steve ditko studioO TMZ e o The Hollywood Reporter acabaram de noticiar: morreu Steve Ditko, cocriador do Homem-Aranha e do Doutor Estranho, ao lado de Stan Lee. Segundo o primeiro, Ditko teria sido encontrado já falecido em seu apartamento por uma assistente social no dia 29 de junho, ou seja, na sexta-feira da semana passada, e a polícia intui que ele tenha morrido dois dias antes! Não foi divulgada uma causa mortis, mas o TMZ fala em suspeita de ataque cardíaco.

Steve Ditko nasceu em 02 de novembro de 1927, na Pennsylvania, e se tornou um grande fã de histórias em quadrinhos na adolescência, quando foram publicados os seus dois favoritos: Batman e Spirit, dois personagens que influenciariam bastante seu trabalhos futuros. Ele iniciou a carreira como desenhista no pós-guerra, escrevendo e desenhando para diversas revistas de publicação, e entrou nas HQs em 1952 na empresa comandada por Jack Kirby e Joe Simon, dupla que tinha criado o Capitão América para a Marvel Comics, mas que desenvolvia seus próprios projetos.

No fim da década de 1950, Ditko foi trabalhar justamente na Marvel, onde também estava Jack Kirby, ilustrando histórias escritas por Stan Lee, que também era o Editor-Chefe da editora. Na época, eles só publicavam histórias de monstros, de suspense e de ficção científica, já que o mercado de super-heróis havia sido dizimado alguns anos antes.

Mas a reformulação dos personagens da DC Comics e a criação da Liga da Justiça em 1960, reaqueceram o mercado e Stan Lee passou a trabalhar na criação de toda uma nova geração de heróis para a Marvel, criando ao lado de Jack Kirby personagens como Quarteto Fantástico, Thor e Hulk.

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A estreia do Homem-Aranha tem capa de Jack Kirby.

Steve Ditko também entrou na festa e criou, ao lado de Lee, o Homem-Aranha e o Doutor Estranho.

A criação do Homem-Aranha causa alguma confusão com o público, pois Stan Lee teve a ideia original do personagem, querendo criar um herói que fosse menos heroico: um adolescente, com problemas normais, como falta de dinheiro, dificuldade em arranjar as garotas e tendo que lidar com a tia doente que lhe criou como filho; uma abordagem humana e realística que nunca havia sido realizada antes. O trabalho foi passado para Jack Kirby, que produziu 8 páginas de desenho, mas Lee não gostou do resultado, porque, segundo ele mesmo revelou em várias entrevistas, Kirby não tinha capturado o espírito da coisa e, como o artista era muito atarefado, não tinha mais tempo de refazer tudo antes da janela de publicação.

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O Consertador em sua primeira aparição. Arte de Steve Ditko.

Assim, Lee convidou Steve Ditko para o projeto e este desenhou a versão final da história que estreou em Amazing Fantasy 15, de 1962, e se transformou em um fenômeno de vendas. Há uma disputa entre os fãs sobre quem criou o visual do Homem-Aranha: se já estava presente na primeira versão de Kirby ou se foi Ditko quem o fez; mas o próprio Ditko, numa de suas raras aparições públicas, escreveu um artigo em uma revista especializada em quadrinhos, dizendo que o visual é dele.

De fato, o estilo diferenciado do Homem-Aranha é muito mais ao estilo de Ditko do que de Kirby – e este, nas oportunidades em que desenhou o personagem, parecia não saber muito bem como fazê-lo, tendo em vista o esquema das teias.

spider-man and the lizard by steve ditkoCom o sucesso do Homem-Aranha, a Marvel criou uma revista própria para o herói e The Amazing Spider-Man 01 estreou em março de 1963, e rapidamente se tornou a segunda revista mais vendida da Marvel – a primeira era o Quarteto Fantástico – e em um par de anos tomaria o primeiro lugar.

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O homem-Aranha de Stan Lee e Steve Ditko.

Segundo Sean Howard, no livro A História Secreta da Marvel Comics, a apreciação de heróis realistas como Batman e Spirit foram muito benéficas para o trabalho que Ditko desenvolveu no Homem-Aranha, uma história que tinha os pés um pouco mais no chão do que outras criações da Marvel.

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Aquele que muitos consideram o melhor momento de Ditko na revista.

Além disso, já a partir da edição 10 de Amazing Spider-Man, Ditko tomou o controle da revista e passou a ser o principal criador das histórias. Normalmente, Lee e Ditko conversavam sobre o que iriam abordar e o desenhista criava a história inteira a partir dos desenhos, criando visuais, situações e personagens, para no fim, Lee “apenas” acrescentar os diálogos.

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Harry Osborn e Gwen Stacy unem-se a Flash Thompson: mudanças no elenco por Steve Ditko e Stan Lee.

Uma leitura das 38 edições de Amazing Spider-Man criadas pela dupla, entre 1963 e 1966, deixa bastante claro que, na maioria delas, é a mão de Ditko quem comanda, com uma abordagem que colocava o herói em contato com o submundo do crime, os bandidos comuns e situações mundanas, mesmo que permeadas por vilões fantásticos.

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Norman Osborn (à frente) e seu filho Harry na arte original de Steve Ditko.

E isso não é menos importante, Ditko criou o visual de praticamente toda a famosa galeria de vilões do Homem-Aranha: Duende Verde, Dr. Octopus, Abutre, Lagarto, Electro, Kraven, o caçador, Camaleão, Escorpião, Mysterio, Homem-Areia. E  também o rosto de Peter Parker (que o desenhista usou a si mesmo como referência), Flash Thompson, Gwen Stacy, Harry Osborn, tia May, J.J. Jameson e muitos outros.

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O jovem Ditko foi inspiração para Peter Parker. 

Ao longo de sua longa colaboração, Ditko e Lee desenvolveram muitas diferenças, com o escritor querendo mais histórias fantásticas e o desenhista cada vez menos disposto a fazer concessões e querendo histórias de cunho mais policialesco. Muito apontam que o estopim da ruptura foi a identidade secreta do principal vilão do Homem-Aranha: o Duende Verde.

steve_ditko on the phonePor dois anos, as histórias criaram suspense sobre quem seria o homem por detrás da máscara do Duende Verde e aqui as fontes divergem:  umas afirmam que Ditko queria que fosse um desconhecido; e outras que fosse o repórter Ned Leeds. O primeiro caso já tinha sido explorado em um outro bandido, o Mestre do Crime; e um repórter do Clarim Diário ser um vilão mascarado também já tinha sido mostrado com o caso de Frederick Foswell, o Maiorial.

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Autoretrato de Steve Ditko nos anos 1960: briga com Stan Lee.

O fato é que Stan Lee queria que fosse o empresário Norman Osborn, o pai de Harry Osborn, amigo de Peter Parker, e que tinha acabado de surgir, e fez sua vontade valer. A primeira edição de Amazing Spider-Man feita sem Ditko, o número 39, de 1966, trouxe justamente a revelação de que o Duende Verde era Norman Osborn, agora, já sob os desenhos de John Romita.

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O típico cenário psicodélico de Steve Ditko nas histórias dos anos 1960.
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transposição para o cinema.

Já quanto ao Doutor Estranho, esta é uma criação basicamente de Ditko. Os historiadores afirmam que o desenhista criou a primeira história sozinho (sem textos) e a levou para Lee que gostou e a publicou em Strange Tales 110, de julho de 1963.

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A arte original de Steve Ditko em Dr. Estranho.

Se por um lado, Lee contribiu com a criação de nomes estranhos para o universo do mago supremo da Terra (Olho de Agamotto, Dormammu, Faixas Escarlates de Citorak – todas palavras inventadas), cabia a Ditko o desenvolvimento das tramas, sua ambientação, e principalmente, o visual estonteante que dava ao uso da magia e à viagem às outras dimensões; o que fez das HQs de Estranho serem algumas das mais populares dos anos 1960, e um grande sucesso entre o público universitário e os hippies, que associavam as imagens surreais e coloridas das aventuras ao clima psicodélico e ao LSD.

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A capa de Saucerful of Secfrets: experimental até na capa.
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A capa do disco e a gravura original de Marie Severin baseada em Ditko. 

Não à toa o primeiro de todos os festivais de rock dos anos 1960 se chamou Tribute to Dr. Strange, em San Francisco, com Greatful Dead entre as atrações, em 1966. O segundo álbum do Pink Floyd, A Saucerfull of Secrets, de 1968, por exemplo, tem sua capa criada a partir de uma gravura do Doutor Estranho e a faixa Cimbeline, do disco seguinte (More, de 1969) cita nominalmente o herói da Marvel em sua letra.

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O Primeiro modelo vermelho-dourado, por Steve Ditko.

Além de Homem-Aranha e Doutor Estranho, Ditko foi um dos principais desenhistas da Marvel e ilustrou importantes aventuras de personagens como o Homem de Ferro e o Hulk, histórias nas quais, por exemplo, o vingador dourado ganhou a armadura pela qual ficou conhecido; e o golias verde ganhou seu principal inimigo, o Líder.

Ditko também teve um papel na criação do Demolidor, atuando como “desenhista fantasma” na revista do herói.

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O Questão.

Após a briga com Stan Lee, em 1966, Steve Ditko foi para a Chaltron Comics, e criou personagens como o Besouro Azul, Questão e o Capitão Átomo, heróis que – 20 anos depois – serviriam de base para o escritor Alan Moore criar a maxissérie Watchmen, que transforma aqueles personagens em Coruja, Rorschach e Dr. Manhattan.

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Os heróis da Charlton e suas versões em Watchmen. 

Particularmente, o Questão rendeu histórias bem importantes, que expressavam a filosofia de vida de Ditko, o racionalismo, mas não fizeram muito sucesso. Nos anos 1980, a DC Comics compraria o espólio da Charlton e o Questão, especialmente no século XXI, se tornou um tipo de personagem cult da DC.

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Rapina e Columba foram criados por Ditko. 

Em 1968, Ditko foi para a DC Comics, onde criou o Rastejador, o Desafiador (Deadman) e a dupla Rapina e Columba, que em breve chegará à telinha como parte da série Titans (Titãs) no canal de streaming da própria DC.

speedballO artista voltou à Marvel em 1979 e trabalhou com o Homem-Máquina e os Micronautas. Ao longo das décadas seguintes, continuou escrevendo e desenhando para a Marvel de maneira esporádica e criou personagens como Speedball e a Garota Esquilo, que, inclusive, virou uma personagem cult nos últimos anos.

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Garota Esquilo: personagem popular.

Ditko se transformou em uma pessoa reclusa com o passar dos anos e não cedia entrevistas nem fazia aparições públicas, tendo uma vida pessoal muito discreta. Não há notícias de que tenha se casado nem que possua filhos, mas aparentemente, vivia confortavelmente em Nova York, fruto dos royalties que ganhava dos filmes do Homem-Aranha e, mais recentemente, do Doutor Estranho.

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