phil collins são paulo 1O cantor e compositor Phil Collins veio ao Brasil pela primeira vez em sua carreira solo para apresentar a turnê Not Dead Yet (Ainda não morri) na qual volta de um hiato de seis anos afastado dos palcos e após uma crise de alcoolismo, uma cirurgia na espinha e uma doença nos nervos que lhe deixa sem sensibilidade na mão esquerda e no pé direito. E o concerto no Allianz Parque, na cidade de São Paulo, no dia 24 de fevereiro de 2018, foi simplesmente espetacular!

“Contra todas as adversidades”, como diz uma de suas canções mais famosas, Phil Collins chegou ao Brasil com a segurança de um repertório consolidado em décadas de sucesso e uma grande banda, mesmo com o músico entrando de bengala no palco e permanecendo o concerto inteiro sentado em uma cadeira: como consequência do deslocamento de uma vértebra em uma turnê de 2009, uma cirurgia reparatória (e provavelmente os danos aos nervos causados pela vida de rockstar), Collins tem inúmeras limitações físicas, sente dores nas costas e dificuldades para andar. A perda da sensibilidade em dois membros o impedem de tocar o seu instrumento de assinatura – a bateria – e também não permite que toque o piano de modo profissional.

Mas nada disso parece importar quando vestido de uma roupa azul, Collins entra no palco – andando devagar e usando uma bengala – se senta na cadeira e entrega uma noite carregada de emoção e grandes sucessos. Poucos artistas souberam criar algo que poderíamos chamar de pop de alta qualidade, ou seja, um rock leve, permeado de teclados, mas bem feito. Com a marca de sua época, é claro, (e grande parte delas foi feita nos anos 1980, tempos de teclados sintetizados, baterias eletrônicas e timbres cafonas) mas que trazem suficiente conteúdo para serem relevantes. Afinal como mostra uma longeva tradição – que vai de Bob Dylan, Beach Boys e Crosby, Stills, Nash & Young até REM ou Belle Sebastian – o rock não precisa ser sempre pesado e barulhento, mas encontra momentos de leveza e beleza na tranquilidade também.

A voz de Phil Collins falhou apenas na primeira canção – como que esquentando – e segue afinada, forte e eficiente. Seu tom metálico e agudo cai como uma luva nas melodias de notas altas e carregadas de sentimentalidade. O show começa sem medo, entregando logo Against all odds (take look at me now), um de seus maiores sucessos, ganhando a plateia logo no primeiro momento; sendo seguida de Another day in paradise que – a despeito de sua letra crítica e lamentosa sobre os mendigos e sem tetos de Nova York – embalou muitas noites românticas nas rádios populares Brasil à fora nos últimos 30 anos.

phil collins são paulo 5Em seguida, o compositor mostra que, apesar da fama de “baladeiro” (que no linguajar antigo significava que fazia muitas canções lentas), na verdade, tem um repertório repleto de músicas agitadas e dançantes, encorpadas por um naipe de sopros herdado dos combos de jazz que sempre amou. Após três faixas menos conhecidas e agitadas, Collins volta ao seu repertório mais clássico, desta vez com uma canção da banda Genesis ao qual fez parte e liderou nos anos 1970 e 80: Throwing it all  away, que foi um dos grandes momentos da noite. Outra canção da banda vem em seguida, com a ainda mais popular Follow you, follow me.

phil collins são paulo 4Após duas canções menos conhecidas, o show entra em seu ápice com uma sequência ininterrupta de canções famosas, como Something happened in the way to heaven, o superhit In the air tonight, Invisible touch (outra do Genesis) e Sussudio, que encerrou o repertório. Esta canção, bastante agitada, teve o plus de uma explosão de confeites e serpentinas sobre o palco, levados pelo vento sobre a plateia.

Mas claro veio o Bis, com Collins retornando ao palco, de novo de bengala, e entregando a bonita Take me home., cujo final foi coroado por uma queima de fogos de artifício fora do estádio.

Com uma carreira tão longeva e de tanto sucesso, claro que vários hits ficaram de fora, como One more night (outra favorita das rádios brasileiras), Two hearts e You will be in my heart (sim, aquela mesma, da trilha sonora de Tarzan da Disney), mas isto é compreensível, pois o compositor tem direito às suas escolhas.

Phil Collins mostrou a elegância e competência que o rock clássico criou e entregou ao público que lotou o Allianz Parque (nunca vi este estádio tão cheio) um grande show, com a típica humildade (quando sentou na cadeira ao entrar, o músico disse em português “Olá, São Paulo, boa noite”, voltando ao inglês natal para dizer “infelizmente, este é todo o meu português. Obrigado por terem vindo e espero que apreciem o show”; além de alguns “obrigados” ao longo do concerto) e respeito pelo público (o show começou exatamente às 21h, nem um minuto a mais, nem um menos) dos grandes músicos britânicos.

phil collins são paulo 2Antes desta turnê no Brasil (que incluiu um show no dia 23 no Rio de Janeiro, e outro em Porto Alegre) Phil Collins só tinha aparecido por aqui uma única vez: numa turnê do Genesis em 1978! A espera foi longa, mas quem sabe, com esta nova fase mais contemplativa da própria obra e sem produzir material novo (o último álbum de inéditas foi em 2002), o músico volte ao país outras vezes? Quem sabe até numa reunião do Genesis?

***

Phil-Collins-1971Phil Collins nasceu em Londres em 1951, pertencente a uma família de classe média baixa, filho de um corretor de seguros e uma agente teatral, ganhou sua primeira bateria aos 5 anos de idade e muito cedo desenvolveu a aptidão para tocar vários instrumentos (piano e guitarra também) e um grande gosto pelas artes em geral. Apesar do envolvimento com a música, a primeira carreira de Collins foi como ator infantil, aparecendo em vários filmes (inclusive, A Hard Days Night dos Beatles, em 1964) e peças de teatro, incluindo musicais como Oliver!, adaptação de Oliver Twist de Charles Dickens. Falando nos Beatles, o sucesso do quarteto de Liverpool foi fundamental para que o menino investisse mais fundo na música, especialmente na bateria, que se tornaria seu instrumento de assinatura. Ainda assim, aos 17 anos, ele concorreu ao papel de Romeo para o filme Romeu e Julieta, que seria lançado em 1968 e seria um grande sucesso mundial. Claro, não ficou com o papel e o momento coincidiu com aquele em que sua carreira musical deslanchou.

Genesis
Collins (ainda com cabelo) na “formação clássica” do Genesis, na primeira metade dos anos 1970: álbuns antológicos.

Sua primeira banda “de verdade” foi a Flaming Youth, que lançou o álbum Ark 2, em 1969, e embora não tenha feito sucesso, foi muito elogiada pela crítica. O grupo não foi a lugar nenhum, mas Collins ainda conseguiu participar do álbum All Things Must Pass do ex-beatle George Harrison, em 1970, tocando percussão. No mesmo ano, atendeu a um anúncio da banda Genesis (que já tinha lançado dois álbuns) para um novo baterista. Aprovado, ingressou na banda para a turnê subsequente e estreou nas gravações com o álbum Nursery Cryme de 1971, que deu início à primeira fase de sucesso do Genesis, abraçando sem rodeios o rock progressivo, e então, liderado pelo vocalista e compositor Peter Gabriel. Após outros três álbuns de sucesso (Foxtrot, 1972; Selling England by the Pound, 1973; The Little Lamb Lies Down on Broadway, 1974), Gabriel abandonou o grupo para seguir em carreira solo, cabendo a Phil Collins não só o papel de baterista, mas também de vocalista.

Phil-Collins playing drums 80s
Na bateria nos anos 1980.

O disco seguinte (A Trick of the Tail, 1976) prosseguiu a sonoridade e o sucesso (ainda maior, para dizer a verdade) da fase anterior, mas progressivamente, foram abandonando o som complexo e cheio de mudanças de tempo do rock progressivo e adotando uma sonoridade mais simples, pop para dizer de modo coloquial. A saída do guitarrista Steve Hackett (que discordava desse direcionamento) legou o Genesis se tornar um trio, com Collins (vocais, bateria e teclados), Tony Banks (teclados) e Mike Rutherford (guitarra e baixo) e o álbum There Was Only Three (1978), aquele mesmo pelo qual o músico fez sua primeira e – até há pouco – única turnê no Brasil.

phil collins - c 1987 on piano
Nos anos 1980, Collins foi um dos maiores popstars do planeta. Ele vendeu 100 milhões de cópias com o Genesis e outros 100 milhões em carreira solo. Somente dois outros artistas conseguiram tal feito: Michael Jackson e Paul McCartney.

Quando o Genesis decidiu dar “um tempo”, Phil Collins aproveitou para lançar seu primeiro álbum solo, mais focado no som com influências de soul music e jazz, dois gêneros musicais que apreciava muito. Faces Value foi lançado em 1981 e foi um sucesso estrondoso, puxado pelo hit On the air tonight.

Phil Collins - but seriously cover 1989
Capa de “…But Seriously”, de 1989: apogeu do artista.

Ao longo dos anos 1980, Collins viveu o apogeu de sua carreira, fazendo álbuns de grande sucesso com o Genesis (Duke, 1980; Abacab, 1981; Invisible Touch, 1986), mas com maior sucesso ainda com sua carreira solo paralela, em álbuns como No Jacket Required (1985) e …But Seriously (1989); além de tocar e produzir discos de diversos outros grandes artistas, como Robert Plant (ex-vocalista do Led Zeppelin) e Eric Clapton.

phil collins live 2017O sucesso diminuiu nos anos 1990, mas ele ainda deixou o Genesis em 1996 para se dedicar exclusivamente à carreira solo. O álbum Testify (2002) foi seu último com composições próprias e não foi bem recebido, o que aliado aos problemas de saúde, foram fazendo com que Collins fosse paulatinamente se afastando do mundo musical. Em 2010, lançou Going Back apenas com releituras de canções da gravadora Motown e, no ano seguinte, anunciou seu afastamento dos palcos e aposentadoria. Somente no ano passado, com o relançamento especial de sua discografia e de sua autobiografia (também chamada de Not Dead Yet, como a turnê) é que voltou à ativa.

***

Set List do Show em São Paulo

1. Against All Odds (Take a Look at Me Now)

2. Another Day in Paradise

3. I Missed Again

4. Hang in Long Enough

5. Wake Up Call

6. Throwing It All Away (Genesis song)

7. Follow You Follow Me (Genesis song)

8. Only You Know and I Know

9. Separate Lives (Stephen Bishop cover)

10. Something Happened on the Way to Heaven

11. In the Air Tonight

12. You Can’t Hurry Love (The Supremes cover)

13. Dance Into the Light

14. Invisible Touch (Genesis song)

15. Easy Lover (Philip Bailey cover)

16. Sussudio

BIS

17. Take Me Home