Antes tarde do que nunca, não é? Uma série de problemas pessoais me impediu de resenhar Aquaman até hoje, mas agora vamos: o rei dos mares é a salvação da DC Comics?

“Salvação” o tempo irá dizer, mas com certeza, Aquaman aponta o caminho que a DC decidiu seguir em seus próximos projetos (Shazam! em particular): mais aventuresco, mais “divertido”, menos sombrio… Cada filme é um caso, mas isto funciona na aventura aquática dirigida por James Wan.

Aquaman não é um filme espetacular. Longe disso. Mas é divertido e tem um visual muito bonito. Assim, cumpre o objetivo de ser bom de assistir e redimir de uma vez por todas o personagem mais zoado da DC Comics, alvo favorito de piadas de veículos como o Frango Robô.

A trama do longa adapta o arco de histórias criado por Geoff Johns (texto) e o brasileiro Ivan Reis (arte) no lançamento da iniciativa Os Novos 52, de 2011. A trama é simples e interessante: o rei Orn de Atlantis quer unir os sete reinos submarinos para lançar uma guerra contra a superfície, então, seu vizir (arauto) Vulko e sua noiva, Mera, se unem para convencer Arthur Curry, o filho ilegítimo da rainha Atlana, com um faroleiro estadunidense chamado Tom, para assumir o trono e impedir o conflito.

O trunfo de Aquaman é não se levar à sério e saber incorporar a iconografia de seu protagonista, mesmo (ou especialmente?) aquilo que foi motivo de piada ao longo das décadas. Orin cavalgava um cavalo marinho gigante? O filme traz isso. Os Super-Amigos mostravam um polvo tocando bateria? O filme traz isso. E o uniforme amarelo berrante com verde? O filme traz isso!

Além disso, a ambiência do longa também alterna canções pop com música eletrônica, causando alguma estranheza, mas que serve para reforçar o choque de culturas que ocorre na tela. Essa ambiência também resulta curiosa quando vemos Atlantis pelos olhos de Arthur, num efeito de deslumbramento; enquanto o nosso próprio mundo, o da superfície, é apresentado pelos olhos de Mera, que constrói uma visão ingênua e cômica, resultando em alguns momentos engraçados.

Rir de si mesmo faz bem ao filme e isto o filme traz quase sempre que Arthur e Mera dividem a tela, o que é uma boa solução para uma história que entrega tantos elementos fantásticos, mais ainda do que da Liga da Justiça ou Mulher-Maravilha.

Embora seja necessário algum grau de didatismo para apresentar (rapidamente) os sete reinos submarinos e a história por trás deles – e o McGuffin do filme (elemento cinematográfico que é a coisa a ser buscada na trama) – o longa resolve isso bem por meio do diálogo, sem longas digressões.

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O visual do filme é um de seus melhores achados. A fotografia é muito bonita em todos os momentos, mas com destaque nas ensolaradas sequências no Deserto do Saara e na Sicília, que ficam lindas na tela. As cenas submarinas são incríveis, com o fundo do mar em sua glória de peixes, animais marinhos, montanhas e vales submarinos; e tem um tipo de crescendo ao longo do filme, começando com uma visão realista e gradativamente se tornando mais fantástico até chegar ao Fosso e à sequência final.

Os efeitos também são interessantes ao combinar o que esperamos ver embaixo d’água (ondulações, cabelos flutuando, movimentos fluidos) com algumas surpresas (não saem bolhas das bocas dos personagens, afinal, sua comunicação não envolve troca de oxigênio com a água).

Aquaman não tem tempo de aprofundar seus personagens, apenas de dotá-los de algumas características fortes, o que serve para conduzir o filme. A dinâmica Arthur-Mera é típica daquela de Shrek: ele é um ogro e ela uma mulher mais refinada, nobre e inteligente. Mas o protagonista guarda algumas surpresas, como um excelente conhecimento histórico, o que mostra que ele gosta de se esconder sob a carapaça de turrão ignorante.

Assim, o filme entra na via da representação de uma maneira interessante. Novamente, ressalta a força das mulheres, seja na nobreza de Atlana, ou na sagacidade e inteligência de Mera, dando mais heroínas a serem seguidas pelas meninas. Outro elemento bastante discutido no filme é o da mestiçagem, pois esta é a condição de Arthur Curry, filho de dois mundos, de duas raças. A questão dele ser ou não digno por causa dessa condição aparece o tempo todo e a trama ressalta que esta é a sua riqueza, o seu maior trunfo.

A mestiçagem deve ser um tema interessante para o expectador brasileiro. Ademais, é importante ter um ator mestiço como Jason Momoa fazendo jus à questão. A relação interracial também é abordada e não deixa de ser importante ver uma atriz de “primeira linha” de Hollywood como Nicole Kidman (branca, loira e de olhos azuis) fazer par com Temuera Morrison.

Falando nos atores, o elenco de Aquaman está bem. Jason Momoa está à vontade no papel do turrão-ogro de bom coração e Amber Head tem carisma para fortalecer os momentos cômicos de Mera. Willem Dafoe está bom como sempre, como Vulko (e é ótimo ver o ator não interpretar apenas vilões em produções desse tipo) e vale um destaque a Patrick Wilson, que faz o vilão Orn, o Mestre dos Mares. Seu personagem é movido por uma causa justificável e ele não é retratado de modo caricato, embora, também não seja aprofundado em demasia.

Aquaman tem seus problemas também, claro, especialmente na conveniência de determinadas questões do roteiro, mas sem fazer de conta que é um filme profundo ou destinado à reflexão, cumpre exatamente seu objetivo, que é o de garantir duas horas de diversão a quem assiste.

Não está claro se a DC Comics irá manter seu Universo Cinematográfico coeso, ou seja, sua cronologia – neste ponto, Aquaman ainda conecta diretamente ao que veio antes, pois é feita a menção de que o herói ajudou a conter o Lobo da Estepe, em referência direta à Liga da Justiça – mas em termos cinematográficos, o longa do rei dos sete mares mostra que o estúdio pode investir em diversidade quando possui um elenco tão rico quanto o da concorrente e ainda melhor sucedida Marvel Comics.

Nem tudo pode ser sombrio, nem tudo pode ser sombrio e pesado. Se conseguir distribuir isso em seus personagens, quem sabe a DC acerte também com seu universo nos cinemas.