rpm-no-bate-papo-uol-1336670261358_615x300
O RPM: Pagni, Ricardo, Schiavon e Deluqui.

A Folha de São Paulo trouxe uma notícia alguns dias sobre a disputa judicial que envolve a banda brasileira RPM, um dos maiores fenômenos de sucesso dos anos 1980. Segundo jornal, o cantor e baixista Paulo Ricardo está disputando com os outros três membros a propriedade da marca e o uso do nome para shows e outras atividades. A briga lembra demais aquela vivida pela banda britânica Pink Floyd na mesma época em que o grupo tupiniquim estourava em todos os cantos do Brasil.

O tecladista Luiz Schiavon, o guitarrista Fernando Deluqui e o baterista Paulo Pagni querem retomar as atividades do RPM ao que Paulo Ricardo se opõe. O trio afirma que a banda havia feito um acordo interno em 2007 para que o nome e da marca não fosse explorado individualmente e que teriam encomendado o registro no INPI (Instituto nacional de Propriedade Industrial), mas Paulo Ricardo teria realizado o registro apenas no nome dele e não no do quarteto. O cantor e baixista por sua vez, afirma à Justiça que já tinha feito o registro em seu nome em 2003.

rpm 1986 fardas
A banda no auge, em 1986.

Paulo Ricardo afirma na Justiça que era o líder inconteste da banda e que 80% da produção musical do RPM era inteiramente de sua autoria, o que a Folha contradiz com afirmações do próprio músico (que numa entrevista de 2007 dizia que a banda era fruto de sua parceria com Luiz Schiavon e que o grupo não podia existir sem este) e com o livro Revelações Por Minuto de Marcelo Leite de Moraes, que foi lançado naquele mesmo ano e que contou com colaboração da banda, na qual se afirma que as canções do RPM eram compostas em sua parte musical por Schiavon, com Ricardo contribuindo com as letras e os dois construindo as melodias.

O RPM se reuniu pela última vez em 2017, quando fizeram uma apresentação em um cruzeiro marítimo especial, e a reportagem afirma que a disputa começou justamente nessa época, com a cisão entre Ricardo e Schiavon e Cia. Ainda naquele ano, a Justiça deu ganho de causa à turma de Schiavon, mas Ricardo entrou com uma liminar no Tribunal de Justiça de São Paulo.

Pink Floyd close up in black and white
O Pink Floyd em 1979: Waters, Mason, Wright, Gilmour.

A briga lembra demais a vivida pelo Pink Floyd em 1986, numa das mais públicas e feias disputas por propriedade intelectual na história do rock. A banda britânica tinha sido fundada em 1965 pelo baixista Roger Waters e o guitarrista Syd Barrett, logo depois acrescentando o tecladista Richard Wright e o baterista Nick Mason. Eles chegaram às gravações de discos em 1967 e fizeram sucesso no circuito underground de Londres, mas Barrett começou a sofrer de problemas mentais causados pelo excesso no uso de drogas, especialmente LSD e foi expulso, sendo substituído por David Gilmour, em 1968, que era um amigo de infância dele e de Waters.

Inicialmente, Barrett era o principal compositor e cantor do grupo (embora dividisse essa última função com Wright, que também compunha), e com sua saída, Waters emergiu como liderança natural da banda, se tornando o principal compositor, embora coube a Gilmour os vocais principais; e Wright também continuou cantando e compondo em segundo plano.

A formação Waters, Gilmour, Wright e Mason seguiu em frente por 15 anos e o Pink Floyd saltou do underground à condição de uma das bandas de maior sucesso do mundo a partir de 1973, com o lançamento do álbum Darkside of the Moon; que foi seguido por Wish You Were Here (1975), Animals (1977) e The Wall (1979).

Pink-Floyd 1994 earls court promo (better)
Mason, Gilmour e Wright em 1994: sem Waters.

Após anos de brigas internas e muita tensão, Roger Waters decidiu “acabar” a banda em 1985, mas Gilmour, Wright e Mason entraram com um processo judicial para continuar usando o nome da banda. A Justiça Britânica deu ganho de causa ao trio, reconhecendo a contribuição deles à história e obra do Pink Floyd, ao mesmo tempo em que se Waters não queria continuar, não tinha autoridade para impedir os outros de seguir em frente.

Será que o RPM vai viver situação semelhante? Seguirá o grupo em frente sem Paulo Ricardo? Este tem autoridade para impedir os demais de continuarem tocando?

***

rpm paulo-ricardo ao vivo 1987
Paulo Ricardo ao vivo com o RPM em 1987.

A semente do RPM foi plantada em 1980, em São Paulo, quando o crítico musical Paulo Ricardo Medeiros conheceu o pianista clássico Luiz Schiavon, que tocava na banda da cantora May East (da Gang 90 e as Absurdetes). Os dois ficaram amigos e montaram uma banda chamada Aura, que apesar dos ensaios nunca fez um show. Paulo Ricardo foi morar na Europa para ser correspondente da Revista Somtrês e Schiavon prosseguiu com outros projetos musicais até se reunirem em 1984 para formar a banda que se tornaria o RPM.

O grupo se firmou com o guitarrista Fernando Deluqui e o baterista Charles Gavin (ex-Ira!) e começou a fazer sucesso nos clubes paulistas, impulsionado pela sonoridade pop rock misturada com o uso (inédito no Brasil) de sintetizadores e samplers por Schiavon. Após alguma insistência, conseguiram um contrato com a gravadora Epic (parte do grupo CBS, atual Sony Music) e lançaram o compacto Louras Geladas, com uma bateria eletrônica, pois Gavin saiu para entrar nos Titãs.

RPM_revoluçoes-porminuto_capa01Adicionando Paulo “P.A.” Pagni na bateria, o quarteto lançou o álbum Revoluções Por Minuto, em 1985, que foi um sucesso tão grande que deu início a uma histeria similar à beatlemania como o Brasil não via desde os tempos da Jovem Guarda. Com os shows do grupo marcados pela pegada eletrônica e o uso ousado de luzes (pouco comum por aqui), os concertos começaram a ser gravados e pirateados, o que levou à (duvidosa) decisão de lançar o disco ao vivo Rádio Pirata Ao Vivo, em 1986, que apesar de trazer quase o mesmo repertório do anterior foi um fenômeno ainda maior, vendendo 2,6 milhões de cópias e se tornando o LP mais vendido da história do Brasil.

RPM rádio pirata ao vivo capaA fama e a fortuna trouxe muito sexo e drogas, mas o rock and roll começou a diminuir, pois a banda não soube aproveitar o momento para criar mais. As brigas e tensões cresceram junto com os egos e o grupo anunciou a separação já em 1987, mas no ano seguinte, o RPM se reuniu pela primeira vez e lançou o álbum com o nome da banda, mas que ficou conhecido como Quatro Coiotes, que até vendeu bem, mas muito distante das cifras do passado, o que motivou uma nova ruptura.

rpm-quatro-coiotes-encarte-1988-D_NQ_NP_418111-MLB20498252654_112015-FSem conseguirem emplacar outros projetos, Paulo Ricardo e Fernando Deluqui “recriaram” a banda – agora chamada Paulo Ricardo & RPM – em 1993, lançando um disco com esse nome, deixando de lado o eletrônico e investindo mais no rock pesado. Porém, nem o disco nem a turnê se mostraram bem sucedidas, trazendo outro “fim”.

RPM ao vivo no Teatro Positivo - Curititba - 27.02 (6)
O RPM ao vivo em 2017.

Após navegar em uma carreira solo de sucesso mediano, Paulo Ricardo e Luiz Schiavon se reuniram de novo em 2000 e o quarteto retomou as atividades, gravando a canção tema do programa Big Brother Brasil da Rede Globo em 2001 e lançando o álbum MTV RPM 2002, gravado ao vivo com os velhos sucessos e algumas faixas inéditas. Mas a descoberta que Paulo Ricardo havia registrado o nome da banda como de sua propriedade acabou com a empreitada já em 2003, embora o RPM voltou de novo em 2007 para alguns shows, e retornou de verdade à ativa em 2011 com o álbum Elektra, que fez algum sucesso.

A banda continuou fazendo shows a partir daí até 2017, quando eclodiu a atual batalha judicial.