be… Naked.

ACROSS THE UNIVERSE

(John Lennon, Paul McCartney)

  • John Lennon: Vocais, violão de 12 cordas, órgão, guitarra com pedal Wah-Wah
  • Paul McCartney: Violão, piano
  • George Harrison: Cítara, tambura
  • Ringo Starr: Percussão
  • George Martin: Órgão
  • Músicos estúdio: Orquestra de 33 peças e coro de 8 vozes

Across the universe tem a mais complexa história de gravação do disco. Composta por Lennon no final do ano de 1967, inspirado nas lições do Maharishi Yogi, é uma balada folk com uma letra muito interessante e uma métrica muito boa. O pré-refrão “Jai guru deva, om” significa “vida longa a deus” (mais a sílaba sagrada hindu “om”) e era o mantra pessoal que Maharishi deu a Lennon para meditar. O refrão “nada vai mudar meu mundo” era uma referência ao poder da meditação.

Os Beatles decidiram ir para a Índia e fazer o curso de meditação transcendental do Maharishi, então, antes de ir, passaram alguns dias nos estúdios de Abbey Road para gravar um compacto para ser lançado enquanto estavam lá. As sessões renderam o single Lady Madonna/ The inner light, mas também gerou Across the universe e Hey bulldog.

Across the universe começou a ser gravada no dia 04 de fevereiro de 1968 (um ano antes do projeto Get Back) no fim da sessão e foram gravados dois takes. Embora a estrutura da canção já estivesse pronta, os Beatles ainda estavam testando o arranjo. O take 2 foi lançado no Anthology III e mostra Lennon e McCartney nos violões, Harrison na cítara e Starr na percussão. No dia seguinte, o grupo gravou mais 4 takes e o último foi definido como a master.

Foram feitos vários overdubs no dia 06, incluindo a guitarra com pedal Wah-Wah tocada por Lennon e um piano por McCartney, o que mostra como o grupo não sabia ao certo que “cara” dar a faixa. A dupla até convidou duas fãs dos Beatles que faziam virgília na frente dos estúdios de Abbey Road – uma delas a brasileira Lizzie Bravo – para entrar e gravar backing vocals.

A canção ficou inacabada ainda assim e, não se sabe por que motivo ficou de fora do White Album e permaneceu inédita. Nas sessões de Get Back, Lennon resolveu trazer a faixa de volta, agora tocada com guitarras, começando no dia 06 de janeiro de 1969, chegando a ser tocada 12 vezes no dia seguinte, outras 12 no dia 09, mas não estava funcionando e foi deixada de lado.

Em 02 outubro de 1969, a canção foi resgatada, pois Lennon a doou para um disco beneficente do World Wide Found (WWF), motivo pelo qual foram acrescidos sons de animais na abertura e fechamento da faixa. O próprio Lennon participou da mixagem, criando uma versão bem diferente: ele acelerou a música e usou o piano de McCartney e os backings vocals das fãs. Esta versão seria lançada em dezembro, mas como era apenas um álbum beneficente, não ficou tão conhecida. Hoje, pode ser ouvida na coletânea de singles e Lados B, Past Masters.

Mas isso parece ter despertado o interesse de Lennon nela, e um take da canção em Twickenham terminou no filme Let it Be, o que motivou que a faixa fosse para versão final do disco. Entre dezembro e janeiro, Glyn Johns produziu um mix da canção resgatando suas características acústicas e despojadas.

Porém, Phil Spector decidiu dar um ar grandiloquente, acrescentando a orquestra de 33 peças e o coro, desacelerando a velocidade – para ela ficar mais melosa – e combinando a cítara e tambura (dois instrumentos de corda indianos) de Harrison com os violões de Lennon e McCartney, sendo o de Lennon um violão de 12 cordas, que faz a introdução. Mas também resgatou a guitarra com pedal Wah-Wah para dar um reforço no refrão.

A superprodução de Spector atrapalhou a singeleza da canção, mas uma versão mais bonita – e no tempo certo – foi lançada no Let it Be… Naked, mais próxima da mixagem de Glyn Johns.

I ME MINE

(George Harrison)

  • Paul McCartney: Backing vocals, baixo, piano, órgão
  • George Harrison: Vocais, guitarras, violão
  • Ringo Starr: Bateria
  • Músicos de estúdio: Orquestra de 33 peças

Por uma série de fatores, I me mine terminou ocupando a incrível posição de ser a última canção gravada pelos Beatles, embora, sem a participação de John Lennon.

A letra ácida da canção, criticando o egoísmo – “Oh, o dia todo, eu, meu, meu/ Oh, a noite toda: eu, meu, meu” parece uma mensagem clara e certeira para Paul McCartney e seu mundo encantado durante as Get Back Sessions, todas focadas nele. Não é a melhor canção de Harrison, porém, por algum motivo foi ela que sobreviveu a todo esse período, e não outras faixas do autor que foram tocadas, inclusive, de modo mais insistente durante as sessões, como All thing must pass e Isn’t it a pity (ambas terminariam no primeiro álbum solo do compositor) ou mesmo Window, window (jamais lançada).

Apesar de uma ou outra tentativa isolada, I me mine basicamente só foi tocada no dia 08 de janeiro de 1969, quando os Beatles fizeram 41 takes da canção, um dos quais pode ser visto no filme Let it Be. Contudo, como já escrito, as sessões em Twickenham não foram captadas por uma mesa de canais profissional e aquelas gravações não podiam ser usadas em um disco. Daí que foi necessário efetivamente gravar a canção apropriadamente. Não teria sido mais simples polir uma das tentativas de All things must pass? Não sabemos…

O fato é que George Harrison, Paul McCartney e Ringo Starr regressaram aos estúdios da EMI em Abbey Road, em 03 de janeiro de 1970, para aquela que seria a última sessão de gravação dos Beatles, ainda que John Lennon não tenha ido, fazendo valer sua decisão de quatro meses antes de que estava fora da banda. A faixa foi gravada com overdubs, com Harrison tocando duas guitarras e McCartney tocando baixo e órgão, rompendo com a lógica “ao vivo” do conceito original do projeto. A versão da banda, ainda assim, tinha apenas um minuto e vinte segundos.

Depois, o produtor Phil Spector adicionou a orquestra de 33 peças e o coro e ainda replicou o último estrofe e refrão, adicionando mais 55 segundos à canção e lhe dando pouco mais de 2 minutos de duração.

DIG IT

(John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr)

  • John Lennon: Vocais, baixo
  • Paul McCartney: piano
  • George Harrison: Guitarra
  • Ringo Starr: Bateria
  • Billy Preston: Órgão

No álbum Let it Be, Dig it não é nada mais do que uma pequena vinheta de poucos segundos, o que é irônico para uma canção que, originalmente, teve 12 minutos de duração. Na verdade, esta faixa de John Lennon, creditada a toda a banda apenas por se tratar de uma improvisação, era mais uma brincadeira de músicos do que qualquer outra coisa.

Dig it foi tocada pela primeira vez no dia 24 de janeiro, como um tipo de blues rock com Lennon tocando uma guitarra slide, num dia em que ele experimentou bastante essa técnica – que foi providencial para que no dia seguinte a usasse na gravação definitiva de For you blue de Harrison. Foi nessa primeira tentativa do dia 24 que Lennon disse a frase:

“That was can you dig it by Georgie Wood, and now we’d like to do Hark the angels come” (Esta foi Can you dig it? de Georgie Wood e agora gostaríamos de fazer Escutem os anjos que vêm).

No disco a frase foi colocada após Dig it e antes de Let it Be, o que a transformou em uma piada com a suposta religiosidade da faixa-título do álbum final, conforme veremos adiante.

A versão do álbum de Dig it foi gravada no dia 26 de janeiro de 1969, no meio de uma série de improvisações que o grupo fez enquanto tocava Let it be e The long and winding road (daí a formação com McCartney no piano e Lennon no baixo) que também trouxe vários covers de rock and roll que podem ser vistos tanto no filme Let it Be quanto no Anthology III, como Shake, rattle and roll e You really got hold on me.

Dig it nesse dia teve 12 minutos de duração de pura improvisação instrumental e pedaços de letra de Lennon. O trecho que foi editado para o álbum traz o autor brincando com siglas como FBI, CIA e BBC. O contexto da faixa – originalmente chamada Can you dig it? (você consegue encarar? Ou Você consegue aguentar?) – é sobre as lutas diárias que precisamos empreender para sobreviver, ainda que a letra seja pouco articulada, já que era só um improviso.

LET IT BE

(John Lennon, Paul McCartney)

  • John Lennon: Vocalização, baixo
  • Paul McCartney: Vocais, Vocalização, piano, marracas
  • George Harrison: Vocalização, guitarra
  • Ringo Starr: Bateria
  • Billy Preston: Órgão
  • Linda McCartney: Vocalização
  • Músicos de estúdio: 2 Violoncelos, 2 trombones, 1 saxofone tenor

Hoje, Let it be é uma das faixas mais famosas dos Beatles e foi um sucesso relativo quando lançada, mas é uma canção ao qual John Lennon e George Harrison sempre tiveram pouco apresso, pois interpretaram a mensagem de autoajuda e positividade relacionada à expressão Mother Mary (Mãe Maria) como uma ode cristã.

Na verdade, porém, é uma canção sobre a mãe de McCartney, que se chamava justamente Mary, o que a torna, também, bastante pessoal para o compositor. Enquanto andava estressado com os problemas da banda e da Apple, o baixista sonhou com sua mãe, aparecendo para ele e dizendo “vai tudo ficar bem”, como explica na autobiografia Many Years From Now. Ele não lembra se Mary falou “let it be” (deixa estar) no sonho, mas pensa que a expressão representa bem a mensagem que ela passou. Vale anotar que a expressão “deixa estar” não é muito comum na língua inglesa, mas era típica em Liverpool.

A mãe de McCartney era enfermeira e parteira e trabalhava no hospital de Liverpool e morreu de câncer em 1956, quando o músico tinha apenas 14 anos. Ele se refere a ela como Mother Mary porque seu pai casou novamente em seguida, e ele tinha como que duas mães, portanto.

Ter uma composição sobre sua mãe aparecer em sonho e lhe dizer que vai ficar tudo bem, apesar de como tudo parece ruim agora, tudo vai melhorar, marcou bastante McCartney. E é curioso, porque Lennon também escreveu tocantes canções sobre sua mãe – como Julia, que aparece no White Album ou Mother, que ele registrou em seu primeiro álbum solo, Plastic Ono Band, de 1970 – porém, enquanto Let it be constrói uma mãe bondosa que aparece em sonho para lhe dar conselhos com “palavras de sabedoria”, como diz a letra; a Mother de Lennon é acusada de lhe ter abandonado.

De qualquer modo, Lennon odiava a conotação religiosa (mariana e cristã) da canção, com Mother Mary fazendo uma alusão relativamente óbvia à Maria, mãe de Jesus. McCartney estava ciente dessa possível conexão, mas disse em entrevistas que não se importava e que se a letra ajudava as pessoas em momentos de dor e fé, ele estava bem com isso.

Let it be foi composta, pelo menos em termos de estrutura musical, ainda durante as gravações do White Album, em 1968, e McCartney já começou a montá-la para o projeto Get Back no dia 03 de janeiro de 1969, o segundo dia de ensaios, tocando-a sozinho no piano; enquanto a banda começou a mexer com ela no dia 08, para no dia 09 começar a ganhar sua estrutura, inclusive, com Lennon migrando para o baixo, tocando um Fender 6 Strings Bass Guitar.

Todavia, a canção só começou a ser trabalhada de modo mais intenso a partir do dia 25 de janeiro, já com o apoio de Billy Preston no órgão, quando foi tocada 18 vezes, uma das quais seria lançada no Anthology III, mas Let it be aparece praticamente pronta no dia 26, quando foi tocada 26 vezes; regressando de modo mais esparso nos dias 27 e 29.

A versão definitiva da faixa foi gravada no dia 31 de janeiro, o último do projeto Get Back. O take 27A foi escolhido como a master, embora no filme ele apareça misturado com a tentativa seguinte (take 27B). O take 27A, contudo, sofreria alguns overdubs mais tarde.

Enquanto Glyn Johns avançava nas mixagens do álbum Get Back, Paul McCartney achou que nenhum dos melhores takes tinha um bom solo de guitarra, então, George Harrison foi a Abbey Road e gravou um novo, bastante simples, apenas arpejando os acordes, no dia 30 de abril de 1969.

Porém, a canção permaneceu arquivada junto com o restante do material até que, as novas mixagens de Johns em dezembro daquele ano mostraram que Let it be precisava de alguns melhoramentos. Com McCartney e Martin decidindo que a faixa seria o novo compacto dos Beatles para promover o álbum vindouro, no dia 04 de janeiro de 1970, McCartney, Harrison e Starr voltaram ao estúdio para fazer alguns overdubs nas últimas sessões dos Beatles, nas quais John Lennon já estava ausente.

Naquele dia, Harrison gravou outro solo de guitarra, agora mais solado e agressivo, usando o pedal através do alto-falante Leslie, que tornava o som distorcido e oscilante. McCartney regravou os acordes descendentes de piano entre o verso e o refrão e pediu para Starr acrescentar uma sequência nos tons-tons da bateria no último estrofe, enquanto o próprio McCartney acrescentou a percussão de uma marraca.

As vocalizações usadas nos refrões estavam muito “secas” na versão original (como pode ser visto no filme), então, Harrison, McCartney e sua esposa Linda Eastman fizeram mais vocalizações, polindo com efeitos de estúdio. No fim, George Martin incluiu um set de orquestra com 7 peças.

McCartney e Martin mixaram essa nova versão adicionando as novas gravações – à exceção do solo agressivo de Harrison que foi deixado de lado em favor do outro mais antigo, do dia 30 de abril do ano anterior – e a canção foi lançada como single no dia 06 de março de 1970, chegando ao 1º lugar das paradas nos Estados Unidos, mas no Reino Unido, chegou apenas até o número 02.

Quando Phil Spector entrou para criar a versão final do álbum Get Back, os Beatles decidiram mudar o nome do projeto para Let it Be, e Spector criou uma nova versão para o álbum. A versão do disco – embora use a mesma gravação de base, de 31 de janeiro de 1969 – é significativamente diferente da versão do compacto.

Spector descartou o solo do dia 30 de abril de 1969 e usou o solo mais agressivo do dia 04 de janeiro de 1970, ainda ressaltando os efeitos para deixá-lo mais “pesado”. O produtor também aumentou o órgão de Billy Preston, deu mais ênfase aos overdubs de janeiro (tons-tons) e carregou de eco o ximbau da bateria no segundo estrofe. Por fim, aumentou o volume da orquestra na metade final da faixa e ainda prolongou a canção, repetindo o último refrão com a guitarra de contraponto ficando mais alta.

Os fãs dos Beatles se dividem na preferência entre a versão do compacto e a versão do álbum.

MAGGIE MAE

(Tradicional. Arranjo: John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr)

  • John Lennon: Vocais, violão
  • Paul McCartney: Vocais, violão
  • George Harrison: Guitarra
  • Ringo Starr: Bateria

Maggie Mae é uma canção tradicional “suja” sobre uma prostituta do porto de Liverpool que teria roubado seus clientes. Os Beatles a tocaram de brincadeira no dia 24 de janeiro de 1969, com Lennon exagerando seu sotaque nativo. A piada terminou no álbum como um tipo de vinheta encerrando o Lado A do álbum.

I’VE GOT A FEELING

(John Lennon, Paul McCartney)

  • John Lennon: Vocais, guitarra base
  • Paul McCartney: Vocais, baixo
  • George Harrison: Guitarra solo
  • Ringo Starr: Bateria
  • Billy Preston: Piano elétrico

I’ve got a feeling é uma canção bastante interessante dos Beatles: tem um modo mais pesado na instrumentação, um arranjo dinâmico, um toque de blues e uma genial intercalação vocal entre McCartney e Lennon, quando na parte final, cada qual canta sua própria melodia ao mesmo tempo. No disco, ela ainda funciona melhor ainda porque é a versão ao vivo no show do telhado, com o som aberto e a banda solta. Sensacional!

No Brasil, I’ve got a feeling ficou um pouquinho mais famosa – embora provavelmente muita gente nem saiba sua origem – porque foi adicionada como um tipo de introdução à versão da cantora Cássia Eller de Por Enquanto (de autoria de Renato Russo e lançada pela Legião Urbana), que foi um grande sucesso nos anos 1990. Eller faz o primeiro verso da canção dos Beatles na entrada e no encerramento de sua versão, dando uma levada de blues mais forte muito interessante.

I’ve got a feeling surgiu logo no início das sessões de Get Back e era literalmente duas canções distintas: uma de McCartney (a seção principal) e outra de Lennon, chamada Everybody had a hard year, que havia composto no fim de 1968. Lennon trouxe a sua seção já no dia 02 de janeiro de 1969 e McCartney mobilizou a banda para executar a sua parte, seguindo a estruturação da faixa nos dias seguintes, especialmente, no dia 07 quando foi tocada 14 vezes.

Quando as sessões mudaram de Twickenham para a Apple, a faixa já foi tocada de novo desde o primeiro dia, em 21 de janeiro. Com a adesão de Billy Preston, a canção ganhou sua faceta definitiva no dia 22, no qual foi tocada a versão que aparece no Anthology III, bem como as duas versões escolhidas por Glyn Johns para sua versão do álbum Get Back, já que ele usou uma e depois trocou por outra.

Apesar disso (ninguém sabia do futuro), a faixa continuou a ser tocada nos dias seguintes e, no dia 28, teve 17 takes, um dos quais com uma coda improvisada de 15 minutos, e alguns takes com Lennon nos vocais principais.

No The Rooftop Concert, I’ve got a feeling foi a terceira canção a ser tocada e esta foi a versão escolhida por Phil Spector para constar no álbum. Ela também é vista no filme Let it Be, dando destaque às reações das pessoas nas ruas no entorno do prédio. No show em si, os Beatles até tocaram um segundo take de I’ve got a feeling, mas ele não foi usado nem no disco nem no filme, prevalecendo mesmo a primeira tentativa.

Uma edição dos dois takes seria lançada no Let it Be… Naked, para dar um ar diferenciado.

ONE AFTER 909

(John Lennon, Paul McCartney)

  • John Lennon: Vocais, guitarra base
  • Paul McCartney: Vocais, baixo
  • George Harrison: Guitarra solo
  • Ringo Starr: Bateria
  • Billy Preston: Piano elétrico

One after 909 foi uma das primeiras canções escritas por John Lennon, em 1959, na era pré-histórica dos Beatles. Era sua brincadeira para compor uma canção sobre trens, no estilo do blues. A banda a tocou por anos no The Cavern Club e em Hamburgo, mas nunca a levaram muito a sério, porque a letra realmente não é nenhum primor. Uma demo dela gravada no ano de sua composição é mostrada no documentário The Beatles Anthology, de 1995.

Ainda assim, quando os Beatles estavam gravando seu terceiro compacto, From me to you, em março de 1963, One after 909 foi uma das faixas cotadas para compor o Lado B do single, de modo que foi gravada e um dos takes aparece no Anthology I. Depois disso, ela sumiu completamente do radar da banda.

Porém, ao começar o projeto Get Back, Lennon e McCartney começaram a pensar em gravar alguma(s) dessa(s) canção(ões) antigas como um símbolo da “volta às raízes” do conceito. Várias outras dessas canções adolescentes foram cogitadas no dia 03 de janeiro de 1969, o segundo dia do projeto, como Won’t you please say goodbye, Thinking of linking, I’ll wait ‘til tomorrow, Because I know you love me so… e One after 909. Esta última foi a que terminou escolhida e já ganhou sua nova feição (bem diferente daquela gravada em 1964) no dia 07 de janeiro, mesmo que outras daquelas velhas canções também tenham sido testadas posteriormente, como Too bad about sorrow, Woman, I lost my little girl e mais algumas.

Nas sessões da Apple ela regressou e entrou definitivamente no set list do projeto, tendo sido tocada nos dias 28 e 29 de janeiro, mas a versão que foi para o disco foi a show do telhado, no dia 30. One after 909 era a única faixa do concerto no álbum Get Back de Glyn Johns, mas no Let it Be de Phil Spector terminou se juntando a I’ve got a feeling e Dig a pony.

THE LONG AND WINDING ROAD

(John Lennon, Paul McCartney)

  • John Lennon: baixo
  • Paul McCartney: Vocais, piano
  • George Harrison: Guitarra
  • Ringo Starr: Bateria
  • Billy Preston: Órgão
  • Músicos de estúdio: Orquestra de 33 peças, coro de 8 vozes, guitarra

The Long and winding road se tornou a canção mais polêmica de todo o projeto e o objeto de discórdia maior entre Paul McCartney e o restante dos companheiros por causa das adições de Phil Spector (orquestra e coro).

Segundo diz em sua autobiografia, Many Years From Now, McCartney a compôs no fim de 1968 pensando em dá-la para o cantor Tom Jones gravar – um crooner ao estilo de Frank Sinatra. De fato é uma canção com toques de jazz e um uso meio rebuscado nos acordes, sendo claramente uma faixa de piano. Mas ele terminou trazendo aos ensaios em Twickenham e o grupo começou a trabalhar seriamente nela no dia 08 de janeiro de 1969, para no dia seguinte, Lennon migrar para o baixo de seis cordas para deixar a instrumentação mais completa.

Contudo, apesar do zelo de McCartney, o arranjo construído pelos Beatles demonstra certo desprezo de Lennon, Harrison e Starr pela faixa, cada qual com contribuições mínimas. Com a chegada de Billy Preston, a canção ganhou mais musculatura, com ele adicionando um órgão. A faixa foi mais trabalhada no dia 26 de janeiro, quando foi tocada 16 vezes e gerou a versão que (trazendo apenas os Beatles e Preston) apareceria no Anthology III, que é a mesma a qual Phil Spector adicionou a orquestra e o coro, como se vê no álbum Let it Be.

Apesar disso, a banda tentou fazer a versão definitiva da canção no dia 31 de janeiro, o último do projeto, na qual foi tocada 19 vezes, uma das quais aparece no filme Let it Be, a mesma que também apareceu no Let it Be… Naked.

Phil Spector gravou a orquestra e o coro no dia 01 de abril de 1970 e o overdub toma conta do arranjo da faixa em sua versão, com o piano de McCartney ainda perceptível, a nova bateria de Starr (gravada junto com a orquestra) com um pequeno destaque; e as contribuições de Lennon e Harrison bem discretas; enquanto que uma nova guitarra – a qual não se sabe quem tocou – aparece um pouco mais no fim.

É curioso que McCartney não tenha gostado do arranjo de orquestra da canção, quando o autor sempre foi adepto do uso de orquestras – desde faixas como Yesterday e Eleanor Rigby – e ainda compôs The long and winding road pensando em dá-la para Tom Jones, que sem dúvidas gravaria com uma orquestra. E não valia apelar para a “pureza” do projeto (sem overdubs, como se pensou no início), porque McCartney e George Martin haviam adicionado uma orquestra em Let it be.

Mas o fato é que McCartney ficou furioso com a intervenção e quis vetar o lançamento do álbum Let it Be produzido por Spector. Nesse momento, os outros três Beatles bateram o pé e McCartney foi voto vencido. Irado, apenas 10 dias depois da gravação do overdub de Spector, o baixista anunciou que estava fora da banda – e em consequência que ela tinha acabado.

Todavia, o arranjo de The long and winding road permaneceu como um gosto amargo para McCartney e foi o grande motivo para realizar o Let it Be… Naked, em 2003, na qual apresenta a versão despojada da faixa, apenas com os Beatles e o solo simpático de órgão de Billy Preston, a mesma vista no filme Let it Be. Alguns anos antes, em 1996, ele já tinha lançado a mesma versão do álbum original, mas sem a orquestra, no Anthology III. Mas a versão de Naked é mais bonita.

FOR YOU BLUE

(George Harrison)

  • John Lennon: guitarra slide solo
  • Paul McCartney: Piano
  • George Harrison: Vocais, violão
  • Ringo Starr: Bateria
  • Billy Preston: Piano elétrico

Esse blues simpático de George Harrison foi uma das muitas contribuições que trouxe para as sessões de Get Back, mas foi a única dessas contribuições originais a sair no álbum Let it Be – lembrando que I me mine foi regravada em 1970. Mantendo a estrutura do Blues (AAB) tem uma levada solta de Starr e a curiosidade de não ter baixo, com McCartney tocando um piano de base e Billy Preston fazendo uma linha de baixo no piano elétrico; mas tem o grande destaque na guitarra slide de John Lennon. Isso é curioso, já que nos anos seguintes Harrison se tornaria um grande adepto no slide até virar sua marca registrada na carreira solo.

Enquanto apresentava várias faixas possíveis, como All thing must pass e Let it down, Harrison trouxe For you blue pela primeira vez nas sessões do dia 07 de janeiro de 1969, mas foi tocada de modo mais sério dois dias depois, em 15 takes e ainda numa versão mais rock do que a final.

John Lennon começou a brincar com a guitarra slide no dia 24 de janeiro, já nos estúdios da Apple. Na verdade, era uma guitarra Hofner 5140 Hawaiian, uma lap steel guitar – uma guitarra de colo. O guitarrista testou o instrumento em várias faixas, como Get back, Her majesty e Dig it.

Mas no dia 25 de janeiro, os Beatles retomaram For you blue e criaram seu arranjo definitivo, com Lennon fazendo o slide. Tocada 28 vezes, dessa sessão saíram as versões que acabariam no Get Back de Glyn Johns, no Let it Be de Phil Spector, no filme Let it Be e no Anthology III, cada qual diferente uma da outra.

Além disso, no filme, For you blue marca a passagem do 1º para o 2º Ato, quando os Beatles saíram de Twickenham para a Apple, de modo que a introdução da faixa é exibida durante a famosa cena dos membros da banda chegando ao número 03 de Saville Row.

Contudo, Harrison alteraria o vocal principal da faixa, gravando um novo em 04 de janeiro de 1970, em sua última sessão com os Beatles, e na qual adicionou a frase “Go, Johnny, go” durante o solo, como que para dar destaque à participação de Lennon, e cita também Elmore James, um dos clássicos bluesman a usar o slide e que era a inspiração para o solo.

Por fim, uma curiosidade: no início da faixa no álbum é possível ouvir Lennon dizendo “Queens say not to pot-FBI smoking members” (A Rainha diz não para os membros do FBI fumantes de maconha), o único trecho gravado em Twickenham em todo o álbum Let it Be, gravado no dia 08 de janeiro e sem nenhuma relação com For you blue em seu contexto original.

GET BACK

(John Lennon, Paul McCartney)

  • John Lennon: Backing vocals, guitarra solo
  • Paul McCartney: Vocais, baixo
  • George Harrison: Guitarra base
  • Ringo Starr: Bateria
  • Billy Preston: Piano elétrico

Desde o início, ficou claro que Get back seria a estrela do projetoGet Back. É um bom rock dos Beatles, embora a letra não seja grande coisa – ainda que traga um tema interessante, tratando de preconceito de um modo leve e humorado, já que trata de dois personagens que podem ser um só, o homem JoJo e a “mulher” Sweet Loreta Martin. A letra não deixa claro, mas passa a impressão de estar falando da mesma pessoa.

Em termos de música, Get back tem um ritmo interessante, meio galopante – é quase uma marcha – tocada com o uso de repiques na bateria e tem um ponto central no piano elétrico de Billy Preston, que faz um dos solos. O solo de guitarra é de John Lennon. A faixa fez sucesso quando saiu em compacto – tendo Don’t let me down no Lado B – e chegou ao primeiro lugar das paradas tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos.

Visivelmente, Paul McCartney gostava bastante da canção, e Lennon parecia guardar algum apreço, pelo menos no que pode ser visto no filme Let it Be, talvez, empolgado por fazer a guitarra solo. Porém, anos mais tarde, numa entrevista para a revista Playboy, em 1980, Lennon afirmou que Get back era apenas uma versão um pouco melhorada de Lady Madonna, outra canção de McCartney lançada pelos Beatles no início de 1968.

A canção foi composta durante os primeiros dias do projeto e McCartney desenvolveu a ideia original baseada na canção Sour milk sea de George Harrison, que fora gravada pelo cantor Jackie Lomax em um dos lançamentos da Apple Records no fim de 1968. McCartney tocou baixo na gravação e no final, Lomax improvisa a melodia “Get back, get back”, que é muito similar ao que terminou na faixa dos Beatles.

Os Beatles começaram a brincar com ela no dia 07 de janeiro de 1969, e foi tocada de novo, ainda sem letra definitiva, no dia 09. Desde o início, a ideia da canção era falar sobre algum tipo de preconceito, orientado pelo refrão agressivo “get back, get back to where you once belonged” (volte para o lugar de onde veio). No dia 09, por exemplo, McCartney improvisou uma letra sobre a campanha xenófoba contra os paquistaneses vivendo na Inglaterra.

A canção deu um passo à frente no dia 10, quando George Harrison foi embora e abandonou os Beatles temporariamente. Nesse dia, o trio McCartney, Lennon e Starr tocou a canção furiosamente, quase como um hard rock, e foi quando Lennon começou a desenvolver as partes principais de guitarra para a faixa; repetindo a dose no dia 13, último dia dos ensaios de Twickenham.

John Lennon faz a guitarra solo em Get Back ao vivo no telhado.

Quando os Beatles retomaram o trabalho, agora nos estúdios da Apple e gravando o material de modo profissional, no dia 21, Get back não voltou imediatamente, sendo trabalhada a partir do dia 23 de janeiro, já com Billy Preston no piano e ganhando seus contornos mais definidos. Foi uma das versões deste dia que Glyn Johns selecionou para sua primeira versão do álbum Get Back.

Mas a banda continuou experimentando variações em cima da canção, como no dia 24, quando Lennon usou uma guitarra slide. Mas a versão que seria lançada foi gravada ao vivo no dia 27 de janeiro, numa longa sessão. Curiosamente, à esta altura, a canção tinha a coda instrumental após um final falso, mas no último take, que foi considerado o melhor, a banda esqueceu de tocar a coda. Este take foi usado nas versões tardias do álbum Get Back de Glyn Johns. Os Beatles continuaram buscando uma versão melhor e a tocaram de novo no dia 28 e conseguiram um ótimo take nesse dia.

Get back foi a grande estrela do show do telhado no dia 30 de janeiro e foi tocada três vezes. Primeiro como um ensaio para testar o equipamento de áudio e de filmagem; uma segunda vez “para valer” (que foi exibida no filme Let it Be e usada como videoclipe) e uma terceira para dar mais imagens às câmeras e na qual o assistente dos Beatles, Mal Evans, termina desligando os amplificadores das guitarras, e depois, se arrepende e liga de novo (que foi lançada no Anthology III como curiosidade).

Quando Glyn Johns estava montando o álbum Get Back, os Beatles decidiram lançar Get back (a canção) como single. No dia 07 de abril, Johns mixou a versão para o compacto, fazendo a edição de dois takes: a parte principal tirada do último take (N.º 32) do dia 27 de janeiro unida à coda final tirada do take 07 do dia 28. Além disso, Johns adicionou um efeito de reverb de câmara de eco ao longo da canção, o que lhe deu um som único. O compacto foi lançado no dia 11 de abril, com Don’t let me down no Lado B.

Contudo, quando Phil Spector entrou no projeto e formatou o álbum Let it Be, no início de 1970, o produtor tirou o reberb e a coda, deixando apenas o take do dia 27; além de adicionar os diálogos no início e, ao fim, as palmas e a frase epitáfio de Lennon sobre o show do telhado, para conectá-la tematicamente ao filme, embora essa performance não fosse do show. Esses diálogos e a ausência da coda e do reverb fazem as pessoas pensarem que a Get back do álbum é diferente da do single, mas ambas têm como base o mesmo take.

No Let it Be… Naked também se manteve a ausência da coda, do reverb e dos diálogos, mas criando uma nova mixagem para a faixa.

A Mosca na Parede: O Filme

A ideia original do filme Get Back era retratar os Beatles ensaiando o material novo e fazendo o show da volta. Mas como um especial para a TV. A pretensão de lançar isso no cinema só veio muito mais tarde. Por isso, houve problemas quanto à qualidade da imagem depois, pois os frames precisaram ser estendidos para caber no formato de cinema.

Com a mudança para o cinema, o diretor Michael Lindsay-Hogg realizou um corte de 140 minutos para o filme, mas os Beatles consideraram longo demais. Também havia muita Yoko Ono nesse corte e os outros três Beatles exigiram que isso saísse. Alguns momentos do filme, como a discussão entre McCartney e Harrison no dia 06, também foram vetados, mas esta o diretor conseguiu manter, bem como um momento constrangedor em que McCartney está todo empolgado falando sobre o projeto e Lennon o escuta com a absoluta cara de tédio.

Porém, nada sobre a saída de Harrison permaneceu no corte final.

Lindsay-Hogg também optou por uma abordagem chamada flying in the wall (mosca na parede), uma vertente do “cinema verdade” na qual não há narração nem entrevistas, apenas os próprios fatos conduzindo a “história”, o que gera um filme estranho, meio sem foco, sem narrativa, apenas com os Beatles tocando.

Mas talvez pelo fato de ter apenas duas câmeras em ação torna a edição do filme é um pesadelo, com pedaços remendados de cenas diferentes e a insistência de não mostrar as canções do início ao fim, mas apenas por trechos.

Enquanto filme, Let it Be tem três atos claros: o primeiro com os ensaios em Twickenham, com seu clima frio, luzes coloridas e uma banda desanimada. Há um ou outro momento em que o grupo parece se divertir, como na versão rápida de Two of us, porém, o que predomina é uma melancolia. Nesse primeiro ato, várias canções que serão vistas depois finalizadas são esboçadas, como I’ve got a feeling e Don’t let me down, além de tentativas algo frustradas de tocar I me mine ou Maxwell’s silver hammer. Há uma tentativa meio desengonçada de tocar Across the universe e vemos Starr e Harrison brincando com Octopus’s garden – que quando o filme foi lançado já tinha saído completa em Abbey Road. (Maxwell’s silver hammer também).

O segundo ato é mais “luminoso” e começa com uma execução madura de For you blue, enquanto prossegue a famosa cena dos Beatles chegando ao prédio da Apple, no N.º 3 em Saville Row, no centro de Londres. Vemos Billy Preston chegando e conversando animadamente com a banda e o humor parece bem melhor, com risadas e brincadeiras. Isso é ajudado com a sequência em que o quinteto brinca com vários clássicos de rock dos anos 1950 – como Shake rattle and roll ou You really got hold on me – e ainda fazem Dig it no meio.

O final do segundo ato é mais melancólico, com as versões finalizadas de Let it be, The long and winding road e Two of us – tiradas do último dia do projeto, 31 de janeiro – nas quais a banda parece deprimida e sem empolgação, lembrando o clima de Twickenham.

O terceiro ato consiste do The Rooftop Concert. Vemos a banda subindo no telhado, olhando ao redor, pegando seus instrumentos e começando a tocar Get back, Don’t let me down, I’ve got a feeling (mostrando as reações das pessoas nas ruas), One after 909 e Dig a pony (na qual vemos a polícia entrar no prédio da Apple e conversar com a equipe dos Beatles). No fim, uma última tentativa de Get back no qual os amplificadores são desligados e religados e, ao fim, John Lennon diz o epitáfio:

I’d like to say thank you in behalf of the group and ourselves, and I hope we’ve passed the audition.

Sem embromação os créditos sobem ao som de outra versão de Get back – chamada “risadinha”, na qual McCartney improvisa uma letra e ri, que encerrava as versões do álbum na fase de Glyn Johns.

Com sua imagem granulada de má qualidade, sua narrativa sem foco e curta duração (apenas 90 minutos) Let it Be causou reações mistas quando lançado em 13 de maio de 1970, mas foi beneficiado pelo fim recente da banda, anunciado pouco mais de um mês antes. Apesar de deixar um gosto amargo em cada um de seus ex-membros, Let it Be teve uma boa carreira como filme, culminada com o prêmio do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original, em fevereiro de 1971, bem como um prêmio Grammy na mesma categoria.

Contudo, às más lembranças devem ter permanecido, pois o filme chegou a ser lançado em vídeo doméstico em 1983, no formato VHS, porém, em uma edição limitada que logo sumiu das lojas e nunca mais foi relançado oficialmente. O Japão lançaria, nos anos 1990, uma versão em VideoLaser do filme, mas à revelia da banda. Let it Be nunca foi lançado em DVD ou Blu-ray até hoje.

Para o projeto The Beatles Anthology, de 1995, a autobiografia em vídeo da banda, lançada como uma série de TV de 4 horas, mais tarde ampliada como um lançamento em vídeo doméstico (primeiro em VHS, depois em DVD) com 10 horas de duração, e que também virou livro, várias cenas de Let it Be foram remasterizadas com excelente qualidade e até algumas novas apareceram, alimentando a esperança dos fãs de que finalmente o longa chegaria ao vídeo doméstico.

Entrevistas posteriores de Neil Aspinal, assistente dos Beatles que virou presidente da Apple Corps., revelaram que no fim dos anos 1990, realmente a equipe da Apple trabalhou na remasterização do filme, (possivelmente pensando no lançamento de uma versão estendida) mas o conteúdo ainda se mostrava controverso e não foi adiante.

Em 2003, quando foi lançado o Let it Be… Naked, todos pensaram que o filme viria em seguida, mas não veio.

Agora, com a chegada dos 50 anos de lançamento, os Beatles já anunciaram que Let it Be (o filme) finalmente será relançado, em uma versão remasterizada, além de ganhar um filme totalmente novo Get Back – The Sessions, dirigido por Peter Jackson (de O Senhor dos Anéis) que promete trazer um “novo olhar” ao processo – ou seja, mostrando apenas os “momentos bons, animados” – e adicionado de um novo livro.

Fique Nu

Após o lançamento do megaprojeto Anthology a partir de 1995 (que incluiu a autobiografia visual da banda em uma série de TV, depois ampliada para homevideo, uma trilogia de discos com sobras de estúdio, demos, gravações ao vivo e remixagens, e a transcrição da série detalhada como um livro autobiográfico da banda) todos esperavam que o relançamento do filme Let it Be viria logo em seguida; particularmente, porque o documentário trouxe várias cenas inéditas das filmagens e as antigas masterizadas com incrível qualidade.

Em vez disso, veio o Let it Be… Naked, um álbum duplo lançado em 2003, já após a morte de George Harrison (dois anos antes) com a versão “dos Beatles” (ou seja, de Paul McCartney) do álbum Let it Be, sem os overdubs e efeitos de Phil Spector, mas tampouco trazendo a mixagem de Glyn Johns, e sim, uma nova remixagem por Paul Hicks, Guy Massey e Allan Rouse.

O anúncio encheu os fãs de esperança de ouvir as lendárias sessões e canções nunca lançadas, como os covers de rock ou de outros artistas, ou mesmo canções outras não lançadas na versão original – como All thing must pass de George Harrison – mas nada disso veio: Naked trouxe apenas as faixas do álbum Let it Be, apenas acrescidas de Don’t let me down e ainda sem duas delas, as brincadeiras Dig it e Maggie Mae.

O título Naked veio de uma piada de Ringo Starr, que disse um trocadilho sobre ter uma versão despojada do Let it Be e a expressão “deixe estar nu” ou algo como “deixe desnudado”. A capa usou um efeito de negativo na capa original do álbum, porém, como na foto original Harrison sorria um sorriso aberto, o efeito era assustador, parecendo uma caveira – e o músico tinha morrido há pouco mais de um ano – e sua foto foi trocada.

Naked ainda veio com um CD “bônus” que em uma única faixa trazia uma longa colagem de 24 minutos de diálogos e trechos de canções, chamada Fly in the Wall, e de novo, acendeu a esperança de ver parte daquele material lançado de verdade. Mas não.

Aqui vai o set list de Let it Be… Naked e suas diferenças em relação ao álbum original:

  1. Get back: a mesma versão do dia 27 de janeiro do single e do álbum, mas de novo remixada e sem a coda (do single, advinda do dia 28) e os diálogos do filme inseridos no álbum.
  2. Dig a pony: a mesma versão do show do telhado, em 30 de janeiro, mas sem os diálogos e o falso começo mostrados no disco, e ainda com o “because” cantado de John Lennon (no segundo estrofe) corrigido digitalmente.
  3. For you blue: o mesmo take de 25 de janeiro de 1969, mais o novo vocal de 04 de janeiro de 1970, mas sem os diálogos do filme.
  4. The long and winding road: o take 19 (o último) de 31 de janeiro, o mesmo visto no filme Let it Be (com o solo de Billy Preston), portanto, uma versão diferente da lançada no álbum original (do dia 26, acrescida da orquestra de Phil Spector), que também era a mesma do Anthology (apenas sem a orquestra). Portanto, a versão de Naked era totalmente inédita.
  5. Two of us: a mesma versão original do álbum, tirada do dia 31 de janeiro, agora remixada e sem os diálogos do filme.
  6. I’ve got a feeling: uma mixagem combinando as duas performances do show do telhado, no dia 31, o take 1 (que foi usado na íntegra no álbum e no filme Let it Be) e o take 2 (inédito).
  7. One after 909: a mesma versão do show do telhado do álbum original, remixada e sem os diálogos do filme.
  8. Don’t let me down: a versão ao vivo do show do telhado, apenas editando o segundo estrofe que traz o hoje famoso erro na letra por John Lennon (no take 1), substituindo seu vocal nesta parte pelo do take 2. O take 1 é o que aparece no filme Let it Be, mas uma edição similar a do álbum (corrigindo o erro da letra) foi editado em vídeo na época do lançamento da obra remasterizada dos Beatles em CD, em 2009 e está disponível no YouTube oficial.
  9. I me mine: a mesma versão gravada no dia 03 de janeiro de 1970 (produzida por George Martin e mixada por Glyn Johns), mas igualmente no formato “duplicado” criado por Phil Spector para aumentar a duração da faixa, repetindo o último estrofe e o refrão. Para dar um diferencial da versão de Spector, além da ausência da orquestra, a nova mixagem faz um jogo de tirar e botar o órgão e a segunda guitarra para deixar a repetição diferenciada.
  10. Across the universe: usa de novo a gravação de 05 de fevereiro de 1968 (um ano antes do projeto Get Back), tal qual fizera Phil Spector, porém, com uma reconstrução completa da mixagem, criando uma nova versão, pela primeira usando a velocidade correta da faixa (a versão do álbum do WWF é mais rápida, e a de Spector é mais lenta). Neste caso, o trabalho é muito, e esta é a melhor versão desta canção.
  11. Let it be: usa o mesmo take 27A do dia 31 de janeiro de 1969 (visto no filme editado com outro) que gerou a versão do single (George Martin) e do álbum (Phil Spector), porém, sem os overdubs do dia 04 de janeiro de 1970. O solo de guitarra – em vez de usar uma das duas regravações feitas posteriormente – é editado do take 27B.

Versão 2020

Esta parte do post provavelmente será atualizada no futuro, pois já foi anunciado, como já escrito, uma nova versão remasterizada do álbum Let it Be no mesmo estilo das versões de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (2017), The White Album (2018), Abbey Road (2019), lançados quando completaram 50 anos de idade, com produção de Giles Martin, filho de George Martin.

É esperado que, finalmente, faixas realmente inéditas como All thing must pass, Oh! Darling, I want you, Octopus’s garden etc. tocadas nas sessões sejam lançadas, quem sabe com alguns covers.

O álbum será lançado com uma versão remasterizada do filme Let it Be, um novo livro contando toda a história e – a cereja do bolo – um novo filme dirigido por Peter Jackson (de O Senhor dos Anéis) montado a partir das gravações originais de Michael Lindsay-Hogg. Pelo o que foi dito na imprensa – em especial por Paul McCartney – o novo filme, que deve ser chamado Get Back, focará nos aspectos positivos das sessões.