beatles The_Beatles white album coverChamado oficialmente de The Beatles, mas eternizado como The White Album – ou em bom português, Álbum Branco – o disco de 1968 dos Beatles foi lançado no dia 22 de novembro e foi um sucesso arrebatador. Disco duplo, com 30 faixas e o primeiro a ser lançado pela gravadora própria da banda, a Apple Records, a bolacha foi um lance arriscado para um grupo que era acostumado a correr riscos, ao mesmo tempo em que eram os mais famosos do mundo.

De qualquer modo, quando lançado, o Álbum Branco era exatamente o que os fãs não esperavam. E mesmo assim, todos gostaram.

O disco duplo trazia a banda despojada de sua carapaça psicodélica que fizera tanto sucesso em 1967 e o mítico Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, e se apoiava em um grande volume de canções em geral mais simples, passeando por vários estilos rítmicos dentro do rock e destacando as características individuais de cada um dos membros do grupo. Não se pode dizer que o álbum tinha unidade – não tinha e ainda não tem – mas não era também uma colcha de retalho, apenas uma demonstração, algo indulgente, de que os Beatles eram capazes de muitas coisas. Muitas mesmo.

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Os Beatles tocam “Revolution” na TV em 1968.

Neste mês, The White Album completa 50 anos de existência, aniversário comemorado pelo lançamento de um pacote especial lotado de extras e curiosidades (saiba mais aqui). Porém, iremos nos dedicar a falar sobre o lançamento original.

Até certo ponto, o Álbum Branco era uma demonstração de força dos Beatles. Após cinco anos de carreira e sete álbuns de grande sucesso, o quarteto de Liverpool lavou o mundo com Sgt. Peppers, seu disco mais aclamado e maior sucesso, além de álbum mais importante do século XX.

O que fazer depois disso?

Na cabeça dos Beatles, algo diferente.

Como o empresário da banda, Brian Epstein, morreu em agosto de 1967 – de uma overdose acidental de medicamentos – os Beatles decidiram tomar conta dos próprios negócios e criaram a Apple Corps., um conglomerado de empresas (gravadora, editora, estúdio cinematográfico etc.) e um álbum mais rock do que o anterior, que explorasse as qualidades musicais que queriam ressaltar em sua música, e sem a afetação cheia de efeitos especiais de Peppers.

Em certo sentido, isso ajuda ao White Album ser mais moderno nos ouvidos de hoje, e mais atual, do que Peppers.

maharishi-beatlesAlém disso, para ajudá-los a lidar com as dores do mundo, a tristeza pela morte de Epstein e o fardo de serem os músicos mais famosos do mundo, os Beatles embarcaram num curso de meditação transcendental em Rishikesh, na Índia, com o Maharishi Mahesh Yogi, onde passaram algumas semanas, antes de voltar para se recolocarem no mundo.

A mente se acalmou só um pouco, os músicos aprenderam a meditar, mas mais importante, compuseram dezenas de canções.

Antes, a banda ainda teve tempo de dar uma “passadinha” nos estúdios da EMI em Abbey Road e gravaram quatro faixas, entre 03 a 06 de fevereiro de 1968, para garantir um compacto na primavera – Lady madonna/ The inner light – antes da aventura na Índia.

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Yoko Ono, John Lennon e Paul McCartney no lançamento da Apple Corps.

Na volta da Índia, John Lennon e Paul McCartney foram até Nova York, nos EUA, onde organizaram uma coletiva de imprensa para anunciar o lançamento da Apple Corps. sua própria empres. Era uma maneira de abrir as portas para outros artistas fora do jugo insensível dos burocratas – e da imprensa, como Lennon deixou bem claro na entrevista. A Apple teve relativo sucesso para além dos Beatles, e conseguiria sucesso com discos de artistas como James Taylor, Billy Preston, The Badfinger, Jackie Lomax, Mary Hopkins e alguns outros.

Na volta, o quarteto se reuniu na casa de George Harrison para gravar demos das faixas novas e começar a preparação para o novo álbum. As The Esher Demos se tornaram um dos artefatos mais apreciados pelos fãs da pirataria e mostram a banda experimentando as novas canções no formato voz e violão e, sempre que possível, adicionando alguns truques (como um vocal duplo), em um conjunto de faixas que são apenas demos mesmo, cheia de erros, mas que trazem alguma graça e a curiosidade de como as canções são desenvolvidas. Algumas delas foram lançadas no The Beatles Anthology III de 1996, mas o novo lançamento do Álbum Branco em 2018 traz na íntegra as 27 faixas gravadas.

beatles white album portraits alternate versionsNão apenas as faixas do Álbum Branco foram esboçadas na oportunidade, mas também algumas outras que iria compor a obra futura do quarteto, juntos ou separados. Por exemplo, canções como Mean Mr. Mustard e Pollytheme Pam, que só sairiam no Abbey Road (de 1969) já estavam lá, assim como Junk, que Paul McCartney só registraria na carreira solo, e Child of nacture, que John Lennon transformaria (com outra letra) em Jealous guy, no álbum Imagine, já de sua carreira solo.

Os Beatles entraram em estúdio e viveram uma grande maratona, com as gravações se estendendo de maio até setembro de 1968, numa jornada cheia de percalços, muita tensão e criação das primeiras fraturas profundas dentro do grupo.

As gravações

The White Album foi problemático desde o início. Já a primeira canção gravada – Revolution 1, a partir de 30 de maio – causou discórdia, pois John Lennon queria que seu retrato do Maio de 1968 – que tinha acabado de acontecer (as gravações iniciaram ainda naquele mesmo mês) – fosse lançada como single, mas então, era uma faixa lenta e meio sem atrativos, além de uma ótima letra, e a banda vetou. Então, Lennon, George Harrison e Yoko Ono, a nova namorada (e futura esposa) de Lennon, se enfiaram por dias no estúdio para gravar uma série de efeitos sonoros para o fim, o que levou Paul McCartney a viajar aos Estados Unidos para passar o tempo com sua também nova namorada, Linda Eastman!

Quando McCartney voltou, o trio ainda estava fazendo as gravações, então, ele se ocupou de supervisionar a gravação da primeira canção de Ringo Starr, Don’t pass me by, e ainda gravou sozinho Blackbird, antes do grupo finalmente se reunir para Everyody got something to hide except me and my monkey, já no dia 27 de junho. Lennon ainda deu um baile nos amigos quando trouxe a nova versão de Revolution, em 09 de julho, agora, rápida e pesada, adequada para um compacto.

beatles white-album sessions 11Depois, as gravações adoraram um clima frio, com a banda trabalhando junta, mas cada qual dos compositores – Lennon, Harrison e McCartney – preocupados mais em suas próprias canções e sendo deliberantes com as músicas dos outros. Até o ponto da indiferença.

O clima das gravações esquentou junto com o verão. No dia 25 de julho, a banda começou a trabalhar em While my guitar gently weeps, uma incrível canção de George Harrison. Mas Lennon e McCartney eram muitas vezes indiferentes às canções do parceiro e a faixa não ficou do jeito que o compositor queria. Então, McCartney trouxe a sua Hey Jude, que achava ser a melhor canção para o álbum (no fim das contas, ela não saiu no disco, mas antes em compacto). E não somente isso: McCartney queria gravá-la em 8 canais e a EMI só usava gravadores de 4 canais.

Então, depois de dois dias tentando fazê-la em Abbey Road, McCartney alugou o Trident Studios que já tinha uma máquina de 8 canais e a banda foi para lá no dia 31 de julho. Como “vingança”, Harrison não participou das gravações de base da faixa, fazendo sua guitarra em separado. O ato não passou desapercebido, e McCartney discretamente excluiu a maior parte da guitarra de Harrison da gravação, onde ela aparece apenas em alguns poucos segundos.

Harrison tentou de novo com uma nova faixa, Not guilty, mas de novo, a antipatia dos colegas levou a serem feitos 102 takes (!) da canção e no fim das contas, ela não foi usada! Harrison regravou a canção de modo acústico em seu álbum solo de 1979, mas a versão dos Beatles, um bom rock, só saiu no Anthology III, em 1996.

O clima ficou tão ruim que gerou dois grandes desacordos. Em primeiro lugar, o baterista Ringo Starr começou a se sentir diminuído e sem importância, até o ponto que, após as críticas duras de Paul McCartney quanto à bateria para Back in the USSR, Starr saiu batendo a porta do estúdio e se demitiu dos Beatles. Para fugir daquela loucura, aceitou o convite do amigo, o ator Peter Sellers – com que acabara de gravar dois filmes – e embarcou no iate Queen Elizabeth II num cruzeiro até Nova York.

beatles white-album sessions 3Sem Starr, o restante dos Beatles não se fez de rogado e continuaram as sessões de gravação normalmente, fazendo duas canções – Back in the USSR e Dear Prudence – com Paul McCartney tocando bateria em seu lugar. Mas no fim das contas, George Harrison intermediou uma conciliação e Ringo Starr voltou para um estúdio em que sua bateria estava inteiramente coberta de flores.

Para Dear Prudence, os Beatles voltaram ao Trident Studios para, de novo, gravar em 8 canais. Quando estavam finalizando a faixa, descobriram que a EMI tinha um gravador de 8 canais novíssimo e guardado no estoque, sem usar. Revoltados, o grupo usou de sua autoridade de “banda de maior sucesso do mundo” e simplesmente mandou o engenheiro de som Ken Scott, funcionário da casa, a instalar a máquina no Estúdio 2 de Abbey Road sem o conhecimento da administração da casa. Quando os executivos perceberam, já era tarde demais, ela já estava sendo usada.

A primeira faixa dos Beatles gravada em 8 canais em Abbey Road foi While my guitar gently weeps, que Harrison trouxe de volta para outra tentativa, em 05 de setembro. Junto com a  volta do baterista, se deu um pequeno ânimo às gravações e isso é captado em disco por meio de While my guitar gently weeps, Glass onion, Piggies, mas logo, a frieza e os problemas voltaram.

Irritado com a insistência da banda em gravar muitas canções que ele julgava fracas, e cansado das sessões tensas, o produtor George Martin, pela primeira e única vez na carreira dos Beatles, simplesmente tirou férias (também duas semanas) no meio das sessões e deixou em seu lugar seu assistente principal, o jovem Chris Thomas, que no futuro, seria um dos principais produtores britânicos, trabalhando com Pink Floyd, Elton John, Sex Pistols e muito mais.

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McCartney (de costas), Geoff Emmerick, Harrison, uma mulher não identificada e Martin na mesa de gravação.

Mas em 1968, Thomas era apenas um aprendiz e comandar as gravações da banda de maior sucesso do mundo foi uma ousadia algo irresponsável, o que causou uma terceira causalidade: exasperado pelo fato, e também cansado das brigas e tensão, o engenheiro de som Geoff Emmerick, que trabalhava com a banda desde 1962 (primeiro como engenheiro assistente, depois, como engenheiro principal) se demitiu, dizendo que nunca mais trabalharia com a banda.

Ele voltaria bem mais tarde: em meio aos problemas de gravação do álbum Abbey Road, um ano depois, Emmerick foi convocado a participar e o fez.

Foi com Chris Thomas na mesa de comando que os Beatles gravaram faixas como Glass onion, I will, Birthday, Piggies e Happiness is a warm gun, gravadas entre 11 e 25 de setembro.

Por fim, em meio ao verão no hemisfério norte, a banda ainda estava longe de terminar o disco e a data de lançamento já havia sido marcada e os Beatles deviam à EMI, por contrato, pelo menos um álbum por ano. Dessa forma, no intuito de acelerar a produção, a banda passou a trabalhar ainda mais sozinha, cada compositor cuidando da lapidação de suas próprias músicas, o que enfraqueceu ainda mais os laços e dá um ar muito individualista ao Álbum Branco.

A última canção gravada foi Julia, em 13 de outubro, com Lennon sozinho ao violão.

Duplo ou Simples?

beatles-white-album-lp-box-set-2018-billboard-embedA decisão de gravar um álbum duplo era algo que os Beatles já tinham adiado duas vezes. A ideia apareceu – apenas vagamente – durante as sessões de Rubber Soul, mas como as gravações daquele disco haviam iniciado muito tarde, e queriam-no lançado para o Natal, desistiram bem cedo. A segunda foi com Sgt. Peppers, que realmente tinha potencial para tal, mas as gravações já demoraram tanto tempo – seis meses – e foram tão caras que desistiram.

Mas agora era chegado o momento! E não foi bom!

Vendo o catálogo de canções dos Beatles e sabendo o que já tinham na manga àquela época, pode-se pensar que o conjunto de canções para compor um álbum duplo tinha muitas boas opções, contudo, o grupo optou por guardar algumas boas canções para trabalharem com cuidado no futuro (próximo), o que resultou em um disco inchado, cheio de faixas que não precisavam mesmo estar ali.

beatles white album montage celebrationTanto que desde as gravações – opção defendida pelo produtor George Martin – até algumas leituras posteriores – em especial de Harrison e Ringo Starr – havia a ideia de que o álbum duplo iria diluir a força das melhores canções. E isso aconteceu. Daí, que no documentário (e livro) autobiográfico dos Beatles, Anthology, Harrison e Starr falam que teria sido muito melhor ter desdobrado em dois discos simples ou em um único mesmo, para dar mais força. Starr até diz que poderia ser The White Album e The Whiter Album (o Branco e o Mais Branco).

Isto é fato! Se The White Album fosse um disco simples, com 13 ou 14 das melhores faixas do álbum final, teria sido provavelmente o melhor álbum dos Beatles em toda a sua carreira. Mas ao misturá-las com uma irritante lista de canções tolas (e mais algumas experimentais) deixaram-no mais fraco.

Mas ainda assim, podemos focar no que o disco tem de bom: um bom conjunto de canções (as melhores), que mostra algo do melhor que os Beatles produziram, embalados em um som muito bom (usando pela primeira vez um gravador em 8 canais).

A Capa

Quando Sgt. Peppers foi lançado, em 1967, todos ficaram impressionados com a capa do álbum: uma fantástica fotografia dos Beatles vestidos em fardas militares psicodélicas cercados por algumas das maiores personalidades do século – e um pouco além – num efeito sensacional. Então, a banda decidiu fazer algo diferente dessa vez.

Paul McCartney foi o responsável: contratou o artista plástico Richard Hamilton para desenvolver um projeto que fosse o total oposto do álbum anterior. E Hamilton foi radical: uma capa inteiramente branca, apenas com o nome da banda em fonte helvética e em alto relevo.

Em contradição, o encarte interno traria uma coleção de fotografias aleatórias – praticamente sempre em separado, quase nunca juntos como banda – trazendo a letra das 30 canções no verso – mantendo a tradição iniciada em Sgt. Peppers de trazer as letras encartadas.

Na embalagem, como era um álbum duplo, obviamente, The Beatles ganhou uma capa dupla quase toda branca, com o nome da banda e a lista de canções no lado esquerdo e retratos de cada um dos membros na direita, em belas fotografias de John Kelly.

beatles white album portraitsHamilton ainda conseguiu junto à EMI que um certo número de edições do álbum saíssem com a numeração de produção, para produzir o efeito irônico de ter uma cópia numerada (algo só existente em obras raras ou de baixa tiragem) em um produto que teria milhões e milhões de cópias. Os números 0000001 a 0000004 ficaram nas mãos dos próprios Beatles, sendo o primeiro de todos a cópia de Ringo Starr. O baterista vendeu sua cópia em um leilão no valor de US$ 790 mil, em 2015.

Houve ainda outros projetos paralelos para a capa – aparentemente, os Beatles contrataram vários artistas e escolheram a melhor. O primeiro nome do álbum seria Doll House, mas os Beatles desistiram ao saber que uma banda chamada Family tinha lançado um disco, naquele mesmo ano, com o nome de Music in a Doll’s House.

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Capa do Beatles Ballads

Não está claro se foi para esse projeto, mas o artista John Byrne produziu uma gravura dos Beatles para a capa do que viria a ser o The White Album, e ela não foi utilizada. Mas viu a luz do dia em 1980, como capa da coletânea The Beatles Ballads, que sucedeu a sua “irmã”, Beatles – Rock and Roll Music.

Sucesso

Quando lançado, o Álbum Branco foi um grande sucesso. Ajudou a expectativa do público, também, pois no Reino Unido (e na maior parte da Europa) era o primeiro álbum depois do megassucesso de Sgt. Peppers. Entre ambos, apenas alguns compactos: All you need is love, Hello, goodbye, Magical mystery tour (EP) e Lady Madonna. Nos EUA, porém, a gravadora Capitol – subsidiária da EMI – transformou o EP de Magical mystery tour em um álbum completo somado a outros compactos.

beatles please keep off the grassO White Album foi precedido imediatamente do single Hey Jude/ Revolution, que foi o primeiro lançamento da banda com o selo da Apple e foi um sucesso avassalador. O compacto saiu em 26 de agosto e chegou ao Número 1 tanto no Reino Unido (3 semanas) quanto nos EUA (9 semanas – com o recorde de single que mais tempo ficou na primeira posição). O disquinho vendeu 6 milhões de cópias em somente dois meses! Inclusive, a banda apareceu em dois programas de TV executando cada uma das canções: Hey Jude no The David Frost Show; e Revolution no Top of the Pops.

Então, nada mais justo que o Álbum Branco tenha ido direto para o 1º lugar das paradas do Reino Unido, ficando 7 semanas consecutivas na posição até o final de janeiro de 1969, quando o disco The Best of The Seekers, da banda homônima tomou a frente da posição e o disco duplo dos Beatles tenha caído para a 2º colocação. Mas na semana posterior, o quarteto de Liverpool voltou ao Número 1 para a 8ª e última semana na posição.

Nos EUA, o sucesso foi maior ainda: o álbum vendeu 3,1 milhões de cópias em apenas 4 dias, sendo este um recorde da indústria fonográfica americana, segundo a revista Rolling Stone. Ele estreou na 11ª posição na parada da Billboard, caiu para o 2º lugar na segunda semana e atingiu o Número 1 na terceira semana, permanecendo na posição durante 9 semanas e ficando um total de 155 semanas no Top 200 e vendendo 9,5 milhões de cópias, sendo o disco que mais vezes foi certificado dos Beatles: 19 discos de platina.

As Faixas do Disco.

Vamos agora às faixas do disco!

Lado A

BACK IN THE USSR

  • John Lennon: baixo, guitarra, bateria, vocais;
  • Paul McCartney: vocais, piano, guitarra solo e bateria principal;
  • George Harrison: guitarra, bateria, vocais.

O álbum abre com os sons de turbinas de avião pousando e decolando, indicando o regresso à União Soviética (ou União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS, em português). Back in the USSR é uma sátira, fazendo uma brincadeira a partir de Back in the USA, canção de Chuck Berry que virou uma famosa canção dos Beach Boys, com outra letra, Surfin’ in USA. Na faixa da banda da Califórnia, são cantadas as maravilhas da “liberdade” entre praias, garotas e corridas de carro da classe média branca do estado mais rico dos Estados Unidos. Lennon e McCartney pensam em como seria caso alguém fizesse uma versão no mesmo estilo, mas da União Soviética? (Eram tempos de Guerra Fria, na qual os EUA lideravam o bloco capitalista e a URSS o bloco socialista no mundo, disputando espaço e hegemonia política e econômica).

beatles white album sessions lennon-mccartneyA ideia para a canção, como muitas do disco, nasceu na Índia, durante o retiro espiritual dos Beatles. Mike Love, vocalista principal e letrista dos Beach Boys estava lá, fazendo também o curso de Meditação Transcendental e num momento de descanso conversaram sobre o tema: como seria a versão soviética de Back in the USA? Daí, McCartney esboçou o início da faixa, que foi completada por Lennon. Nas demos preparatórias para o disco, Back in the USSR é cantada em dueto por McCartney e Lennon, mas na versão final, ficou apenas com o primeiro nos vocais principais.

A gravação da faixa ocorreu justamente no período em que Ringo Starr se ausentou das sessões, então, nos primeiros takes, Lennon, McCartney e Harrison se alternaram na bateria em busca do melhor resultado. Mas McCartney era o único que tinha realmente alguma experiência no instrumento – nos tempos “primitivos” dos Beatles, era muito difícil ter um baterista fixo, então, sempre que pintava um show e não havia ninguém para sentar no banco com as baquetas, cabia a McCartney a função, pois naqueles tempos, os Beatles (que ainda atendiam por nomes como The Quarrymen ou Johnny and the Moondogs) tinham uma linha de frente de três guitarras, com ele mais Lennon e Harrison no instrumento. A ausência de uma delas não era tão mal em comparação à falta de bateria.

Dessa forma, sem Ringo, a base foi feita com McCartney na bateria, Lennon no baixo e Harrison na guitarra e longa sequência de overdubs se seguiu daí, com Lennon acrescentando uma guitarra e McCartney fazendo um piano e a guitarra solo.

DEAR PRUDENCE

  • John Lennon: vocais, violão elétrico, guitarra, piano;
  • Paul McCartney: baixo, bateria, órgão, vocais;
  • George Harrison: guitarra, vocais.

Outra faixa composta na Índia, foi uma pequena brincadeira de John Lennon para Prudence Farrow, a irmã da atriz Mia Farrow. As duas estavam fazendo o curso de meditação, mas Prudence levou a coisa a sério demais e se negava a sair de seu chalé, meditando o tempo inteiro e se recusando a comer ou socializar com os demais. Como medida de tentar tirá-la do quarto, Lennon criou o esboço da canção, convidando-a a sair do quarto para brincar e aproveitar o sol brilhando e o céu azul.

Não sabemos se funcionou, mas no fim, Lennon criou uma obra de grande beleza, uma pela folk em crescendo que é uma das mais bonitas entre as faixas desconhecidas dos Beatles para o grande público. É a primeira do disco que traz o estilo de dedilhado de violão irlandês que Lennon aprendeu na Índia nas lições que tomou com o cantor Donovan, que também fazia o curso. O estilo dedilhado de Lennon marcaria a fase final dos Beatles e pode ser ouvido em dezenas de canções, como I got a feeling e You never give your money, além de várias do White Album.

As gravações de Dear Prudence se seguiram às de Back in the USSR e novamente trazem Paul McCartney na bateria, dessa vez fazendo um trabalho ainda melhor. A graça da faixa é como cada estrofe vai acrescentando um instrumento à harmonia repetitiva da canção, lhe dando camadas e complexidade até o estouro no final, quando uma grande virada de bateria faz tudo balançar até a faixa mudar de ritmo e se encaminhar ao final.

GLASS ONION

  • John Lennon: vocais, violão;
  • Paul McCartney: baixo, piano, recorder;
  • George Harrison: guitarra;
  • Ringo Starr: bateria, pandeiro;
  • Músicos de estúdio: violinos, violas, violoncelos.

John Lennon era dado a escrever letras enigmáticas, especialmente durante a fase psicodélica dos Beatles e isso gerou muita discussão sobre o significado delas, como A day in the life ou I am the walrus. Ciente disso, o compositor simplesmente tira um sarro do ouvinte em Glass Onion, a cebola de vidro. (Uma cebola tem várias camadas, mas ao ser de vidro se torna uma coisa só! Que imagem!).

beatles white-album sessions 1Assim, a letra de Glass onion apenas diz que não se leve tudo muito a sério e, com isso, cita nominalmente várias outras canções dos Beatles, como The fool on the hill e I am the walrus.

Em termos musicais, é um rock direto que goza do som típico de bateria do Álbum Branco, mais forte, mais presente. Ah, e é somente aqui (na terceira faixa do disco) que Ringo Starr finalmente aparece em seu instrumento.

OB-LA-DI, OB-LA-DA

  • John Lennon: piano, vocais;
  • Paul McCartney: vocais, baixo;
  • George Harrison: violão, vocais;
  • Ringo Starr: bateria, percussão;
  • Músico Convidado: Nick Hopkins – piano complementar.
  • Músicos de estúdio: 3 saxofones.

Paul McCartney é dado a escrever canções românticas que os críticos mais severos chamam de “bobinhas” e esta, portanto, é mais uma delas. Entretanto, enquanto a maioria dos ouvintes pensa que o título é apenas um joguinho de palavras ao estilo “la-la-la”, na verdade, é transcrição não muito exata de um dialeto nigeriano usado pela família do percussionista e amigo dos Beatles, Jimmy Scott-Emuakpor, e que significa “a vida segue em frente”. O Desmond da letra, por sua vez, é uma referência a Desmond Dekker, primeiro cantor de reggae e ska que fez sucesso na Inglaterra naquela época, fazendo uma turnê no país. Ele também inspirou à banda adotar o reggae como ritmo da faixa.

beatles white-album sessions 9McCartney dedicou bastante tempo para sua gravação, o que irritou bastante os outros Beatles, que a achavam horrível. Tanto que o compositor tentou lançá-la como um single, mas Lennon e Harrison não permitiram. Uma das marcas de sua gravação foi que ela teve versões mais rápidas e mais lentas até a versão final, e que a introdução martelada ao piano surgiu quando Lennon, frustrado por ter que gravar mais um take da faixa, simplesmente mandou o trecho como um tipo de desabafo, que foi incorporado à faixa.

WILD HONEY PIE

  • John Lennon: percussão, vocais;
  • Paul McCartney: vocais, violão;
  • Ringo Starr: bateria.

Faixa experimental que traz apenas uma batida estranha e as palavras “honey pie” cantadas de modo histérico. Uma bobagem de alguns segundos que com certeza reforça os argumentos de que o disco podia ser mais compacto.

THE CONTINUING STORY OF BUNGALOW BILL

  • John Lennon: vocais, violão, órgão;
  • Paul McCartney: baixo, vocais;
  • George Harrison: violão, vocais;
  • Ringo Starr: bateria, pandeiro, vocais;
  • Chris Thomas: mellotron;
  • Yoko Ono: vocais;
  • Coro e palmas: Maureen Cox, Mal Evans.

Outra faixa descartável, que John Lennon criou baseada num curioso episódio de quando estavam meditando na Índia e conheceram um norte-americano que ia para floresta caçar tigres. A letra brinca em torno disso, tornando a jornada do caçador em algo surreal por meio de referências às histórias em quadrinhos, quando é citado o Capitão Marvel – não está clara se é o personagem também chamado Shazam!, bastante popular nos anos 1940, mas que prosseguiu sendo publicado com sucesso no Reino Unido; ou se é o novo Capitão Marvel criado pela Marvel Comics no ano anterior ao lançamento do disco.

O violão da introdução, curiosamente, é na verdade a programação do Mellotron para um mandolim, o primeiro sintetizador em larga escalada; e Yoko Ono faz uma participação especial imitando a voz de uma criança e cantando um dos versos.

WHILE MY GUITAR GENTLY WEEPS

  • John Lennon: guitarra, vocais;
  • Paul McCartney: piano, baixo, vocais;
  • George Harrison: vocais, violão, órgão;
  • Ringo Starr: bateria, pandeiros;
  • Músico Convidado: Eric Clapton – guitarra solo.

George Harrison foi ficando cada vez mais irritado nas gravações do Álbum Branco, porque via como a banda passava dias e dias se dedicando ao material de Lennon e McCartney – inclusive coisas como Ob-la-di, ob-la-da – mas acelerava o passo na hora de fazer suas canções. Assim, insistiu muito para que While my guitar… ganhasse um tratamento digno dos parceiros, o que rendeu algumas versões à canção.

john lennon and eric clapton 1968
Lennon e Eric Clapton em 1968. 

Para atingir seu objetivo, Harrison criou uma artimanha: convidou o guitarrista Eric Clapton, um grande amigo seu e de Lennon, para gravar uma participação especial. Na época, além de um sucesso estrondoso com a banda Cream, uma das mais populares dos anos 1960, Clapton era aclamado como o maior instrumentista da Inglaterra, o deus da guitarra! Por isso, realmente, Lennon e McCartney se esforçaram para “arrumar a casa” para que o amigo encontrasse uma boa faixa para trabalhar.

Por isso, a versão final de While my guitar… tem McCartney tocando um belo piano na introdução e Lennon fazendo um tipo de guitarra solo prévia para embalar o que viria depois. Clapton não tocou com a banda: chegou ao estúdio e gravou sua guitarra sobre a gravação prévia dos Beatles… em um único take!

O escritor Mark Lewishon diz que os engenheiros de som deram um tratamento ao som da guitarra de Clapton posteriormente, para lhe dar uma cara mais aos Beatles. Outra curiosidade é que esta foi a primeira faixa gravada após a volta de Ringo Starr ao grupo, depois de ter pedido demissão e ficado duas semanas fora. E também a primeira a ser gravada em 8 canais no estúdio de Abbey Road.

HAPPINESS IS A WARM GUN

  • John Lennon: vocais, guitarra;
  • Paul McCartney: baixo, vocais;
  • George Harrison: guitarra solo, vocais;
  • Ringo Starr: bateria, pandeiros.

Uma das grandes canções de John Lennon, Happiness… é formada de várias canções diferentes unidas por meio de uma letra que fala sobre a fortaleza da personalidade feminina, o que é uma das primeiras canções do autor feitas para Yoko Ono. O instrumental é muito bom, com destaque às mudanças rítmicas.

O título, claro, é uma mistura de ironia e crítica. Lennon viu a frase “a felicidade é uma arma quente” na capa de uma revistas sobre armas que o produtor George Martin lia e ficou impressionada: como um típico pacifista britânico, apenas exclamou crédulo, “uma arma quente significa que você atirou em alguém!”. Também é triste para alguém que iria morrer assassinado por uma arma de fogo 12 anos depois!

beatles white-album sessions 2No contexto da canção, Lennon perverte o sentido da expressão, pois dá a entender que a arma em questão é de cunho sexual, já que na Inglaterra, Pistol (pistola) podia ser usada como sinônimo de pênis, algo explícito pela banda Punk Sex Pistols oito anos depois.

E, claro, o leitor brasileiro já notou que o cantor e compositor cearense Belchior usou a frase em sua canção Comentário a respeito de John, lançada em 1979, na qual diz: “João, o tempo, andou mexendo com a gente sim/ John, eu não me esqueço/ oh, não, oh, não/ “A felicidade é uma arma quente”.

Lado B

MARTHA MY DEAR

  • Paul McCartney: vocais, piano, baixo, guitarra, bateria;
  • Músicos de estúdio: violinos, violas, violoncelos, trompetes, flugerhorn, french horn, trombone, tuba.

Outras das canções bobinhas de Paul McCartney, esta é ainda pior. É uma canção de amor, embora dessa vez, a inspiração é a cadela do autor, a sheepdog Martha. Talvez por isso, McCartney a gravou sozinha, tocando todos os instrumentos.

O fato de ter uma cadela como inspiração ajuda a chamar este Lado do disco como “o lado dos animais” em vista de que os animais serão temas de várias das canções a seguir.

I’M SO TIRED

  • John Lennon: vocais, violão, guitarra, órgão;
  • Paul McCartney: baixo, piano;
  • George Harrison: guitarra solo;
  • Ringo Starr: bateria.

Outras das grandes canções de John Lennon, I’m so tired é quase um blues, falando sobre a depressão, o que a torna um tipo de “irmã” de Yer blues, que apareceria mais adiante no álbum. O tom triste e desesperado da faixa é impressionante, que é encerrado com o poderoso verso “eu daria tudo o que tenho por um pouco de paz de espírito!”.

BLACKBIRD

  • Paul McCartney: vocais, violão, percussão com os pés, efeitos sonoros.

Uma das melhores canções de Paul McCartney no disco, Blackbird tem uma letra claramente sobre superação, o que a torna muito bonita embalada no arranjo simples e acústico de somente seu autor tocando o violão e batendo os pés (sim, a percussão foi gravada propositadamente dessa maneira, com um microfone aos pés do músico).

beatles white-album sessions 13À letra, McCartney sempre defendeu que estava se referindo à luta pelos direitos civis nos EUA, que nos anos 1960, foram uma das principais pautas, especialmente quanto aos negros. 1968 foi o ano em que o reverendo Martin Luther King Jr. foi assassinado e os EUA viveram um período bem turbulento nesta pauta.

Algo disso seria captado pelo assassino serial Charles Manson, que achou que o The White Album fazia um “diálogo telepático” com ele e que os Beatles, tal qual profetas, estariam lhe enviando mensagens cifradas. Blackbird ajudou Manson a pensar que se tratava de uma guerra entre brancos e negros.

PIGGIES

  • John Lennon: violão, efeitos sonoros;
  • Paul McCartney: baixo;
  • George Harrison: vocais, violão;
  • Ringo Starr: bateria;
  • Músico convidado: Chris Thomas – cravo;
  • Músicos de estúdio: violinos, violas, violoncelos.

Ácida faixa de George Harrison contra os capitalistas burgueses, a quem chama de piggies (porcos) se valendo da analogia do escritor George Orwell e o seu livro A Revolução dos Bichos; algo que o compositor Roger Waters, do Pink Floyd, também faria no álbum Animals, daquela banda, em 1977.

beatles white-album sessions 6A canção de Harrison poderia ter se beneficiado de um arranjo melhor, embora aja um cravo (harpchord) tocado por  Chris Thomas, o assistente de George Martin que também ajudou a produzir o disco.

Piggies também foi “vítima” das interpretações de Charles Manson, que captou a crítica da canção: quando seus seguidores assassinaram seis pessoas na Califórnia em agosto de 1969, escreveram a palavra piggies com sangue das vítimas nas paredes, já que as vítimas eram pessoas de classe média e alta.

ROCKY RACCOON

  • John Lennon: baixo, gaita, harmonium, vocais;
  • Paul McCartney: vocais, violão;
  • George Harrison: vocais auxiliares;
  • Ringo Starr: bateria;
  • George Martin: piano.

Mais uma faixa bobinha de McCartney, um R&B lento embalado por uma letra pseudo-épica no estilo faroeste, misturando um duelo, uma disputa amorosa e a Bíblia dos Gideões.

Em termos sonoros, ela se alinha a I’ve seen you face do álbum Help!, de 1965, mas Rocky Racoon é muito inferior.

guardians2 rocket pilotPor outro lado, o título da canção inspirou o escritor Bill Mantlo, da Marvel Comics, a criar um guaxinim espacial que vivia aventuras no estilo faroeste, batizando-o (para evitar problemas com direitos autorais) de Rocket Raccoon, um herói bizarro que, anos depois, seria incorporado aos Guardiões da Galáxia e que, a partir de 2014, virou uma celebridade nos filmes de ação.

DON’T PASS ME BY

  • Paul McCartney: piano, baixo;
  • Ringo Starr: vocais, bateria, piano, sino;
  • Músico convidado: Jack Fallon – violino

A primeira canção solo de autoria de Ringo Starr chega aos discos dos Beatles. O baterista já tinha levado créditos de compositor na faixa country and western What’s goes on?, assinada como Lennon-McCartney-Starr e cantada pelo último no álbum Rubber Soul; além da faixa instrumental Flying, de Magical Mystery Tour, que leva a assinatura de todos os Beatles. Mas aqui, Starr faz uma música de verdade. Completa.

beatles white-album sessions 4Claro que Don’t pass me by não é nada demais, uma canção meio tola sobre um cara que pede para a namorada não ir embora. Talvez menos como canção, ela seja mais prejudicada como faixa, por conta do arranjo country exagerado que ganha no disco, embalado por um violino que toca como uma rebeca, um típico recurso daquele gênero musical.

WHY DON’T WE DO IT IN THE ROAD?

  • Paul McCartney: vocais, piano;
  • Ringo Starr: bateria.

Uma canção que tem apenas dois versos, mas que ainda guarda algum interesse. Anos depois, Paul McCartney disse que a letra é sobre fazer sexo na estrada mesmo, provavelmente dentro do carro. Mas apesar da simplicidade, é um arranjo bastante forte, com um bom vocal de McCartney, o piano e a bateria tocada por Ringo Starr. De fato, McCartney entrega uma grande performance vocal.

I WILL

  • John Lennon: percussão;
  • Paul McCartney: vocais, violão, baixo com a boca; teclado;
  • Ringo Starr: bateria.

Outra baladinha meio sem sal de Paul McCartney, embora de uma beleza tocante. A gravação é simples, com apenas ele no violão e Lennon e Starr fazendo percussão. Poderia ter se beneficiado de um arranjo melhor.

JULIA

  • John Lennon: vocais, violão.

Uma tocante balada ao estilo irlandês, com o violão dedilhado – uma técnica aprendida com o cantor Donovan – que Lennon cria em homenagem a sua mãe, morta em um atropelamento em 1958, quando ele era adolescente. É uma faixa tocante e foi a última a ser gravada para o disco.

Lado C

BIRTHDAY

  • John Lennon: vocais, guitarra;
  • Paul McCartney: vocais, piano elétrico, baixo;
  • George Harrison: vocais, guitarra;
  • Ringo Starr: bateria;
  • Vocais: Patty Boyd e Yoko Ono.

Após uma série de canções tristes, o Lado C do Álbum Branco explode em alegria nesta faixa. Na verdade, Birthday é uma grande brincadeira, uma canção de aniversário. Apesar da letra tola – “é o seu aniversário/ estou feliz por você/ (…) teremos um bom momento juntos” – tem um instrumental rock muito interessante, bastante frenético.

A gravação traz algumas curiosidades: Lennon e Harrison tocam o mesmo riff na guitarra, cada um fazendo as frases em tons graves e agudos, respectivamente, uma abordagem que repetiriam no álbum seguinte, em Dig a pony. Outra coisa é que Yoko Ono e Patti Boyd, respectivamente, esposas de Lennon e Harrison, fazem as vozes femininas da parte final. Por fim, o meio da canção deixa um espaço vazio de 8 compassos, preenchidos só pela bateria, que seria ocupada por alguma outra coisa, com um solo de guitarra ou algo assim, mas no fim das contas, a banda desistiu e deixou só a marcação repetida mesmo.

YER BLUES

  • John Lennon: vocais, guitarra;
  • Paul McCartney: baixo;
  • George Harrison: guitarra solo;
  • Ringo Starr: bateria.

John Lennon entrega seu segundo blues triste, ainda melhor do que o primeiro, com Yer blues. Dessa vez, a mensagem é ainda mais direta: “estou sozinho/ quero morrer/ E se eu já estiver mesmo morto/ Oh, garota, você sabe o por quê”.

beatles white-album sessions 10A dinâmica instrumental é uma das melhores da carreira do grupo, com duas guitarras distorcidas, um bom baixo e uma boa bateria. Querendo um som mais compacto, de banda ao vivo, Lennon conseguiu convencer o engenheiro de som Geoff Emerick a registrar o grupo tocando ao vivo dentro de um quarto minúsculo que havia embaixo das escadas do Estúdio 2 de Abbey Road, o que deu certo, mas criou alguma saturação tanto nas guitarras quanto na bateria e nos vocais. O resultado final é ótimo!

john lennon eric clapton keith richards mitch mitchell in rock and roll circus 1968
Dirty Mac, com Clapton, Lennon, Mitchell e Richards.

Essa se tornou uma das faixas favoritas para Lennon se apresentar ao vivo e embora os Beatles quase não se apresentassem ao vivo mais, ainda na existência da banda, ele a executou no palco pelo menos em duas ocasiões célebres: a primeira, ainda em dezembro de 1968 (um mês depois do lançamento do disco) no especial de Natal dos Rolling Stones para a TV, chamado Rock and Roll Circus; na qual é acompanhado por Eric Clapton (guitarra), Keith Richards (dos Stones, no baixo) e Mitch Mitchell (do The Jimi Hendrix Experience, na bateria), numa banda de ocasião chamada The Dirty Mac, numa performance sensacional. O especial terminou não indo ao ar – porque os Stones não gostaram de sua própria performance naquela noite – mas virou um item bastante conhecido na pirataria até o lançamento oficial em 1996.

A segunda vez, foi no Rock and Roll Revival Festival, em Toronto, no Canadá, quando Lennon estreou seu projeto solo, a The Plastic Ono Band, que naquela ocasião tinha, de novo, Eric Clapton (na guitarra) ao lado de Klaus Voorman (baixo) e Alan White (futuro baterista do álbum Imagine e da banda Yes, na bateria) e seria lançada no álbum ao vivo Live Peace Toronto, 1969.

MOTHER NATURE’S SON

  • Paul McCartney: vocais, violão, percussão;
  • Músicos de estúdio: 2 trompetes, 2 trombones.

Um grande lamento ecológico de autoria de Paul McCartney, cujo o tema deve ter colocado Child of nacture, de Lennon, de fora do disco. É uma faixa muito bonita, novamente, com McCartney cantando sozinho ao violão, sem a banda; embora, Lennon contribuiu com a letra.

EVERYBODY GOT SOMETHNG TO HIDE EXCEPT ME AND MY MONKEY

  • John Lennon: vocais, guitarra;
  • Paul McCartney: baixo, sino;
  • George Harrison: guitarra;
  • Ringo Starr: bateria.

Um grande rock de Lennon que é um grande grito de cuidado para não seguirem gurus quaisquer, o que, claro, era uma mensagem ao Maharishi. O título é uma ironia às frases do religioso, que sempre repetia “todos têm algo a esconder”, mas ao mesmo tempo, fazia as vezes de homem santo (“exceto eu”). O macaco, infelizmente, temos que admitir, embora colocado apenas para fechar o verso, foi um gesto preconceituoso em relação às florestas da Índia.

beatles white-album sessions 12A letra é formada por típicas frases de autoajuda, num gesto de crítica que pode não ser bem entendido pelo ouvinte.

Em termos de som, é um grande rock, com um arranjo frenético.

SEXY SADIE

  • John Lennon: vocais, violão, guitarra, piano, órgão;
  • Paul McCartney: baixo, piano, vocais;
  • George Harrison: violão, guitarra solo, vocais;
  • Ringo Starr: bateria, pandeiro.

Outro ataque ao Maharishi, dessa vez, focado à suposta tentativa de sedução de uma mulher do acampamento, que alguns pensam ser a atriz Mia Farrow, outros a irmã dela, Prudence. O fato é que essa foi a primeira canção que John Lennon criou após sair da Índia e seu título original era Maharishi, mas como era uma difamação, George Harrison convenceu o companheiro de banda a mudar o título e sugeriu Sexy sadie.

A boa letra é sobre, claro, decepção: alguém que se dizia grande e agiu como um tolo. O arranjo é sensacional: nem rápido para ser um rock, nem lento demais para uma balada; encrustado com pianos descendentes que se cruzam e um belíssimo solo de guitarra.

HELTER SKELTER

  • John Lennon: baixo, vocalização, saxofone;
  • Paul McCartney: vocais, guitarra solo;
  • George Harrison: guitarra base, vocalização;
  • Ringo Starr: bateria;
  • Mal Evans: trompete.

Certa vez, Paul McCartney ouviu o guitarrista Pete Townshend dizendo na TV que sua canção, I can see for miles, lançada pelo The Who em 1967, era a mais pesada, a mais suja, a mais demolidora canção de rock já lançada. Nem era para tanto, mas o beatle se sentiu desafiado a fazer ainda melhor. Daí veio Helter skelter.

Bom pelo menos é essa a história que McCartney gosta de contar, já que na realidade não foi bem assim. As gravações alternativas já lançadas – como no Anthology III, de 1996, e na edição Deluxe do White Album, agora em 2018 – mostram que a faixa era originalmente um R&B lento que foi sendo acelerado e se tornando mais pesado como improviso na medida em que ia sendo gravado.

A versão final da canção é montada a partir de vários takes e de improvisos, o que gera os três finais falsos na parte final. Como John Lennon ainda achava que as guitarras – tocadas por McCartney e Harrison – ainda não entregavam o que prometiam, ele e o rodie Mal Evans, gravaram sax e trompete, de modo dissonante, para parecerem guitarras distorcidas, num efeito sensacional também na parte do fim.

charles-manson-1Esta foi outra das canções que Charles Manson tomou para si como mensagem: sem saber que helter skelter é simplesmente um tipo de escorregador cheio de voltas, segundo o inglês britânico; Manson interpretou a expressão como o anúncio do Juízo Final, o resultado que viria com a guerra entre brancos e negros que “profetizou”. Infelizmente, por isso, tal sentido ganhou popularidade e o título está para sempre associado à Manson e sua família.

LONG, LONG, LONG

  • Paul McCartney: órgão;
  • George Harrison: vocais, violão;
  • Ringo Starr: bateria;
  • Músico convidado: Chris Thomas – piano.

Depois da turbulência da faixa anterior, vem esta canção de George Harrison, gravada numa espécie de torpor analgésico e sonolento. É uma letra sobre uma perda do passado, ou a busca de Deus, e uma bela canção, porém, o excesso de reverberação e efeitos de som a tornam difícil de escutar e entender.

Lado D

REVOLUTION 1

  • John Lennon: vocais, violão, guitarra solo;
  • Paul McCartney: baixo, piano, órgão, vocais;
  • George Harrison: violão solo, vocais;
  • Ringo Starr: bateria;
  • Músicos de estúdio: trompetes e trombones.

A primeira tentativa de John Lennon em gravar Revolution foi nessa versão, a primeira canção gravada para o Álbum Branco. Inicialmente pautada em violões, a faixa foi sendo encorpada com guitarras distorcidas – pelo próprio Lennon – e ganhando uma cara mais agressiva. Contudo, o andamento ainda era muito lento. No fim, para tornar a ideia de revolução mais pertinente, ainda a cobriu de efeitos sonoros, ruídos e sons aleatórios.

beatles white-album sessions 7A composição era uma resposta de Lennon ao Maio de 68 e ele pensava que os Beatles deviam se pronunciar com urgência. Daí, que a queria lançada em um compacto. Mas os demais membros insistiram que ela era lenta e, por isso, não boa o bastante. Frustrado, o músico criou uma outra versão dela, mais rápida, e fez a banda gravá-la, quando percebeu que o compacto do álbum seria ocupado pela balada Hey Jude, de McCartney.

Ainda assim, achou pertinente lançar a primeira versão. Foram adicionados instrumentos de orquestra, especialmente, sopros, e os efeitos finais foram extraídos e trabalhados como algo à parte, virando Revolution 9 que logo mais aparece no disco.

HONEY PIE

  • John Lennon: guitarra solo;
  • Paul McCartney: vocais, piano;
  • George Harrison: baixo;
  • Ringo Starr: bateria;
  • Músicos de estúdio: saxofones, clarinetes.

Daqui para o fim, o Álbum Branco é meio encheção de linguiça.  Depois de ter sido “prometida” (?) por Wild honey pie, Paul McCartney entrega a verdadeira torta doce. E é uma decepção. A canção tem estilo jazz da velha guarda (a banda até usou o efeito da voz no segundo verso parecer um velho disco de cera) e até se beneficia de uma guitarra solo interessante, tocada ao estilo de Django Reinhardt, cortesia de John Lennon.

Mas no fim, é uma música ruim.

SAVOY TRUFFLE

  • Paul McCartney: baixo;
  • George Harrison: vocais, guitarras;
  • Ringo Starr: bateria, pandeiro;
  • Músico convidado: Chris Thomas – piano elétrico, órgão;
  • Músicos de estúdio: 3 saxofones tenor e 3 barítono.

George Harrison fez várias canções maravilhosas nos Beatles, mas esta não é uma delas. Como outras no álbum, se beneficia de um arranjo interessante, para uma canção não tão boa. A letra de Savoy truffle é inteiramente construída com o nome de bombons de chocolate de uma tradicional marca britânica, Good News, que Harrison comeu na casa de seu grande amigo Eric Clapton.

beatles white-album sessions 8Tal qual a faixa anterior, esta bebe no jazz, evidenciada nos arranjos de sopros. Há um bom piano elétrico – aparentemente tocado por Chris Thomas – e um bom solo de guitarra, mas nada mais.

CRY BABY CRY

  • John Lennon: vocais, violão, piano, órgão;
  • Paul McCartney: baixo;
  • George Harrison: violão, guitarra;
  • Ringo Starr: bateria, percussão;
  • Músico convidado: George Martin – harmonium.

John Lennon tira um sarro da monarquia nesta letra non-sense sobre a família do Duque de Bijuteria, que serve à Rainha. Na verdade, deste bloco final de encheção de linguiça, esta é a melhor delas, pois constrói um arranjo interessante às variações da letra.

REVOLUTION 9

  • John Lennon: efeitos sonoros;
  • George Harrison: efeitos sonoros;
  • Yoko Ono: efeitos sonoros.

Uma obra da mais altíssima vanguarda num disco dos Beatles: Revolution 9 não tem música, apenas ruídos, colagens e efeitos sonoros. Conceitualmente, é um retrato do ano turbulento de 1968, mas obviamente, não é algo coerente. E nem algo que se espera em um disco de música popular.

Tirada dos efeitos sonoros que iriam fazer parte da coda final de Revolution (1), Revolution 9 é sem sombra de dúvidas uma obra ousada, mas não é nada daquilo que se espera ouvir em um disco de música. (Sim, existiam discos que não eram de música, com histórias narradas ou entrevistas, por exemplo).

GOOD NIGHT

  • Ringo Starr: vocais;
  • Músicos de estúdio: orquestra e coro.

beatles white-album sessions 5Que tal encerrar um disco revolucionário com uma canção de ninar? É isso! John Lennon escreveu Good night para ninar seu filho, Julian, na época com 5 anos de idade, e na total impossibilidade de ele cantar algo assim num disco dos Beatles, entregou para Ringo Starr a dura tarefa. Se é para avacalhar, vá fundo: Lennon insistiu com o produtor que a faixa tivesse a cara daquelas orquestras dos anos 1920, com coro (8 vozes, 4 masculinas, 4 femininas) e tudo mais. E foi o que ele fez. Não é Beatles. Não é rock. É uma triste maneira de encerrar um álbum tão importante.