O guitarrista David Gilmour está promovendo o leilão de sua coleção de 120 guitarras, muitas das quais usou no Pink Floyd, para financiar organizações humanitárias. E enquanto falava sobre elas no The David Gilmour Podcast não descartou a reunião de sua ex-banda no futuro. Mas não citou Roger Waters.

David Gilmour.

Gilmour disse (via Rolling Stone):

Ainda somos Nick [Mason, o baterista] e eu. Podemos dizer que estamos em algum tipo de pausa prolongada. Mas talvez no futuro, quem sabe? Nunca diga nunca!

Não é uma fala realmente empolgante, mas pelo menos é uma porta aberta às possibilidades futuras. Em entrevistas passadas, Gilmour havia negado a possibilidade de uma reunião da lendária banda, uma das de maior sucesso da história do rock, e presente num panteão de poucos membros, como Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin ou Bob Dylan.

Gilmour também já disse que não fazia sentido reunir o Pink Floyd após a morte do tecladista Richard Wright, que sucumbiu a um câncer em 2008.

Curiosamente – mas não inesperadamente – em sua fala atual, Gilmour não citou outro ex-membro do Pink Floyd: Roger Waters. Embora a reunião da banda fosse legítima apenas com Gilmour e Mason, os fãs gostariam mesmo é que o trio subisse novamente aos palcos.

O Pink Floyd foi fundado em 1964 por dois amigos de infância de Cambridge, na Inglaterra, mas que se reencontravam em Londres: o guitarrista Syd Barrett e o baixista Roger Waters. Adicionando depois o tecladista Richard Wright e o baterista Nick Mason, o grupo terminou virando uma sensação no submundo psicodélico da capital da Inglaterra em 1966, com sua sonoridade cheia de experimentalismo e improvisações, embaladas na influência de blues, folk, Beatles e Rolling Stones.

O Pink Floyd em seu início, com Barrett, Mason, Wright e Waters.

O Pink Floyd estreou em disco em 1967 e chamou a atenção da mídia com as composições fortes de Syd Barrett, então, o líder do grupo, mas o uso exagerado de LSD junto com uma doença mental – provavelmente, esquizofrenia – foram tornando Barrett cada vez mais instável até o ponto de ficar incapacitado. Na busca por manter as coisas funcionando, Roger Waters decidiu trazer para a banda outro amigo de infância de Cambridge, tanto dele quanto de Barrett: David Gilmour, que entrou como um segundo guitarrista e cantor para reforçar o grupo, no início de 1968. Infelizmente, a condição de Barrett era precária demais e ele terminou sendo expulso do Pink Floyd pouco depois.

O Pink Floyd no início dos anos 1970: Waters, Mason, Gilmour e Wright.

Waters, Gilmour, Wight e Mason continuaram a ser o Pink Floyd e conseguiram manter o status de maior banda underground da Inglaterra, com um trabalho que gradativamente ia se afastando do caos improvisado do início para uma sonoridade melancólica, geralmente lenta, mas ainda experimental. Ou seja, deixando o psicodelismo em prol do rock progressivo. O lançamento do álbum Darkside of the Moon, em 1973, mudou tudo e transformou o Pink Floyd em um dos maiores sucessos da história, largando de vez o underground. Dali em diante, veio a fase mais conhecida e mais clássica do grupo, com álbuns como Wish You Were Here (1975), Animals (1977) e The Wall (1979).

Porém, na medida em que o tempo passava, a despeito das grandes contribuições musicais de Gilmour e Wright, Roger Waters ia assumindo cada vez mais o controle e se tornando tirânico, convicto de que suas composições, letras e conceitos eram a essência do Pink Floyd. As fraturas internas cresceram e a primeira ruptura veio durante as gravações de The Wall, que resultaram na demissão de Richard Wright – embora ele tenha voltado para a turnê de 1980 e 1981 e dispensado em seguida. Após gravarem The Final Cut (1983) apenas como o trio Waters, Gilmour, Mason; Roger Waters decidiu pôr um fim na banda em 1985, mas Gilmour e Mason não aceitaram e disseram que iriam seguir sem ele.

Mason, Gilmour e Wright em 1994.

Veio uma ruidosa batalha judicial em 1986, que resultou em vitória para Gilmour e Mason, autorizados a continuar usando o nome Pink Floyd. A dupla trouxe Richard Wright de volta e o trio lançou o álbum A Mometary Lapse of Reason (1987), que foi um grande sucesso; enquanto Roger Waters prosseguiu em carreira solo. O Pink Floyd continuou na ativa, fazendo turnês, e lançou seu último álbum com The Division Bell (1994), encerrando oficialmente as atividades após a turnê respectiva, em 1996.

O Pink Floyd reunido uma última vez em 2005: Mason, Gilmour, Wright e Waters.

O fim nunca foi anunciado, mas a banda simplesmente não regressou mais. Em 2005, por ocasião do Live 8 (concerto beneficente contra a reunião do G8 e a favor que a dívida dos países pobres fosse perdoada), o Pink Floyd se reuniu pela última vez em sua formação clássica, com Waters, Gilmour, Wright e Mason subindo ao palco juntos e tocando quatro canções. Dali em diante, ocorreram várias mini-reuniões: Em 2006, o ex-membro Syd Barrett morreu de câncer no pâncreas e no show em seu tributo, em 2007, Gilmour, Wright e Mason tocaram algumas faixas. Richard Wright morreu de câncer no pulmão em 2008, pouco tempo depois de encerrar uma longa turnê como músico de apoio do disco solo de David Gilmour. Em 2010, o que parecia impossível aconteceu: Gilmour e Waters se apresentaram juntos em um concerto beneficente.

Em 2012, Roger Waters iniciou uma grande turnê mundial tocando o álbum The Wall na íntegra, e no show de abertura, em Londres, contou com a participação de David Gilmour e Nick Mason em algumas faixas. Por fim, há algumas semanas atrás, Mason e Waters se reuniram no palco nos EUA durante um show da banda Nick Mason’s Saucerful of Secrets, uma banda cover do Pink Floyd, focada na fase underground inicial.

No meio disso tudo, em 2014, no que foi descrito como uma forma de tributo a Richard Wright, Gilmour e Mason reuniram e retrabalharam velhas gravações de 1993 feitas como preparação para The Division Bell, e as lançaram como o álbum The Endless River, quase todo instrumental (uma única canção cantada) e que foi anunciado como o último disco do Pink Floyd.

A capa de The Endless River: novo disco depois de 20 anos.

Com Nick Mason fazendo shows com sua banda; Roger Waters e David Gilmour lançando discos e fazendo grandes turnês com seus trabalhos solo, pode realmente ser que nunca mais o Pink Floyd reúna as forças. E há de concordamos com Gilmour que parece fazer pouco sentido reunir o Floyd sem Wright.

Porém, numa era em que a celebração de retornos e despedidas é algo necessário para gerar interesse do grande público e promover grandes turnês – já que os discos não garantem mais sustento aos músicos – não será totalmente descabido que Gilmour e Mason juntem suas tralhas e realizem pelo menos alguns shows especiais com o Pink Floyd.

E se – num daqueles milagres do destino – Gilmour e Waters conseguirem trabalhar juntos… Quem sabe? Pelo menos alguns shows?