A casa de leilões Heritage Auctions, de Dallas, no Texas, realizou a venda recorde de dois artefatos históricos ligados às HQs: a arte original da primeira aparição do uniforme negro do Homem-Aranha e a primeira revista do Superman, cada qual batendo mais de US$ 3 milhões, ou seja, mais de 18 milhões de Reais cada uma!

Página de Secret Wars 08 com a primeira aparição do uniforme negro do Homem-Aranha. Arte de Mike Zeck e texto de Jim Shooter.

Segundo o Yahoo! Finanças, o primeiro item foi a arte original da página 25 da edição 08 da maxissérie Secret Wars, publicada originalmente em 1984 pela Marvel Comics. A página traz a primeira ilustração do uniforme negro do Homem-Aranha, que estreou naquela revista. A arte é de Mike Zeck, que até então trabalhara ocasionalmente com o amigão da vizinhança, mas que ao longo da carreira ilustrou muitas histórias do personagem, inclusive, a clássica A Última Caçada de Kraven.

O Homem-Aranha usou o uniforme negro por apenas 3 anos, pois depois disso, o visual foi “roubado” pelo vilão Venom, que se tornou um dos mais populares dentro da famosa galeria de inimigos de Peter Parker. Mas apesar do tempo curto, marcou bastante época e continua a ser referendado até hoje nas histórias e em outras mídias, como TV, cinema, games… relacionado ou não a Venom. No filme mais recente do herói, Sem Volta para Casa, o cabeça de teia usa uma versão preta e dourada de seu uniforme, por exemplo.

Na trama de Secret Wars, escrita pelo então editor-chefe da Marvel Jim Shooter, os heróis e vilões da Marvel são transportados a outro planeta para travarem uma batalha mortal por uma entidade poderosíssima chamada Beyonder. Na edição 08, o Homem-Aranha tem o uniforme danificado em uma batalha e usa uma máquina alienígena para gerar uma nova roupa, mas em vez de copiar o tradicional visual azul e vermelho, a despeito da vontade do herói, o resultado é uma roupa totalmente diferente: toda preta, apenas com alguns detalhes brancos, nos olhos, punhos e uma enorme aranha estilizada no peito que irradia aos lados e às costas. Era um visual bem bonito e dinâmico para época.

O novo visual foi uma ruptura radical do uniforme do Homem-Aranha que não tinha sofrido praticamente nenhuma alteração desde 1962 quando fora criado (numa época em que os heróis não mudavam de roupa a cada seis meses para vender mais revistas e bonecos). A roupa foi adiantada com estardalhaço na capa de Secret Wars 08, porém, a gravura da página 25 é a primeira vez em que o uniforme aparece em uma história e, portanto, é um evento importante.

Venom e Eddie Brock. Arte de Todd McFarlane.

As histórias seguintes revelariam que o uniforme negro – que respondia aos comandos mentais de Peter Parker e vestia-o automaticamente, imitando a aparência de qualquer roupa e gerando sua própria teia – não era uma “roupa”, mas um ser vivo alienígena, um simbionte que estava se alimentando da força vital do herói. O Homem-Aranha conseguiu se livrar dele com a ajuda do Quarteto Fantástico em duas ocasiões – em Amazing Spider-Man 259, de 1985, com texto de Tom DeFalco e arte de Ron Frenz; e em Web of Spider-Man 01, de 1986, com texto de Louise Simonson e arte de Greg LaRocquette – antes do simbionte se unir ao jornalista fracassado Eddie Brock, que odiava o escalador de paredes, e a união formar o vilão Venom, que estreou em Amazing Spider-Man 299, de 1987, por David Michellinie e Todd McFarlane.

Com Venom estrelando dois filmes de sucesso e o Homem-Aranha em alta com o sucesso estrondoso de Sem Volta para Casa, temos uma alta de mercado que justifica o valor de US$ 3,36 milhões, o maior valor já pago a uma única página de quadrinhos da história.

O recorde anterior era da página com o quadro da primeira aparição de Wolverine em The Incredible Hulk 140, de 1974, com arte de Herb Trimpe, que fora vendido por 675 mil dólares, o que indica um incremento de cinco vezes!

O exemplar leiloado por mais de 3 milhões de dólares.

O feito do Homem-Aranha é impressionante e ainda mais porque na mesma audição também foi vendido um exemplar de Action Comics 01, a revista que trouxe a primeira aparição do Superman, em julho de 1938. Tradicionalmente, esta edição é a HQ mais cara vendida em leilões desse tipo, mas seu valor foi abaixo da única página do amigão da vizinhança.

Um exemplar de Action Comics 01 em bom estado de conservação foi vendido por US$ 3,18 milhões. A edição tem uma classificação CGC FN de 6.0 numa escala que vai de zero a dez. A revista é conhecida como “o exemplar do foguete”, porque seu dono, um menino de 13 anos, colou um adesivo de um foguete em traços vermelhos ao lado do logotipo da edição, mas sem atrapalhar nem o logo em si nem nenhuma das gravuras. E apesar da intervenção, esta Action Comics 01 é a mais bem avaliada já negociada por essa casa de leilões.

A revista também tem outro feito no fato de que pertencia ao mesmo proprietário (ou pelo menos sua família) desde que foi comprada há 84 anos. A última vez que uma edição de proprietário único foi vendida foi em 2012.

O primeiro encontro com Lois Lane em Action Comics 01.

A casa de leilões informa em seu site oficial que restam apenas 75 exemplares originais de 1938 de Action Comics 01, mas somente 43 deles não foram restaurados (com fitas adesivas para corrigir rasgos, por exemplo) ao longo do tempo. E que em 20 anos de monitoramento, esse é o exemplar em melhor qualidade a entrar no mercado: as cores ainda estão vivas e as páginas ainda se conservam brancas, um feito praticamente impossível de bater, já que é comum que o papel jornal barato em que as HQs eram impressas na década de 1930, amarelem após alguns anos. Isso significa que esse exemplar foi guardado com muito zelo durante todos esses anos.

Segundo o Hollywood Reporter, o exemplar do foguete é o quarto gibi mais caro a ser negociado na história. Ele perde para uma cópia de Amazing Fantasy 15, de 1962, que traz a primeira aparição do Homem-Aranha (olha ele aí de novo!), que foi vendida em setembro de 2021 por 3,6 milhões de dólares; e outras duas cópias da mesma Action Comics 01. A mais recente tinha classificação CGC 8,5 e foi vendida por 3,25 milhões em abril de 2021; mas o exemplar mais bem avaliado conhecido, um com nota CGC 9,0, foi vendido por 3,20 milhões em 2014 (veja aqui).

A rapidíssima origem do Superman em Action Comics 01, de 1938.

Action Comics 01 é a revista mais importante da história dos quadrinhos, porque é a edição que criou o gênero de super-heróis, trazendo a primeira aparição do Superman. Até então, as HQs retratavam histórias divertidas ou de aventura, e embora já existisse um ou outro herói mascarado por aí, o Superman foi o primeiro a ostentar superpoderes. A história do homem de aço, cuja primeira aventura traz um resumo em sete quadros de sua origem, e já apresenta ele se disfarçando como Clark Kent e interessado na intrépida repórter Lois Lane, foi criada por Jerry Siegel e Joe Shuster, que cuidaram dos contos do último filho de Krypton em sua primeira década.

Action Comics era uma revista de antologia, ou seja, trazia várias histórias sem relação entre si, com o homem do amanhã dividindo a revista com outros personagens, incluindo outros heróis, como Sandman e Zatara. Esse modelo é muito popular no Brasil até hoje, também, e Action Comics manteve essa característica por muitos e muitos anos. O Superman já aparece na capa da edição 01, mas no início ele alternava a representação com outros personagens, embora seu sucesso levou a que sempre aparecesse na capa, ainda que os outros personagens e histórias permanecessem sendo publicados.

Depois de um ano de sucesso, o homem de aço ganhou uma segunda revista chamada Superman (inicialmente, trimestral, e depois de alguns anos, se tornou mensal também), mas Action Comics continuou sendo publicada mensalmente. Nos dias de hoje, a revista já ultrapassou o número mil.