Um dos maiores artistas da história dos quadrinhos, George Pérez anunciou em suas contas oficiais nas redes sociais que está com câncer terminal e só tem entre seis meses e um ano de vida. O desenhista e roteirista usou a oportunidade para aproveitar os últimos instantes que lhe restam mantendo contato com os fãs e participando de um evento final.

Há quase três anos atrás, Pérez anunciou sua aposentadoria dos quadrinhos, por causa de sua visão debilitada e de sua diabetes, mas agora, no dia 29 de novembro, ele diz na nota, recebeu a noticia dos médicos de que tem um câncer no pâncreas em estágio 3 e que seu caso é terminal e incurável. Embora fosse possível fazer um tratamento paliativo – sem chances de cura – o artista, sua família e os médicos chegaram à conclusão de que era melhor não realizar tratamento algum e lhe dar um resto de vida mais tranquilo e agradável.

Na nota, Pérez resolve ser pragmático: diz que irá usar seu único olho bom para assinar (autografar) ao máximo de revistas que puder, irá renegociar uma série de desenhos, esboços e layouts que possui em casa e que quer organizar um último evento presencial em que poderá confraternizar com fãs e tirar fotos com eles.

Eu também espero ser capaz de fazer uma última aparição pública em que eu possa ser fotografado com o máximo de fãs que eu puder e com a vontade de abraçar cada um e todo mundo. Apenas quero ser capaz de dizer adeus com sorrisos além de lágrimas.

O desenhista anunciou que está abrindo uma nova conta no Facebook para que mantenha contato com fãs e amigos e possa lhes deixar informados, e que embora não prometa responder rápido – já que vai aproveitar o máximo possível para ficar com a esposa e a família e ter algumas atividades ao ar livre – irá fazer o seu melhor para responder perguntas e mensagens.

No fim, Pérez termina a nota de forma tocante:

Bom, é isto por hora. Esta não é uma mensagem que eu gostei de escrever, especialmente durante esse período de festas, mas embora pareça estranho, estou sentindo o espírito natalino agora mais do que eu tive em muitos anos. Talvez, seja porque este seja provavelmente o último. Ou talvez seja porque eu esteja envolvido no braço amoroso de tantos que me amam como eu os amo. É muito inspirador que seja dito que você viveu uma boa vida, que você trouxe alegria para tantas vidas, e que você deixará esse mundo um lugar melhor porque foi parte dele. Parafraseando Lou Gehrig: “algumas pessoas talvez pensem que eu tive um fim ruim, mas hoje, eu me sinto o cara mais sortudo da face da Terra”.

Cuidem-se e obrigado!

É triste, mas ao mesmo tempo, terminar a vida numa luz positiva e ficar orgulhoso de tudo o que fez e gerou ao mundo é um ótimo sentimento. Lamentamos muito por Pérez e aguardamos que tenha o melhor final possível.

George Pérez nasceu no Bronx, em Nova York, em 1954, filho de migrantes de Porto Rico, ou seja, uma família de latinos. Sua carreira começou na Marvel Comics, como assistente do desenhista Rick Buckler, que desenhara os Vingadores e cuidava das histórias de Deathlok em Astonishing Tales, em 1973, e foi nessa revista onde produziu sua primeira arte oficial. Com seu traço sólido e bonito – na linha do veterano John Romita e do novato John Byrne – Pérez impressionou os editores da Marvel e começou a desenhar várias histórias, ganhando seu primeiro trabalho fixo nas aventuras dos Filhos do Tigre, da linha de artes marciais da editora, na revista The Deadly Hands of Kung-Fu, escrita por Bill Mantlo, e na qual criaram o primeiro super-herói latino da Marvel, o Tigre Branco, que pouco depois ganharia mais destaque quando Mantlo levou o personagem como coadjuvante das histórias do Homem-Aranha.

A maravilhosa arte de George Perez nos Vingadores nos anos 1970.

Pérez então entrou no panteão dos grandes artistas da Marvel ao assumir a arte da revista Avengers, dos Vingadores, a partir do número 141, de 1974, em meio à fase do escritor Steve Englehart, e ficou – ainda que com ocasionais intervalos curtos – como principal desenhista dos “maiores heróis da Terra” pelo resto do fim da década de 1970, incluindo arcos clássicos do time, como A Noiva de Ultron e A Saga de Korvac (ao lado de Jim Shooter e David Michellinie). Ao lado deste último, criou o vilão Treinador (Taskmaster) em Avengers 195. Foi nos Vingadores que Pérez começou a ser creditado como corroteirista, inclusive, na polêmica história de Avengers 200, no qual há o estupro cósmico-temporal de Carol Danvers, a Miss Marvel (mais tarde, Capitã Marvel). Como era um artista rápido, ele ainda ilustrou várias outras revistas ao mesmo tempo, como Quarteto Fantástico (ao lado de Roy Thomas e Len Wein), Inumanos e a linha de terror, com Creatures on the Loose, com as aventuras do Homem-Lobo, vilão trágico das histórias do Homem-Aranha.

Os Novos Titãs de Wolfman e Perez

Como era um artista free lancer, Pérez começou a trabalhar em paralelo para a DC Comics na virada para a década de 1980, lançando ao lado do escritor Marv Wolfman a nova versão dos Jovens Titãs, o time de super-heróis juvenis. A versão de Wolfman e Pérez reunia alguns dos tradicionais membros da equipe dos anos 1960, como Robin, Kid Flash e Moça-Maravilha, ao lado de personagens mais novos e dramáticos, como Ciborgue, Ravena, Estrelar, Mutano e outros. Pensando em aventuras mais adultas e profundas sobre a juventude e inspirados nos X-Men de Chris Claremont e John Byrne, os Novos Titãs de Wolfman e Pérez se tornaram o maior sucesso de vendas da DC nos anos 1980. Foi nos Titãs que o Robin deixou a sombra de seu tutor e assumiu a nova identidade de Asa Noturna, como líder do grupo. O plot geral do time seria adaptado na série de TV Titans, em anos recentes.

O típico quadro cheio de personagens que Pérez se especializou em criar.

Além deles, Pérez também trabalhou ocasionalmente em outros heróis, como o Superman, mas teve outro destaque paralelo em assumir a arte da Liga da Justiça. Produzir em paralelo as revistas de dois grupos de super-heróis firmou a fama de Pérez como um artista calcado para criar de maneira eficiente quadrinhos com muitos personagens.

Supergirl é morta em “Crise das Infinitas Terras”, na bela arte de George Perez.

O sucesso da dupla Wolfman e Pérez os levou a serem comissionados em criar a megassaga Crise nas Infinitas Terras, que mudou para sempre o Universo DC e reorganizou a confusa cronologia da editora. Em sequência, enquanto continuava com os Titãs, Pérez assumiu o comando da reformulação cronológica da Mulher-Maravilha, ao lado do escritor Greg Potter, no qual reforçaram os vínculos da princesa amazona com a mitologia grega e seu panteão, em histórias que firmaram o mito moderno da heroína tal qual entendemos hoje. Trabalhando com Potter, Len Wein e a escritora Mindy Newell, Perez também escreveu e desenhou sozinho as aventuras de Diana.

Após se afastar brevemente dos Titãs, Pérez retornou à revista em 1988 e, no ano seguinte, também teve passagens pelas três revistas do homem de aço, Superman, Action Comics e Adventures of Superman. Porém, Pérez deixou a DC Comics em 1992 após se desentender com as intervenções editoriais em meio às comemorações dos 50 anos da Mulher-Maravilha e o arco Guerra dos Deuses, ao qual não finalizou. Voltando à Marvel, ele foi desenhar Hulk: Futuro Imperfeito, uma importante minissérie escrita por Peter David, mas em seguida, veio A Manopla do Infinito, escrita por Jim Starlin, e trazendo o retorno triunfal do vilão Thanos contra os Vingadores, e dando início à trama que seria adaptada aos filmes do Marvel Studios. Porém, ainda estressado e abalado pelos problemas com a editora anterior, Pérez não conseguiu finalizar a minissérie prevista para ter 6 edições, e desenhou as 4 primeiras e fez apenas a tintaria para a arte de Ron Lim nos números finais.

A aclamada fase de Busiek e Perez.

O episódio pagou um preço e Pérez ficou com a fama de não finalizar seus trabalhos, o que lhe levou a passar por um período fora dos holofotes, trabalhando com editoras menores dos EUA. Seu retorno triunfal se deu aos poucos, primeiro, como roteirista do Surfista Prateado na Marvel, a partir do fim de 1995; então, assumindo a arte da histórica nova fase dos Vingadores comandada pelo escritor Kurt Busiek, em 1996. Em paralelo, também trabalhou para a DC, fazendo a tinteria de uma nova fase dos Novos Titãs, escrita e desenhada por Dan Jurgens. Nos anos seguintes, ele fez tinteria de Homem-Aranha: O Duende Macabro Vive, em 1998, e teve seu último grande trabalho em Vingadores versus Liga da Justiça, em 2003 e 2004, crossover entre as duas principais equipes das duas editoras e que, claro, tinha que ser desenhada por Pérez.

Liga da Justiça vs. Vingadores na arte de George Perez: encontro histórico.

Como escritor, desenhista ou tinteiro, Pérez continuou a trabalhar nos quadrinhos pelos anos seguintes, embora sem o brilho de antes, ao mesmo tempo em que sua saúde começou a declinar, com os problemas com a diabetes. Seu último trabalho de destaque foi como roteirista de Superman, em meio ao reboot de Os Novos 52, entre 2011 e 2013. Em 2013, um derrame o deixou cego de um dos olhos, e isso inviabilizou seu trabalho como desenhista. Em 2017, sofreu um ataque cardíaco a caminho de uma convenção de quadrinhos; e o artista terminou por se aposentar em 2018.

Com sua trajetória, sua arte e seus textos, George Pérez foi um dos grandes nomes dos quadrinhos da Era de Bronze em diante e sua influência é imensa naquilo que criou e deixou de legado.