Na esteira dos protestos pela morte de George Floyd nos Estados Unidos, o movimento Black Lives Matters ganhou mais força com vários desdobramentos. Já comentamos aqui no HQRock sobre o uso do símbolo do Justiceiro da Marvel Comics por policiais. Agora, na Inglaterra, o movimento exige a renomeação de Penny Lane, a famosa rua da cidade que inspirou uma canção dos Beatles, porque a via estaria relacionada à escravidão. A demanda vem criando polêmica, porque a origem do nome da via não é oficialmente conhecida.

O movimento alega que a rua foi nomeada em homenagem a James Penny, um conhecido mercador de escravos do século XVIII na Grã-Bretanha; mas outra corrente história acha que o nome da via vem de um pedágio que ali existia. Penny Lane poderia ser traduzida como Viela da Moeda.

Dias atrás, a famosa placa da rua – que é visitada por milhares de fãs dos Beatles todos os anos, que põem seus nomes nela – foi pichada com um traço lhe cobrindo o título e a inscrição “Racist” no muro de trás. A ação gerou um grande debate na cidade.

O prefeito de Liverpool, Steve Rothertham, se pronunciou sobre o tema, numa entrevista à Sky News (via New Musical Express):

Se é uma consequência direta que a rua seja chamada de Penny Lane por causa de James Penny, isto precisa ser investigado. Alguma coisa precisa acontecer e eu diria que aquela placa e aquela rua corre o risco de ser renomeada.

O NME, contudo, argumenta que a origem do nome não é mesmo certa e não existe um registro oficial da onde ele veio. Liverpool sedia o Museu Internacional da Escravidão, que foi inaugurado em 2007, nas Albert Docs, quando do bicentenário do fim do mercado de escravos no Reino Unido. A criação na cidade é uma forma de compensar o grande envolvimento que Liverpool teve no tráfico negreiro, já que era de lá que partiam muitos dos mercadores e navios que distribuíam escravos do continente africano para as Américas.

Um porta-voz do Museu afirmou ao NME que a ideia de o nome da rua vir de James Penny “não é conclusiva”.

Penny Lane é uma importante rua nos subúrbios de Liverpool e faz a ligação entre uma área mais campal e um “mini centro”, no qual se localizam lojas, bancos, uma barbearia e, principalmente, uma rotatória que funcionava como terminal de ônibus. Assim, que vivia na área – como era o caso dos quatro membros dos Beatles, quando crianças e adolescentes – tinham na via como um elemento muito importante de suas vidas.

Era em Penny Lane que John Lennon, Paul McCartney e George Harrison pegavam os ônibus para irem às suas escolas, no centro de Liverpool. Bem próximo à rua, mas não nela, ficava a escola primária em que Harrison e McCartney estudaram. Na própria Penny Lane ficava a doceria favorita dos garotos, onde iam depois das aulas; e também ficava o Dovendale Pub, que foi o primeiro palco dos Beatles, com John Lennon lá se apresentando com sua banda The Quarrymen, que daria origem aos Beatles, ainda em 1956, e mais tarde, também sendo palco para os Beatles propriamente ditos. Outra curiosidade roqueira é que Freddie Mercury, o famoso vocalista do Queen e que viveu em Liverpool por algum tempo, morou no apartamento em cima do pub.

Capa do compacto de Penny Lane/ Strawberry Fields forever, de 1967.

Muitas dessas referências pessoais a Penny Lane estão descritas em uma linguagem surreal na letra da canção de mesmo título que os Beatles lançaram como compacto em 17 de fevereiro de 1967. A canção foi composta por McCartney e Lennon e foi a terceira a ser gravada para o projeto do álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Contudo, o grupo decidiu a lançar como single – tendo Strawberry Fields foverer (outra canção baseada em um lugar de Liverpool) no Lado B – o que as excluiu da versão final do álbum.

Trecho do videoclipe de Penny Lane.

Penny Lane chegou ao topo das paradas dos Estados Unidos e virou uma das mais célebres canções dos Beatles.