Segundo o The Hollywood Reporter, faleceu Neal Adams, desenhista que revolucionou os quadrinhos com sua arte de estilo fotográfico, dinâmica e bonita, que fez dele o maior dos artistas clássicos do Batman, mas que também emprestou seus talentos a muitos personagens da DC Comics (Superman, Lanterna Verde, Arqueiro Verde) e da Marvel (Vingadores, Thor, X-Men). Ao lado do escritor Dennis ONeil, Adams foi o criador do vilão Rã’s Al Ghul e do Lanterna Verde Jon Stewart.

As informações do THR, confirmadas pela família do quadrinista, afirmam que Adams morreu vítima da sepse, um tipo de infecção generalizada.

Neal Adams nasceu em 15 de junho de 1941 na Governors Island em Nova York, filho de um militar em uma família de ascendência judia. A carreira do pai o levou a crescer mudando em vários locais pelos Estados Unidos e até na Alemanha, mas ele se formou na School of Industrial Art High School em Manhattan, em 1959, e perseguiu um trabalho como artista comercial, terminando por trabalhar com histórias em quadrinhos para o personagem The Fly de Joe Simon na Archie Comics e também na linha de humor da editora.

Seus primeiros trabalhos com reconhecimento foram para as tiras de jornal de Ben Casey (que desenhou por três anos, entre 1962 e 1966), Bat Masterson, Peter Scratch, The Heart of Juliet Jones, antes de ingressar de vez no mercado das HQs com histórias de terror e guerra na Warren Publishing, o que lhe valeu um convite para fazer o mesmo na DC Comics.

Como queria desenhar os super-heróis dos quais era fã, o talento de Adams logo o posicionou em personagens secundários, como o Rapaz Elástico e o Desafiador (Deadman), até ilustrar histórias de Lois Lane com o Superman e a capa de The Brave and the Bold 75, de 1967, com um encontro entre Batman e o Espectro. Em seguida, desenhou uma aventura conjunta do Batman com o Superman em World’s Finest 175, de 1968, o que mostrou que ele era o homem certo para ambos os personagens.

“The Brave and the Bold 85”, de 1968: início de uma das melhores fases do Batman.

Ao mesmo tempo, o artista ganhou uma enorme reputação com as histórias do Desafiador em Strange Adventures e as aventuras do Espectro em sua revista própria, ambas na linha de super-heróis com terror, o que fez seu nome na indústria dos quadrinhos. Isso valeu a Adams a posição de desenhista regular na revista The Brave and the Bold, que trazia o Batman juntamente com um convidado especial a cada edição. Trabalhando sob roteiros de Bob Haney, Adams capitalizou para que as tramas fossem mais sérias, mais realistas e sombrias, resgatando a ambiência que o homem-morcego tinha em suas primeiras aventuras, e que tinha sido abandonada desde os anos 1950 para um tom mais leve, colorido e divertido.

Essa abordagem séria e sombria era justamente o que os fãs do Batman queriam.

A bela arte de Neal Adams: um confronto com Sauron e sua origem ao mesmo tempo.

Ao mesmo tempo, Adams – que era freelancer – começou a trabalhar com a Marvel Comics, também, pois lá podia atuar como roteirista dentro do “estilo Marvel” (no qual o desenhista cria a trama geral da história e o roteirista adiciona os diálogos), o que o fez criar uma lendária temporada nos X-Men ao lado de Roy Thomas, entre 1969 e 1970, num tempo que os mutantes eram a revista menos vendida da editora. Infelizmente, as HQs sensacionais da dupla não foram o suficiente para levantar as vendas e os X-Men foram cancelados.

Mas todos na Marvel estavam impressionados com o artista e ele ilustrou também histórias dos Vingadores (incluindo a clássica A Guerra Kree-Skrull, considerada por muitos como a melhor aventura da equipe) e do Thor, no período entre 1971 e 1972.

A icônica capa de Neal Adams marca o início da nova fase.

Enquanto isso na DC, a editora decidiu revitalizar seus principais personagens, dando um caráter mais sério e adulto a Batman e Superman, o que levou ao envolvimento direto de Adams. Em Superman, Adams criou o novo semblante e design do homem aço, rompendo com o aspecto cartunesco anteriormente adotado e sua figura do herói passou a ser copiada pelos outros artistas da casa. Infelizmente, ele não desenhava as histórias, mas fazia as (belíssimas) capas.

Contudo, no Batman as coisas foram diferentes. Trabalhando ao lado de Dennis O’Neil, a partir de 1970, a dupla criou uma das melhores e mais referenciadas fases do homem-morcego em todos os tempos, tornando o cavaleiro das trevas de novo uma criatura da noite, em aventuras repletas de tom sombrio e elementos de terror, trazendo quase sempre vilões e ameaças novas.

Por isso, O’Neil e Adams criaram o vilão Rã’s Al Ghul (na revista Batman 232, de 1971) em um poderoso arco de histórias que mostrava o “cabeça do demônio” – um homem que se mantinha vivo e saudável ao longo de séculos usando os poderes restauradores do místico Poço de Lázaro – como um potencial novo maior inimigo do Batman.

Adams também criou o Morcego-Humano, um espelho distorcido do Batman, na revista comemorativa Detective Comics 400, de 1971, ao lado do roteirista Frank Robbins.

Batman, Coringa e um tubarão em “Batman 251” por O’Neil e Adams.

Mas Adams e O’Neil também revitalizaram alguns velhos vilões do cavaleiro das trevas, como o Duas Caras (em Batman 233) e o Coringa (em Batman 251), que foi reapresentado como um vilão insano, amoral e psicopata, rompendo com as abordagens galhofeiras que o palhaço do crime tivera em anos anteriores. O “novo” Coringa da dupla virou a referência fundamental para todos os artistas que vieram depois.

O’Neil e Adams também trabalharam na revista do Lanterna Verde, entre 1971 e 1972, mudando o status quo do personagem: deixando de ter aventuras no espaço sideral e fazendo uma parceria com o Arqueiro Verde numa viagem de autoconhecimento pelo interior dos Estados Unidos inspirada no filme Easy Rider – Sem Destino, na qual abordaram problemas reais que acometiam a sociedade americana naqueles tempos, como os direitos civis, o racismo e as drogas. Inclusive, definindo os dois heróis como polos opostos, com o mais conservador Lanterna contra o esquerdista Arqueiro.

Essa revista foi a primeira da DC Comics a abordar diretamente o tema das drogas, com o Arqueiro Verde descobrindo que seu “parceiro mirim”, o Ricardito (Speedy, no original) estava viciado em heroína, no que valeu uma história aclamada e premiada da dupla.

Porém, em 1973, Adams se afastou dos quadrinhos mainstream e montou seu próprio estúdio, o Continuity Associates, atuando na defesa dos direitos autorais dos artistas – campanha que levou a DC Comics a finalmente passar a creditar o Superman como “criado por Jerry Siegel e Joe Shuster” e a pagar uma espécie de pensão vitalícia aos dois.

Adams só retornou às HQs de super-heróis em ocasiões especiais, como a célebre Superman vs Muhammad Ali, que comemorava os 40 anos do homem de aço, em 1978, e é uma das grandes histórias do personagem.

Seu estilo de arte fotográfica, com personagens delgados, realistas, bonitos, com bom movimento, cenas de ação dinâmicas, inovações no enquadramento e bom gosto, Neal Adams foi um dos maiores desenhistas de super-heróis em todos os tempos, mesmo com uma carreira relativamente curta no gênero. Um grande mestre!

Ele tinha 80 anos e deixa a esposa Marilyn, filhos, netos e bisnetos.