No dia 27 de novembro de 1970, há 50 anos atrás, era lançado o álbum triplo All Things Must Pass, primeiro disco “de verdade” da carreira de George Harrison, e para celebrar, os herdeiros do ex-membro dos Beatles anunciaram hoje o relançamento do disco com uma nova mixagem que busca limpar o eco introduzido pelo produtor original, Phil Spector.

Hoje, em adiantamento ao Record Store Day da Black Friday, foi lançado o single My sweet lord, principal canção do disco, e seu maior sucesso, em uma milky clear version, em uma edição especial em vinil de 7 polegadas. Nos streamings foi lançado outra famosa canção do álbum, a faixa-título All thing must pass. E é apenas o começo.

Segundo declarou Dahi Harrison, filho do ex-Beatles, em um comunicado oficial:

Fazer este álbum soar mais claro sempre foi um dos maiores desejos de meu pai e foi algo em que trabalhamos juntos exatamente antes de seu falecimento.

Existe uma famosa declaração de George Harrison quando perguntaram sobre seu primeiro álbum, no qual disse: “tem eco demais”. E, de fato, quando o disco celebrou 30 anos de seu lançamento, em 2000, Harrison lançou uma versão remasterizada do disco, embora ainda sem conseguir “tirar o eco”. Outra versão remasterizada chegou às lojas em 2014, junto com toda a discografia solo do músico. Mas lá vem tudo de novo…

O comunicado de Dahi Harrison informa que ele e o engenheiro Paul Hicks estão trabalhando em cima de um grande volume de fitas e caixas de fitas originais, e que irão remasterizar os álbuns de Harrison com a nova tecnologia na medida em que cada um complete 50 anos de idade.

George Harrison em 1970.

All Things Must Pass foi lançado em 1970, pouco tempo depois do fim dos Beatles, e trazia em sua maior parte canções que George Harrison havia composto para a banda e que teriam sido rejeitadas. No quarteto de Liverpool, Harrison ocupava um lugar secundário: embora fizesse a guitarra solo, o material principal do grupo eram as composições de John Lennon & Paul McCartney. A Harrison era dada uma “cota” de 2 canções por álbum, num movimento que, de início, era meio indulgente, mas o guitarrista foi crescendo rapidamente como compositor, e quando o grupo chegou ao ponto da ruptura, Harrison já entregava clássicos que andavam ombro a ombro com as canções de seus companheiros, como While my guitar gently weeps, Something e Here comes the sun.

Mas por causa da restrição na quantidade, Harrison tinha um punhado de incríveis canções que haviam sido rejeitadas, portanto, com a separação dos Beatles, Harrison uniu essas canções em um álbum que não somente é incrível, mas fez um enorme sucesso, sendo o primeiro disco de um ex-Beatles a chegar ao 1º lugar nas paradas (e ele fez isso tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos). O mesmo para o single My sweet lord!

George Harrison no Concert For Bangladesh, em 1971.

E olha que All Things Must Pass era um álbum triplo! Dois LPs com canções fantásticas como Beware the darkness, Run of the mill, Let it down, If not for you, It’s ain’t a pitty, além da faixa-título e My sweet lord. O terceiro LP era formado apenas por jam sessions instrumentais registradas durante as gravações, afinal, Harrison reuniu ao redor de si um time simplesmente inacreditável de músicos: Eric Clapton, David Manson, Stephen Stills nas guitarras; Klaus Voorman, Carl Randle no baixo; Garry Brooker, Bobby Whitlock, Leon Russell, Nick Hopkins, Billy Preston nos teclados e pianos; Ringo Starr, Alan White, Jim Keltner, JIm Gordon, Ginger Baker na bateria. E muito mais! Bob Dylan, John Lennon e até um Phil Collins de 19 anos (ainda antes de entrar para o Genesis) fizeram participações especiais no disco sem serem creditados.

O álbum foi produzido pelo badaladíssimo produtor norte-americano Phil Spector, que tinha se tornado um dos mais influentes da indústria musical no início dos anos 1960, quando criou uma técnica chamada wall of sound, na qual reunia músicos excelentes com vários instrumentos repetidos para dar mais corpo às canções, numa época em que gravações sobrepostas ainda exigiam um trabalho enorme. Além disso, carregava em efeitos de reverberação e eco, dando sonoridades distintas às canções.

Phil Spector e George Harrison em 1970.

Mas advindo das gravações limpas e fabulosas dos Beatles, Harrison terminou se incomodando com o excesso de eco nas mixagens produzidas por Spector. E nova versão lançada hoje, de fato, é possível notar uma grande diferença em relação à original para a faixa-título do disco.

Não há uma data de lançamento para o álbum completo, mas a declaração de Dahi Harrison afirma que muitas novidades chegarão em 2021.

George Harrison nasceu em Liverpool, na Inglaterra, em 25 de fevereiro de 1943, numa família pobre de descendentes de irlandeses, e estudou na escola com Paul McCartney, que o convidou para a banda que John Lennon havia fundado algum tempo antes, quando precisaram de um guitarrista que fosse capaz de solar com desenvoltura, em 1958. O grupo adotou o nome de The Beatles algum tempo depois e chegou às gravações em 1962, terminando por se tornar a banda de maior sucesso, popularidade e influência nos anos 1960 e em todo o século XX.

Os Beatles se separaram em 1970 e Harrison seguiu em uma carreira solo de bastante sucesso, iniciando com o álbum All Things Must Pass, que chegou ao primeiro lugar das paradas de ambos os lados do Atlântico. O guitarrista viveu alguns anos de estrelato até que seus discos começaram a sair dos holofotes no fim dos anos 1970, e Harrison se viu bastante à vontade com a nova condição de um músico sem tanta fama, mas continuando a apresentar um trabalho muito interessante, com destaque em discos como Living in the Material World (1973), Dark Horse (1974), George Harrison (1976), Somewhere in England (1981) e Cloud Nine (1987).

Nos anos 1980, o guitarrista se tornou um recluso.

No fim dos anos 1980, Harrison montou o supergrupo Travelling Willburys, com Bob Dylan, Roy Orbison, Tom Petty e Jeff Lyne, que fez bastante sucesso em dois discos, lançados em 1989 e 1990. Mas depois disso, o guitarrista preferiu se recolher a uma vida mais tranquila e, praticamente, abandonou a carreira musical. Apenas no fim dos anos 1990 ele voltou a gravar, mas terminou morrendo vítima de um câncer de garganta em 29 de novembro de 2001. O álbum Brainwashed, produzido ao lado do filho Dahi Harrison, foi lançado de forma póstuma e foi bastante premiado.