Roger Waters, o ex-líder e fundador do Pink Floyd, recentemente encerrou sua turnê Us + Them, que rondou o mundo e passou pelo Brasil em outubro de 2018 e causou polêmica por seus posicionamentos políticos. Sendo entrevistado pelo Brooklyn Vegan, o compositor avisa à imprensa internacional que foi ameaçado de morte e prisão no Brasil.

A Us + Them Tour divulgou o novo álbum de Waters – que deixou o Pink Floyd em 1985 – chamado It’s The Life We Really Want?, lançado em 2016, e que realizou 157 concertos pelo mundo e terminou 2018 como uma das turnês mais lucrativas do ano, segundo o HQRock noticiou algum tempo atrás, perdendo apenas para os nomes mais populares do pop, como Ed Sheeran; Taylor Swift; Jay-Z e Beyoncé; dentre outros.

É verdade, a controvérsia política de Waters não é restrita apenas ao Brasil, pois houve alguns outros episódios, citados na entrevista, também, como o cancelamento de concertos no Nassau Colliseum, em Nova York, e algumas questões na França, mas pouca coisa aparece tão impactante quanto o caso do nosso país.

O entrevistador cita o caso do Nassau Colliseum e pergunta se fora dos EUA houve algum caso parecido, e de cara, Waters cita o Brasil:

Bem, eles me ameaçaram por na prisão no Brasil, porque eu estava “metendo o bedelho” na eleição deles, aderindo ao movimento #EleNão, que falhou. Você sabe, [Jair] Bolsonaro, o fascista Bolsonaro, foi eleito [presidente] apesar da resistência contra ele. Eu queria ir lá e visitar o Lula [o ex-presidente, Luís Inácio Lula da Silva] quando fomos pro Sul, que é onde ele está na prisão, mas a Juíza local me negou a oportunidade. Porque era uma época muito sensível, a eleição estava chegando.

Óbvio, a única razão de Lula estar na prisão é porque ele teria ganhado a eleição com as duas mãos amarradas nas costas SE ele pudesse concorrer, o que ele não pôde, porque eles jogaram ele na prisão com acusações falsas de corrupção. No Ocidente, as pessoas apenas pensam: “Ah, tá, outro político corrupto…” Não, ele não é! Ele não é um político corrupto, ele está na prisão por causa das acusações falsas apresentadas por aqueles que estão no poder no Brasil.

Após falar sobre outros casos, como na França, e o modo como as leis encaram as formas de protesto, o entrevistador perguntou sobre reações violentas e, de novo, Waters falou do Brasil primeiro:

Minha segurança tentou me tirar do hotel em que eu estava no Rio [de Janeiro] e blá-blá-blá… e eu disse: “Não! Eu não vou mudar de hotel. Eu entendo que vocês são profissionais e que vocês estão fazendo o trabalho de vocês, mas não”.

Se o primeiro caso era relacionado a uma questão com a Lei, este não. Trocar de hotel está relacionado ao risco de vida. A segurança de Waters no Brasil temeu por sua vida e isso é algo muito sério.

Independente de você concordar ou não com o posicionamento político de Waters e suas opiniões, você não tem o direito de ameaçá-lo de morte. Nem que seja pelo Facebook. O problema é que vivemos tempos tão obscuros no Brasil que as pessoas ameaçam as outras de morte com a mesma frequência com que convidam os amigos para sair. Isso é muito sério. Ninguém tem o direito de ameaçar ninguém. Em uma democracia, devemos ter o direito de manifestar nossos posicionamentos políticos e podemos discordar, podemos discutir, mas dentro de um quadro legal e respeitoso. Por isso o debate é importante. Por isso que eleições presidenciais contêm debates, para que os candidatos ao cargo mais importante do país discutam civilizadamente à frente de todo o país e exibam suas ideias, planos, fortalezas e fraquezas, dando ao eleitor e ao povo a oportunidade de escolher baseado mais do que em bravatas ou em slogans de campanha criados por marqueteiros políticos. Ou por meio de discursos que são escritos por terceiros.

Mas o brasileiro, infelizmente, acha que pode simplesmente discordar politicamente e ameaçar a pessoa de morte: “eu vou te pegar”, “cuidado quando sair de casa ou ir para o trabalho…”. Gente, isso é criminoso. Isso é terrorismo. Ou – para usar a palavra que, infelizmente, se popularizou (e por um motivo) – isso é fascismo. Isso não é legal.

Que sociedade é essa em que é considerado normal ameaçar alguém de morte?

Passeie pelo Facebook e nos comentários sobre reportagens políticas e vai perceber o que estamos falando.

Então, um músico do quilate de Roger Waters, o cara que criou uma das obras mais monumentais da história do rock, o músico que compôs a maioria absoluta dos clássicos do Pink Floyd, vem ao Brasil e um grupo de pessoas que até gosta de sua música, mas discorda de suas ideias políticas (o que é confuso) simplesmente o ameaça de morte? Já parou para pensar nisso?

John Lennon dá um autógrafo ao homem que iria lhe matar horas depois.

E antes que alguém venha dizer que é exagero, não custa lembrar o caso de John Lennon, o líder dos Beatles que foi ASSASSINADO por um de seus fãs, em 1980. Mark David Chapman tinha distúrbios mentais, foi até a porta do edifício em que Lennon morava, em Nova York, pediu um autógrafo ao músico, quando este saiu de casa, à tarde, e esperou até ele voltar, à noite, e disparou cinco tiros contra ele, que morreu na hora.

E nem é um caso isolado, por uma coincidência mórbida (ou não), outro membro dos Beatles, o guitarrista George Harrison, quase teve o mesmo fim: em 1999, outro fã com distúrbios mentais invadiu a casa do músico e desferiu-lhe vários golpes de faca, que perfuraram seu pulmão e quase o mataram. Foi muito grave e teve um impacto forte na saúde de Harrison, que nos dois anos anteriores lutava contra um câncer de pulmão. O incidente com certeza acelerou a morte dele, que faleceu em 2001, vítima do câncer.

Roger Waters está ciente do risco.

Talvez eu tenha sido extremamente ingênuo [sobre não mudar de hotel no Rio], porque eu fui avisado alguns anos atrás em Nova York. Eu tive uma reunião com esse cara que deve permanecer sem nome, que era de uma companhia internacional de seguros e coordenava o escritório da CIA no Oriente Médio por muitos anos.

Para encurtar, o tal homem alertou Waters de que ele precisava ser mais moderado politicamente e que estava se comportando como um “homem bomba”.

E no fim de tudo isso ele olhou para mim e disse: “Hum… eu apenas não queria que algo acontecesse com você” E eu pensei: “foda, eu fui ameaçado em minha própria casa pela CIA”.

Mas apesar dos riscos – Waters também diz que sabe que se o Mossad (o serviço secreto israelense) o quisesse morto já o teria feito, por causa da campanha política do músico contra Israel, por causa das sanções contra os muçulmanos – o músico está muito mais preocupado com os “fãs loucos”.

É com os “Mark Chapmans” deste mundo que eu acho que é realmente preocupante.

E isto nos traz de volta à discussão das ameaças pela internet e o que elas podem esconder.

Porque é tão trágico! Chapman esteve rondando o [edifício] Dakota e pegando um autógrafo de John Lennon por meses, segundo todas as fontes. Quer dizer, eu não li a história toda, mas esta é uma coisa: é uma pessoa louca que acha que ama você e eles se tornam abusadores de algum modo. Ou eles apenas são loucos e querem ser celebridades ou ganhar notoriedade e são loucos o suficiente para te apontar uma arma na sua cara e apertar o gatilho. Isto não é algo que eu anseio.

E seu argumento também coloca outra questão: o que os “fãs” que foram ver Waters em São Paulo e no Rio de Janeiro esperavam? Por que se enfureceram com a manifestação política de um músico cuja obra é política? Esses caras nunca ouviram aquilo que dizem gostar? Do que eles acham que se trata Another brick in the wall?, Money, Dogs, Us and them e tantas outras? São canções políticas!

Ao ser perguntado se isso o surpreendia, Waters disse:

Costumava [me surpreender], mas hoje não surpreende mais. Sabe, é engraçado você dizer isso porque há uma página do Facebook chamada “Pink Floyd” que tem uns 30 milhões de seguidores ou algo perto disso. Eu não tenho acesso à página, mas me deixaria surpreso que eles não imaginassem o por quê. Se você é um fã de vida inteira do Pink Floyd e eu perguntar a você qual sua canção favorita, esses caras vão responder quase com certeza alguma coisa entre Meddle e The Final Cut [álbum gravados com Waters, entre 1971 e 1983 – e nas quais suas composições dominam os discos e todas as letras são de sua autoria]. É como as coisas são, é isso, e é como as pessoas sentem. Mas as pessoas não fazem tal pergunta e pensam: “Oh, ele é um cuzão raivoso e autocrático e separou a banda e eu o odeio”, e esquecem completamente o ponto principal. Totalmente. É louco. Então, este é o ponto sobre a coisa do Facebook: você tem que aceitar que você… bem, isto não é uma congregação muito luminosa. Então, quando as pessoas vão: “Eu não vi até aqui para ouvir sua política”, é como , bem, “Então, por que você veio?”.

É um álbum político que estava sendo promovido, uma turnê anunciada desde o início como política e uma obra política! O que você, fã ou espectador, esperava?

Isto com certeza diz algo do nosso público e, no caso do Brasil, de como as pessoas estão manejando a informação.

O Pink Floyd em seu início, com Barrett, Mason, Wright e Waters.

Roger Waters fundou o Pink Floyd em 1965, na cidade de Cambridge, na Inglaterra, ao lado do guitarrista e cantor Syd Barrett, que se tornou a figura central da banda, inclusive, quando lançaram seus primeiros discos, em 1967, mas Barrett ficou doente após o uso abusivo de LSD e de uma esquizofrenia, que o levou a sair da banda, sendo substituído por David Gilmour, amigo de Waters e Barrett da adolescência. Embora Gilmour e o tecladista Richard Wright também escrevessem, logo, Waters se tornou o líder e a principal mente criativa da banda.

Pink Floyd em tempos áureos: Wright, Waters, Mason e Gilmour.

Após anos como uma reconhecida banda underground, o Pink Floyd se tornou um dos maiores fenômenos de sucesso do rock com o lançamento do álbum Darkside of The Moon (1973) e se mantiveram no topo dali em diante, seguindo clássicos como Wish You Were Here (1975), Animals (1977) e The Wall (1979). Após um período de grande crise interna, Waters decidiu acabar a banda em 1985, mas Gilmour e o baterista Nick Mason entraram na Justiça e ganharam o direito de continuar a usar o nome do grupo. Gilmour, Wright e Mason lançaram três álbuns de estúdio e dois ao vivo a partir de 1987, encerrando oficialmente as atividades em 1996.