Após rodar o mundo inteiro com 156 shows para 2,3 milhões de pessoas, o cantor e compositor Roger Waters, ex-líder da banda Pink Floyd, irá lançar a turnê Us + Them como um filme. A produção será da Trafalgar Releasing, a mesma que já lançou Roger Waters – The Wall, a turnê anterior do músico.

Us + Them Tour divulgou o disco Is This the Life We Really Want?, que o músico lançou em 2017 e dividiu opiniões por suas posições políticas, basicamente contra o presidente dos EUA, Donald Trump e a guinada conservadora que ronda o mundo, com a ascensão de líderes de direita e extremistas por todo o globo.

Inclusive, Waters passou com a turnê aqui pelo Brasil em outubro de 2018, em plenas eleições presidenciais e seus concertos causaram bastante polêmica (veja aqui e aqui também), quando se posicionou contra o então candidato Jair Bolsonaro, acusando-o de fascista e usando a hashtag EleNão no telão.

Roger Waters foi o líder e principal compositor do Pink Floyd, criador de obras magnas como os álbuns Darkside of the Moon (1973) e The Wall (1979) e sua turnê Us + Them foi a 8ª mais lucrativa de 2018, conforme o HQRock divulgou há alguns meses, sendo a segunda performance de rock da lista (atrás do The Eagles, banda bastante popular nos EUA) e à frente de nomes como Rolling Stones e U2.

Se tomarmos como parâmetro Roger Waters – The Wall, o filme da turnê anterior, Roger Waters – Us + Them Tour irá intercalar a música e o concerto com a dinâmica sempre polêmica da própria turnê e as posições políticas do compositor. E enquanto The Wall ainda lidava com muitos fantasmas pessoais do próprio Waters – parte da obra, que é uma ópera rock gravada pelo Pink Floyd em 1979, trata da morte do pai de Waters como um soldado durante um episódio da II Guerra Mundial, em 1944, com o filme, inclusive, mostrando o compositor indo visitar o túmulo coletivo em que seu pai está enterrado, na Itália, e prestando-lhe uma homenagem – Us + Them é inteiramente calcado no aspecto político.

E o giro de Waters pelo mundo rendeu muita falação: o boicote a Israel pelo segregacionismo adotado pelo governo; a construção do muro na fronteira com o México pelo governo dos EUA liderado por Trump; as críticas do músico à intervenção na Venezuela; e, claro, por último, mas não menos importante, o episódio de Bolsonaro no Brasil.

Inclusive, eu arriscaria dizer que a passagem pelo Brasil terá um destaque especial no filme, não apenas pela repercussão do caso – Waters foi vaiado no show de São Paulo após exibir os conteúdos contra o atual presidente – mas porque houve implicações um pouco mais sérias que isso: em recente entrevista, o músico denunciou que foi ameaçado de morte no Brasil e que sua equipe de segurança até recomendou a mudança de um hotel com o risco de um ataque.

Isso é muito sério, pois a discordância política não justifica se ameaçar alguém de morte; mas por outro lado, é muito a cara do Brasil atual, em que o atual presidente e seus assessores próximos (o que inclui os filhos) estão constantemente escrevendo acusações e ameaças de agressão (e até de morte!) contra “inimigos” políticos ou ideologias discordantes.

A coisa é tão grave que, no Brasil, as pessoas estão se acostumando a tomar ameaças de morte como algo natural. E até a defendem nas redes sociais!