Depois de 42 anos, chega ao fim a maior saga espacial do cinema: Star Wars – A Ascensão Skywalker encerra a trama principal da trama de George Lucas e, com seu Episódio IX, marca o ponto final de uma história que encantou gerações. E o que dizer do novo filme? Esta é a Resenha do HQRock, SEM SPOILERS!

A Ascensão Skywalker cumpre uma missão difícil. A Trilogia Clássica (1977-1983) é amada por fãs no mundo todo. A Trilogia Prelúdio (1999-2005) dividiu opiniões e gerou até revolta. A Trilogia Nova (2015-2019) também gerou emoções mistas, com O Despertar da Força gerando reclamações por algumas escolhas e Os Últimos Jedi deixando todos confusos e despertando ira. Como poderia o novo longa chegar a um resultado que agradasse a todos?

A saída que a LucasFilm – agora sob o poderio da Disney – encontrou foi mirar no que é certo. Nesse sentido, A Ascensão Skywalker é uma tentativa de trilhar um caminho familiar, que faça sentido e agrade ao fã.

Por isso, é necessária essa longa introdução sobre a franquia em si: Skywalker não faz sentido como filme isolado. É o fechamento da saga e assume isso, como uma sequência de filmes anteriores, ao mesmo tempo em que busca homenagear o passado e arrumar pontas soltas – até aquelas que você nem julgava soltas.

Talvez por isso, o longa não perde tempo. Ele sabe que há muito o que contar e não embroma: Ascensão já inicia direto ao ponto, apresentando o vilão principal, seu plano e deixando o telespectador antever o que vem pela frente e o que os heróis precisam enfrentar. Também como um contraponto ao reflexivo Os Últimos Jedi e ao introdutório O Despertar da Força, o Episódio IX é repleto de ação do início ao fim. Provavelmente, é o mais frenético dos capítulos da saga. Para o bem e para o mal.

O ponto forte de Ascensão é sua trama sobre herança e escolhas, o que até certo ponto funciona como uma analogia da própria saga enquanto produto cultural. Dos acertos de George Lucas nos filmes originais; passando pelos dilemas que teve que lidar com outros cineastas ainda na primeira Trilogia; das escolhas ruins dos Prelúdios; até o tatear no escuro da Nova série – incluindo as escolhas arriscadas e a quebra deliberada de expectativa do divisivo Os Últimos Jedi; o roteiro de Skywalker (escrito por Chris Terrio – de Argo e Batman vs. Superman – ao lado de J.J Abrams) traz uma trama interessante sobre os heróis que precisam entender sua posição na história e lidar com as expectativas dos outros e o dilema de escolher o que fazer.

Isto envolve não somente a heroína Rey como também o vilão Kylo Ren, mas se estende a outros personagens, como Poe, Leia e até Lando Calrisissan, que retorna à saga após 1983. (Uma versão jovem sua aparece em Han Solo, de 2018, é bem verdade, mas deixa para lá…).

O dilema de Rey e sua relação conturbada com Kylo Ren é o que conduz Ascensão e isso é muito bom, aprofundando e dando desenvolvimento ao que transcorreu no Episódio anterior, mas agora, levando a um ponto decisivo. Vale ressaltar o bom desempenho de Daisy Ridley e Adam Driver nos respectivos papeis, já que deles depende a sustentação do filme.

O roteiro também buscar dar espaço à dupla Finn e Poe, com cada um tendo um papel específico a desempenhar, embora, é verdade, dos dois apenas Poe tem realmente um arco dramático no longa e até sabemos um pouco mais de seu passado. Além do retorno (breve, infelizmente) de Lando, o longa ainda dá espaço a alguns personagens novos, como Jannah e Zorii, que cumprem papeis pequenos, mas importantes no desenrolar dos eventos e servem como aumento da lupa para mostrar que a Galáxia é maior do que o punhado de protagonistas. Voltaremos a este ponto mais adiante.

Skywalker também precisa lidar – e fechar os arcos – dos vários outros personagens que apareceram nos dois filmes anteriores, como o General Hux, mas não se furta a apresentar outros novos, como o Almirante Pryce. Num filme que tem tanta história a contar, tantas tramas a desenvolver, trazer novos personagens é um risco e isso passa a ideia de que a trama é um pouco inchada e corrida.

Entramos então nos problemas de Ascensão: mesmo com um desenvolvimento interessante – a alguns belos presentes aos fãs – o final é muito corrido. Uma ameaça imensa, gigantesca – a maior da saga – se resolve de modo muito pontual e dependendo demais de “coincidências de roteiro” ou escolhas fáceis de texto. O filme também reforça certa ideia de banalização da ameaça que marca a Nova Trilogia, em especial quanto à “herança” da Estrela da Morte dos filmes clássicos. Se O Despertar da Força trouxe a Starkiller e a pulverização da República quase off-screem, A Ascensão Skywalker dá um passo bem além nesse sentido. E resolve tudo de modo rápido.

Outro ponto complementar a esse é a ameaça principal representada pela volta do Imperador Palpatine. E isso não é Spoiler, porque está revelado desde o primeiro teaser trailer. Não era necessário trazer o velho Darth Sidious de volta após o personagem ter morrido em O Retorno de Jedi (de 1983 e que se passa 30 anos antes dos eventos da Trilogia Nova). É um vício de Hollywood querer dar um fim voltando ao começo, em vez de simplesmente desenvolver as ameaças que a própria nova série de filmes criou.

Dito isso, apesar dos pesares, a trama de Palpatine faz sentido dentro do filme em si e pelo menos dá um ou dois ganchos para que a história nova se desenvolva e os personagens novos (Rey e Kylo) tenham motivação para suas ações e cheguem ao ponto que encerra a jornada (provisória) de ambos.

Neste ponto, mesmo com o velho vilão, Ascensão se concentra muito mais nos personagens novos – Rey, Kylo, Finn e Poe – do que nos velhos, mantendo a pegada de O Despertar da Força e desviando um pouco de Os Últimos Jedi, no sentido de que este deu bastante espaço a Luke Skywalker. No novo longa, dos antigos heróis, é Leia quem ocupa um papel de destaque na trama.

E nisso a suspensão de descrença é afetada, pois todos sabemos que a atriz Carrie Fisher morreu e que o diretor J.J. Abrams precisou recorrer a filmagens antigas e truques de edição (e sem recorrer a uma substituição digital) para manter a personagem Leia no filme, o que funciona muito bem. É tocante. Leia é um dos motores do filme e de maneira bonita (ainda que estranha) é o nome de Fisher quem aparece primeiro nos créditos.

Falando em J.J. Abrams – que retornou à franquia depois que o diretor planejado para o Episódio IX, Colin Trevorrow, desistiu ou foi demitido (não sabemos) – o diretor repete alguns “macetes” de O Despertar da Força, inclusive, a maior crítica aquele filme: a mimetização de outro. Este, espelhava à perfeição a trama e estrutura de Uma Nova Esperança (o primeiro longa da saga) e A Ascensão Skywalker, como fim da trilogia, espelha (em menor medida do que o outro caso) O Retorno de Jedi.

Além disso, na busca para agradar ao fã e terminar a saga numa nota alta – depois do ruído e insatisfação gerados por Os Últimos Jedi – Abrams enche Skywalker de tributos aos fãs, homenagens e referências, mas que pelo menos servem à trama e funcionam para emocionar aqueles que se importam com a saga ou seus personagens. Isso enche de drama (no bom sentido) o 3° Ato do filme e, no fim das contas, é positivo, gerando um desenvolvimento de personagens interessante para além das grandes batalhas.

Por outro lado, Abrams não se furta em “desfazer” o que julga serem equívocos apresentados por Os Últimos Jedi (que foi dirigido por Rian Johnson), mesmo que não se deixe de dar prosseguimento a alguns elementos de sua trama, como o contato telepático entre Rey e Kylo.

Outro elemento que Skywalker mantém é o tema da esperança e a busca de mostrar – como já dissemos – que a Galáxia não se resume ao punhado de protagonistas e que tem mais coisa – e gente – acontecendo nos outros sistemas.

Por fim, A Ascensão Skywalker é um bom filme e serve como um fechamento digno da Trilogia Nova e também como encerramento da saga principal de Star Wars, ressaltando o que os novos filmes têm de bom – a representatividade entre elas – e contando uma história que, sem sombra de dúvidas, se conecta tematicamente à essência da saga, destacando o aspecto de entretenimento da franquia, com belas batalhas, sequências de luta sensacionais e visual muito, mas muito bonito, em suas texturas de planetas, naves e figurinos diversos.

Não é o fim da saga de verdade – a Disney e a LucasFilm não irão abrir mão do filão – e nem mesmo é o fim da saga da família Skywalker como o filme tenta se vender: já falamos disso antes, aguarde alguns anos e veremos mais histórias desses personagens como Luke e Leia, seja nos desenhos animados, nas HQs, nos livros e, sim, nos cinemas, com novos atores mais jovens e tramas narrando o espaço de tempo de 30 anos entre os Episódios IV (O Retorno de Jedi) e VII (O Despertar da Força). Pode apostar!

Mas por hora, A Ascensão Skywalker traz um fim à história e o faz de maneira satisfatória e emocionante.

Star Wars – Rise of Skywalker é dirigido por J.J. Abrams, com roteiro de Chris Terrio e J.J. Abrams, a partir de história de Trevor Connolly e Colin Treverrow, Chris Terrio e J.J. Abrams. O elenco traz: Carrie Fisher (Leia Organa), Mark Hamill (Luke Skywalker), Daisy Ridley (Rey), Adam Driver (Kylo Ren), Oscar Isaac (Poe Dameron), John Boyega (Finn), Anthony Daniels (C3PO), Naomi Ackie (Jannah), Domhnall Gleeson (General Hux), Robert E. Grant (Almirante Pryce), Lupita Nyong’o (Maz Kanata), Keri Russell (Zorii Bliss), Joonas Suotamo (Chewbacca), Kelly Marie Tran (Rose Tico), Ian McDiarmid (Imperador Palpatine), Billy Dee Williams (Lando Calrissian), Dominic Monaghan (Beaumont), dentre outros. A estreia no Brasil foi em 19 de dezembro de 2019.