A dupla John Lennon e Paul McCartney assinou mais de duas centenas de canções, compondo cerca de 85% do repertório dos Beatles, a banda liderada por eles e que é apontada como a mais importante da história do rock. Porém, como é muito comum em trabalhos conjuntos, muita coisa que foi assinada em dupla foi na verdade fruto de um esforço individual. Desde que começaram a escrever juntos, quando ainda eram adolescentes, antes da fama, a dupla fez um pacto informal de sempre assinar as canções como obra de Lennon & McCartney. Mas uma vez que a banda acabou, em 1970, houve muita curiosidade em saber “quem fez o quê?” e os próprios músicos responderam a esse tipo de questionamento em entrevistas. John Lennon falou bastante sobre isso em entrevistas até morrer em 1980, mas criou-se uma polêmica a partir de 2002, quando Paul McCartney publicou uma autobiografia e passou a reinvindicar algumas canções que normalmente eram associadas ao parceiro. In my life é uma delas e agora um estudo procura provar que a canção é realmente de Lennon e não de McCartney.
Mark Glickman, professor de Harvard, e Jason Brown, professor da Dalhousie University, criaram uma metodologia que usa dados matemáticos para analisar a produção musical de ambos os músicos. Os autores contabilizaram o uso de transição de acordes das faixas de cada um dos compositores, comparando-as a outras faixas dos músicos.

A construção de acordes de In my life foi comparada com outras duas canções lançadas no mesmo ano, em 1965, no caso, Help! (identificada com Lennon) e Michelle (identificada com McCartney), além do uso sistemático de harmonias e melodias de canções dos Beatles entre 1962 e 1966, o que é considerada a primeira fase da banda. A segunda fase (1967-1970) é considerada mais “madura”, com uso mais sofisticado de acordes e arranjos.

Divulgando a pesquisa ao New Musical Express, da Inglaterra, os autores disseram:

Nos perguntamos se poderíamos usar técnicas da análise de dados para descobrir o que acontece na música para distinguir se foi [escrita] por um ou pelo outros. […] A ideia básica é converter uma música em um conjunto de diferentes estruturas de dados que sejam acessíveis para estabelecer a assinatura de uma música usando uma abordagem quantitativa. Pense em decompor uma cor em seus componentes constituintes de vermelho, verde e azul com diferentes pesos anexados. A probabilidade de ‘In My Life’ ter sido escrita por McCartney é .018. O que basicamente significa que é uma música de Lennon. McCartney não se lembra corretamente.

A discórdia é que Lennon afirmou em entrevistas que compôs toda a estrutura básica da faixa, enquanto McCartney ajudou na “ponte” (trecho de uma canção em que há uma mudança – geralmente de tom ou andamento – quase sempre no meio da canção e durando 8 compassos), além de ter escrito algumas harmonias vocais, que permeiam a gravação da faixa, que está no álbum Rubber Soul, lançado em dezembro de 1965. Já McCartney vem afirmando que Lennon teria escrito apenas a letra e ele criara a música.

Segundo as entrevistas de Lennon, a canção era um exercício de memória sobre pessoas marcantes em sua vida, fazendo referência a amizades e amores que cruzaram seu caminho.

O estudo de Glickman e Brown vem a afirmar que a canção é de autoria de Lennon e com uma chance em 50 de ter contribuição de McCartney. Este foi procurado pelo NME para comentar a matéria, mas se recusou.

Claro, não nos cabe questionar os méritos de Paul McCartney como compositor, responsável por canções como Yesterday, Hey Jude e Let It be (que na lógica criada por eles mesmos, levam o nome de Lennon), mas realmente é uma lástima que McCartney venha tentar se apropriar das canções do parceiro, o que não é um caso isolado em In my life. Uma produção em parceria presume a constante intervenção do outro, que podem ser acatadas ou não no produto final, mas muitas vezes, e este definitivamente é o caso dos Beatles, a obra tem um tipo de “assinatura” de seu autor principal. Os fãs ou os apreciadores da obra dos artistas são bem capazes de identificar as canções que são mais associadas a Lennon ou a McCartney, como aquelas citadas acima no caso do último. Porém, desde sua autobiografia, McCartney vem “ampliando” o leque de canções que afirma serem suas, reinvidicando obras associadas a Lennon.

Outro ponto interessante é considerar como a ciência e o desenvolvimento de metodologias específicas podem auxiliar na identificação de obras e seus autores.

Os Beatles estrearam em disco em 1962 e se tornaram a banda de maior sucesso e influência em sua época. Após encerrarem as atividades em 1970, os quatro membros seguiram em carreiras individuais de sucesso. John Lennon e Paul McCartney nunca mais trabalharam juntos, e ficaram por um tempo “brigados”, embora tenham feito as pazes em 1973 e mantiveram contato ocasional até a morte de Lennon, assassinado por um fã com problemas mentais em 08 de dezembro de 1980.