O jornal britânico The Guardian publicou com alarde o fato de que “a história dos Beatles está sendo reescrita” pela descoberta da gravação de uma reunião da banda antes de seu fim. Nela, é aventada a possibilidade do grupo gravar mais canções de George Harrison.

A fita está de posse do estudioso Mark Lewisohn, um dos maiores especialistas do mundo em Beatles e autor do livro The Beatles Sessions, na qual detalha todas as sessões de gravação da banda em sua existência; além de ter produzido textos para encartes de discos da banda, como a coletânea Past Masters e a coleção de raridades Anthology.

Na gravação da reunião, ocorrida em 08 de setembro de 1969, nos escritórios da banda, na Apple Corps., em Londres – no mesmo prédio onde fizeram o histórico show no telhado (oito meses antes) – o próprio John Lennon abre o áudio explicando o motivo dele ser registrado: para enviar ao baterista Ringo Starr, que não estava presente porque estava no hospital sofrendo de uma infecção estomacal. Além de Lennon, estavam presentes Paul McCartney e George Harrison.

Lennon, McCartney e Harrison gravam vocais em 1968.

E o tema que se destaca é a possibilidade de gravarem mais canções de George Harrison. Lewisohn e o Guardian tentam fazer alarde sobre o tema, com a insistência da “história reescrita”, mas na verdade, apesar dos detalhes que a gravação revela serem importantes, toda essa história já é bem conhecida na muito bem documentada história dos Beatles.

O contexto da reunião é o seguinte: poucos dias antes, os Beatles haviam encerrado as gravações daquele que seria o seu último álbum: Abbey Road, que completa 50 anos de idade em 26 de setembro (daqui há poucos dias). A banda havia realizado uma sessão de fotos – que seria a sua última! – em 22 de agosto – e naquele exato momento discutiam os planos futuros.

A capa de Abbey Road, de 1969.

Lewisohn se impressiona na reportagem com o fato de que tínhamos a visão de que os Beatles estavam acabados após Abbey Road, mas vemos na reunião que a banda ainda fazia planos futuros. Mas claro: o grupo não tinha chegado ainda, naquele dia, ao ponto de ruptura. E vamos falar disso mais adiante.

De fato, havia um ótimo motivo para o grupo sentar e conversar sobre um novo álbum e até um novo single para o Natal, como revela Lewisohn sobre a gravação que tem em mãos: os Beatles estavam negociando uma renovação do contrato com a gravadora EMI, mediada pelo novo empresário deles, Allen Klein. Provavelmente – o conteúdo integral do áudio não foi revelado ainda – um single de Natal era uma das condições do acordo.

Um parêntese: compactos de Natal eram uma estratégia forte do mercado fonográfico dos anos 1960, mas os Beatles não lançavam um desde 1965, quando o duplo Lado A We can work it out/ Day tripper chegou às lojas. O grupo continuou lançado singles de sucesso, é claro, mas não cumpriu mais o ritual de lançar uma bolachinha nas primeiras semanas de dezembro para embalar o mercado do fim de ano.

Harrison e McCartney tocam seus instrumentos no estúdio, em 1969.

O grande tema da conversa – mais espaço para George Harrison – pode ser apontado, inclusive, como um dos principais motivos pelos quais os Beatles acabaram. Mas vamos por partes.

Na reunião de 08 de setembro, John Lennon faz uma proposta: que o próximo disco dos Beatles traga mais canções de George Harrison – que em Abbey Road entregou duas das melhores faixas do disco Something (que foi a primeira canção do compositor a estrelar o Lado A de um single e chegaria ao 1º lugar das paradas dos EUA em breve) e Here comes the sun, que não foi lançada em compacto, mas foi um grande sucesso radiofônico desde então.

Contracapa de The Beatles Again.

E Lennon foi além: a banda devia adotar uma nova distribuição de composições em cada disco, com 4 faixas de cada um (Lennon, McCartney, Harrison) e mais 2 de Ringo Starr (caso ele as tivesse). A proposta rompia a regra anterior na qual Lennon e McCartney – que assinavam todas suas composições em parceria mesmo quando não trabalhavam juntos – preenchiam o álbum numa relação de oferta e demanda; enquanto era garantido a Harrison 2 canções por disco e 1 canção com vocal de Starr – e na qual algumas vezes o próprio baterista escrevia a faixa, como foi o caso de Don’t pass me by no Álbum Branco (1968) e Octopus’s garden no Abbey Road (1969).

A ideia de Lennon era deixar a linha de frente Lennon, McCartney e Harrison em pé de igualdade dentro da obra futura da banda.

Claro, Lennon vinha ficando frustrado com a negativa da banda em gravar algumas de suas canções mais experimentais – como Cold turkey, que fala da crise de abstinência da heroína e que o grupo não quis gravar e Lennon lançou como um compacto solo dali há poucas semanas.

Harrison e Lennon nas gravações de Let it Be.

Por outro lado, Lennon também não era cego à crescente qualidade de Harrison como compositor, que antes de Something e Here comes the sun, já tinha entregado pérolas como While my guitar gently weeps no Álbum Branco (1968) e Taxman, que abriu Revolver (1966). E ele estava certo em seu movimento: após o fim dos Beatles, Harrison lançou o álbum triplo All Things Must Pass (1970) recheado de canções que não pode gravar com os Beatles e que além de um enorme sucesso é considerado como o melhor álbum solo entre todos os gravados pelos ex-beatles!

Yoko Ono, John Lennon, Allen Klein, McCartney e Starr em 1969.

Mas curiosamente, McCartney não estava convencido disso no dia 08 de setembro de 1969. Segue o diálogo revelado pelo The Guardian:

Lennon: [faz a proposta de 4 faixas para cada um e sugere que Lennon e McCartney devem assinar suas faixas em separado]

McCartney: Eu pensava até este álbum [Abbey Road] que as canções do George não eram muito boas.

Harrison: Isso é uma questão de gosto. Desde sempre as pessoas tem gostado de minhas canções.

Harrison tinha um ponto: naquele mesmo ano, duas composições suas chegaram as paradas sem os Beatles. A banda Cream lançara no início do ano a faixa Badge, que era uma parceria dele com Eric Clapton, o guitarrista da banda, e foi o último sucesso do Cream, que estava se separando. E pouco depois, Joe Cocker gravou uma versão de Something e a lançou antes mesmo do que a versão dos Beatles chegasse às lojas.

E Lennon ainda completou, comunicando que nenhum dos outros membros da banda estava mais disposto a aguentar faixas como Maxwell’s silver hammer, que McCartney compusera e lançara em Abbey Road. Era a típica canção boba na mesma linha de Ob-la-di, ob-la-da que McCartney pusera no Álbum Branco.

Lennon sugere que no futuro McCartney entregue esse tipo de faixa para outros artistas, como tinha feito com Goodbye com a cantora Mary Hopkin (que fez sucesso com ela) ou com Come and get it (entregue ao Badfinger). Mas o autor tentou defender sua criação:

McCartney: Eu a gravei porque gostei dela.

Nem Lewisohn nem o The Guardian revelam o que vem depois.

Mas a proposta de Lennon já era conhecida na historiografia da banda. O próprio músico faz referência a isso na histórica entrevista que deu à revista Rolling Stone em 1971 e McCartney também toca no assunto em sua autobiografia Many Years From Now, de 2000, escrita por Barry Milles. Enquanto Lennon se queixa que McCartney não desceu do pedestal para aceitar a renovação; McCartney acusa o parceiro musical de querer quebrar a “democracia interna” dos Beatles ao “impor quantidades prévias” de cada compositor.

Provavelmente, o trio Lennon, McCartney e Harrison não chegou a um acordo na reunião do dia 08 de setembro de 1969, agora, registrada em fita. E é muito possível que o planos de um novo disco e um novo single tenham “melado” aí mesmo.

Reunião na Apple com McCartney, Lennon, Ono, Klein e Starr, dentre outros.

É sabido que no dia 22 de setembro de 1969 ocorreu a “reunião final” dos Beatles, quando a banda se juntou para assinar o novo contrato com a EMI. Como Lennon revelou em entrevistas pouco tempo depois, ele e McCartney tiveram uma discussão e Lennon informou que estava fora da banda.

Os ânimos ficaram acirrados e Allen Klein recomendou que Lennon não tornasse a decisão pública para não atrapalhar o novo contrato.

Não se tocou mais no assunto, mas é claro que um novo álbum não veio. Nem single. Em dezembro de 1969, a EMI inaugurou o novo contrato com uma coletânea de sucessos da banda, lançados entre 1966 e aquela data, servindo portanto como uma sequência a Oldies But Goldies, de 1966, que trouxe os primeiros hits, da era 1962-1965. O novo disco não tinha título na capa, mas o selo e a lombada informavam que era The Beatles Again (que também ficou conhecido como Hey Jude em alguns países para ganhar em cima da canção que fora um sucesso estrondoso um ano antes) e ganhou uma belíssima fotografia da banda diante de uma velha porta monumental na nova casa de Lennon, em Ascot, subúrbios de Londres, registrada naquela mesma última sessão de fotos já mencionada.

Sem material novo, a EMI pressionou para que a banda tirasse da gaveta o projeto Get Back: uma série de ensaios filmados que o grupo promoveu em janeiro de 1969 como preparação para uma “volta aos palcos” que jamais ocorreu. Como o clima azedou entre os membros, o projeto foi encerrado com o show do telhado em 30 de janeiro de 1969, e a banda encarregou o engenheiro de som Glyn Johns (que trabalhou com Rolling Stones, The Who e Led Zeppelin) de editar o melhor do material dos ensaios para um disco; enquanto o diretor Michael Lindsay-Hogg foi encarregado de montar um filme com os vídeos.

Os Beatles no show do telhado, em 1969.

Enquanto os Beatles gravavam Abbey Road entre abril e agosto de 1969, Glyn Johns trabalhou arduamente na edição do material e chegou a entregar três versões, das quais a banda não gostou.

Mas o trabalho de Johns deixou uma certeza: não havia faixas suficientes para encher um álbum, especialmente, porque as duas mais fortes registradas no período terminaram lançadas em um compacto em março de 1969: Get back e Don’t let me down.

Então, e isso é o que queríamos destacar, os Beatles tiveram que se mexer para providenciar mais algumas faixas. Lennon deu uma solução salamônica: resgatar a canção Across the universe que foram gravada ainda em fevereiro de 1968 – antes do Álbum Branco – mas nunca fora lançada. E a desculpa perfeita era que ela fora tocada nos ensaios de janeiro de 1969 – na versão final do filme Let it Be, vemos o grupo tocando um trecho dela.

Mas era preciso pelo menos mais uma. Assim, em dezembro daquele ano, os Beatles decidiram agendar uma rápida sessão de gravação para gravar uma versão decente de I me mine, canção de George Harrison que fora ensaiada nas sessões de janeiro de 1969, mas nunca finalizada.

Assim, em 03 de janeiro de 1970, os Beatles se uniram para sua última sessão de gravação. Mas John Lennon não apareceu.

Harrison, McCartney e Starr gravaram I me mine e, no dia seguinte, Harrison fez alguns overdubs vocais em outra canção sua, For you blue; enquanto ele, McCartney e Starr fizeram alguns overdubs (guitarra solo, mais bateria, marracas e novos vocais) em Let it Be, de McCartney.

O não comparecimento de Lennon a essas sessões dava a mensagem clara: sua demissão em setembro do ano anterior ainda estava valendo.

Apesar disso, na contínua insatisfação com o material editado por Glyn Johns das velhas sessões de janeiro de 1969; aproveitando que o produtor norteamericano Phil Spector estava na Inglaterra para gravar o compacto solo de John Lennon, Instant Karma! – que foi o primeiro sucesso solo dele – Lennon sugeriu que Spector assumisse o trabalho. Harrison concordou. McCartney deu de ombros.

A primeira edição de “Let it Be” veio em um box com um livro de fotografias.

Spector reeditou o material e deu forma final ao álbum Let it Be, que saiu em maio de 1970.

Mas àquela altura, já era um disco póstumo: Paul McCartney usou o lançamento de seu primeiro álbum solo – McCartney – em 10 de abril de 1970, para anunciar que os Beatles não existiam mais.

Lennon ficou furioso, porque guardara segredo por sete meses!

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O material de Mark Lewisohn é importante, mas há sensacionalismo na forma como está sendo divulgado. De qualquer modo, o escritor está promovendo o Hornsey Road, um show no qual apresenta imagens, fotos, vídeos, áudios (como esta reunião) e disseca as camadas das gravações dos Beatles para o álbum Abbey Road, que está celebrando 50 anos de lançamento e vai ganhar um caixa de luxo cheia de material extra, tal qual a banda lançou com Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (em 2017) e White Album (em 2018).

Além disso, Lewisohn continua escrevendo sua monumental obra sobre os Beatles, All Those Years, cujo primeiro volume Tune In (1956-1962) foi publicado em 2013; e tem mais dois a caminho: Turn On (1963-1966) e Drop Out (1967-1969), que ele espera lançar nos próximos 15 anos. Isso mesmo.