O The Who foi uma das maiores bandas de rock da história e uma peça fundamental da música britânica do século XX, mas o baixista John Entwistle foi um dos nomes mais discretos do jet set roqueiro dos anos 1960 e 70. Mas a vida de rock star desse que foi um dos maiores baixistas do rock clássico, e morreu em 2002, guarda muitos capítulos interessantes, finalmente contados em um livro, uma biografia autorizada.

The Ox: The Authorized Biography of John Entwistle está sendo lançado pela editora Hachette, escrito por Paul Rees e contando com assessoria do filho do lendário baixista, Christopher Entwistle. Parte do livro é baseada em anotações do próprio membro do The Who, que estava escrevendo sua autobiografia quando morreu, e já tinha 4 capítulos escritos e muitas e muitas anotações em cadernos.

John Entwistle of The Who, performing onstage during The Who in Concert at the Omni Coliseum in Atlanta – November 24, 1975 at Omni Coliseum in Atlanta, Georgia, United States. (Photo by Tom Hill/WireImage)

Rees e Christopher garantem, em entrevista à revista Rolling Stone, que apesar de ser uma biografia autorizada, o livro não se desvia de contar o lado feio da vida de Entwistle e aspectos de sua vida, como as festas sem fim, a bebedeira constante, o uso de cocaína até o fim da vida e a infidelidade crônica às três esposas.

Entwistle era um sujeito calado e pouco afeito ao estrelato, sendo chamado de “the quiet one” (que quer dizer “o quietinho” e é referência a uma das canções do The Who), imagem reforçada por sua postura imóvel no palco (sério, sem se mover, sem sorrir), contrastando com seus companheiros de banda, com o cantor Roger Daltrey se contorcendo e rodopiando o microfone no alto da cabeça como se fosse laçar um boi; o guitarrista Pete Townshend rodopiando os braços enquanto tocava seus instrumento e caia ao chão ou dava grandes saltos; e o baterista Keith Moon surrava seu instrumento freneticamente como um louco. Mas essa postura não o tornou um rock star menos estrelado no mundo de sexo, drogas e rock and roll dos anos 1960 e 70 e o livro explora isso sem pudores.

The Who ao vivo em 1969.

Na parte triste, tanto o escritor Rees quanto o filho Christopher Entwistle, lamentam que os dois membros vivos do The Who, Daltrey e Townshend, se recusaram a colaborar com o livro. Segundo a dupla, Daltrey estava ocupado escrevendo a sua própria autobiografia – que já foi publicada e o HQRock comentou na época – e sequer se deu ao trabalho de responder os contatos. Já Townshend foi cortês e educado, mas disse que não tinha nada a acrescentar sobre Entwistle que não tivesse falado nas milhares de entrevistas que deu na vida.

Christopher Entwistle afirma à RS que entende, mas ao mesmo tempo se queixa, lembrando que apesar de terem tocado juntos por 38 anos, jamais foram amigos. Eram apenas companheiros de banda, de trabalho.

O filho do baixista também lamenta que o pai fez um check up completo antes da turnê que o The Who realizaria em 2002, mas que os médicos não perceberam há tempo que ele tinha duas artérias entupidas, uma com 100% e outra com 75%.

Entwistle estava com o The Who em Las Vegas, pronto a iniciar a turnê, e fez uma “festinha” na noite anterior ao primeiro show, no Hard Rock Hotel and Cassino, onde estava hospedado, na cidade de Paradise, em Nevada. A stripper que dormiu com ele o encontrou gelado e sem vida de manhã. A autópsia revelou que ele morreu por ataque cardíaco causado por uma overdose de cocaína. Além das artérias entupidas – que o teriam obrigado a se submeter a uma cirurgia caso fosse descobertas – também estava com excesso de colesterol e pressão alta.

Dentro da dinâmica do The Who, o baixo complexo, pautado no uso de linhas pentatônicas, era parte fundamental do som do grupo. Suas linhas melódicas e tensas o valeram a classificação de Maior Baixista da História pelos leitores da Rolling Stone em uma enquete de 2011; enquanto a revista Bass Player o colocou em 7º lugar entre os 100 Maiores Baixistas, em sua lista de 2017.

No The Who, além de seu baixo incrível – é dele o primeiro solo de baixo gravado na história do rock, em My generation, de 1965 – e de cantar suas próprias canções ocasionalmente, Entwistle contribuía com backing vocals agudos, graves e em falsete, além de piano, trompete e trompa francesa.

Embora não fosse prolixo como seu colega de banda Pete Townshend (o principal compositor do The Who), John Entwistle também contribuía com canções, tendo conseguido sucesso com Boris the spider (1967), Heaven and hell (1970) e My wife (1971). Como tinha pouco espaço nos discos do Who, Entwistle lançou uma carreira solo paralela e seus dois primeiros discos – Smash Your Head Against the Wall (1971) e Whistle Rymes (1972) – são simplesmente sensacionais! Embora não tenham feito sucesso nenhum, são considerados dois grandes clássicos.

Entwistle continuou a carreira solo de modo esporádico ao longo da vida e lançou seis álbuns, o último, The Rock, em 1996.

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John Entwistle of The Who performs on stage, France, 1972. (Photo by Michael Putland/Getty Images)

John Entwistle nasceu em Chiswick, no oeste de Londres, em 09 de outubro de 1944, no seio de uma família musical: seu pai tocava trompete e sua mãe piano. Mas o casal se separou quando ele ainda era criança e Entwistle cresceu na casa dos avôs maternos em South Acton, também no oeste de Londres. Aos 7 anos de idade começou a ter aulas de piano e aos 11 aprendeu a tocar trompete e também a trompa francesa. Nesse mesmo período, ele ingressou na Middlesex Schools Symphony Orchestra, onde conheceu Pete Townshend.

A dupla decidiu criar uma banda de jazz tradicional, The Confederates, mas após um tempo, viram que tocar rock era mais atrativo e formaram uma banda de rock. Entwistle passou a tocar guitarra – que também tinha aprendido na adolescência – mas tendo em vista o fato de ter os dedos bem longos, viu a oportunidade de tocar baixo e construiu seu próprio instrumento. Isso o levou a ser convidado pelo cantor e guitarrista Roger Daltrey, com quem havia estudado quando criança, para ingressar em sua banda, The Detour, conjunto que se tornaria o The Who no futuro.

O The Who em 1964, bem no início da carreira.

Foi Entwistle quem incentivou Townshend a persistir na carreira musical – o guitarrista era antissocial (como o próprio Entwistle) e complexado porque tinha um nariz muito grande – insistindo para que Daltrey o admitisse na banda. No fim das contas, no futuro breve, Towshend se tornaria o líder do The Who, ao se tornar o principal compositor da banda e um dos escritores mais importantes do rock britânico em todos os tempos.

O trio Daltrey, Towshend e Entwistle tocou com outros músicos por alguns anos até 1964, quando Keith Moon se tornou o baterista e o The Who assumiu a formação que lhe faria famosa. Após alguns lançamentos fracassados, o grupo conseguiu um sucesso com o single I can’t explain, em 1965, e estourou de vez, no mesmo ano, com My generation, canção manifesto dos anos 1960.

O The Who sempre fez muito sucesso no Reino Unido, mas só se tornou um sucesso nos EUA com a ópera rock Tommy, em 1969, entrando definitivamente para o panteão das grandes bandas, tendo tocado em festivais lendários da época, como em Woodstock, em 1969, e na Ilha de Wight em 1970. O grupo permaneceu relevante nos anos 1970, mas o baterista Keith Moon morreu vítima de um coma alcoólico em 1978. A banda decidiu continuar as atividades e só se deu como acabada após uma extensa turnê em 1984.

Depois disso, o The Who se reuniu algumas vezes em turnês ou shows especiais, como no Live Aid, em 1985, ou na celebração dos 20 anos de Tommy, em 1989, mas terminou retomando as atividades de modo mais constante a partir de 1996.

Nesse ínterim, Entwsitle se juntou com bandas de grandes roqueiros do passado, como The Best (ao lado de Keith Emerson do Emerson, Lake & Palmer; e de Joe Walsh do The Eagles), em 1990; e Ringo Starr & His All-Star Band, em 1995; mas também formou a The John Entwistle Band, com a qual excursionou pela Europa e EUA, nos anos 1990 e início dos 2000.

Seu último show com o The Who foi em 08 de fevereiro de 2002, no Royal Albert Hall, em Londres.

John Entwistle no último show que tocou com o The Who, em 2002.

Entwistle morreu às portas de uma nova turnê, em 27 de junho de 2002, aos 57 anos.

Towshend e Daltrey mantém o The Who na ativa.

Roger Daltrey e Pete Townshend decidiram continuar a usar o nome The Who, mesmo após a morte de Entwistle, e desde então, lançaram dois álbuns de estúdio – Endless Wire (2006) e Who (2019) – além de fazerem constantes turnês. O grupo celebrou 50 anos de carreira com uma grande turnê mundial em 2015 e passou pelo Brasil pela primeira vez em 2017 (leia a Resenha do HQRock para o show!).