Depois de anunciado em uma entrevista pelo ex-baterista Ringo Starr, dias atrás, a Apple Corps. oficializou o lançamento do álbum Abbey Road dos Beatles em uma box set celebrativa dos 50 anos de lançamento do disco, famoso por trazer o quarteto de Liverpool atravessando uma faixa de pedestres na capa. Provavelmente, o melhor disco gravado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr ganha uma versão com faixas extras, demos e out-takes, embalados em um up grade impressionante de som.

O box set será lançado em duas versões – tanto em CD quanto em vinil – trazendo não somente uma remixagem do conteúdo original, mas também várias outras surpresas. O trabalho de remontagem foi feito pelo produtor Giles Martin e o engenheiro de som Sam Okell em estéreo, high resolution stereo, 5.1 surround e Dolby Atmos. Vale destacar, é a mesma equipe responsável pelos box sets de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band e The Beatles (ou The White Album/ Álbum Branco), lançados em 2017 e 2018, respectivamente, também celebrando os 50 anos de lançamento de ambos. E mais: Giles Martin é o filho do falecido George Martin, o produtor original das gravações dos Beatles.

A cereja do bolo é a Super Deluxe Collection, que trará o lançamento original em suas 17 faixas, remasterizadas e remixadas por Martin e Okell, mais 2 CDs trazendo 23 faixas tiradas do arquivo da gravadora EMI, trazendo takes alternativos, demos, ensaios e até as orquestras gravadas em separado para apreciação do ouvinte. Completa o combo 1 disco Blu-ray com o material em 5.1 surround, Dolby Atmos, 96kHz/24 bit high resolution stereo, e 96 kHz/24 bit DTS-HD Master Audio 5.1

O pacote trará um livro de 12 polegadas (tamanho de um LP de vinil) com 100 páginas, trazendo um prefácio de Paul McCartney, uma introdução de Giles Martin, mais uma série de capítulos escritos por Kevin Howlett, especialista em Beatles, cobrindo os meses que antecederam o disco, as sessões de gravação faixa por faixa, notas dos arquivos de estúdio, resenhas da época do lançamento, fotografias das gravações e da sessão que gerou a capa do disco, e um ensaio de David Hepworth analisando o impacto do álbum ao longo de 50 anos. Tudo isso embelezado por letras manuscritas, fichas catalográficas do estúdio, fotografias raras ou inéditas, algumas delas registradas por Linda McCartney, que antes de casar com o beatle Paul era uma conhecida fotógrafa no meio rock.

Um dos grandes chamarizes é a presença da Huge Melody, uma versão prévia do grande medley que forma o Lado B do álbum original. Além disso, as 23 faixas extras trazem um retrato das sessões de gravação na ordem em que foram realizadas, e incluem uma curiosa versão de I want you (she’s so heavy) na qual a banda é advertida que o barulho com o qual estão tocando está incomodando a vizinhança, e Lennon, cantor e autor da canção, anuncia que aquele take, então, será o último em que tocarão “alto” e que se não funcionar, irão tentar uma versão mais calma em seguida. Esta sessão, ao contrário da maioria da obra dos Beatles, não foi feita nos estúdios da gravadora EMI em Abbey Road, a rua que dá nome ao disco, mas no Trident Studios, também em Londres. A nova versão combina este take com o final da mixagem crua da faixa, trazendo pela primeira vez um solo de órgão gravado pelo sensacional Billy Preston, que acompanhava os Beatles em algumas sessões naqueles tempos.

Paul McCartney suou para fazer os vocais de Oh! Darling.

Outros destaques são uma demo para Goodbye, canção que Paul McCartney compôs para a cantora Mary Hopkin, que fez sucesso na gravadora Apple, que pertencia aos Beatles. Outro demo é de Something, de George Harrison. Contudo, enquanto a versão com voz e guitarra já foi lançada em 1996 no Anthology Vol. III, esta versão traz o overdub (sobreposição) de um piano gravado pelo produtor George Martin na época.

Segue uma sequência de out-takes, na ordem, de The Ballad of John and Yoko, Old brown shoe (essas duas não saíram em Abbey Road, mas foram lançadas em um single que chegou ao 1º lugar das paradas), Oh! Darling, Octopus’s garden, You never give your money. Segue-se uma sequência de gravações feitas apenas por McCartney, Harrison e Starr (pois Lennon estava hospitalizado após um acidente de carro), com os takes 1 a 3 de Golden slumbers/ Carry that weight e a base de Here comes the sun.

John Lennon nas sessões de Abbey Road: Come together.

Daí, temos o take 5 de Come together (o take 1 foi lançado em Anthology III e a versão final veio do take 9); o take 3 de The end; e a demo de Come and get it, canção que Paul McCartney cedeu para outros artistas da Apple Records, a banda Badfinger, que fez sucesso com ela. Embora este demo já tenha sido lançado no Anthology III (McCartney fez uma gravação na qual sobrepõe piano, baixo e bateria, ele mesmo fazendo tudo), a versão nesta coleção ganha o pequeno diferencial de ser mixada em estéreo e não em mono como na original.

Tem-se ainda o take 20 de Sun king/ Mean Mr. Mustard e o take 27 de Pollythene Pam/ She comes in throught the bathroom window, que como o leitor pode notar, fazem parte do grande medley do Lado 2. Também há novos takes de I want you (she’s so heavy), Maxwell’s silver hammer, Here comes the sun e Because, todas acrescidas do mini-moog, um teclado que foi o primeiro sintetizador digital e que os Beatles usaram pela primeira vez neste álbum e nestas canções e viraria uma febre nos anos 1970, especialmente entre as bandas de rock progressivo.

George Harrison nas sessões de Abbey Road: sucesso com Something.

Para dar um toque de beleza, as orquestras gravadas (e conduzidas) por George Martin como pano de fundo de Something e Golden slumbers/ Carry that weight aparecem no box set separadas, para o ouvinte desfrutá-las sem os Beatles.

Por fim, fecha o material de extras a versão alternativa da Huge Melody – também chamada de The Long One – que coleta a maior parte das canções do Lado B desde You never give me your money até The end. Aqui, o medley trará sua formatação original, com a canção Her majesty posicionada entre Mean Mr. Mustard e Pollythene Pam. Na versão final do álbum, Her majesty foi tirada do medley e, por acidente, terminou aparecendo 16 segundos após o fim de The end. A banda gostou do efeito surpresa e deixou a faixa exatamente desse jeito no fim do disco, como uma faixa secreta, pois sequer é listada no selo ou na contracapa.

Quem não puder pagar pelas versões Super Deluxe pode tentar adquirir as versões menores.

A versão Deluxe em vinil trará uma reprodução fiel da embalagem original do LP mais outra embalagem à parte trazendo outros dois LPs com o material extra e um encarte de quatro páginas. A versão Deluxe em CD terá um digipack com 2 CDs, trazendo o original em suas 17 faixas remasterizadas e outro com um resumo da coleção de faixas extras da versão maior, embalados por um livreto de 40 páginas, também como um resumo do livro da versão maior.

Por fim, haverá a versão simples, em CD e LP, trazendo apenas as 17 faixas originais remixadas.

Selo do álbum Abbey Road com a logo da Apple.

Como se pode ver, em geral, o material do Box set de Abbey Road é – aparentemente (pelo menos pela descrição) – um pouco menos surpreendente do que aquele visto nos relançamentos de Sgt. Peppers e Álbum Branco. Em parte porque parte do material já foi lançado no Anthology III; mas também porque o fã dos Beatles sabe que existem algumas outras coisas que poderiam ser adicionadas. Em especial, uma versão de Here comes the sun que tem um solo de guitarra ausente na oficial; Sun king com uma introdução maior e diferente, que torna a canção quase inteiramente instrumental. Ou mesmo algumas jam sessions que o grupo produziu durante as gravações e que não estão listadas no press release. O Anthology III, por exemplo, traz duas dessas jams: uma bonita redenção de Mailman, bring me no more blues de Buddy Holly e Ain’t she’s sweet de Gene Vincent, dois roqueiros dos anos 1950 muito influentes na obra do quarteto.

Além disso, existe uma famosa versão de Something que possuí uma longa coda instrumental levada ao piano que, aparentemente, não está no pacote.

Lennon toca o sintetizador moog ao lado de McCartney (ao fundo) e Harrison (de costas).

Todavia, Abbey Road é o álbum com a melhor sonoridade dos Beatles, motivada por um esmero diferenciado na criação dos arranjos e o uso de uma tecnologia um pouco (bem pouco) mais próxima daquela que usamos nos dias de hoje (pelo menos em comparação com a que o grupo usava alguns anos antes). Também ajuda a pegada mais “moderna” do disco (com guitarras distorcidas, uso de sintetizadores e bateria gravada alta aproximam a sonoridade dos anos 1970) e o uso de 8 canais – o primeiro disco em que a banda gravou inteiramente usando um gravador de 8 pistas. Tais características com certeza têm muito a se beneficiar de um tratamento mais tecnológico como já foi visto nos dois relançamentos já citados. Deverá ser uma belezura de som!

Raro momento de união entre Harrison e McCartney.

Abbey Road foi lançado em 26 de setembro de 1969 e chegou ao primeiro lugar das paradas do Reino Unido (onde ficou 17 semanas no n.º 1) e dos EUA (onde ficou 11 semanas no n.º 1), e ainda ganhou o Grammy de Melhor Engenharia de Som (para Geoff Emerick e Phil McDonald). É o álbum de maior sucesso dos Beatles e sua capa ficou tão icônica que é imitada até hoje por um sem-número de artistas.

Uma velhinha conversa com os Beatles na hora da foto.

A faixa de pedestres em Abbey Road é uma das maiores atrações turísticas de Londres e diariamente fãs infernizam o trânsito daquela zona residencial de St. Johns Woods, no norte da cidade, para atravessar e tirar fotos.

Saiba Tudo sobre a gravação do álbum Abbey Road pelos Beatles neste post especial do HQRock sobre os 45 anos de lançamento do disco, há 5 anos atrás.

A nova versão de Abbey Road chega às lojas físicas e virtuais no dia 27 de setembro.