O Pink Floyd é uma das bandas mais lendárias da história do rock, porém, infelizmente, como a maioria dos grupos, teve um fim triste do ponto de vista pessoal: a ruptura entre o líder, compositor e baixista Roger Waters e o guitarrista e vocalista David Gilmour. Numa entrevista à revista Rolling Stone, Waters disse que tentou uma aproximação pacífica com Gilmour, mas não foi bem-sucedido.

As rugas entre os dois ex-colegas é antiga e séria. Em 1985, após 18 anos de carreira, Waters decidiu encerrar a banda, mas Gilmour liderou um processo judicial para continuar a usar o nome Pink Floyd, e ganhou. Em resultado, Gilmour prosseguiu a carreira do Pink Floyd ao lado dos outros dois membros, o tecladista Richard Wright e o baterista Nick Mason. O Floyd de Gilmour encerrou as atividades em 1996, mas desde então, os fãs ainda esperam por uma oportunidade em que a banda se reúna.

De fato, o Pink Floyd clássico (Waters, Gilmour, Wright e Mason) se reuniu uma única vez: em 2005, a banda fez uma participação tocando quatro faixas no megafestival Live 8, que protestava a favor do perdão da dívida aos países pobres. Mesmo com a morte de Wright em 2008 terminando qualquer chance do evento se repetir, os fãs ainda gostariam de ver pelo menos alguns concertos especiais (já que pensar numa turnê parece ser impossível até ao mais otimista) com Waters e Gilmour juntos.

Bom, não vai rolar.

É o que diz o próprio Roger Waters na entrevista.

Sempre envolvido com questões sociais e ajudas humanitárias, Waters é questionado pelo entrevistador Kory Grow sobre o recente leilão de guitarras que David Gilmour promoveu para financiar uma ONG de auxílio a refugiados e sem-teto, e a resposta levou a uma reclamação do ex-companheiro que trouxe a notícia da tentativa de “acordo de paz” entre ambos que não foi bem-sucedida:

David Gilmour: de volta a Pompeia 45 anos depois.

Oh, deus o abençoe [sobre David Gilmour]! Eu acho que [o leilão] foi uma coisa boa. Boa pra ele. [Pausa] Eu queria que ele me deixasse anunciar este filme [Us + Them, documentário sobre a turnê solo de Waters que está sendo lançado nos cinemas] no site do Pink Floyd. Ele não permitiu. Ele censurou e não estou autorizado a anunciar nada por lá.

[Pergunta: Quando foi a última vez que você falou com ele?]

Nós conversamos em junho. Tivemos uma grande reunião onde eu vim com um grande plano de paz que não deu em nada, infelizmente.

[Pergunta: Eu sinto muito sobre isso]

Eu sei que você sente. Eu aposto que todos os fãs do Pink Floyd sentem ao ouvir isso. Eles todos devem esperar que nós poderíamos nos beijar e se abraçar e tudo seria maravilhoso num mundo perfeito. Bem, não seria maravilhoso e perfeito para mim, porque eu deixei o Pink Floyd em 1985 por um motivo. A razão era que eu queria continuar com meu trabalho.

Bem, graças a deus, eu tenho sido capaz de continuar com meu trabalho. Trabalhando em meu próprio benefício. Eu fiquei bastante feliz em ver que a resenha da [revista] Variety sobre o filme que eles foram capazes de conectar os pontos entre [os álbuns do Pink Floyd, escritos por Waters] Darkside of the Moon, Animals, [os álbuns solo de Waters] Amused to Death e Is This the Life We Really Want?. Isto foi gratificante. De qualquer modo, não vou mais falar disso. Já disse mais do que deveria.

A entrevista muda de rumo depois disso.

É uma pena. Os fãs gostariam de ver uma reunião de Waters e Gilmour, mas é difícil a esses dois artistas conseguirem abrir mão de sua individualidade conquistada a duras penas para recompor uma coletividade que existia décadas atrás.

O Pink Floyd em seu início, com Barrett, Mason, Wright e Waters.

A complexidade da relação entre ambos tem vários motivos. O Pink Floyd foi fundado em 1965 por Roger Waters e seu amigo de infância da cidade de Cambridge, o guitarrista, cantor e compositor Syd Barrett, que era o líder da banda em seus primeiros tempos. O grupo chegou às gravações em 1967 e virou uma sensação no circuito underground de Londres, mas o uso abusivo de LSD e outras drogas abalaram as estruturas mentais de Barrett que, literalmente, enlouqueceu e saiu da banda no início de 1968. Para substituí-lo e, de algum modo, manter a legitimidade, Waters convidou outro amigo de infância de Cambridge: David Gilmour.

Nos anos que se seguiram, o Pink Floyd atingiu outro tipo de equilíbrio: embora Gilmour e o tecladista Richard Wright também escrevessem canções; coube a Waters assumir a liderança da banda e das composições, enquanto Gilmour se tornou o principal vocalista e sua guitarra criou uma das marcas sonoras do grupo (a outra marca eram os teclados de Wright).

Quando o Pink Floyd deixou de ser uma banda underground e se tornou um dos maiores sucessos da história do rock, a partir do álbum Darkside of the Moon, em 1973, Waters já tinha assumido a função de escrever todas as letras das canções da banda, mesmo aquelas nas quais a música era composta por Gilmour e Wright. Essa questão foi aumentando o ego de Waters dentro do grupo e o músico começou a se tornar tirânico.

Começou a ruptura, a partir de 1977, quando o álbum Animals diminuiu ainda mais a participação de Gilmour e Wright nas composições, e em The Wall (1979) e The Final Cut (1983), Waters chegou a assumir os vocais principais (que antes eram de Gilmour) e a tratar o restante dos companheiros como meros acompanhantes, resultando na expulsão de Wright após as sessões de The Wall e no fim da colaboração entre Waters e Gilmour.

A problemática turnê de The Wall, entre 1981 e 1982, e as sessões de The Final Cut, em 1983, deixaram a situação do grupo insustentável. Tanto Gilmour quanto Waters lançaram álbuns solo em 1984, mas no ano seguinte, Waters escreveu uma carta à gravadora EMI anunciando o fim do Pink Floyd, no que Gilmour e Mason reagiram com o processo judicial já mencionado que venceram.

Mason, Gilmour e Wright em 1994: sessões instrumentais.

No Pink Floyd pós-Waters, Gilmour se tornou o líder, assumiu as composições e continuou a ser a voz e a guitarra do grupo, mantendo o sucesso de antes e até recuperando o prestígio abalado pela má recepção de The Final Cut , após quatro álbuns seguidos de absoluto primor.

Nem Gilmour nem Waters jamais falaram disso abertamente – e provavelmente nunca irão – mas é quase certo que a questão que ronda a dupla é a incapacidade de ceder na hora de montar o repertório em um novo concerto da banda. O tom de Waters nesta entrevista e o de Gilmour em outras é que a ideia de realizar alguns concertos especiais – como o de 2005, ou para usar o exemplo de outra banda, como o Led Zeppelin fez com absoluto sucesso em 2007, no O2 Arena – está na cabeça de ambos.

Mas para isso fica a questão do repertório: Gilmour quer tocar as canções que produziu com Wright e Mason pós-1985; enquanto Waters não aceita isso. Nenhum dos dois cede. Não tem acordo.

Uma pena.

Até porque há no ar a manifesta vontade de uma reunião. Para dizer a verdade, o Pink Floyd até se reuniu algumas vezes após o histórico show do Live 8 em 2005: em 2007, num concerto-homenagem a Syd Barrett (que havia falecido no ano anterior), o trio Gilmour, Wright e Mason se reuniu uma última vez; Waters também tocou no evento, mas separado dos ex-companheiros, no que foi uma grande oportunidade perdida; entre 2006 e 2007, Gilmour fez uma grande turnê solo, tendo Wright como acompanhante; em 2008 foi a vez de Wright falecer; em 2011, o impossível aconteceu, Waters e Gilmour tocaram uma canção juntos em outro festival beneficente; em 2012, no primeiro show da grande turnê solo de Waters tocando o repertório do álbum The Wall, Waters, Gilmour e Mason se reuniram e tocaram em duas canções; e meses atrás, Waters fez uma participação especial num show da banda Nick Mason’s Saucerful of Secrets, uma banda cover do Pink Floyd especializada na fase underground do grupo.

Só resta aos fãs esperança.

Na entrevista, Waters ainda anuncia que está preparando uma nova turnê para o ano que vem – que terá as eleições presidenciais nos EUA (sem contar com o possível processo de impeachment do presidente Donald Trump) – planejando fazer entre 30 e 40 concertos em arenas e estádios naquele país e no Canadá; mais pelo menos uns três na Cidade do México, no México.

O baixista ainda diz que pretende que o repertório ainda seja mais político do que o da Us + Them, que rodou o mundo entre 2017 e 2018, promovendo o álbum Is This the Life We Really Want?, que aborda temas como a ascensão da extrema direita no mundo, o capitalismo e as guerras. Lembrando que em 2018 Waters passou no Brasil em plena eleição presidencial e seus shows causaram polêmica por causa de suas afirmações. Posteriormente, em uma entrevista, Waters disse que foi ameaçado de morte no Brasil!

Enquanto isso, David Gilmour prepara mais uma caixa de relançamentos do Pink Floyd, focada, desta vez, justamente na fase pós-Waters. Pink Floyd: The Later Years (1987-2019) deve chegar às lojas (físicas e virtais) no dia 29 de novembro.

Conheça a Discografia Completa do Pink Floyd neste post especial do HQRock.