
Em 1996 havia uma disputa de estilos no mundo dos quadrinhos. E a história que mais lançou lenha na fogueira acaba de retornar às livrarias brasileiras! A editora Panini Comics – que edita o material original da norteamericana DC Comics – anunciou o lançamento de uma edição especial de O Reino do Amanhã, uma das mais espetaculares histórias da Liga da Justiça de todos os tempos! Quem anuncia com exclusividade é o site Omelete.
O Reino do Amanhã traz uma trama passada em um futuro possível, algo em torno de 20 anos à frente. Os super-heróis que conhecemos – Superman, Lanterna Verde, Mulher-Maravilha estão aposentados e desaparecidos. Apenas alguns, como o Batman e Flash se mantêm em atividade, discretamente. Entretanto, uma nova geração de metahumanos agita as ruas das grandes cidades. São filhos ou sucessores dos velhos heróis, mas são tão violentos e inconsequentes que sejam, talvez, até piores do que os vilões poderosos e loucos que combatem.
Isso claro, iria acabar mal. Uma desastrosa investida desses novos heróis termina causando uma hecatombe nuclear em plenos Estados Unidos! Provocado pela Mulher-Maravilha, o Superman aceita sair de seu longo exílio e liderar os velhos heróis numa investida para deter os novos metahumanos, sejam “do bem” ou “do mal”.
No entanto, o Batman não concorda com o que chama de métodos fascistas do Superman e decide montar o seu próprio grupo e agir à sua maneira. Claro, como é o cavaleiro das trevas, de um modo completamente não-óbvio.

O choque entre os dois grupos é inevitável, mas enquanto os grupos do Batman e do Superman se digladiam, o velho Lex Luthor ainda tem suas cartas na manga: envia o Capitão Marvel para derrotar a ambos.
Como um Superman já velho e destreinado irá enfrentar o mortal mais poderoso da Terra? Alguém que se tornou ainda mais poderoso com o passar do tempo?
Além da história adulta e surpreendente nas mãos do sempre competente Mark Waid – vemos a trama pelos olhos de um velho pastor comum, ladeado pelo Espectro e guiado pelos sonhos de um futuro ainda mais sombrio visto pelo Sandman original – a obra ainda é mais magnífica por causa da arte pintada a óleo de Alex Ross, artista que vivia seu apogeu (merecido) de popularidade. Sua tinta torna a história ao mesmo tempo realista e fantástica, num efeito arrasador.
E a importância da obra nem se resume ao texto e arte. O Reino do Amanhã é, na verdade um manifesto político. Político e estético.
Voltemos, então, ao início. Publicado como uma minissérie em 1996, O Reino do Amanhã foi lançado justamente no auge da Era Sombria dos Quadrinhos. E é um manifesto contra ela!
Explicamos: A Era de Bronze (aproximadamente entre o início dos anos 1970 e o fim dos anos 1980) havia acabado com a inocência dos quadrinhos, tornando as histórias mais adultas, inteligentes e dramáticas. Mas o tempo avança e, em meados dos anos 1980, uma nova vertente começou a se consolidar, com histórias ainda mais violentas e os personagens ainda mais sombrios. Podemos elencar como marcos-zero desse processo obras espetaculares como Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons e O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller.
A moda se espalhou pelos quadrinhos em geral e as histórias se tornaram cada vez mais violentas e sombrias: o Homem-Aranha passou a usar um uniforme negro, enquanto anti-heróis com falhas de caráter (e de novo) muita violência, como Wolverine, Justiceiro e Motoqueiro Fantasma se tornavam cada vez mais populares.

Já estabelecida no início dos anos 1990, a Era Sombria dos Quadrinhos ainda ganhou um agravante: o chamado Efeito Muscular. Com o lançamento (e sucesso esmagador) da editora Image Comics, se estabeleceu uma tendência de histórias não apenas violentas, mas extremamente calcadas na sexualidade e com a desnecessidade de roteiros elaborados. Para compensar, desenhos espetaculares de heróis musculosos, mulheres gostosas e semi-nuas e muita bala e briga.
A soma de Era Sombria com Efeito Muscular tornou os quadrinhos de meados dos anos 1990 uma das maiores crises criativas da história dessa indústria. Logo, artistas da velha guarda se lançaram contra as novas tendências e O Reino do Amanhã foi a obra magma dessa resistência. A crítica feroz de Waid e Ross à violência sem sentido dos “jovens heróis” sequer disfarçava a crítica.
Curiosamente, a minissérie foi um grande sucesso de vendas e é uma das melhores histórias da Liga da Justiça já escritas. Se não acabou com o efeito muscular, pelo menos serviu para mostrar alternativas.
Algum tempo depois, com a queda violenta na vendagem das revistas, tanto DC Comics como Marvel voltaram-se para um caminho contrário ao Efeito Muscular, embora ainda os efeitos da Era Sombria continuasse.
Ler O Reino do Amanhã com esse contexto é ainda mais proveitoso. (Veja mais detalhes no post do HQRock sobre a Trajetória da Liga da Justiça nos quadrinhos, que remete a essa fase, clicando aqui).
Enfim, é uma obra obrigatória, que sem dúvidas pode render um bom roteiro de filme para o futuro.
A Panini relança O Reino do Amanhã no Brasil com uma série de extras. O encadernado terá capa dura e nada menos do que 340 páginas, cerca de cem páginas a mais do que a versão anterior da história aqui editada em 2004. Entre os extras, o curto, mas marcante epílogo da história – lançado alguns anos depois por Waid e Ross – e detalhes do processo de desenho e pintura de Alex Ross. O preço sugerido é de R$ 89,00.
A Liga da Justiça foi criada por Gardner Fox e Mike Sekowski, em 1960, reunindo heróis previamente criados. Formado pelos maiores heróis da DC Comics – Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Flash, Arqueiro Verde, Aquaman etc. – a equipe sempre teve destaque em sua cronologia. Desde o reboot cronológico e editorial da DC em 2011, a revista Justice League é uma das de maior sucesso do mercado de quadrinhos atuais.
Batman foi criado pelo cartunista Bob Kane em 1939 e desde então é publicado pela DC Comics.
Superman foi criado por Jerry Siegel e Joe Shuster em 1938 e desde então é publicado pela DC Comics.

