O canal oficial do Pink Floyd no YouTube divulgou um vídeo de um ensaio de uma obra de 50 anos atrás que nunca foi lançada. Trata-se de Biding my time, parte do espetáculo The Man & The Journey, que foi encenado em 1969 e que nunca foi lançado oficialmente.

O vídeo foi captado em 12 de abril de 1969, quando a banda estava no Royal Festival Hall, ensaiando para o show que estrearia dois dias depois. Infelizmente, o vídeo é um ensaio bem inicial da faixa Biding my time, que nunca foi lançada dentro da discografia padrão do grupo.

O canal oficial do Pink Floyd vem sistematicamente divulgando velhos vídeos da banda, especialmente dos anos 1960.

The Man & The Journey foi a primeira obra conceitual criada pelo Pink Floyd, que se notabilizou nessa seara em álbuns temáticos, como Darkside of the Moon (1973), Wish You Were Here (1975), Animals (1977) e The Wall (1979). Mas na época daquela primeira, ainda era um grupo jovem em busca de uma identidade.

O Pink Floyd em sua primeira encarnação, com Syd Barrett (esq.), Nick Mason, Richard Wright e Roger Waters.

Tendo estreado nos discos em 1967, o Pink Floyd era inicialmente um coletivo claramente liderado pelo cantor, guitarrista e compositor Syd Barrett, mas muito rapidamente, o músico foi consumido pelo excesso de drogas alucinógenas (LSD em especial), misturado pretensamente com uma esquizofrenia, o que o deixou literalmente louco. Visando compensar as coisas, os outros membros da banda – Roger Waters (baixo), Richard Wright (teclados) e Nick Mason (bateria) – decidiram convidar o também guitarrista e cantor David Gilmour, amigo de adolescência de Waters e Barrett na cidade de Cambridge, para ingressar na banda, já no início de 1968.

O Pink Floyd como um quinteto (com David Gilmour abaixo).

Inicialmente, a ideia era o Pink Floyd passar a ser um quinteto, com Gilmour dando mais estabilidade ao comportamento errático de Barrett, mas o líder estava tão “fora da realidade” que foi inútil. Tentou-se então, outro arranjo: Barrett não mais se apresentar ao vivo e servir à banda apenas no trabalho de estúdio, como músico e compositor, enquanto o restante do quarteto seguia nas turnês. Também não funcionou, com Barrett incapaz de apresentar material consistente e incomodado com a presença de Gilmour no palco.

Então, Barrett foi expulso. (Ele seguiria uma carreira solo – ajudado por seu substituto Gilmour, que produziu seus dois álbuns solo – mas sua loucura tornou impossível prosseguir a carreira, com o guitarrista vivendo o resto de seus dias de volta à Cambridge natal, vivendo anonimamente, longe do showbizz).

A capa de Saucerful of Secfrets: experimental até na capa.

O Pink Floyd lançou o álbum A Saucerful of Secrets, em 1968, gravado na passagem de Barrett para Gilmour, trazendo ambos em algumas faixas, e prosseguiu na tentativa de manter sua posição de reis do underground de Londres e consolidar uma presença no mercado europeu.

Era nesse pé que o Pink Floyd se encontrava no início de 1969: em busca de uma identidade musical para além de seu ex-líder. Roger Waters emergiu como novo líder natural, ocupando o lugar de principal compositor também.

O primeiro esforço consciente de produzir um novo material foi justamente The Man & The Journey, que estreou no Royal Festival Hall, em Londres, naquele 14 de abril de 1969 e prosseguiu com dezenas de apresentações pelo país e Europa ao longo daquele ano. Curiosamente, apesar da banda e dos fãs sempre usarem aquele título, o concerto foi agendado com o nome de The Massed Gagdet of Auximenes: More Furious Madness From Pink Floyd.

O grupo se dedicou seriamente ao projeto, que consistia, na verdade, de duas longas suítes (The Man e The Journey), divididas por um intervalo, e além dos shows, o Pink Floyd gravou um programa na rádio BBC Top Gear com a performance, em 12 de maio daquele ano. O concerto com o tema na Holanda, no Concertgebouw de Amsterdã, em 17 de setembro daquele ano, foi gravado também e se tornou na fonte mais pirateada entre os fãs, circulando como um famoso disco pirata ainda nos anos 1970.

Até hoje não é muito claro como o Pink Floyd intencionava lançar o material. O fato de conter duas faixas já lançadas nos álbuns The Piper at the Gates of Dawn (1967) e A Saucerful of Secrets (1968), sugere que a banda não lançaria um álbum tradicional de estúdio com a obra. Porém, o espetáculo continha material inédito em demasia e é provável que banda quisesse ver aquele material se tornar público. É possível que a banda ambicionasse lançar um disco ao vivo com o material, mas tal plano nunca se concretizou.

Capa de Ummagumma.

No fim das contas, algumas das faixas de The Man & The Journey terminaram diluídas nos dois álbuns seguintes do Pink Floyd, ambos lançados no mesmo 1969: a trilha sonora do filme More e Ummagumma, que foi um álbum duplo, com o disco 1 ao vivo e o disco 2 trazendo faixas em estúdio.

O programa de The Man & The Journey trazia 16 faixas, muitas das quais terminariam lançadas em outros formatos, mas algumas permaneceram inéditas. Segue abaixo a descrição das faixas a partir da gravação do show holandês.

  1. Daybreak: a abertura de The Man seria lançada como Grantchester Meadow em Ummagumma. No álbum, é uma peça acústica, tocada com dois violões e dueto de Waters e Gilmour, mas no show também tinha o acompanhamento de teclado.
  2. Work: uma peça altamente experimental, na qual sob uma camada de teclado e percussão, Roger Waters constrói uma mesa, incorporando o som das marteladas à “música”. Nunca foi lançada.
  3. Teatime: outra peça experimental, agora com a banda simplesmente sendo servida com um chá das 5 em pleno palco. Nunca foi lançada, mas a ideia inspiraria Alan’s psychodelic breakfeast, faixa de abertura do álbum Atom Heart Mother (1970).
  4. Afternoon: uma faixa mais tradicional, é um blues lento e foi lançada com o título de Biding my time na coletânea Relics, de 1971.
  5. Doing it!: Outro instrumental experimental, foi parcialmente lançado com o título de The Grand Vizier’s Garden Party (seção Entertainment) em Ummagumma. Também há informes de que em algumas performances, esse número era substituído por uma combinação de Up the Khyber (do álbum More) com Heart beat, pig meat (que apareceu na trilha sonora de Zabrieskie Point, de 1970).
  6. Sleep: consistia na faixa Quicksilver, que saiu em More, embora ao vivo fosse mais rápida e enérgica do que a versão de estúdio.
  7. Nightmare: consistia na faixa Cymbeline, também de More, mas ao contrário da anterior, era mais rápida no disco do que no show.
  8. Labyrinth: Outra seção de Grand Vizier’s Garden Party (seção Exit) de Ummagumma. Encerrava The Man.
  9. The Begining: abertura de The Journey, esta faixa na verdade era Green is the colour que saiu em More. No álbum é tocada com violão e flauta, mas a versão ao vivo trazia toda a banda em um arranjo bem mais bonito. O Pink Floyd tocou bastante essa faixa, que virou uma das favoritas dos fãs mais profundos da banda, porque ganhou várias versões piratas advindas dos shows e de apresentações na rádio BBC. O Box Set The Early Days (1965-1971) lançou oficialmente duas versões da canção em seu arranjo de The Journey. É uma joia perdida do Pink Floyd.
  10. Beset by Creatures of the Deep: esta era na verdade Careful with that axe, Eugene, famosíssima canção instrumental da banda, lançada originalmente como Lado B do compacto Point me at the sky, em 1968 e com ambas sem estarem presentes em nenhum dos álbuns do grupo. Mas Eugene virou uma das peças mais comuns no repertório ao vivo da banda, inclusive quando se tornaram um sucesso internacional e saíram do underground, ficando nos shows até a turnê de 1977. Os fãs a conheceram em maior medida porque saiu na coletânea Relics, de 1971. Mas a versão tocada em The Journey é mais parecida com a alternativa que aparece na trilha sonora de Zabrieskie Point, de 1970, onde está com o nome de Comin’ in the number 51.
  11. The Narrow Way: de todas esta é a única que manteve o nome real para o espetáculo, consistindo na mesma The narrow way (mas apenas a Parte III) que está em Ummagumma e é, tal qual, Green is the colour, uma canção mais tradicional, pelo menos para os padrões do Pink Floyd da época.
  12. The Pink Jungle: esta é Pow R Toc H, canção do álbum The Piper at the Gates of Dawn, de 1967.
  13. The Labirinth of Auximenes: faixa que consistia na expansão da parte instrumental do meio de Let be more light, do álbum A Saucerful of Secrets, de 1968.
  14. Foodsteps/ Doors: outra faixa experimental, que consistia em passos, sapateados e portas batendo.
  15. Behold the Temple of the Light: faixa instrumental cujo trecho foi usado como introdução de The Narrow way (parte III) em Ummagumma.
  16. The End of the Begining: o encerramento de The Journey consistia na canção A saucerful of secrets (seção IV: Celestial voices), ou seja, na parte final da faixa.

Dá para perceber que The Man & The Journey era uma peça extremamente experimental e que deixaria atônita a maioria dos fãs atuais do Pink Floyd. Se o disco The Endless River, que era um disco duplo instrumental com apenas uma faixa cantada, já deixou muito “fã” do Pink Floyd incomodado, esses iriam gritar, puxar os cabelos e correr se ouvissem a peça de 1969.

Na verdade, embora The Man & The Journey nunca tenha sido realmente lançada oficialmente – como diz o título da matéria – na verdade, o Pink Floyd disponibilizou o áudio do show de Amsterdã, no Box Set The Early Years (1965-1971), no disco 1969: Dramatis/ation, que traz 15 das 16 faixas, excluindo Teatime.