Após um longuíssimo adiamento por causa da pandemia de Covid-19 e da mudança de um documentário cinematográfico a sair nos cinemas para uma série de TV em três capítulos e mais de 6 horas de duração no streaming do Disney+, finalmente chegou ao público (pelo menos aos assinantes do dito canal) The Beatles: Get Back, filme-série que mostra a tentativa do quarteto de Liverpool em promover um retorno aos palcos, ao mesmo tempo em que fariam um show apenas com canções inéditas, produzindo um disco ao vivo e um especial de TV. O projeto transcorreu em janeiro de 1969, alguns meses antes da dissolução do grupo.

O material original (também após uma série de atrasos) chegou ao público por meio do filme e disco Let it Be, em maio de 1970, quando a banda já tinha anunciado o seu fim. Mas o filme de apenas 90 minutos de duração (apesar de ter ganho o Oscar de Melhor Trilha Sonora) não deu conta de contar a verdadeira história e o álbum se desviou da proposta original de captar a banda ao vivo no estúdio, sem trucagens de gravação, e ganhou uma grossa camada de efeitos do produtor norteamericano Phil Spector.

Comemorando os 50 anos de lançamento do projeto filme-disco (e aproveitando que o álbum ganhou uma versão remixada pelo produtor Giles Martin, filho de George Martin, que acompanhou toda a carreira da banda (e que fez bastante sucesso, inclusive), os Beatles decidiram não relançar o longametragem original, mas reunir as filmagens originais e transformá-la em uma nova coisa. Assim, as 56 horas de filmagens e as 130 horas de áudio registradas em janeiro de 1969 foram entregues na íntegra ao diretor Peter Jackson (famoso por O Senhor dos Anéis e O Hobbit). Ele e sua equipe restauraram os rolos de fita (que foram captadas em 16 mm porque eram para a TV e, depois, ampliado artificialmente para 35 mm para o cinema, o que prejudicou a qualidade da imagem do Let it Be original), enquanto Giles Martin se responsabilizou pelo som.

Desde que o projeto foi anunciado, Jackson vem difundindo que o seu Get Back (título que resgata o nome original do projeto) iria resgatar a história, pois Let it Be ficou conhecido por mostrar a banda se desintegrando. O corte do diretor Michael Lindsay-Hogg, em 1970, dava ênfase ao clima frio e desanimado da banda, com chateação e tédio e certa animosidade. Embora existam alguns bons momentos (em particular após a chegada do tecladista Billy Preston, que veio dar um reforço ao som ao vivo do grupo), o filme de um modo geral era triste e melancólico, ainda que encerrando com uma nota alta, quando os Beatles sobem ao telhado de sua gravadora, a Apple Records, e fazem um show de improviso – que causa um grande tumulto no centro de Londres e resulta na polícia encerrando a festa (ainda que pacificamente).

Então, Get Back cumpre a promessa de Jackson? A resposta é: não!

Em primeiro lugar é preciso dizer: Get Back é um belo filme. É simplesmente maravilhoso ver o retrato mais íntimo já mostrado dos Beatles. A longuíssima duração de 6 horas (ainda uma pequena fração dos 16 dias em que a banda ensaiou para o projeto) permite que tenhamos um panorama completo do que realmente aconteceu, inclusive, com o prático e eficiente recurso de apresentar um calendário e a marcação clara dos dias se passando.

E isso termina por quebrar a promessa de que Get Back tem uma luz mais “positiva” do que Let it Be. Não é o que vemos na tela. Talvez, o que o diretor quis dizer é que vemos que os Beatles realmente nutriam um carinho e um amor uns pelos outros e que, como em qualquer relacionamento – que numa banda de rock não é exatamente nem só de amizade nem apenas profissional – traz uma grande bagagem emocional, e há mágoas misturadas com boas lembranças. Todavia, Get Back exibe um monte de sentimentos negativos, brigas, discussões… e o clima não é bom no todo.

É curioso porque o trailer lançado há alguns meses dava ênfase nos bons momentos, mostrando a banda brincando, contando piadas, confraternizando e tocando animada. E, claro, isso está lá. Mas na minha opinião, não é essa a história do filme. Get Back mostra uma banda, perdida, ranzinza, sem saber o que fazer e metida numa fria na qual não sabe como sair. A fria? Fazer um show com músicas inéditas em apenas duas semanas. Louco até para os padrões dos anos 1960.

Mas quando o filme começa já fica bem claro: os Beatles não têm canções compostas para fazer o show. Afinal, a banda tinha lançado um novo álbum com 30 músicas (!) apenas dois meses antes. Isso mesmo! Então, no dia 02 de janeiro de 1969, quando John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr se reúnem nos estúdios cinematográficos de Twinckenham, no oeste de Londres, fica tudo muito claro: não há música, o local não tem todo o equipamento que precisam, o ambiente é ruim, feio e sem graça, e, pior, sequer há uma definição exata do que irão fazer, como será o show e, principalmente, onde será. Mas ainda assim, há uma equipe de filmagem acompanhando tudo. Para o quê?

Chega a dar dó do diretor da empreitada original, Michael Lindsay-Hogg, que tenta estimular o grupo e vender ideias de fazer um espetáculo visual, o principal deles: as ruínas de um antigo anfiteatro romano na Tunísia, quase à beira-mar. Mas a banda não está tão disposta a viajar e Ringo Starr bate o pé dizendo que não irá sair do país. Os Beatles pensam em fazer um show ao ar livre – e Primrose era a locação mais provável – o que seria algo impraticável no auge do inverno inglês. Concertos ao vivo ao ar livre só acontecem no verão.

A banda começa a criar algumas canções novas Don’t let me down, I got a feeling e Two of us são as que emplacam primeiro – mas não tem disciplina, ficam enrolando, brincando, tocando músicas de improviso e indo a lugar nenhum. É notório – e dá pena – ver Paul McCartney se esforçando para levar a banda a algum lugar (e nessa empreitada, assumindo uma postura de “chefe” chato, o que irrita os outros); John Lennon meio indiferente (e perdido em um mundo encantado ao lado da namorada e futura esposa Yoko Ono – biógrafos dizem que eles estavam consumindo heroína); Ringo Starr apenas seguindo a onda (mas sem querer sair do país); e George Harrison, ranzinza, chateado, sem querer fazer o show, e não conseguindo encaixar suas músicas no repertório.

Este ponto último merece um aprofundamento, pois a falta de espaço para tocar as próprias composições – Harrison tinha uma “cota” de apenas duas faixas por cada álbum – foi um dos principais fatores para o fim dos Beatles. Mas Get Back dá a impressão de que o próprio Harrison não se sentia seguro ou confortável de tocar as próprias canções para o projeto, dizendo mais de uma vez que suas novas músicas eram muito lentas para ganharem espaço na ideia do show. Mas parte disso pode ser também uma certa defensiva contra a reação quase sempre indiferente e indulgente de McCartney em relação a elas. Por outro lado, vemos que Lennon incentivava Harrison com suas composições, em mais de uma vez dizendo que quer tocar uma canção dele, perguntando por elas, ouvindo-as apenas ao violão, tocando com ele e até dizer que ama uma delas. Mas talvez não tenha feito força o suficiente para vencer a barreira da má vontade de McCartney.

Harrison toca com a banda All things must pass (canção que terminaria sendo a faixa título de seu álbum solo lançado em 1970 e que acabou de ganhar uma versão remasterizada, remixada e cheia de bônus), que demonstra bastante potencial para uma faixa da banda, mas não viu a reta de chegada; ouvimos uma bela versão voz e violão de It’s ain’t a pitty? (talvez tocada para mostrar aos outros); I me mine chega a ser ensaiada, mas não se desenvolve; e como todas são lentas, ele traz a mais movimentada Old brown shoe (que terminaria lançada como o Lado B do single com The Ballad of John & Yoko, quatro meses depois), mas já era tarde demais para entrar no show e não se desenvolve na ocasião. A única canção dele que é mesmo finalizada é For you blue, que ele traz com a ideia de gravá-la o mais rápido possível, e funciona muito bem.

Mas Harrison parece alienado e infeliz a maior parte do tempo. Em determinado momento, no dia 10 de janeiro, que é o ponto alto da Parte 1 da série, o guitarrista anuncia, de supetão, que está saindo da banda, e vai embora. São necessárias duas reuniões (extra-câmera) para que ele aceite voltar, mas com algumas condições, dentre as quais não fazer o show e deixar o clima frio, sem graça e inadequado de Twinckenham.

Na Parte 2, os Beatles se reúnem novamente no Apple Studios, de sua própria gravadora, no porão do prédio da banda, em Saville Row, no centro de Londres, onde agregam o tecladista Billy Preston para dar um reforço na parte musical e ter um piano ou um órgão em todas as músicas, já que elas serão tocadas ao vivo. Sendo um grande músico e conhecendo a banda desde 1962, quando tocaram em Hamburgo, na Alemanha, sua adesão imediatamente melhora o clima e faz todos tocarem melhor. Mas a falta de disciplina e de foco continua a ser a marca e banda mal tem quatro faixas prontas à véspera do que deveria ser o show.

A Parte 3 mostra essencialmente a preparação e execução do The Rooftop Concert, ou o show do telhado, quando a banda decide, meio de improviso, meio que para dar um fim minimamente adequado ao filme em sua concepção original. Mas o Get Back mostra que mesmo com a preparação do concerto – que envolveu preparar o telhado para receber o show e a ampliação da equipe de filmagem para captar o momento – até o último momento, até estarem todos no telhado com tudo pronto, todo o crew ainda não sabia se a banda iria aparecer. Alguém do staff pergunta: “eles vão vir?”. O grupo aparece e faz uma apresentação incrível.

Porém, no fim, não fica a impressão de uma banda que não estava se separando, como foi “vendido” no marketing. Ao longo do filme, vemos a banda dizendo quase que explicitamente que o projeto do show-disco-filme é praticamente o passo final. Que eles estão se desentendendo há 18 meses e que aquele pode ser o fim. George Harrison deixa a banda e só volta após uma árdua negociação; e depois diz a John Lennon, ainda que num clima de tranquilidade, de conversa de amigos, que não irá levar suas canções ao projeto, porque vai gravar um disco solo com suas composições, pois já tinha “composto suas canções para os discos dos Beatles pelos próximos dez anos”, pois já tinha um grande número de canções e uma cota de apenas dois faixas por álbum.

Ademais, é preciso comentar que mais de 6 horas de uma banda entediada, tocando sem foco, brincando, improvisando canções sem forma, sem conseguir avançar nas faixas que criaram e sem conseguir pôr para frente as novas que vão circulando, pode ser um pouco demais para o público em geral. Não tenho certeza como o público vai receber.

Por outro lado, os amantes da música e os fãs dos Beatles podem se deliciar com um retrato íntimo da banda e a possibilidade desses gênios da música criando algumas de suas mais famosas, bonitas e apreciadas canções praticamente a partir do zero; discutindo as letras; definindo a estrutura; aprendendo como tocá-la; ensaiando; e chegando às suas formas finais como as conhecemos, algumas das quais tocadas ao vivo no telhado do prédio da gravadora… e tudo isso com imagens nítidas, vivas, coloridas e em uma qualidade incrível. É algo sensacional!

Fica para depois, algumas perguntas: os Beatles liberarão sob a forma de vídeos (videoclipes) as performances completas das canções principais? Este seria um bom movimento.

Será lançada uma trilha sonora do filme/série? Afinal, há muito material que não aparece no box set de 2021 de Let it Be e parece haver demanda para tal. Pois os Beatles ainda estão devendo ao seu público uma versão decente de All things must pass (ela deve existir em algum lugar) e outras coisinhas boas que transcorrem no filme, como a instrumental The Castle of the king of the birds (que aparece nos créditos e é bem interessante), Madman (inédita de John Lennon que é tocada algumas vezes e não apareceu depois em lugar nenhum), versões elétricas (talvez semi-finalizadas, é verdade) de On the road to Marrakesh (antigamente chamada de Child of nacture e que, com outra letra, virou o sucesso Jealous guy de John Lennon em sua carreira solo) e Across the universe (cuja performance aparecia no antigo filme Let it Be); além de versões ainda que inacabadas, porém, interessantes (como aparecem nos bônus dos box sets ou no antigo The Beatles Anthology) de Pollytheme Pam, Mean Mr. Mustard, She comes in through the bathroom window, Oh! Darling e mais algumas.

Veremos…

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