Os Beatles se tornaram a banda de maior influência dentro do rock e foi ajudada não somente por sua própria obra musical, mas também por sua forte iconografia. E uma parte importante disso morreu esta semana: a fotógrafa alemã Astrid Kirchherr, que fez as primeiras imagens profissionais da banda e criou uma marca imagética que o grupo manteve por boa parte de sua carreira.

Os Beatles como quinteto em Hamburgo, ainda antes da entrada do baterista Ringo Starr.

Kirchherr morreu na quarta-feira, dia 13, mas a notícia só foi publicada pelo historiador dos Beatles, Mark Lewisohn, que divulgou a informação no Twitter ontem à noite. Ela estava às vésperas de completar 82 anos após uma breve batalha contra uma doença grave que não foi divulgada.

Autoretrato de Astrid Kirchherr na época.

Kirchherr nasceu em Hamburgo, na Alemanha, em 20 de maio de 1938, e durante a II Guerra Mundial sua família se exilou no litoral do Mar Báltico para fugir dos intensos bombardeios na cidade. Ela estou num colégio de arte no fim dos anos 1950, primeiro no curso de moda, mas demonstrou tanto talento para a fotografia em preto e branco que foi convencida por um professor tutor e mudar de curso. Junto com seus amigos artistas, Astrid aderiu ao movimento Existencialista, usando roupas pretas e retratando esse pensamento por meio de suas obras.

Os Beatles em Hamburgo, em 1960. Harrison, Sutcliffe e Lennon.

Naquele tempo, ela namorava o artista plástico Klaus Voormann, e o rapaz foi o primeiro da turma a conhecer os Beatles após assisti-los num show em um clube, em 1960. Voormann levou Astrid na noite seguinte e os dois se aproximaram da banda nos intervalos e ficaram bastante amigos. Então, os Beatles – ainda distantes da fama e fazendo uma turnê de quatro meses em Hamburgo, tocando em espeluncas e casas de strip-tease – eram formados por uma linha de frente de três guitarristas com John Lennon, Paul McCartney e George Harrison, mais o baixista Stuart Sutcliffe e o baterista Pete Best.

Após um dos shows da banda, Kirchherr convenceu os Beatles a ir a um parque de diversões fechado e fez as primeiras imagens profissionais da banda. São fotografias muito bonitas, em preto e branco, retratando o grupo em poses sérias. Lennon e Harrison foram os que mais afinidade tiveram com Astrid, mas ela terminou namorando Sutcliffe.

Lennon com os Beatles em Hamburgo, em 1960: adolescente rebelde e problemático.

Além de tirar fotos, Astrid também pensou em um novo corte de cabelos para os Beatles, copiando o uso de franja que ela e seus amigos usavam. George Harrison foi o primeiro a aderir e logo todos os outros, de modo, que Kirchherr criou o famoso corte de cabelo beatle.

George Harrison e seu novo corte de cabelo por Astrid Kirchherr.

Como sua paixão era a pintura, Sutcliffe deixou a banda para ficar em Hamburgo e estudar, o que “obrigou” Paul McCartney a assumir o baixo dos Beatles e a banda virou um quarteto definitivamente. Os Beatles encontraram uma boa base de fãs em Hamburgo e o grupo ficou se dividindo entre lá e Liverpool por algum tempo.

Sutcliffle e Kirchherr.

Sutcliffe e Kirchherr passaram a morar na casa dos pais dela, mas pouco tempo depois, o ex-Beatles começou a sentir fortes dores de cabeça e chegou a desmaiar durante uma aula. Os médicos suspeitavam que ele sofria de aumento de pressão cerebral causado pelo uso de anfetaminas, mas não conseguiram precisar o diagnóstico. Stu, como era conhecido, passou mal no dia 10 de abril de 1962, e a mãe de Astrid telefonou ao trabalho dela para que voltasse para casa. Astrid seguiu Stu na ambulância, mas ele morreu antes de chegar ao hospital, vítima de uma hemorragia cerebral. A história do par ao lado dos Beatles foi retratada no filme Backbeat – Os Cinco Rapazes de Liverpool, lançado em 1994, na qual Sutcliffe é interpretado por Stephen Dorff e Astrid por Sheryl Lee.

Os Beatles chegaram para uma nova turnê em Hamburgo apenas 3 dias depois, em 13 de abril de 1962, e foram surpreendidos pela notícia.

Pouco depois daquilo, o baterista Pete Best foi substituído por Ringo Starr, enquanto a banda conseguia um contrato com a gravadora EMI e começava sua carreira de sucesso. Outro membro da turminha de Hamburgo continuou amigo da banda: Klaus Voormann migrou para Londres nos anos 1960 e passou a trabalhar como baixista, o que levou à banda de sucesso Manfred Mann, em 1966; enquanto mantinha o trabalho como artista plástico e fez a capa do álbum Revolver dos Beatles, em 1966. Quando o grupo se separou, Voormann se tornou o baixista dos discos solo de John Lennon e tocou também nos álbuns de George Harrison e Ringo Starr.

A banda e a fotógrafa continuaram amigos e existem fotografias dela ao lado de Lennon e Harrison em momentos de férias ao longo de 1963, quando os Beatles conseguiram fazer sucesso em toda a Europa. Em 1964, ela trabalhou como fotógrafa nos bastidores do filme A Hard Day’s Night, mas começou a perceber que sua carreira estava sendo prejudicada pela proximidade com a banda, pois todos só queriam dela fotos dos Beatles.

Astrid trabalhava como fotógrafa free-lancer na época, então, se desvencilhou do aspecto musical em seu trabalho, mas conforme relatou mais tarde em entrevistas, era muito difícil para uma mulher trabalhar como fotógrafa nos anos 1960. Ela abandonou a fotografia em 1967 e passou a trabalhar em outros campos artísticos, como a TV. Nos últimos anos, com o crescimento da organização dos fãs dos Beatles em convenções e eventos, Kirchherr terminou finalmente lançando um livro com suas fotografias da banda em seus dias iniciais e abriu uma loja de artigos fotográficos.

Em 2001, Kirchherr expôs suas clássicas fotografias na Matthew Street Art Gallery, em Liverpool, em meio a uma convenção de fãs dos Beatles, e dali em diante, expôs seu trabalho no restante da Europa, Japão e nos Estados Unidos.

A fotografia de Kirchherr ajudou a criar uma imagem séria e sombria dos Beatles, em preto e branco, que foi fundamental à sua carreira nos primeiros anos. A banda procurou “copiar” tal imagem em diversos trabalhos, como ao lado do fotógrafo Robert Freeman, que aparece, por exemplo, na capa do álbum With The Beatles (1963) e, adaptado às cores, em Beatles For Sale (1964).