Nenhum outro personagem de quadrinhos de super-heróis foi mais famoso e teve mais adaptações do que o Superman, e muito menos, teve a mesma importância como ícone cultural e referência da cultura pop para o mundo inteiro. E ainda que o personagem, nos dias de hoje, não seja mais tão popular como no passado, com o público preferindo personagens mais “cinzas” como o Batman ou Wolverine, o homem de aço ainda é uma referência importantíssima, como fica claro na expectativa com o lançamento de Superman, o novo filme de James Gunn que abre o novo DCU nos cinemas.

Superman surgiu nos quadrinhos, criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, dois jovens de Cleveland, Ohio, e estreou na revista Action Comics 01, com data de capa de junho de 1938. Foi um sucesso imediato e, apesar de já existirem personagens uniformizados que lutavam pela justiça, seja na literatura (Zorro), no rádio (Besouro Verde, Cavaleiro Solitário) e mesmo nos quadrinhos (O Fantasma), o Superman é considerado o primeiro super-herói, porque uniu os conceitos de uniforme colorido e identidade secreta com os superpoderes. Essa característica fez com que o homem de aço fosse um sucesso absoluto desde o “dia 1”, tanto que sua revista marca o início da chamada Era de Ouro dos Quadrinhos.

E como todo produto de sucesso, o caminho natural do último filho de Krypton era chegar às telas, como ocorreu com Zorro ainda no cinema mudo, por exemplo. O fato de ter superforça e, principalmente, de voar colocou um empecilho para o Superman ser adaptado ao cinema rapidamente, pois não existia tecnologia para fazer um ator parecer voar de modo crível nos anos 1930 e 40, mas as adaptações vieram e continuaram nos anos seguintes.
Neste Dossiê Especial do HQRock abordaremos a história do Superman no cinema e os bastidores de suas adaptações, mas em se tratando de Clark Kent, precisamos desviar um pouco da rota no início da história, porque sem conseguir fazê-lo voar, primeiramente, se usou outras mídias (como rádio) para adaptá-lo (o que já era uma adaptação com atores, se pensarmos bem), para em seguida ele chegar às telas de cinema… como desenho animado! E só depois disso, com um pouco de ousadia e cara de pau (e efeitos especiais meio sofríveis até para a época em que foram feitos) finalmente chegarem ao cinema live action.
Vamos conhecer essa história. Então, tire seus óculos, rasgue seu paletó, revele seu peitoral forte coberto com um uniforme azul e uma insígnia com um ‘S” vermelho no peito, grite “para o alto e avante” ou “isso é um trabalho para o Superman” e voe mais alto que um avião, mais rápido do que uma bala e conheça a longa, tortuosa e cheia de falhas história do homem de aço nas telonas do cinema (e algo mais).

Superman nas Ondas do Rádio
Em 1940, menos de dois anos após sua estreia nos quadrinhos, o Superman transformou a DC Comics em uma das maiores editoras dos EUA, com o herói aparecendo nas revistas Action Comics, Superman e em tiras de jornal publicadas de modo diário e semanal aos domingos, e a mídia seguinte para o qual o herói saltou foi o rádio! Naqueles tempos, novelas e séries de rádio eram muito populares. Gravados ao vivo cheios de efeitos sonoros para dar ambiência, e tendo apenas áudio, é claro, esses programas traziam muitas séries de aventuras em vários gêneros e os heróis típicos da cultura pop também estiveram em evidência por ali, inclusive, com o Besouro Verde tendo sido criado nos programas de rádio.

Patrocinado pela Kellogs, a série chamada inicialmente apenas Superman – e rebatizado de The Adventures of Superman, dois anos depois – foi criada por Robert Maxwell Joffe e tinha como principal escritor George Putnam Ludlam, auxiliado por outros nomes, como George Lowther e Jack Johnstone, trazia Jackson Beck como narrador e tinha Bud Collyer como Clark Kent/Superman e Joan Alexander como Lois Lane, além de outros nomes flutuantes no elenco. Era exibido às 17h30 (para pegar as crianças depois da saída da escola) e cada episódio tinha 15 minutos de duração, exibidos três vezes por semana. O programa estreou em fevereiro de 1940 e foi um sucesso e encerrou sua longeva carreira apenas em março de 1951, com um total de nada menos 2.088 episódios produzidos!
Criado totalmente à parte das HQs e fora das dependências da DC, o show de rádio criou alguns elementos importantes da mitologia do homem de aço, incluindo, o nome do editor do Planeta Diário Perry White, o office-boy Jimmy Olsen e até a Kryptonita. O primeiro encontro entre Superman e Batman também ocorreu no rádio, em 1945, anos antes de acontecer nos quadrinhos. O lema “É um pássaro! É um avião! É o Superman!” também apareceu no rádio.

O Desenho Animado do Fleischer Studios
Em 1941, o Superman estava em pleno apogeu de sua popularidade: as revistas Action Comics e Superman beiravam o milhão de cópias vendidas e o programa de rádio era um estrondoso sucesso. Numa época em que não existia ainda a televisão, o cinema era o passo seguinte e a Paramount Pictures procurou a DC Comics para adaptar o herói, mas como seria muito difícil reproduzir os poderes e feitos do herói em uma produção live action com a tecnologia que existia então, pensaram que a melhor forma de fazer isso seria por meio dos desenhos animados, que naquele tempo, também eram exibidos nos cinemas como curtametragens nas sessões das matinês (geralmente nas manhãs dos fins de semana) juntamente a outras produções juvenis, que incluíam os seriados com atores para o cinema. Para criar a animação foi terceirizado o Fleischer Studios, responsável pelo sucesso de Popeye e Betty Boop, que utilizava a técnica chamada rotoscope, na qual filmavam pessoas em movimento e transferiam as formas e movimentos para desenhos no papel, criando uma animação mais realística e de grande apelo visual.

Criar os poderes do Superman em uma animação também era um desafio na época, e nos quadrinhos, o personagem estava exatamente no momento de transição de sua primeira representação (na qual apenas dava grandes saltos por cima dos edifícios) para a segunda versão mais famosa (na qual era capaz de voar plenamente) e o estúdio se aproveitou disso para fazer o homem de aço voar. Foram feitos 17 curtametragens exibidos com sucesso entre setembro de 1941 e julho de 1943, que renderam uma indicação ao Oscar de Melhor Curtametragem de Animação, e trouxeram os mesmos Bud Collyer e Joan Alexander que os faziam no programa de rádio, enquanto os roteiros eram liderados por Seymour Kneitel e Isadore Sparber. O desenho marcou toda uma geração, foi a primeira oportunidade de ver o Superman em movimento e a qualidade de sua animação é tão alta que funciona ainda nos dias de hoje.

SUPERMAN (Série de Cinema)
A primeira adaptação em live action do Superman ocorreu em 1948, quando um seriado com 15 episódios para os cinemas foi produzido pela Columbia Pictures, tendo Kirk Alyn como Superman e Noel Neill como Lois Lane. Naqueles tempos em que a TV ainda não era um artigo popular, as séries tal qual conhecemos hoje eram exibidas nos cinemas em capítulos (semanais ou mensais) compondo um conjunto de 15 episódios. (O esquema de temporadas só seria criado na televisão mesmo). Esses episódios de mais ou menos 15 minutos eram exibidos nas matinês, ou seja, em sessões diurnas nos fins de semana e eram uma atração voltada essencialmente ao público infantil (embora pessoas de maior idade também assistissem) e popular, no sentido de que cumpriam um papel comercial importante, mas não tinham prestígio da “alta” Hollywood. Por isso, eram empreendimentos invariavelmente de baixo orçamento.
O baixo custo era um enorme problema para adaptar super-heróis, mas ainda assim, vários deles ganharam serials, e a Republic (o maior desses estúdios) tentou duas vezes fechar um contrato com a DC Comics para a adaptar o Superman, sendo a primeira negociação já em 1939, e como o acordo não foi feito, o estúdio aproveitou o roteiro já escrito e o adaptou como o Doutor Satan, no ano seguinte. Seguiu-se outra negociação, e como não foi frutífera, a Republic adaptou o Capitão Marvel no lugar do homem de aço, em 1941, e foi muito bem sucedido. O principal motivo que impossibilitou o acordo DC-Republic foi o fato de que a editora queria ter controle criativo sobre o roteiro. Outros estúdios procuraram a DC depois disso, mas o contrato com a Paramount para produzir os desenhos animados do Fleischer Studios garantia exclusividade sobre qualquer mídia em vídeo. Passado alguns anos, em 1947, o produtor Sam Katzman conseguiu um acordo com a DC e comprou os direitos, tentando parcerias com a Republic e a Universal Pictures, que recusaram o projeto devido aos altos custos necessários para reproduzir os poderes do Superman em uma produção com atores. No fim das contas, quem aceitou o desafio foi a Columbia Pictures, que já tinha feito o seriado do Batman, em 1943.

A relação entre Katzman e a DC não foi nada fácil, pois a empresa queria proteger o personagem e evitar as adaptações não fiéis como havia acontecido com o homem-morcego. A busca por um ator para viver o Superman foi outro motivo de longas disputas e Kirk Alyn jamais foi aceito pela DC, que não o achava heroico o suficiente para o papel, mas no fim das contas teve que aceitá-lo. Criar os feitos do Superman em um programa de baixo orçamento foi mesmo desafiador à produção e o resultado final não foi convincente como havia sido o seriado do Capitão Marvel, por exemplo, quando a equipe criou um boneco de papel maché suspenso por cabos. No caso do homem de aço, após filmarem testes de Alyn suspenso em cabos, o resultado não foi considerado digno e, em vez disso, Katzman decidiu criar sequências em desenho animado para retratar o Superman em voo. Embora o efeito até funcione em alguns momentos, ajudado pela fotografia em preto e branco da época, este elemento foi considerado o ponto mais fraco do programa.

Superman teve 15 episódios, totalizando 244 minutos de duração, dirigido por Spencer Gordon Bennett e Thomas Carr, com roteiros de George H. Plympton, Joseph F. Poland e outros, e além de mostrar uma origem detalhada do herói, com Nelson Leigh como Jor-El e Luana Walters como Lara, e (seguindo a linha do programa de rádio) Edward Cassidy como Eben Kent e Virginia Carrol como Martha Kent, trazia o ambiente do Planeta Diário (com Pierre Watkin como Perry White e Tommy Bond como Jimmy Olsen) e uma ameaça em uma vilã chamada Spider Lady, vivida por Carol Forman.

ATOM MAN VERSUS SUPERMAN (Serial de Cinema)
O Superman de Kirk Alyn foi um enorme sucesso, apesar de suas precárias cenas de voo, e ganhou uma sequência em 1950, chamada Atom Man versus Superman, também em 15 episódios, totalizando 252 minutos, e com mais ou menos a mesma equipe: dessa vez, apenas Spencer Gordon Bennett dirigiu, o roteiro prosseguiu com George H. Plympton, Joseph F. Poland e outros, e o elenco principal retornou, incrementado por Lyle Talbot (que tinha feito o Comissário Gordon no segundo serial do Batman, do ano anterior) no papel de Lex Luthor, a primeira vez que o célebre vilão foi adaptado em outra mídia.
Na trama, Metrópolis é ameaçada pelo vilão Atom-Man que ameaça destruí-la sob chantagem, e descobrimos que o criminoso é ninguém menos do que Luthor. A crítica gostou menos dessa segunda tentativa, ainda que admita que os efeitos especiais melhoraram em comparação ao anterior, mesmo mantendo sequências animadas para cenas de voo mais longas e à distância. O resultado foi suficientemente bom para a DC Comics decidir continuar com produções desse tipo.

SUPERMAN AND THE MOLE MAN
O primeiro longametragem propriamente dito do Superman, ou o seu primeiro FILME para o cinema foi Superman and the Mole Man, lançado em novembro de 1951, mais ou menos como uma sequência dos dois seriados anteriores, porém, com uma nova equipe técnica e um novo elenco. Desde o início, o plano era criar uma série de TV baseada no personagem, agora que esse aparelho doméstico começava a se tornar mais popular com o advento da nova década. Como maneira de vender a série a distribuidores interessados, a DC financiou de modo independente a produção deste filme, que teve uma duração de 58 minutos e serviu, portanto, como um tipo de piloto.
Dessa vez, era uma equipe e elenco totalmente novos: direção de Lee Scholem, roteiro de Robert Maxwell Joffe (criador do programa de rádio) e de Whitney Ellsworth (o editor executivo da DC Comics) e trazendo George Reeves como Clark Kent e Phyllis Coates como Lois Lane. A trama ignorava as origens do homem de aço (contadas na tela há pouco tempo) e ia direto à ação: Lois e Clark vão cobrir a inauguração do mais profundo poço de petróleo já cavado, em uma pequena cidade do sul dos EUA, mas a perfuração termina por atingir o lar de uma raça de pequenos homens subterrâneos que vivem nas profundezas da Terra. Em pânico com a aparição desses “duendes”, a população sai em fúria tentando matá-los e o Superman intervém para mostrar que eles são pacíficos. Dessa vez, a equipe investiu mais em efeitos especiais e criaram cenas com montagens que mostravam Reeves voando contra um fundo neutro, com efeitos de vento e nuvens passando. Até o revolucionário efeito de recortar a imagem do ator contra um fundo de voo em movimento foi usado, dando a real impressão de que o Superman estava voando pela primeira vez. Modesto, mas bem realizado, o filme foi um sucesso.

AS AVENTURAS DO SUPERMAN (série de TV)
Com o sucesso do filme nos cinemas, a DC embarcou na produção da série de TV, iniciada como uma produção indepentende comissionada às redes de televisão (ou seja, cada rede local poderia exibir o programa, em vez dele fazer parte da programação fixa de uma rede específica). O próprio editor das revistas do Superman, Mort Weisinger, foi quem desenvolveu a sinopse de 15 episódios, e os roteiros finais ficaram a cargo dos mesmos Robert Maxwell Joffe e de Whitney Ellsworth, com vários diretores para os episódios, dentre eles, Thomas Carr. Além de George Reeves e Phyllis Coates como Clark e Lois, o elenco principal recebeu o reforço de Jack Larson como Jimmy Olsen e John Hamilton como Perry White, além de Robert Shayne como o inspetor de polícia Henderson.
Com a primeira temporada já pronta, a marca de cereais Kellogg’s assumiu o patrocínio do programa e garantiu sua exibição, que ocorreu seguindo o calendário típico da TV americana, com Adventures of Superman estreando em setembro de 1952 e seguindo por 26 episódios até o season finale em abril de 1953, que por sinal, foi montado a partir da edição em dois episódios do longa Superman and the Mole Man.

O programa foi um enorme sucesso e a Kellogg’s encomendou uma segunda temporada, embora o longo intervalo entre as filmagens e o lançamento do programa tenham criado um problema para Phyllies Coates regressar, pois já tinha contrato para outras produções, então, Noel Neill, que tinha interpretado Lois Lane nos dois seriados com Kirk Alyn foi chamada de volta para reprisar o papel. A segunda temporada foi lançada em setembro de 1953, novamente com bastante sucesso, e o programa, na verdade virou um fenômeno de audiência.
Por causa disso, o orçamento da série aumentou e a terceira temporada, em 1954, foi lançada em cores, ainda que com uma contagem menor de episódios (13) e um tom mais leve (as duas primeiras temporadas eram bem mais violentas, inclusive, com mortes explícitas dos bandidos) e até alguns elementos humorísticos, especialmente no personagem de Jimmy Olsen, que emergiu como um alívio cômico e fez a fama de Jack Larson.

No fim das contas, Adventures of Superman teve 6 temporadas completas (as duas primeiras em preto e branco, as demais em cores), totalizando 104 episódios. Ela não chegou a ser realmente cancelada, o que aconteceu foi que durante a pré-produção da sétima temporada, morreram o ator John Hamilton primeiro e a grande estrela George Reeves em seguida. Foi pensado no plano de criar um spin-off focado em Jimmy Olsen (personagem extremamente popular) usando imagens de arquivo de Reeves, mas a ideia não foi adiante. Também foi idealizado um spin-off chamado Superboy e 15 episódios foram escritos, mas o piloto filmado (com Johnny Rockwell no papel principal) não foi aprovado.

A audiência abaixou um pouco no decorrer dos anos e George Reeves começou a ficar velho e acima do peso para o papel, além de expressar seu desencanto em não conseguir outros papeis em Hollywood porque não era levado à sério. Sua morte, em 16 de junho de 1959, foi classificada inicialmente como suicídio, porém, desde o início surgiram suspeitas. Investigações da época também apontaram para homicídio, embora o caso não tenha ido adiante. O escândalo foi muito bem adaptado aos cinemas no filme Hollywoodland – Os Bastidores da Fama, de 2006, na qual Ben Affleck interpreta George Reeves (e o Superman!), ficcionando a investigação do caso e apontando o envolvimento do ator com a esposa de um grande executivo de estúdio que poderia ter encomendado sua morte. É um apêndice interessante à carreira cinematográfica do Superman.
A FRANQUIA MODERNA DE FILMES
Após ser adaptado ao rádio, aos desenhos animados e se exercitar em live action com os seriados Superman, Atom Man versus Superman, o filme Superman and the Mole Man e a série de TV The Adventures of Superman, o homem de aço passou quase 20 anos longe das telonas e da experiência de ser interpretado por um ator de carne e osso. Mas quando isso aconteceu, o mundo dos super-heróis, de Hollywood e do entretenimento jamais seria o mesmo… Superman – O Filme, estrelado por Christopher Reeve (o sobrenome é apenas coincidência) encantou toda uma geração e mostrou o caminho a ser seguido nas futuras adaptações de super-heróis dos quadrinhos.
Não custa lembrar: o Superman de 1978 foi o primeiro longametragem de alto orçamento realizado com um super-herói e, depois dele, tudo mudou. Agora sim, nossa história começa de verdade… Pegue sua pipoca!

SUPERMAN – O FILME
- Superman – The Movie. 1978. Dirigido por Richard Donner, com história de Mario Puzo e roteiro de Robert Benton, David Newman e Leslie Newman (mais Tom Mankiweickz, roteiro final, não creditado). Elenco: Marlon Brando (Jor-El), Gene Hackman (Lex Luthor), Christopher Reeve (Kal-El, Clark Kent, Superman), Margot Kidder (Lois Lane), Glen Ford (Jonathan Kent), Suzanne York (Lara), Jackie Cooper (Perry White), Marc McClure (Jimmy Olsen), Valerie Perrine (Eve Teschmacher), Ned Beatty (Ottis), com participação especial de Terence Stamp (General Zod), Sarah Douglas (Ursa), Jack O’Halloran (Non).
Com o planeta Krypton à beira da destruição, o cientista Jor-El e sua esposa Lara enviam seu primeiro filho, o bêbe Kal-El em uma nave espacial para a Terra, onde é abrigado por um casal de fazendeiros, Jonathan e Martha Kent. Com o nome de Clark Kent, o jovem cresce marcado por habilidades especiais e mantendo isso sob segredo até chegar à vida adulta e treinar para se tornar um defensor da justiça usando os seus poderes e batizado de Superman pela intrépida jornalista Lois Lane, com a qual desenvolve uma aproximação, ao mesmo tempo em que vive disfarçado como um repórter. A chegada do Superman a Metrópolis causa um grande impacto e motiva o foragido criminoso Lex Luthor à ousada ação de bombardear parte do território dos Estados Unidos para ganhar uma fortuna com a venda de terras.

Em 1978, o Superman celebrou 40 anos de publicação nas histórias em quadrinhos, sendo um dos maiores fenômenos culturais do século XX desde que fora criado pela dupla de cartunistas, Jerry Siegel e Joe Shuster e publicado na revista Action Comics 01, de 1938. A editora DC Comics, proprietária do personagem, realizou uma série de ações para comemorar essa data tão importante, especialmente, com a publicação de uma série de histórias especiais. Todavia, a maior comemoração dos 40 anos do Superman foi mesmo o lançamento bombástico de Superman – O Filme pela Warner Bros. Pictures, não custa lembrar, empresa que era a dona da DC Comics.
E dessa vez, diferente daquelas velhas produções com Kirk Allen ou George Reeves, não era uma produção barata para as matinês, mas uma superprodução. Tanto que foi o primeiro blockbuster de super-heróis já lançado! Hollywood estava apenas começando a ideia do “arrasa-quarteirão” de verão – que historiadores atribuem o pioneirismo a Tubarão (1975) de Steven Spielberg – e o primeiro Star Wars (No Brasil: Guerra nas Estrelas, na época) tinha saído apenas no ano anterior ao do homem de aço.
A DC Comics já havia negociados os direitos de seus personagens para adaptações anteriormente, mas a National Comics (seu nome oficial) era uma empresa familiar até 1967, quando o sucesso da série de TV do Batman motivou a venda da editora para a Kinney National Company, um conglomerado de empresas de serviço que atuava em vários ramos. A Kinney estava em ampla expansão, investindo em entretenimento e terminou comprando também o estúdio Warner Brothers, em 1969, um dos mais tradicionais dos EUA. Com um nome sólido no mercado e uma boa marca, a Warner virou a bandeira principal do conglomerado, que adotou oficialmente o nome Warner Bros. Communications em 1972, da qual a National Comics (aka DC Comics) era uma das subsidiárias, vinculada à Warner Publications. No entanto, apesar de ser proprietária de personagens como Superman, Batman e Mulher-Maravilha, a Warner não tinha interesse em desenvolver filmes sobre eles, porque os super-heróis ainda eram considerados entretenimento de “segunda categoria”, com os típicos seriados de cinema dos anos 1940, além do fato de que a série de TV do Batman, com seu tom pastelão e brega, deixou um gosto amargo como algo ao qual ninguém queria estar associado.

A história de um filme sobre o Superman, portanto, veio por outro caminho: através do jovem produtor de cinema Ilya Salkind e seu pai Alexander. No início dos anos 1970, os Salkinds eram um sólido empreendimento cinematográfico já em sua terceira geração: o avô Mikhail Salkind nasceu no que hoje é a Polônia no seio de uma família judaica, e seu filho Alexander nasceu em 1921, mas a perseguição aos judeus e a ascensão soviética na Rússia levaram a família a imigrar para Paris, onde Mikhail começou a trabalhar como produtor cinematográfico, e Alexander se uniu ao pai mais tarde, trabalhando juntos em produções europeias por décadas, bem como passaram um tempo no México (nos anos 1940, produzindo filmes em inglês lá, onde era mais barato), mas também em Hollywood, realizando filmes como O Julgamento dirigido por Orson Welles, em 1962. O neto de Mihkail, filho de Alexander, Ilya Salkind, nasceu na Cidade do México, em 1947, e no fim da década de 1960 começou a trabalhar com o pai e o avô.
O grande sucesso comercial da família Salkind veio com Os Três Mosqueteiros (1972), dirigido pelo britânico Richard Lester, famoso por ter realizado os filmes dos Beatles (A Hard Day’s Night, de 1964, e Help!, de 1965) e alguém versado na comédia. A produção ganhou uma sequência imediata que saiu em 1974, Os Quatro Mosqueteiros, mas gerou uma confusão com o Sindicato dos Atores em Hollywood, porque os Salkinds e Lester filmaram os dois filmes ao mesmo tempo, de modo que a equipe técnica foi paga por um filme, mas atuou em dois.

Em uma entrevista posterior, o caçula Ilya Salkind disse que a ideia para um filme do Superman veio em 1973, quando viu o cartaz de um filme francês sobre o Zorro, e pensou que um super-herói com um tratamento sério poderia render um filme sensacional e ter um visual incrível. Tendo sido criança em Nova York nos anos 1950, Ilya era fã de quadrinhos, e do homem de aço em particular, que julgou a melhor escolha para um longametragem porque era, ainda naquele ponto, o mais famoso entre todos os super-heróis. O avô Mihkail morreu após o lançamento de Os Três Mosqueteiros, e Ilya precisou convencer o pai, que nunca ouvira falar no homem de aço, de que aquela poderia ser uma empreitada de sucesso, em vista da fama do personagem. Posteriormente, Alexander Salkind disse que a todos a quem perguntou uma opinião na indústria cinematográfica sobre a viabilidade de um filme sério sobre o Superman recebeu um feedback positivo, sobre como conheciam e gostavam do herói.
A negociação com para adquirir os direitos do personagem, contudo, não foi fácil. Iniciando as conversas com o Departamento de Marketing da própria DC Comics, recebeu muitas exigências, pois a editora ficara ressabiada com o que houve na série de TV do Batman e queria controle criativo total sobre a adaptação de seu produto mais valioso. Após meses e meses de conversa difícil, Alexander Salkind interviu: escaldado por sua experiência em Hollywood, decidiu fazer a negociação “de cima para baixo” e foi direto à Warner, que lhe encaminhou rapidamente à Warner Publications, subsidiária responsável pelo parque editorial do conglomerado, o que incluía a DC. Em poucos dias de conversa, Alexander conseguiu o contrato, assinado em novembro de 1974.
O contrato mostrava que a Warner não estava interessada: os Salkinds tinham permissão de adaptar o Superman durante um período de 25 anos e seriam os responsáveis por financiar a empreitada, com a Warner garantindo apenas a primazia para a distribuição dos filmes (caso tivesse interesse – com a distribuição passando a outros estúdios se assim quisessem). Pelo menos, o contrato garantia algum poder de supervisão pela DC Comics, que podia intervir na trama geral, no uso dos personagens e na escalação do elenco.

Como o plano era fazer uma superprodução ambiciosa, a DC solicitou aprovação de uma lista de candidatos a viver o Superman e os Salkinds elaboraram uma lista com Al Pacino, Clint Eastwood, Dustin Hoffman, James Caan, Steve McQueen, alguns dos atores mais aclamados da época, além do boxeador Muhammad Ali, que já tinha “lutado” com o homem de aço. A Warner indicou sua preferência: Robert Redford, e todos esses atores foram realmente sondados ao papel e todos recusaram, por não levarem (ainda) a sério a ideia de um filme de super-heróis. Para o roteiro, Ilya Salkind contratou o famoso escritor de ficção científica Alfred Bester, que escreveu um tratamento de roteiro (uma versão prévia do roteiro, com uma sinopse estendida e tópicos descritivos sobre os personagens, trama e tom da história), Foi um bom gesto, pois Bester efetivamente escreveu HQs do Superman nos anos 1940, mas Alexander queria um nome mais famoso para a empreitada.

E, em 1974, nenhum escritor era mais famoso ou aclamado do que Mario Puzo, que escrevera o livro O Poderoso Chefão (1969), que fora um grande sucesso, e também o responsável por adaptá-lo no roteiro do filme dirigido por Francis Ford Coppola (1972), que desde o início foi aclamado como um dos melhores filmes da história do cinema, bem como fez o roteiro de sua sequência, O Poderoso Chefão – Parte II (1974), no qual usa tramas do livro não aproveitadas no filme original. Alexander abordou Puzo e ele aceitou fazer o roteiro pela fortuna de 600 mil dólares. O curioso é que Puzo não era alheio ao mundo dos quadrinhos, tendo trabalhado numa revista de notícias que era parte do conglomerado da Marvel Comics, e portanto, era não apenas amigo, mas colega de trabalho de Stan Lee.

Com Puzo a bordo, ficou mais fácil vender a seriedade do filme e os Salkinds anunciaram, no início de 1975, dois grandes atores ganhadores do Oscar para compor o elenco: Marlon Brando como Jor-El, o pai biológico do herói, e Gene Hackman como o vilão Lex Luthor. Brando era o ator mais aclamado de sua geração, famoso por interpretações intensas em obras como Um Bonde Chamado Desejo (1951), Sindicato dos Ladrões (1954 pelo qual ganhou um Oscar), Júlio César (1953), e mais recentemente, o polêmico O Último Tango em Paris (1973), e o papel icônico de Don Vito Corleone em O Poderoso Chefão (1972), que lhe rendeu seu segundo Oscar. Brando aceitou um contrato de 3 milhões de dólares (sendo o ator mais bem pago da época) por apenas 12 dias de filmagens mais 11% de porcentagem da bilheteria.

Já Hackman era conhecido por interpretações enérgicas, que lhe valeram indicações ao Oscar por Bonnie and Clyde (1967) e I never sang for my father (1970), ganhando o prêmio por Operação França (1971), além de estrelar os sucessos Poisedon (1972) e A Conversação (1974). Vários outros atores famosos ganharam pequenos papeis: o herói dos tempos do faroeste Glen Ford como Jonathan Kent, o pai adotivo do herói; a britânica Suzanne York como Lara, sua mãe biológica; Jackie Cooper como o editor Perry White do Planeta Diário; e Ned Beatty como Ottis, o assistente atrapalhado de Luthor.

Embora não conseguissem ninguém para o papel do Superman em si (uma coisa era dar suporte ao herói, outra era a coragem de vestir aquela roupa), garantir Puzo, Brando e Hackman no time virou o jogo para a produção e uma série de diretores se interessou pelo projeto, um dos primeiros deles Steven Spielberg, que Ilya Salkind garante que era seu preferido para a vaga, porém, seu pai, Alexander, era mais comedido: até ali, Spielberg só tinha dirigido um único filme (Encurralado) e Tubarão só estrearia no verão daquele 1975. Alexander preferiu esperar o drama marítimo ser lançado para ver se o diretor era mesmo bom, e quando isso aconteceu, e foi um sucesso sem precedentes, Spielberg não precisou mais lutar por trabalho e preferiu se comprometer com outros projetos, como Contatos Imediatos de Terceiro Grau, que lançaria em 1977. George Lucas também declinou da oferta, pois já estava trabalhando em Star Wars.

Nomes premiados como Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão), William Friedkin (Operação França, O Exorcista), Peter Yates (Bullit), Sam Peckinpah (Meu Ódio Será tua Herança, Sob o Domínio do Medo, Pat Garret and Billy the Kid) efetivamente negociaram a direção, com Yates e Peckinpah avançando bem nas negociações, mas quem fechou o contrato foi o britânico Guy Hamilton, famoso por seus filmes da franquia de James Bond (007 Contra Goldfinger, 1965; 007 – Os Diamantes são Eternos, 1971; Com 007 Viva e Deixe Morrer, 1973; 007 Contra o Homem da Pistola de Ouro, 1975), além do drama épico War of Britain (1969).

Em julho de 1975, Mario Puzo entregou seu roteiro de Superman: um colosso de 620 páginas que não era apenas épico, mas uma saga! Puzo pesquisou sobre o personagem (com a ajuda da editoria da DC liderada, ainda, por Carmine Infantino) e levou a sério sua missão, criando um filme adulto e cheio de mitologias e associações messiânicas, com uma divisão não tradicional da trama, que trazia as origens em Krypton (não apenas a explosão do planeta, mas também a rivalidade entre Jor-El e o General Zod), Clark Kent chegando à Terra e crescendo em Smallville, vivenciando o drama de ter que esconder suas habilidades especiais, e perdendo seu pai, Jonathan Kent, para um infarto, indo ao Ártico e construindo sua Fortaleza da Solidão, conversando com o “fantasma tecnológico” de Jor-El, que lhe explica suas origens, seus poderes e o ajuda a desenvolver seu potencial, se tornando o Superman após anos de treinamento, chegando a Metrópolis para trabalhar como repórter (mas na TV Galáxia como nas HQs dos anos 1970 e não no Planeta Diário), sua paixão pela colega intrépida Lois Lane, ele combatendo a ameaça nuclear de Lex Luthor, a explosão de duas bombas atômicas, uma das quais liberta os prisioneiros kryptonianos da Zona Fantasma, o ataque de Zod e seus asseclas (um deles Jax-Ur) à Terra, o que faz um ciclo perfeito com o início do filme, justamente no momento em que o homem de aço havia decidido abdicar de seus poderes pelo amor de Lois, e precisando do sacrifício de Jor-El em sua forma fantasmagórica na Fortaleza, que entrega ao filho sua “alma” para que recupere os poderes e tenha a batalha final com Zod.
Naquele ponto, Puzo era um experiente roteirista de Hollywood, e com certeza sabia que seu roteiro era suficiente para um filme de 10 horas de duração, ou pelo menos, três filmes de três horas cada. Não se sabe exatamente por quê ele escolheu essa abordagem (talvez tenha pensado em fazer filmes épicos como O Poderoso Chefão, cujas duas partes tinham 3 horas cada ou foi instado pelos Salkinds a fazê-lo). O diretor contratado Guy Hamilton amou o texto, mas era óbvio que ele era impossível de filmar, então, em acordo com os Salkinds, Hamilton contratou a dupla Robert Benton e David Newman para adaptar o roteiro de Puzo como dois filmes, Superman I e II, já planejando a filmagem em conjunto de ambos, como os Salkinds fizeram com Os Três Mosqueteiros. Em seguida, contrataram também Leslie Newman, esposa de David, para escrever as cenas e diálogos de Lois Lane, para lhe dar um ar mais autêntico e feminino. O trio entregou o roteiro em julho de 1976, diminuindo o material para 400 páginas combinadas e carregando no tom da comédia. Com o roteiro em mãos, os Salkinds e Hamilton começaram a pré-produção na Itália, construindo cenários e gastando 2 milhões de dólares em testes de voo buscando tornar a habilidade aérea do Superman algo crível para uma produção séria e prevendo as filmagens para o final daquele ano.
Mas outro percalço atingiu a produção em seguida, quando Marlon Brando descobriu que não poderia filmar na Itália: a justiça italiana abrira um processo contra ele por obscenidade, por causa de O Último Tango em Paris (que tinha tórridas cenas de sexo), de modo que poderia ser preso se colocasse os pés no país. A melhor alternativa era transferir a produção para o Reino Unido, porém, àquela altura, Hamilton era um exilado fiscal e também não podia ficar na Inglaterra por muito tempo sem ser preso. Tendo em vista que Brando era o maior salário da produção e Hamilton ficou doente, os Salkinds resolveram dispensar o diretor, o que foi feito amigavelmente.

No final de 1976, a produção se deslocou para a Inglaterra enquanto a busca por um novo diretor começou, e terminaram escolhendo Richard Donner, de A Profecia. Donner não gostou do roteiro de Benton-Newman-Newman, que achou muito camp, ou seja, brega, cheio de humor exagerado e lembrando a tônica da infame série de TV do Batman. Por isso, contratou o roteirista Tom Mankiweickz para reescrever o texto, autor este de todos os filmes de James Bond na década de 1970, como 007 – Os Diamantes são Eternos, de 1971; Com 007 Viva e Deixa Morrer, de 1973; ou 007 – O Espião que me Amava, de 1979).
Mankiweickz não eliminou totalmente o humor, mas o deixou mais sutil, e investiu numa relação mais erótica entre o herói e Lois Lane, distribuindo um ar sério e icônico para o homem de aço, mas infelizmente, deixando o tom cômico e fanfarrão para Lex Luthor, o que poderia ser visto como um equívoco. Foi dele a versão final do roteiro que foi usada nas filmagens, contudo, as confusas regras do Sindicato dos Roteiristas de Hollywood o impediram de ganhar o crédito, porque julgaram que suas intervenções no texto foram “menores”. Daí, que o crédito se distribuiu com história para Puzo e roteiro para Benton-Newman-Newman. Revoltado com isso, Donner conseguiu que Mankiweickz recebesse o crédito de “consultor de roteiro”, pelo menos, para ter seu trabalho reconhecido.

Enquanto isso acontecia, seguiam os testes de elenco para escolher o protagonista. Embora a Warner adorasse ver um nome famoso no papel do homem de aço, como Robert Redford ou Paul Newman (que recusou os papeis de Superman, Jor-El e Luthor seguidamente), Donner optou por um nome desconhecido, para fortalecer o personagem, mas as audições com mais de 200 candidatos transcorreram por meses e meses a partir do fim de 1976 sem encontrar ninguém que realmente agradasse no duplo papel de Superman e Clark Kent. No fim, acabou escolhido o novato Christopher Reeve, que inicialmente fora recusado porque Donner e os Salkinds o consideraram magro demais para o papel (ele só tinha 75 quilos). Mas quando Reeves colocou a roupa de Superman e fez os testes (usando as cenas da varanda de Lois), todos concordaram de que ele era o homem certo para o papel., inclusive, porque criou uma linguagem corporal diferenciada para Clark e Superman. Ilya Salkind contratou o famoso fisiculturista e ator David Prowse (que logo logo ficaria mundialmente conhecido por vestir a armadura de Darth Vader em Star Wars) para fazer um intenso treinamento em Reeves para ele ganhar músculos e massa corporal (ele ganhou mais 10 quilos para o início das filmagens. E músculos).

Eles tinham tempo, porque decidiram filmar primeiro todas as cenas de Brando e de Hackman (para os dois filmes) para que ambos ficassem liberados para outras produções. Gravando primeiro as cenas de Krypton e só depois o par de cenas em que Jor-El e Kal-El contracenam davam espaço para Reeves ganhar musculatura, inclusive, porque ela não era necessária nesses momentos. Após escolherem Margot Kidder como Lois Lane, também após dezenas de testes, as filmagens iniciaram em março de 1977, mas como era o filme mais caro já produzido (55 milhões de dólares de orçamento) e dois filmes seguidos (partes I e II), as filmagens demorariam nada menos do que 19 meses!

Marlon Brando não estava nem um pouco interessado no filme e chegou a propor ao diretor Richard Donner que o substituíssem por uma mala verde (isso mesmo) e que ele fizesse apenas a narração do personagem, mas o diretor, delicadamente sugeriu que o público queria vê-lo e Brando acatou. Mas apareceu nos sets de Krypton, em março de 1977, sem ter lido o roteiro ou decorado suas falas. Ele solicitou que assistentes segurassem em cartazes os textos de suas falas para que pudesse dizê-las nas filmagens. Mesmo sob essas condições, a força interpretativa de Brando é tão grande que ele brilha em cada segundo de tela. Brando também pediu para ser filmado fazendo improvisações e ele gravou inúmeros takes palestrando temas da filosofia ou da ciência e até dizendo xingamentos típicos de marinheiros, contudo, aqueles outros terminaram sendo úteis, pois Donner os usou na cena da viagem da nave de Kal-El até a Terra (que dura algo como três anos no filme!), como se Jor-El estivesse dando aulas ao seu filho.

Apesar de sua displicência, quando trabalhava, Brando trabalhava rápido, e após compartilhar uma única cena com Christopher Reeve (na cena planejada para Superman II na qual Jor-El sacrifica sua “alma” para devolver os poderes do herói), o célebre ator terminou sua participação com duas semanas de antecedência, o que rendeu 15 dias de férias para a equipe. Mas a postura de Brando marcou Reeve negativamente, que pensou que a estrela do passado “só queria saber de dinheiro” e não se importava mais com sua própria arte, conforme disse em entrevistas.

Todavia, as cenas de Brando em Krypton revelam alguns dos momentos mais impactantes de Superman – O Filme por causa de seu design, com a estética da tecnologia baseada nos cristais, suas roupas brilhantes, a nave de Kal-El que parece uma estrela e a cela de contenção de Zod e seus asseclas, formada por círculos que giram sob um spot de luz, um visual simples, bonito e eficaz.

O maior desafio das longas filmagens foi desenvolver o voo do herói e isso atrasou bastante as gravações na busca por refinar tais técnicas e torná-las críveis. O óbvio seria usar o chroma-key, porém, não era possível por causa da roupa azul do Superman, que se fundiria ao azul da tela de fundo. Usar a tela verde também não resolvia, porque as duas cores se misturavam. No fim das contas, Donner e os Salkinds decidiram usar estratégias simples e relativamente tradicionais, mas melhor desenvolvidas. Para pousos e decolagens, suspendiam Christopher Reeve por cabos presos em gruas ou guindastes (tal qual no teatro) e apagavam os truques quadro a quadro nos negativos do filme, enquanto para as cenas de voo propriamente dito colocavam o ator sobre uma plataforma e projetavam às suas costas imagens aéreas (captadas por helicópteros) projetadas em telas de cinema, uma técnica ancestral do cinema, mas agora, beneficiada pela altíssima resolução das câmeras. E para dar movimento, além de tubos de vento para sacodir cabelos e capa, moviam a câmera em vez de Reeve, dando a impressão de que ele ia para o lado ou para cima. Outra alternativa mais barata era recortar o ator e colá-lo, quadro a quadro, em uma cena de movimento aéreo, mas o resultado não era tão bom e só podia ser usado em cortes rápidos.

A primeira cena de voo gravada – e foi feita como um teste que terminou na versão final – foi também a primeira vista no filme: aquela na qual o Superman aparece pela primeira vez em seu uniforme na Fortaleza da Solidão e decola em direção à câmera. Com experiência em voos de planadores, Reeve aproveitou a suspensão dos cabos e inclinou o corpo para a esquerda, fazendo uma curva não prevista, que deu um efeito cênico maravilhoso e mais dinâmico. Ao longo do filme, vemos o herói voar por Metrópolis, pelo deserto, segurando Lois Lane e o efeito é incrível, bastante realista e funciona (na maior parte do tempo) mesmo nos dias de hoje.
Também foram usadas plataformas sobre as quais os atores se deitavam e eram erguidas acima do cenário para simular o voo em cenas nas quais eram necessárias closes. Nesses casos, a plataforma era moldada em gesso no corpo dos atores, por isso eles deitavam sem roupa na plataforma e os uniformes (de Superman, Zod, Ursa etc.) eram colocados por cima da plataforma. Era um procedimento incômodo e foi usado especialmente na cena do trio kryptoniano na Fortaleza da Solidão que só apareceria em Superman II.

Contudo, apesar dos incríveis feitos técnicos, de uma maneira geral, as filmagens foram um pandemônio com brigas homéricas entre Donner, os Salkinds e o contabilista Pierre Spengler, que discordavam do tom da história; além de estouros no orçamento; atrasos; e enorme dificuldade em deixar os efeitos especiais críveis. As relações ficaram tão ruins que Richard Lester – que havia dirigido Os Três Mosqueteiros – foi contratado como produtor executivo para servir de intermediário entre Donner e os Salkinds para que eles não se matassem, ainda que o britânico tenha se recusado a aparecer nos créditos. Quando as filmagens entraram no ano de 1978 e fizeram a produção perder a janela de lançamento do verão daquele ano (quando se celebrariam os 40 anos do personagem), para o qual ambicionavam lançar, decidiram interromper o trabalho em Superman II para se concentrar somente no primeiro.
Isso criou um problema, porque a parte II ficaria inacabada – ainda que tenha sido feito 75% da sequência – e não havia garantias de que a parte I seria um sucesso. Por causa disso, Donner decidiu eliminar o gancho chamando para a sequência que havia no fim do primeiro filme, e dar um fim acabado ao primeiro. Por isso, Donner e Mankieweicks pegaram o fim da parte II (a sequência da volta no tempo) e colocaram como fim do primeiro filme, deixando um encerramento mais ordinário ao segundo que pensariam depois.
Originalmente, um dos mísseis nucleares de Luthor seria enviado ao espaço e terminaria destruindo a prisão da Zona Fantasma na qual estavam presos Zod, Ursa e Non (tal qual visto no início do filme) e com esses criminosos kryptonianos libertos, ficava o gancho para a sequência. O segundo míssil atingia o alvo – a Falha de San Andrés na Califórnia – e causava uma grande destruição (gravada com miniaturas mostrando a terra se abrindo em um terremoto e o rompimento de uma represa), o que obrigava ao Superman usar todos os seus vastos poderes e ainda salvar a vida de Lois.

Mas sem terminar Superman II antes do lançamento do primeiro (será que Donner estava antevendo o seu não retorno futuro?), o diretor escolheu mudar o final para dar um fim sem gancho ao filme: eliminou a referência à libertação de Zod e os outros (perdendo essa ligação com o começo do longa, cujo julgamento dos criminosos tem tanta importância) e adicionou a cena em que Lois é morta esmagada em seu carro por efeito do terremoto decorrente do míssil, adicionando um grande drama, na qual o homem de aço pode falhar e que sua amada e amigos são apenas humanos (como já havia ficado claro no caso de seu pai, Jonathan Kent). A cena de Christopher Reeve chorando desolado com Margot Kidder nos braços é de cortar o coração.
Desesperado pela morte da amada, o Superman voa aos céus e daí Donner trouxe a cena que era o fim de Superman II e colocou no fim do I: o herói fazendo a Terra girar ao contrário para retroceder o tempo e salvar Lois. A cena foi interpretada pelos críticos da época como uma manifestação do poder do amor, do que se faz por amor, “mover céus e terra” como se diz no Brasil, e até inspirou o compositor Gilberto Gil a escrever Super-Homem, a canção, belíssimo tema no qual diz:
Quem sabe / O super-homem venha nos restituir a glória / Mudando como um Deus o curso da história / Por causa da mulher
Com todos os atrasos e problemas, o filme só foi concluído no mês de outubro, às vésperas de seu lançamento em dezembro de 1978, e entrar nas comemorações dos 40 anos do personagem – e na temporada de Natal dos cinemas!

Mas deu certo: Superman – O Filme foi um estrondoso sucesso de bilheteria arrecadando US$ 300 milhões, o que era um número absurdamente alto naqueles tempos, mesmo que ainda tenha sido a segunda maior bilheteria do ano nos Estados Unidos (perdendo para Grease – Nos Tempos da Brilhantina). O longa foi um sucesso total, quebrando vários pequenos recordes (maior dia de estreia, melhor final de semana de três dias, melhor semana pré-Natal) e foi a maior bilheteria da história da Warner Bros. até então! Também foi aclamado pela crítica, que elogiou a história, o tom e os atores. O aclamado crítico Roger Ebert deu nota máxima (4 estrelas) e chamou o filme de “pure delight, uma opinião que manteve ao longo da vida, pois manteve o longa na sua lista dos “maiores filmes”.
A Academia de Artes e Ciência de Hollywood até criou um Oscar Especial de Efeitos Visuais para premiar o filme no ano seguinte – categoria que depois se tornou fixa. O filme é lembrado como exemplo de adaptação dos quadrinhos e criou uma imagem icônica do Superman na figura do ator Christopher Reeve.

SUPERMAN II – A AVENTURA CONTINUA
- Superman II. 1980. Dirigido por Richard Lester, com história de Mario Puzo e roteiro de Robert Benton, David Newman e Leslie Newman (mais Tom Mankiweickz, roteiro final, não creditado). Elenco: Gene Hackman (Lex Luthor), Christopher Reeve (Kal-El, Clark Kent, Superman), Margot Kidder (Lois Lane), Terence Stamp (General Zod), Sarah Douglas (Ursa), Jack O’Halloran (Non), Suzanne York (Lara), Jackie Cooper (Perry White) e Marc McClure (Jimmy Olsen).
Após impedir um ataque terrorista em Paris, o Superman joga a bomba nuclear para explodir no espaço, mas inadvertidamente, termina por atingir a prisão extradimensional da Zona Fantasma, na qual estão confinados três terríveis criminosos do seu planeta Krypton Natal. O General Zod e seus asseclas, Ursa e Non, chegam à Terra e desenvolvem os mesmos poderes e habilidades do Superman, iniciando um reinado de terror para dominarem o planeta, ao mesmo tempo em que, sem saber nada disso, o homem de aço desenvolve seu romance com Lois Lane e decide abdicar de seus poderes para viver com ela uma vida normal. Enquanto Lex Luthor tenta manipular os kryptonianos para ganhar alguma vantagem, Superman precisa encontrar uma maneira de reaver seus poderes e enfrentar a ameaça de três poderosos vilões com seus mesmos poderes.
Lançar Superman em dezembro de 1978, não resolveu os problemas da sequência planejada para o longa e cujo o plot deixava subtendido. Ao contrário! O longa foi um enorme sucesso e aclamado pela crítica, mas as relações entre Richard Donner e Alexander e Ilya Salkinds permaneceram tensas. Em vista do intenso trabalho até ali, todos tiraram uma longa folga e agendaram o retorno da produção para março de 1979. Contudo, Donner foi bastante vocal sobre seus problemas na produção e disse numa entrevista que não voltaria para a sequência caso Pierre Spengler permanecesse na produção, mas Spengler era amigo de infância de Ilya e, somado aos problemas com Donner, decidiram substituir o diretor.

A escolha óbvia para o cargo era Richard Lester, porém, naquele momento, ele estava filmando Cuba, com Sean Connery, e indisponível, então, foram atrás de Guy Hamilton de novo, que também estava ocupado filmando. Os produtores decidiram, portanto, esperar Lester terminar seu trabalho para assumir a sequência. Mas houve outros problemas similares…
Após o lançamento de Superman e seu sucesso, Marlon Brando processou os Salkinds, acusando-os de não lhe pagarem o que foi acordado em seu contrato: 11% do percentual da bilheteria. E ele ganhou US$ 15 milhões por isso! Esse processo diminuiu o interesse em trazer o ator de volta (tê-lo em Superman II significava pagar de novo os 11%), ainda que no futuro as partes trabalhariam juntas de novo.

E Brando não foi o único processo… O protagonista Christopher Reeve também foi processado pelos produtores, porque ao final do trabalho em Superman, ele aceitou filmar Em Algum Lugar do Passado e o cronograma de filmagens se interpôs ao que os Salkinds planejaram para a retomada da sequência, mesmo que o contrato original de Reeve já tivesse expirado pela demora do prazo (o que o deixava livre). As partes entraram em acordo e Reeve renegociou seu contrato, garantindo mais controle criativo e um salário recorde de US$ 6 milhões.

Todavia, quando foi anunciado oficialmente que Richard Lester seria o novo diretor de Superman II, uma série de problemas novos surgiram. Em primeiro lugar, tanto Marlon Brando quanto Gene Hackman se negaram a retornar para a sequência, pois seus contratos haviam expirado (tal qual o de Reeve). Isso obrigava aos produtores ou reutilizar o material já filmado ou excluí-los do filme.
Reutilizar o material trazia uma série de outros problemas: Donner filmou nada menos do que 75% do material de Superman II e o Sindicato dos Diretores de Hollywood informou aos Salkinds que, para Lester ganhar o crédito de diretor na versão final, precisaria refilmar 40% do filme. E numa produção complexa e cara como a do homem de aço, isso não era nada fácil, ainda mais, com o desejo (e a necessidade) do lançamento da parte II em 1980. Depois de terem estourado todos os prazos diversas vezes na primeira etapa da produção, Lester embarcou na empreitada descrente de que conseguiria atingir a meta dos 40% e já se preparava para não receber o crédito de direção ao final. As filmagens finalmente iniciaram em outubro de 1979 (quase um ano depois do lançamento do primeiro), ainda com alguma esperança do lançamento no fim do verão do ano seguinte, o que claro, não foi conseguido no fim das contas.

Donner havia filmado a chegada de Zod, Ursa e Non à Lua e a batalha final na Fortaleza da Solidão, mas faltavam a chegada deles à pequena cidade de Huston e a grande e épica batalha no centro de Metrópolis. A empreitada foi feita inteiramente em estúdio, no lendário Pinewood Studios, próximo de Londres, com cenários e maquetes. Uma rua inteira foi construída para ambientar o momento em que Superman e Zod se encontram no solo (e os transeuntes sendo arrastados pelo supersopro) e maquetes foram usadas para as cenas de destruição, com carros voando, incluindo o ônibus cheio de pessoas que Ursa lança contra o homem de aço, e até o icônico momento em que Non é é socado no subsolo e atravessa o asfalto rumo ao topo de um edifício.
Infelizmente, Lester optou por aliviar a tensão do momento com uma série de piadinhas físicas sobre os efeitos da destruição na população em geral, em vez de enfatizar o risco de morte que três vilões superpoderosos poderiam causar na cidade. Mas ainda assim é uma grande cena de ação.

Lester contratou um dublê e um dublador para atuarem como Lex Luthor em tomadas à distância ou de costas, e teve que reaproveitar todas as cenas realizadas por Hackman com Donner, incluindo sua fuga da prisão – quando ele finalmente aparece careca – e seu encontro com Zod no Salão Oval da Presidência, além de sua interação com o Superman e os vilões na Fortaleza da Solidão na parte final. Mas esconder a substituição de Hackman por um dublê em cenas de transição ou pequenas adições foi o menor dos problemas. Como Donner havia usado o final da Parte II (a volta no tempo) para o encerramento do primeiro longa, o diretor precisava de um novo final. E de um novo começo também, porque originalmente um dos mísseis nucleares de Luthor (lançado ao espaço pelo Superman) libertaria Zod e os kryptonianos, contudo, Lester preferiu não se ancorar neste evento para outro gancho à Parte II e encomendou a sequência de Paris, com outra bomba atômica, para cumprir o mesmo papel. A dupla de roteiristas Robert Benton e David Newman retornou para cuidar do roteiro e das mudanças, depois que Tom Mankiweickz se recusou ao trabalho, por lealdade a Donner.
Os roteiristas também escreveram uma nova versão da cena de julgamento de Zod e seus asseclas em Krypton – excluindo a participação de Jor-El – como forma de reintroduzir o trio de vilões ao público e lhes dar um contexto depois de aparecerem brevemente no início de Superman – O Filme.

Outra alteração importante de Lester, Benston e Newman foi no modo como Lois Lane descobre que Clark Kent é o Superman. Na versão original, que chegou a ser filmada por Donner, a intrépida repórter é muito mais ousada e radical e está tão convicta da identidade secreta do homem de aço que se atira da janela do edifício do Planeta Diário (!!!), mas disposto a manter seu segredo, Clark usa seus poderes discretamente para salvá-la da queda. Isso ainda não demove Lois e, em outra ocasião, simplesmente dispara um revólver contra o colega, o que o obriga a confirmar que é o Superman, para então, ela revelar que a bala é de festim.
Na nova versão, a tônica da revelação é muito mais branda. O roteiro coloca Lois e Clark disfarçados de um casal investigando os preços abusivos de hotéis da zona turística das Cataratas do Niágara e, após o Superman salvar uma criança da queda nas cachoeiras, Lois fica convicta de que Clark é o herói e se atira também na cachoeira, com Clark usando seus poderes discretamente para salvá-la. Porém, mais tarde no quarto, o herói simplesmente tropeça em um tapete felpudo (isso mesmo!!!!) e cai com a mão na lareira, e ao notar que ele não recebeu nenhum ferimento ou arranhão, fica impossível negar que é o Superman.

Outra alteração crucial de Benston e Newman foi a retomada dos poderes do Superman. No roteiro original, quando decide abdicar de seus poderes, o herói é advertido por Jor-El de que o procedimento só pode ser feito uma vez e não tem retorno, e ele o faz, mas quando Zod ataca, ele regressa à Fortaleza e tem um diálogo difícil com seu pai fantasmagórico, que decide se “sacrificar” pelo filho, numa cena que remete diretamente à pintura O Nascimento de Adão de Michelangelo. No entanto, Lester achava que já havia suficientes referências messiânicas no primeiro filme e não queria mais no segundo. E tinha o problema ainda maior de Marlon Brando: o contrato do ator permitia que suas imagens fossem utilizadas para a sequência (ele se recusou a gravar novas cenas em lealdade a Donner), porém, usá-las significava ter que pagar 11% das bilheterias ao ator, e os Salkinds demandaram a Lester que cortasse a participação do filme.

A saída encontrada por Lester, Benston e Newman foi colocar Lara – a atriz britânica Suzanna York – no lugar de Jor-El e, em vez do bonito discurso original “do filho que se torna o pai, e o pai que se torna o filho”, o substituíram pela tônica do amor maternal. Ainda assim, na versão final, Lara aparece apenas no momento em que Clark decide abdicar dos poderes e o retorno de seus poderes acontece “fora de tela”, sem o telespectador ver: apenas vemos o deprimido Clark regressando sozinho à Fortaleza. O mistério é mais ou menos resolvido apenas na batalha final, quando Luthor diz a Zod sobre o procedimento, e o Superman engana a todos invertendo o funcionamento: se protegendo em uma câmera blindada enquanto bombardeia os kryptonianos com a energia do sol vermelho de Krypton, deixando-os sem poderes.

Transformados em humanos comuns, a derrota de Zod, Ursa e Non se dá de modo fácil, com até Lois esmurrando a vilã. Porém, na versão que foi aos cinemas, não é mostrado o destino dos vilões e o modo como eles caem em um tipo de fosso na Fortaleza dá a entender que eles foram mortos pelos heróis, embora a versão (ampliada) exibida nas TVs dos EUA ao longo dos anos 1980 mostrava uma cena da polícia canadense prendendo os três. Luthor é devolvido à cadeia pelo Superman.
Sem a cena da volta no tempo, Lester achou que não seria prudente deixar Lois Lane sabendo da identidade secreta do Superman e, por isso, Benston e Newman criaram a polêmica cena do superbeijo: com Lois transtornada e ansiosa por não saber lidar com a dupla identidade de Clark no Planeta Diário, o herói dá um beijo “mágico” na amada e ela esquece de tudo! Pronto, resolvido simples assim.
As filmagens terminaram em março de 1980, e a trilha sonora não foi criada por John Williams, que não conseguiu se entender com Richard Lester, que trouxe então seu frequente colaborador Ken Thorne, que por sua vez, optou por reutilizar o material de Williams juntamente a muito pouco de material novo. Ao final, o Sindicato dos Diretores considerou que Superman II atingiu a marca de 40% de refilmagem e possibilitou a Lester ganhar os créditos. O diretor britânico garante que ofereceu a Donner a oportunidade de compartilharem o crédito de direção, mas Donner recusou.
Os Salkinds e a Warner precisavam desesperadamente recuperar o altíssimo investimento em Superman II, um filme que, via de regra, foi gravado duas vezes por dois diretores diferentes, e por isso, traçaram uma estratégia de lançamento não-usual e que seria impossível nos dias de hoje para uma superprodução: alocaram o longa nos períodos de maior bilheteria de cada país para um retorno mais certo. Por isso, a sequência estreou na Austrália, África do Sul e França em dezembro de 1980, no Reino Unido na Páscoa de 1981, e nos EUA em junho de 1981! A crítica gostou muito do filme e o público correspondeu, batendo o recorde de maior bilheteria de um único dia (5,5 milhões contra 4,5 milhões de Star Wars) e arrecadando um total de US$ 216,3 milhões, o que era muito naquela época, mesmo que um pouco abaixo do que o primeiro filme.

Com o passar do tempo, porém, a crítica pesou um pouco sobre Superman II, em particular pelo acréscimo de comédia investido por Richard Lester que atua em momentos inoportunos, como na célebre batalha em Metrópolis, no qual as grandiosas cenas de destruição e demonstração de poder dos vilões são inutilizadas pelo humor pastelão de consequências insólitas ao público da cidade.
O fato de Richard Donner ter filmado 75% de outra versão do longa gerou desde sempre uma grande curiosidade sobre como seria, e a Warner terminou por finalizá-la (sob a anuência do diretor) e lançá-la em 2006, quando todos os longas do homem de aço foram reunidos em um box-set em DVD, que incluiu o bônus Superman II – The Richard Donner’s Cut, que consegue ser melhor (e muito) do que a versão oficial, ainda que, claro, precisando usar cenas inacabadas e efeitos especiais “temporários”. (O HQRock fez um post sobre o filme, leia aqui).

SUPERMAN III
- Superman III. 1983. Dirigido por Richard Lester, com roteiro de David Newman e Leslie Newman. Elenco: Christopher Reeve (Kal-El, Clark Kent, Superman), Richard Pryor (Gus Gorman), Annette O’Toole (Lana Lang), Robert Vaughn (Ross Webster), Annie Ross (Vera Webster), Pamela Stephenson (Lorelei Ambrosia) e participações especiais de Margot Kidder (Lois Lane), Jackie Cooper (Perry White) e Marc McClure (Jimmy Olsen).
Enquanto Clark Kent retorna a sua Smallville natal e se reconecta com seu passado via ex-amor da juventude, Lana Lang, o atrapalhado gênio da informática Gus Gorman é chantageado por seu patrão, o inescrupuloso magnata Ross Webster, para construir um poderoso supercomputador capaz de criar grandes desastres, o que os coloca na mira do Superman. Todavia, ao conseguirem criar uma kryptonita sintética, o homem de aço tem sua moral corrompida e precisa lutar contra si mesmo para retomar o controle e impedir os planos de Webster.
Quando Richard Donner ainda estava filmando Superman I e II lá atrás em 1977, o diretor optou por dividir o colossal roteiro de Mario Puzo em dois filmes, mas como a lógica de Hollywood é baseada em trilogias, e Donner imaginou a realização de um terceiro filme do homem de aço contra a ameaça computacional do vilão Brainiac, aproveitando a oportunidade para trazer também a Supergirl, a prima kryptoniana de Kal-El. Esse plano foi discutido com os produtores Alexander e Ilya Salkind, mas obviamente, não foi adiante depois que Donner foi demitido e substituído por Richard Lester para a conclusão de Superman II.

No entanto, na medida em que a produção de Superman II se aproximava de sua conclusão, no início de 1980, os Salkinds já começaram os planos do terceiro filme, que foi anunciado oficialmente no Festival de Cinema de Cannes, em maio daquele ano. Os produtores decidiram trazer de volta Richard Lester para a cadeira de diretor e contrataram a mesma equipe de efeitos visuais dos primeiros longas, enquanto o próprio Ilya Salkind, um fã do personagem nos quadrinhos, se encarregou de escrever um tratamento de roteiro para o que pensou chamar de Superman vs. Superman, mantendo todas as diretrizes criadas por Donner (Brainiac, Supergirl etc.) e dando ênfase na divisão do herói em duas entidades que brigavam entre si, como mobilizador do 2º Ato e justificativa do título. Na trama de Salkind, o irmão de Jor-El, Zor-El também enviava sua filha, Kara, em um foguete, mas em vez de cair na Terra, ia parar em Colu, nas mãos de Brainiac, aqui ainda em sua versão humana dos quadrinhos (e não na versão robótica que estrearia em 1983, mesmo ano de lançamento do filme), que criaria a menina de aço, mas se apaixonaria por ela. Quando Superman e Supergirl se encontrassem, surgiria um romance entre eles (!!!) e o ciúmes motivaria Brainiac a investir contra o herói.
Ao fim e ao cabo, o pai de Ilya, Alexander Salkind, vetou a utilização do tratamento de roteiro por causa de seu altíssimo custo de execução, e os mesmos roteiristas da empreitada anterior, Robert Benton e David Newman, foram contratados para criar uma nova versão, que aproveitou apenas alguns elementos da história, especialmente, a luta entre os dois Supermen.

A produção decidiu não trazer de volta nem Gene Hackman, que se recusara a trabalhar com Richard Lester em Superman II, nem com Margot Kidder, e depois, Ilya Salkind insistiu que a decisão teria sido criativa e não pessoal ou financeira. A ideia era investir em um novo vilão e em um novo par romântico para dar mais dinâmica à história. Mas no fim, isso causa alguma estranheza, pois há semelhanças mais do que notáveis entre o magnata Ross Webster e Lex Luthor. Para o par romântico, decidiram trazer a personagem Lana Lang, a namorada de adolescência de Clark Kent, mas no fim, Kidder reprisou seu papel de Lois Lane em uma rápida participação especial, aparecendo brevemente no começo e no fim do filme, sob a desculpa de ir para o Caribe fazer uma reportagem sobre corrupção. Christopher Reeve, claro, voltou ao papel do protagonista, mas só depois de renegociar seu contrato para um aumento salarial.

Para Lana Lang, foi contratada a atriz Annette O’Toole, que vinha de uma carreira bem sucedida na TV e no cinema desde a infância nos anos 1960, com destaque em obras recentes como One to One (1977) e 48 hrs (1982). O vilão Ross Webster foi vivido por Robert Vaughn, mais conhecido por seu papel na série de TV dos anos 1960, The Man from UNCLE, e ele era acompanhado das comparsas Annie Ross (uma cantora britânica de jazz, do trio Lamberts, Hendricks & Ross) como sua irmã, Vera Webster, e Pamela Stephenson, como Lorelei Ambrosia, uma lady fatal e garota fútil que, secretamente, também é gênia em informática.

Brainiac não foi aproveitado na versão final, pois seria caro e complexo introduzir um novo alienígena na trama, enquanto dar espaço à Supergirl também envolveria muitos custos, ainda que a ideia de fazer um filme específico sobre a menina de aço brotou durante a pré-produção (e veria a luz do dia mais adiante). Como Webster era um empresário, era preciso um “gênio da informática” para mobilizar a trama envolvendo uma ameaça cibernética (herança do tema de Brainiac), e os Salkinds terminaram escolhendo o comediante Richard Pryor, que naquela época emergia como um fenômeno na TV americana e já começara a fazer alguns filmes de sucesso, o que justificou o alto salário de US$ 5 milhões. A ideia de ter um comediante casava com o estilo de Lester, muito voltado à criação de cenas cômicas bobas.

As filmagens iniciaram em junho de 1982 nos Pinewood Studios, enquanto as cenas de rua – especialmente a abertura cômica na qual Clark Kent impede a explosão de um patinho mecânico com uma bomba – foram gravadas na cidade canadense de Calgary, enquanto os campos ao redor serviram de locação para a rural Smallville. Na trama, Clark volta à cidade que cresceu para participar de uma celebração de sua velha turma do ensino médio, e isso é utilizado para explorar o aspecto emocional e humano do herói, ao mesmo tempo em que Lana surge como uma mulher madura e mãe solteira, refletindo as mudanças da sociedade. Porém, o filme peca por repetir as situações com Lois, com o Superman também aparecendo como atração à garota e se interpondo entre ela e Clark.

A grande atração do longa, no fim das contas, é a cena da luta “interna” do herói após ser infectado pela kryptonita sintética, materializada por uma batalha entre o Superman (com cara de mau e roupa escura) e Clark (o lado bom) em um ferro velho, sobre a qual Ilya Salkind reivindica a autoria, apesar de não ganhar créditos por isso. É uma boa luta e muito bem executada. Pena que o tom sério e sombrio da batalha não se mantém no restante do longa.

É uma bela cena e cumpre um papel simbólico, mas isso não salva o filme, que é dominado, na verdade, por Richard Pryor, com o homem de aço quase reduzido a um coadjuvante ou a uma “escada” para o humorista, com cenas de humor pastelão permeando o longa e enchendo o telespectador da sensação de “vergonha alheia”. Apesar de tentar soar moderno, com a ameaça cibernética – Webster e Gorman criam um supercomputador capaz de manipular o clima e ameaçar a economia global – o longa patina em criar ameaças cabíveis de serem enfrentadas pelo Superman (é preciso de novo apelar para mísseis nucleares) e sua tecnologia oitentista soa muito datada e cafona nos dias atuais. Transformar Vera Webster em uma ciborgue na luta final – ela é “absorvida” pelo supercomputador, que cria um tipo de consciência própria – não é uma ideia tal mal, e é condizente com os quadrinhos da época, mas foi mal executado e soa ridículo. A experimentação de reproduzir a ação do computador por meio de um jogo de videogame, criado especialmente para o filme pela Atari, que então era uma subsidiária da Warner Bros., também não foi mal, porém, o resultado final do longa é por demais negativo.
O resultado de tudo isso veio: lançado em junho de 1983, Superman III foi mal recebido por público e crítica e alcançou apenas US$ 80 milhões em bilheteria no mundo todo, quatro vezes menos (!!!!) do que o anterior… um fiasco completo.
Supergirl
- Supergirl. 1984. Dirigido por Jeannot Szwarc, com roteiro de David Odell. Elenco: Helen Slater (Kara Zor-El, Linda Lee, Supergirl), Faye Dunnaway (Selena), Peter O’Toole (Zaltar), Mia Farrow (Alura In-Zee), Hart Bochner (Ethan), Peter Cook (Nigel), Simon Ward (Jor-El), Maureen Teffy (Lucy Lane), Brenda Vaccaro (Bianca), Marc McClure (Jimmy Olsen).
A franquia do Superman teve um spin-off com um filme dedicado à sua prima, Kara. A ideia de um filme da menina de aço, como vimos, nasceu na pré-produção de Superman III e Alexander e Ilya Salkind seguiram em frente, pensando ser uma boa ideia. Curiosamente, apesar de conseguirem um elenco estrelar e de renome para o filme, com participações de Faye Dunnaway, Peter O’Toole e Mia Farrow, e a direção do francês Jeannot Szwarc (de Tubarão 2 e Em Algum Lugar do Passado), o resultado final é uma bagunça, trazendo a história de origem da kryptoniana misturada com uma trama de magia na Terra.
O desejo – e a ideia motriz do filme – era vinculá-lo o máximo possível com o Superman, e o roteiro previa a participação do herói, mas Christopher Reeve se recusou a participar, e o longa contorna isso explicando explicitamente que o Superman está ausente da Terra em uma missão de paz, ao mesmo tempo em que traz Jimmy Olsen (dos filmes do herói) e apresenta a irmã caçula de Lois Lane, Lucy, como colega de quarto de “Linda Lee” no filme, com o quarto das duas trazendo também um poster do homem de aço. Mas não adianta: Supergirl é um filme ruim e foi um fiasco completo, arrecadando apenas US$ 14 milhões, quando seu orçamento foi de 35 milhões, o primeiro fracasso comercial da franquia.
Mas não o último!

SUPERMAN IV – EM BUSCA DA PAZ
- Superman – The Quest for Peace. 1987. Dirigido por Sidney J. Furie, com história de Christopher Reeve e roteiro de Lawrence Konner e Mark Rosenthal. Elenco: Christopher Reeve (Kal-El, Clark Kent, Superman), Gene Hackman (Lex Luthor), Margot Kidder (Lois Lane), John Cryer (Lenny Luthor), Mark Pillow (Nuclear Man), Suzanne York (Lara), Jackie Cooper (Perry White) e Marc McClure (Jimmy Olsen).
A ascensão da corrida armamentista entre os Estados Unidos e a União Soviética, no contexto da Guerra Fria, coloca o mundo em risco e o Superman decide intervir na questão e propõe à ONU eliminar todas as armas nucleares do planeta como um gesto em busca da paz, enquanto Lex Luthor escapa da prisão e mobiliza um plano de clonar o homem de aço para criar uma ameaça que ele não pode vencer, nascendo o Nuclear Man, que tem habilidades similares ao herói, alimentadas pela energia solar e atômica. Em outra frente, Perry White, Lois Lane e Jimmy Olsen vivem o desafio de ver o Planeta Diário na eminência de ser dominado por uma empresa corporativa e um empresário sem escrúpulos.
Com a má recepção de Superman III e o fracasso de Supergirl, Alexander e Ilya Salkind começaram a pensar que a franquia do homem de aço tinha ido pro buraco… Então, durante o Festival de Cinema de Cannes de 1985, a dupla vendeu os direitos cinematográficos do herói para o The Cannon Group, uma verdadeira fábrica de cinema liderada pelos primos israelenses Menahem Golan e Yoram Globus.

Na verdade, a Cannon era uma produtora cinematográfica fundada em 1967 e que ganhava a vida produzindo filmes de pornô soft e, vez ou outra, algum longa mais sério, como Joe (1970) que foi bastante aclamado, mas a empresa teve dificuldades financeiras e foi comprada pelos primos Golan e Globus em 1979, que investiram pesado na produção de filmes de ação ou artes marciais de baixo orçamento que tinham potencial de render bilheterias lucrativas. O modelo de negócio era arriscado, mas se pagava ao investir em quantidade, mais do que qualidade. Ainda assim, a Cannon conseguiu uma fila de sucessos na década de 1980, com A Trilogia Ninja (entre 1981 e 1984), O Ninja Americano (1985), Hércules (1983) estrelado por Lou Ferrigno, a franquia de Desejo de Matar (começando com o segundo filmes da série, em 1982), com Charles Bronson, filmes de Chuck Norris (como Baddrock, 1984, Invasão USA, 1985, Força Delta, 1986), Cobra (1986) com Sylvester Stallone (que foi o maior sucesso do estúdio), O Grande Dragão Branco (1988) com Jean-Claude Van Damme, longas de aventura como As Minas do Rei Salomão (1985) e He-Man e os Mestres do Universo (1987), comédias como O Último Americano Virgem (1982) e até alguns filmes sérios, como Love Streams (1984) de John Cassavetes, Otelo (1986) de Franco Zeffirelli, Tough Guys Don’t Dance (1987) de Norman Mailer e Street Smart (1987), que foi estrelado por Christopher Reeve.

Golan e Globus estavam convictos de que o Superman se encaixava perfeitamente em seu esquema de produção e sucesso e começaram a produção de Superman IV em 1986, mas tiveram dificuldades em convencer Christopher Reeve a voltar ao papel depois da decepção que foi o terceiro longa da série. Para engajar o ator, os produtores lhe deram mais liberdade criativa (sobre a história e a escolha do diretor), uma promessa (vã) de até ele mesmo dirigir o filme, e mais importante, garantiram a produção de seu projeto pessoal Street Smart, um filme sobre um jornalista que se envolve em uma reportagem sobre prostituição e termina sendo alvo de assassinos, que seria lançado no mesmo ano de 1987 que o quarto filme do homem de aço e até receberia uma indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Morgan Freeman, em seu primeiro papel de destaque no cinema.
Talvez arriscando tudo, Reeve propôs uma história séria sobre a corrida nuclear entre os EUA e a URSS na parte final da Guerra Fria e uma mensagem sobre o desarmamento, mas os produtores aceitaram. Com Reeve na prática no papel de produtor executivo do filme, ele queria um filme sério e adulto e convidou Richard Donner para retornar à cadeira de diretor, e apesar de até se interessar pelo projeto (ainda mais porque os Salkinds não estavam mais envolvidos), ele não pôde aceitar, porque já estava comprometido com Máquina Mortífera, que seria um enorme sucesso. Reeve escolheu, então, Ron Howard, um ator (de The Musical Man, American Graffiti e da série de TV Happy Days) que se converteu em um bem-sucedido diretor, que fizera Splash – Uma Sereia em Minha Vida (1984), Coccoon (1985) e que depois faria Willow (1988), Apollo 13 (1995), Um Mente Brilhante (2001, pelo qual ganhou o Oscar), O Código Da Vince (2006, e suas sequências), Frost/Nixon (2008, pelo qual foi indicado ao Oscar), Han Solo – Uma História de Star Wars (2018) e o documentário The Beatles – Eight Days a Week (2016).
Mas como Howard não entrou em acordo com a Cannon, o estúdio escolheu Wes Craven, mais famoso hoje em dia por ter criado as franquias de horror de Freddy Kruger (A Hora do Pesadelo, de 1984) e Pânico (1996), mas que tinha dirigido outro filme da DC Comics: O Monstro do Pântano (1982). Porém, Craven e Reeve não conseguiram se entender e a cadeira de diretor terminou com o veterano canadense Sidney J. Furie, de The Ipcress File (1965), The Appaloosa (1966) e Lady Sing the Blues (1972).

Para o roteiro, trouxeram Lawrence Konner e Mark Rosenthal, dupla de escritores famosa por várias obras da época, como a aventura A Joia do Nilo e a ação dramática de A Lenda de Billie Jean (ambos lançados em 1985) e, no futuro, escreveriam longas como O Planeta dos Macacos (a versão de Tim Burton, de 2001), ou o drama O Sorriso de Monalisa (2003). Eles trabalharam próximos de Reeve, que colocou as principais ideias e diretrizes do texto, o que lhe valeu o crédito de “história”.
Empolgados com uma história madura e um orçamento decente de US$ 36 milhões, que estava mais ou menos no mesmo nível de Superman III, Reeve e a equipe foram atrás da “velha turma” e empolgados pela premissa, conseguiram a adesão de Margot Kidder e Gene Hackman para reprisarem os papeis de Lois Lane e Lex Luthor, lembrando que Hackman terminara seu trabalho com o vilão ainda em 1977 (dez anos antes) e não regressara nem para Superman II, que usava as cenas já gravadas.

Com o início da produção, em 1986, o roteiro levou o orçamento disponível criando uma história complexa, cheia de detalhes e nuances, porém, o estúdio enfrentou uma grave crise financeira causada pelo excesso de produções ativas: somente naquele ano, o estúdio movia 41 projetos ativos!!! Como resultado, às vésperas das filmagens Superman IV sofreu um severo corte orçamentário, mantendo apenas o valor de 17 milhões para a produção do filme. As filmagens iniciaram em setembro daquele ano, principalmente no Elstree Studios, em Londres, o mesmo no qual os primeiros Star Wars foram feitos, porém, àquela altura, a equipe de efeitos especiais que trabalhara nos três filmes anteriores fora dispensada, por seu alto custo, e substituída por um time israelense menos experiente e mais barato. O resultado é visível no produto final: os efeitos especiais ficaram pobres e mal realizados, ainda mais em comparação com os três filmes anteriores.
Christopher Reeve lutou com todas as suas forças para conseguir mais dinheiro para o filme e melhorá-lo, mas a Cannon não facilitou sua vida e manteve controle absoluto dos custos. Na trama, o Superman ia palestrar na sede da ONU em Nova York, e o ator brigou para que a cena fosse filmada realmente na cidade, diante do famoso prédio projetado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, porém, não conseguiu autorização, e a cena foi filmada em uma locação bem mais modesta: no prédio da administração municipal da cidade de Milton Keynes, na Inglaterra, ao sudeste de Londres.

O roteiro de Konner e Rosenthal trazia uma história até decente, porém, a estética cafona dos anos 1980 e os pobres efeitos especiais criaram um produto horrível, de má qualidade. Colocar Luthor de novo ao lado de um parceiro incompetente e engraçadinho enfraquece o apelo do vilão e o Nuclear Man é absolutamente inexpressivo, definitivamente, não ajudam o filme. O modelo Mark Pillow foi escolhido para o papel mesmo sem nenhuma experiência cinematográfica e Superman IV foi seu único filme, e sua incapacidade de interpretar é danosa à produção, ao ponto que Gene Hackman terminou dublando suas falas para lhe dar mais expressividade, mas o estrago estava feito.
A trama de Reeve, Konner e Rosenthal traz elementos muito interessantes, relacionados ao desarmamento nuclear e à Guerra Fria, servindo como uma crítica à corrida armamentista do presidente conservador Ronald Reagan da época, ilustrado (no roteiro) com cenas interessantes do Superman discutindo a paz na Assembleia das Nações Unidas e num debate com militares, adicionando camadas complexas da trama, com o subplot do Planeta Diário – comprado por uma grande corporação (tal qual ocorrera mesmo nos quadrinhos do homem de aço nos anos 1970) – e a luta de White, Lane e Olsen para manter a integridade de seu jornalismo “raiz” contra a lógica sensacionalista capitalista, até White conseguir um empréstimo no final e assumir o controle do jornal; bem como uma subtrama na qual Clark precisa reaver a posse da Fazenda Kent em Smallville por causa de dívidas.

Todavia, mantiveram alguns (maus) vícios do passado, colocando outro parceiro atrapalhado para auxiliar Lex Luthor – e dessa vez ainda mais irritante na jovialidade exagerada e boba de Lenny Luthor vivido por John Cryer (que ficaria mundialmente famoso muitos anos mais tarde como o Alan Harper de Two and a Half Man e que terminaria vivendo o vilão Lex Luthor na série Supergirl dos anos 2010) – e na absoluta falta de carisma e empolgação do Nuclear Man, que enche o filme de constrangimento ao telespectador, ainda mais com os pobres efeitos especiais nos quais está envolto e nas cenas de ação completamente desempolgantes, sem brilho, ousadia ou emoção.
As filmagens terminaram em janeiro de 1987, mas a pós-produção sofreu dos cortes de orçamento tanto quanto a produção em si, com desafios na edição e na montagem dos efeitos especiais. Para piorar, quando a Cannon testou o longa para uma audiência-teste no sul da Califórnia, a reação foi negativa, e em resposta, demandaram um corte radical das tramas e subplots do longa, o que resultou na incrível exclusão de nada menos do que 45 minutos do filme! Assim, o tempo oficial de Superman IV se reduziu a apenas 90 minutos e a trama se tornou ainda menos eficaz e mais confusa, com todo o discurso pacifista e a trama do desarmamento reduzida a somente algumas cenas rápidas e sem sentido.

Quando assistiu ao corte final, Christopher Reeve ficou furioso, achando que sua ideia e seu trabalho foram completamente deturpados, e para sempre guardou a mágoa de que, de uma boa ideia, Superman IV se transformou em um filme horrível e numa mácula à sua carreira. E à franquia.
Lançado em julho de 1987, Superman IV arrecadou apenas US$ 36 milhões em sua bilheteria global, menos da metade da arrecadação do anterior. Ainda que possa ser considerado um fracasso (ainda mais em termos artísticos) em comparação ao restante da franquia, considerando seu orçamento, o longa ainda arrecadou mais do dobro do que custou, o que não foi mau para a Cannon e seus filmes baratos.
Contudo, o filme foi massacrado pela crítica e é considerado não somente o ponto mais baixo da franquia do homem de aço, mas um dos piores filmes de super-heróis já feito. Embora possa se considerar que um corte completo com os 45 minutos retirados da versão final (e que estão, em sua maioria, disponíveis no YouTube) poderia ter rendido um filme melhor e mais sério; Superman IV – A Busca pela Paz representou o fim da franquia do homem de aço, que demoraria 20 anos para regressar aos cinemas.
Uma Escapada para a TV…
Enquanto o Superman esperaria 20 anos para regressar às telas de cinema, ele ganhou vida em live action na TV em um trilogia de produções distintas que, apesar de não serem filmes, e portanto, não serem o foco deste post, iremos falar (muito) brevemente.
Superboy
Alexander e Ilya Salkind venderam os direitos de adaptação cinematográfica do Superman para o The Cannon Group em 1985, porém, ainda retinham os direitos de outros personagens relacionados ao universo do homem de aço nos quadrinhos, como a Supergirl ou o Superboy, sua versão juvenil. Portanto, a dupla aproveitou “o fim” do último filho de Krypton nos cinemas para usar esse direito e adaptar o menino de aço à TV.
Assim, Superboy estreou como uma série de TV comissionada – ou seja, produzida de modo independente e comprada por emissoras para exibição – no outono de 1988, pouco mais de um ano após o lançamento de Superman IV. No fim das contas, a produção do menino de aço encontrou seu público e se manteve viva por nada menos do que 4 temporadas e quase 100 episódios.
A série foi estrelada por John Haymes Newton, no papel de Clark Kent/ Superboy, retratada como um estudante da Universidade Shuster (batizada em homenagem ao desenhista cocriador do personagem), enamorado de Lana Lang (Stacy Haiduk) e tendo Lex Luthor (Scott James Wells) como um dos colegas de sala, que vai, nas histórias gradativamente se tornando mais maligno. Foram produzidos 13 episódios, inicialmente, para a 1ª temporada, e a boa resposta da audiência permitiu a produção de outros 13 para fechar a temporada. Na 2ª temporada, contudo, a série sofreu uma grande mudança, com o protagonista Newton sendo substituído por Gerard Christopher e Luthor também trocado por Sherman Howard, ao passo que a produção passou a contar com o famoso escritor do Superman nos quadrinhos, Cary Bates, como Consultor Executivo das Histórias, o que aumentou sua qualidade.
A série chegou ao fim na 4ª temporada, em abril de 1992, por uma decisão da Warner Bros., que cancelou os direitos dos Salkinds, pois a companhia tinha motivos artísticos e comerciais para isso: primeiro, porque a reformulação editorial da DC Comics estabelecida com a história de Crise nas Infinitas Terras estabeleceu uma nova origem para o Superman e modificou radicalmente sua cronologia, estabelecendo, por exemplo, que Clark Kent nunca se tornou o Superboy (apenas o Superman) e que a Supergirl nunca existiu; e em segundo lugar, o estúdio queria investir em uma série “mais séria” do homem de aço. Os Salkinds processaram a Warner por isso, mas o estúdio saiu vencedor ao término do processo, em 2005.
Lois & Clark – As Novas Aventuras do Superman
A série que a Warner queria investir era Lois & Clark – As Novas Aventuras do Superman, um programa bastante diferente do que foi feito antes, com um programa de pegada mais feminina, na qual a intrépida repórter é a personagem principal de fato e pautada quase como uma comédia romântica entre os dois protagonistas, mas sem esquecer a ação, que estreou em setembro de 1992.

Lois & Clark foi um enorme sucesso! Exibida pela ABC, tinha Teri Hatcher como Lois Lane, Dean Cain como Superman e John Shea como Lex Luthor, chegou a ter uma audiência de 14 milhões de pessoas por episódio em seu auge e durou 4 temporadas, cada qual com 22 episódios, se encerrando em junho de 1997. Baseada na briga de “gato e rato” entre Clark e Lois, enquanto ela é apaixonada pelo Superman, a série perdeu força na sua 4ª temporada, e a decisão de unir o casal e o fato deles casarem (antes do que nos quadrinhos!!!) não animou a audiência, com a ABC optando pelo cancelamento, embora devesse à Warner Bros. uma quinta temporada.
Smallville
O HQRock tem um Dossiê Especial completo sobre Smallville (não viu? Pois clique aqui!). Pouco tempo após o fim de Lois & Clark, no ano 2000, a dupla de produtores Alfred Gough e Miles Millar apresentaram à Warner Bros. o projeto de uma série de origem sobre o Batman, mas como um filme sobre a origem do homem-morcego já estava efetivamente em produção (Batman Begins de Christopher Nolan chegaria aos cinemas em 2005), a Warner propôs fazerem o mesmo com o Superman, cuja franquia cinematográfica percorria caminhos muito mais tortuosos (falaremos sobre isso abaixo) e, portanto, havia espaço para o homem de aço na TV.

Gough e Millar criaram Smallville, nomeada a partir da cidade-natal de Clark Kent (Tom Welling) e mostrando sua adolescência e juventude antes de se tornar o Superman, enquanto ainda está na escola e se enamora de Lana Lang (Kristin Kreuk) e faz amizade com o jovem Lex Luthor (Michael Rosembaum). Beneficiada de uma abordagem mais realística, do esforço em estar conectada ao mundo (e ao público) moderno, de poder usar efeitos especiais digitais muito melhores do que no passado, um elenco carismático e bons personagens, Smallville foi um grande sucesso, com o Episódio Piloto conseguindo uma audiência de 8 milhões de pessoas e atingindo seu pico de popularidade na 2ª Temporada com uma média de 6 milhões de telespectadores por episódio.

Tudo isso permitiu que Smallville durasse nada menos do que 10 temporadas e 218 episódios, sendo a mais longa série de ficção científica da TV americana em todos os tempos. A longa duração permitiu que o programa iniciasse com uma pegada mais “pé no chão”, com Clark descobrindo paulatinamente seus poderes e enfrentando ameaças não tão poderosas de kryptonite creeps (afetados por meteoros de kryptonita que dá os mais diversos superpoderes) até ir gradualmente apresentando todo o universo ficcional do Superman nos quadrinhos, com a maior parte de sua galeria de vilões (em versões juvenis e/ou iniciantes de Luthor, Zod, Brainiac, Bizarro, Metallo e muito mais) e outros heróis da DC Comics que começaram a ser apresentados a partir da 4ª temporada, com Flash, Aquaman, Arqueiro Verde e Ciborgue formando uma versão prévia da Liga da Justiça e vindo muitos outros, como sua prima Supergirl, Caçador de Marte, Zatanna, Legião dos Super-Heróis, Gladiador Dourado, Besouro Azul e até a Sociedade da Justiça (incluindo Gavião Negro, Senhor Destino e Stargirl).
Smallville teve a rara oportunidade de encerrar sua história antes de ser cancelada e terminou com um series finale que foi um episódio duplo no qual Clark Kent (quase) casa com Lois Lane, enquanto enfrenta a ameaça de Darkseid e veste pela primeira vez seu clássico uniforme azul e vermelho. Smallville foi a primeira vez que o Universo DC foi adaptado de verdade em live action e não foi coincidência que, logo após o fim da série, a Warner tenha investido em outros programas como Arrow, The Flash, Supergirl que formaram um universo integrado chamado de Arrowverse.
Filmes Não Realizados
Após o fiasco de Superman VI – Em Busca da Paz, demorou quase 20 anos para o último filho de Krypton retornar às telas do cinema, mas no meio do caminho, inúmero projetos foram desenvolvidos sem que se chegasse a uma conclusão. Alguns foram apenas ideias, outros chegaram a níveis distintos de produção, nenhum viu a luz do dia. Vamos conhecê-los…

Superman V
Quando Em Busca da Paz chegou aos cinemas, em 1987, a Cannon já estava em uma grave crise econômica da qual nunca se recuperou, levando ao encerramento da companhia em 1988, que foi absorvida pela Pathé Films. O fechamento da empresa fez com que os direitos cinematográficos do homem de aço retornassem para Alexander e Ilya Salkind, que decidiram dar prosseguimento com a franquia e o próprio Ilya escreveu um tratamento de roteiro para Superman V na qual o herói seria morto em batalha e seria ressuscitado dentro da Cidade Engarrafada de Kandor, um pedaço de Krypton que foi sequestrado pelo vilão Brainiac. Curiosamente, a ideia do Superman morrer e voltar se tornou a tônica principal dos filmes não realizados do homem do amanhã, mas neste caso, a ideia precedia a famosa história A Morte do Superman, que começaria a ser publicada em 1992.
O projeto dos Salkinds, todavia, não deu nenhum passo significativo adiante além da ideia e enfrentou a resistência da Warner Bros., ressabiada pela experiência anterior.
Superman Reborn
O homem de aço viveu maus momentos nas telas nos anos 1980, mas ao contrário, passou muito bem nos quadrinhos… Após começar a década em uma grande baixa de vendas, o megaevento Crise nas Infinitas Terras (por Marv Wolfman e George Perez) levantou a moral da DC Comics, que reiniciou sua cronologia, e o Superman foi reinventado em muitos de seus aspectos por John Byrne, que criou uma versão mais moderna de sua origem e de seu universo particular entre 1986 e 1988 com enorme sucesso. Ao virar para a década de 1990, o último filho de Krypton ganhou o reforço do sucesso da série de TV Lois & Clark – As Novas Aventuras do Superman, e a popularidade cresceu mais ainda nas HQs com a épica história A Morte do Superman, publicada em várias etapas entre 1992 e 1994, por autores como Dan Jurgens, Roger Stern, Louise Simonson, Jackson Guice e Tom Grummett.

Esse sucesso mobilizou a Warner Bros. a retomar os direitos cinematográficos do Superman das mãos dos Salkinds, em 1993. Vale lembrar que, àquela altura, a Warner descobrira (após ser proprietária da DC Comics por mais de 20 anos!) que os super-heróis podiam ser lucrativos no cinema, quando Batman – O Filme (1989), dirigido por Tim Burton, fez um imenso sucesso e virou um fenômeno cultural que rendeu várias sequências, começando com Batman – O Retorno (1992). Usando os labirintos legais e a confusão jurídica do fim da Cannon e do retorno à dupla de produtores, o estúdio garantiu de volta facilmente os direitos e começou a produzir (pela primeira vez por conta própria) um novo filme do homem de aço. A Warner colocou o projeto nas mãos do produtor Jon Peters, um veterano da casa, que produzira sucessos como Nasce uma Estrela (1976), As Bruxas de Eastwick (1987), Tango & Cast (1989) e o próprio Batman (1989), além de ter sido produtor executivo de filmes como Um Lobisomem Americano em Londres (1981), Flashdance (1983), A Lenda de Billie Jean (1985), A Cor Púrpura (1985) e Rain Man (1988).

Apesar da experiência com o homem-morcego, Peters não conhecia e nem se importava com o material dos quadrinhos e contratou Jonathan Lemkin (mais conhecido por seu trabalho na TV, com a série Barrados no Baile/ Beverly Hills 90210, a partir de 1990, e no futuro faria filmes como Máquina Mortífera 4, Planeta Vermelho e Advogado do Diabo) para escrever um roteiro baseado justamente na HQ A Morte do Superman, e o material entregue em março de 1995 trazia uma história na qual Clark Kent e Lois Lane estão juntos e com problemas em seu relacionamento, quando o homem de aço tomba em batalha contra Doomsday (Apocalipse, no Brasil), mas ressuscita para o revide. Os executivos da Warner não gostaram do texto, em parte porque ele fazia o herói se questionar de seu papel de defensor da humanidade e o tema já estava em Batman Eternamente que estava para ser lançado, mas especialmente, por uma série de bizarrices, como o Superman morrer, sua alma incorporar Lois e fazê-la gerar um filho, que crescia rapidamente como o herói ressuscitado.

Um novo roteiro foi escrito por Gregory Poirer, então, um jovem escritor, que entregou o material em dezembro de 1995 estabelecendo as matrizes do que seria desenvolvido a partir dali: Lois e Clark continuavam com problemas na relação, o herói combatia ameaças como Parasita e Banshee Prateada, Brainiac criava Doomsday, que matava o Superman, cujo corpo era sequestrado e ressuscitado por um alien aliado chamado Cadmus (referência ao Laboratório Cadmus dos quadrinhos), Clark voltava sem poderes e usava um traje robótico para lidar com os vilões até recuperar seus poderes e derrotá-los, terminando o filme com um uniforme preto (tal qual usou nas HQs em O Retorno do Superman).
O estúdio até gostou do texto, mas o projeto desenvolveu um caminho diferente quando o diretor e roteirista Kevin Smith foi convidado para reescrever o roteiro.
Superman Lives
Os executivos da Warner Bros. gostaram do roteiro de Gregory Poirer, porém, sabiam que não estava em acordo com o material original dos quadrinhos e decidiram dar um novo tratamento à história pelas mãos de um especialista e, em 1996, Kevin Smith era o nerd mais famoso dos Estados Unidos, por atuar como diretor e roteirista de filmes de temática geek, como O Balconista/ Clerks (1994) e Barrados no Shopping/ Mallrats (1995), que apesar de serem produções independentes chamaram a atenção do público e da crítica (e em breve, ele faria dois filmes de grande repercussão: Procura-se Amy [1997] e Dogma [1999]).

Smith rebatizou o filme de Superman Lives, um título bem melhor, e embora tenha mantido (por demanda) os elementos principais da história até ali (problemas conjugais, Brainiac, Doomsday, morte e ressurreição), criou um roteiro muito mais próximo do espírito dos quadrinhos, inclusive, mantendo elementos típicos das HQs do Superman da época, em especial da saga A Morte/ O Retorno do Superman. Na trama, Brainiac ataca o planeta e se alia a Lex Luthor, ambos criam Doomsday para matar o Superman e eliminam os poderes do herói ao barrar a iluminação do Sol à Terra. O herói é morto, mas é ressuscitado por um robô kryptoniano chamado Erradicador, ao qual Brainiac quer se apossar, e o homem de aço sem poderes usa o Erradicador para montar um tipo de armadura enquanto recupera seus poderes, com o qual derrota os vilões.

A Warner ficou muito satisfeita com o roteiro, mas o produtor Jon Peters fez uma série de demandas bizarras em seguida: Peters não queria que o Superman voasse e que enfrentasse uma aranha robô gigante no terceiro ato, e após assistir ao relançamento dos filmes de Star Wars em 1997, quis criar uma nova versão de Chewbacca como um “cão espacial humanoide e falante, gay e com atitude” para ser um ajudante de Brainiac com a explícita função de vender mais brinquedos. Apesar de não concordar com as intervenções, Smith se via como um “funcionário” de Peters e atendeu às demandas do produtor.
A busca por um diretor sondou alguns nomes, inclusive Robert Rodriguez, mas Smith e Peters terminaram indicando o mesmo Tim Burton que dirigira os dois primeiros filmes do Batman e continuava a ser um nome de peso em Hollywood. Burton assinou um contrato de que faria o filme caso entrasse em acordo com os produtores e executivos (pois já tivera um relacionamento conturbado com Peters em Batman) e embarcou no projeto no início de 1997, o que levou a Warner a agendar o lançamento de Superman Lives para o verão de 1998 há tempo de celebrar os 60 anos do personagem.

A chegada de Burton acelerou o processo, mas montar um elenco que satisfizesse o diretor levou algum tempo… Smith sugeriu Ben Affleck (um grande fã de quadrinhos, que faria o Demolidor para a Marvel, interpretaria o ator George Reeves que viveu o Superman nos anos 1950 em Hollywoodland, de 2006, e seria o Batman do DCU a partir de 2016 – chegaremos lá), mas Burton preferiu Nicholas Cage, que era um astro de maior envergadura e também fã de quadrinhos (ele seria no futuro o proprietário de um exemplar original de Action Comics 01, de 1938), enquanto Kevin Spacey e Christopher Walken negociaram para os papeis de Lex Luthor e Brainiac, respectivamente.
No meio do ano de 1997 a produção avançou, mas Burton, assim como Peters, não era fã dos quadrinhos e nem se importava muito com eles, e começou a descartar as ideias do roteiro de Kevin Smith, contratando Wesley Strick (de Aracnofobia, 1990; Cabo do Medo, 1991), que fizera um trabalho não-creditado em Batman – O Retorno. Strick leu A Morte e o Retorno do Superman para entender os elementos do roteiro de Smith e eliminou a figura do Erradicador, mudando o tom do texto, fazendo do homem de aço uma figura mais existencial e filosofando sobre a vida, dando ênfase no sentimento de estranheza que o herói sentia, sendo um alienígena vivendo na Terra. Luthor e Brainiac foram mantidos, mas eles se fundiam em uma só entidade no fim, Lexiac.

Contudo, houve uma série de problemas… Burton mudava de ideia o tempo todo e não estava certo de como o Superman seria retratado. Nicholas Cage chegou a fazer um teste de figurino com o uniforme tradicional do herói, mas o diretor passou a querer o uso do uniforme preto dos quadrinhos e também queria se livrar de todos os elementos dos quadrinhos, desde a identidade de Clark Kent até o fato do Superman voar, preferindo que ele usasse uma roupa preta e andasse em um carro preto possante. Como o Batman! O estúdio até agendou o início das filmagens para o começo de 1998, mas ficou realmente preocupado com o altíssimo orçamento do roteiro de Strick, e contratou Dan Gilroy (de Freejack, 1992, e que no futuro seria roteirista de O Legado Bourne, 2012, e ganharia o Oscar pelo texto de O Abutre/ Nightcrawler, 2014) para reescrever o texto e diminuir seu orçamento.
Ainda assim, a versão de Gilroy, entregue em abril de 1998, ainda tinha orçamento de 100 milhões de dólares e a Warner estava preocupada com a indecisão de Burton e as bizarrices de Peters, além de que já haviam gasto 30 milhões na pré-produção e os cenários sequer tinham sido construídos. Burton, então, se desligou do projeto e foi fazer A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999), enquanto Nicholas Cage lutou para que o projeto continuasse em produção. O estúdio pôs tudo em pausa sob a condição de encontrarem um novo diretor antes de seguir adiante – isso impedia Peters de adicionar mais elementos estranhos ao texto de Strick/Gilroy – e Michael Bay, Martin Campbell (de 007 – Goldeneye, 1995) e Brett Ratner foram convidados, mas nenhum aceitou.
Admitindo que o roteiro era esquisito demais para que diretores de renome se interessassem por ele, Cage conseguiu convencer a Warner a uma nova rodada de escrita e, em junho de 1999, William Wisher Jr. (de O Exterminador do Futuro, 1984, e sua sequência, 1992) foi contratado para produzir um novo roteiro, mas Cage não ficou satisfeito e deixou o projeto em agosto de 2000. Jon Peters ainda insistiu, tentando trazer Oliver Stone para dirigir e Will Smith para estrelar, mas nenhum dos dois aceitou e Superman Lives conheceu seu fim. Entre Reborn e Lives, foram seis anos infrutíferos de pré-produção.
Superman vs. Batman
Quase 15 anos antes de um filme com um título similar chegar aos cinemas, um projeto semelhante também teve algum desenvolvimento. Vale lembrar que, enquanto ocorria a odisseia de Reborn/Lives a franquia cinematográfica do Batman, que começou como um estouro, descarrilhou completamente, entregando dois filmes problemáticos, com Batman Eternamente (1995) e Batman e Robin (1997), ambos dirigidos por Joel Schumacher, e o último considerado tão ruim que enterrou a cinessérie do homem-morcego.

O estúdio convidou vários roteiristas e diretores a apresentarem propostas para seguir adiante com o cavaleiro das trevas (saiba mais no Dossiê Especial do HQRock com os filmes não-realizados do Batman) e, em 2001, Andrew Kevin Walker, então, famoso pelo roteiro de X-Men – O Filme (2000), apresentou uma proposta de um filme chamado Superman vs. Batman e o diretor Wolfgang Petersen (de A História Sem Fim, 1984; Inimigo Meu, 1985; Na Linha de Fogo, 1993; Air Force One, 1997; Troia, 2004; e Mar em Fúria, 2006) se interessou em dirigir. O estúdio considerou o roteiro de Walker muito sombrio e solicitou a Akiva Goldsman uma nova versão.
A história de Goldsman, entregue em 2002, trazia Bruce Wayne aposentado de sua carreira contra o crime e tentando viver uma vida normal, enquanto Clark Kent estava triste, se separando de Lois Lane, e ambos são manipulados por Lex Luthor para entrarem em rota de colisão e brigarem, até que percebem o que está acontecendo e se voltam contra o vilão, que usa sua clássica armadura dos quadrinhos. O filme estabelecia um novo universo independente dos filmes anteriores de ambos os personagens, e o estúdio se animou o suficiente para negociar com Josh Harnett para viver o Superman e Johnny Depp para o Batman, ainda que Christian Bale também tenha testado para este último.
Batman vs. Superman não seguiu adiante porque a Warner tinha um bom material de roteiros em mãos para filmes individuais dos dois personagens – um deles seria Batman Begins de Christopher Nolan, com Christian Bale no papel principal, lançado em 2005 – e preferiu a rota segura de desenvolver esses filmes individuais em vez de arriscar um filme com seus dois personagens mais famosos e arruinar duas lucrativas franquias de uma vez só.
Superman – The Man of Steel
Sim, mais de 10 anos antes de ter um filme com título similar, outro projeto foi desenvolvido sob essa alcunha e chegou a ir bem longe. Com o cancelamento de Superman Lives, a Warner convidou escritores e diretores para apresentarem projetos para um novo filme do homem de aço e um deles foi feito pelo roteirista Paul Attanasio (de Quiz Show, 1994; Donnie Brasco, 1997; A Soma de Todos os Medos, 2002), embora não tenha ido adiante.

Outro que fez isso foi J.J. Abrams, ainda apenas um roteirista, antes de ficar famoso como diretor das novas versões de Star Trek e Star Wars na década seguinte. O estúdio gostou muito da proposta dele e o contratou para escrever um roteiro completo em fevereiro de 2002, e ele entregou o texto em julho, inicialmente sob o título de Superman – Flyby, proposto como o primeiro de uma trilogia, reapresentando o herói desde o início. A Warner gostou do material, mas no primeiro momento, preferiu seguir em frente com Superman vs. Batman.

Por pouco tempo… com aquele filme abandonado, sob o novo título de Superman – The Man of Steel, o projeto de Abrams foi retomado e ganhou um diretor na figura de Brett Ratner (de A Hora do Rush e Dragão Vermelho). A história mostrava a origem do herói, com quatro vilões kryptonianos chegando à Terra e Clark Kent assumindo a identidade de Superman para combatê-los, Lois Lane como seu interesse romântico e Lex Luthor como um agente governamental. Josh Hartnett foi novamente sondado para o papel e chegou perto de ficar com ele, embora outros nomes como Brendan Fraser (de A Múmia), Jude Law (de Closer) e Paul Walker (de Velozes e Furiosos) tenham feito testes e também tenham ido bem longe, assim como David Boreanaz (de Buffy – A Caça Vampiros, Angel e Bones), Ashton Kutcher (That ’70s Show), James Marsden (o Ciclope de X-Men) e Matt Bomer, que virou o preferido de Ratner, que negociou com Anthony Hopkins para Jor-El, Ralph Fiennes para Luthor e Christopher Walken para Perry White, mas a dificuldade em conseguir a adesão dos atores fez o diretor desistir do projeto, em março de 2003.
Para seu lugar foi contratado McG (de As Panteras) que deu prosseguimento à produção, fazendo testes com Henry Cavill e Jared Padaleck (de Supernatural) para o Superman, Scarlett Johansson e Amy Adams para Lois Lane e negociando com Johnny Depp, agora para o papel de Luthor, embora Robert Downey Jr. tenha sido o escolhido. Cavill e Adams realmente fariam o par Clark e Lois no futuro, em outro projeto. Josh Schwartz reescreveu o roteiro, mas as disputas com Jon Peters (e suas demandas!) e o interesse da Warner em economizar 25 milhões e filmar na Austrália em vez de Nova York levaram o diretor a se demitir.
Embora J.J. Abrams tenha feito campanha para dirigir o roteiro que escrevera, a Warner preferiu um diretor experimentado e contratou Bryan Singer, que chegou e deu início a um projeto totalmente novo.
De volta aos cinemas… mas de modo tortuoso
Após décadas de projetos inacabados, finalmente o Superman alçou voo novamente rumo aos cinemas, mas num caminho cheio de pedregulhos.

SUPERMAN – O RETORNO
- Superman Returns. 2006. Dirigido por Bryan Singer, com história de Bryan Singer, Michael Dougherty e Dan Harris e roteiro de Michael Dougherty e Dan Harris. Elenco: Brandon Routh (Clark Kent/ Superman), Kate Bosworth (Lois Lane), Kevin Spacey (Lex Luthor), James Marsden (Richard White), Frank Langella (Perry White), Parker Posey (Kitty Kowalski), Eva Marie Saint (Martha Kent), Kal Penn (Stamford), Sam Hunthington (Jimmy Olsen), Tristan Lake Leabu (Jason White), com participações especiais de Noel Neill (Gertrude Vanderworth), Jack Larson (Bo) e Marlon Brando (Jor-El).
Após passar cinco anos longe da Terra numa viagem exploratória ao que sobrou de seu planeta natal Krypton, o Superman regressa para um mundo que aprendeu a viver sem ele. E a ausência deixou algumas consequências pessoais: Lois Lane se casou com o sobrinho de Perry White e tem um filho; e Lex Luthor foi libertado da prisão. O vilão tem pressa em seu plano de vingança e, após se apossar de uma fortuna, trama um plano de usar a tecnologia kryptoniana da Fortaleza da Solidão para criar um novo continente recheado de kryptonita.
Quando McG se demitiu de Superman – The Man of Steel, em junho de 2004, a Warner resolveu tomar uma atitude assertiva: fazia quase 20 anos que o último filho de Krypton estava fora das telonas e metade desse tempo foi gasto com uma série de projetos infrutíferos ao custo de mais de 30 milhões de dólares. Era preciso por um fim nisso de modo definitivo e de modo acertado, sem margens para erros. Ainda mais quando, naquele exato momento, Christopher Nolan estava filmando Batman Begins (que seria lançado dali há um ano) e sabiam que seria uma obra sensacional. O homem de aço não podia ir atrás.

Talvez como uma tentativa de botar o problemático produtor Jon Peters de lado, o estúdio decidiu mirar no que era certo e convidou Bryan Singer para apresentar um projeto (um pitch na linguagem de Hollywood) sobre um filme do Superman. Singer era um diretor jovem e vinha de uma carreira vitoriosa, na qual seu segundo filme, Os Suspeitos (1995), tinha sido um fenômeno de crítica e bem recebido pelo público, antes de (algo que só foi percebido retroativamente) reinventar o gênero de super-heróis com X-Men – O Filme (2000), que deu início a uma nova era de produções adaptando as HQs. Embora não fosse um fã de quadrinhos, Singer criou um filme sombrio, que se levava a sério, com desenvolvimento de personagens e, especialmente, atores carismáticos e excelentes, capazes de grandes interpretações.
X-Men (produzido pela 20th Century Fox) foi um sucesso e inaugurou uma longa franquia de 11 filmes em 19 anos, abrindo caminho para outras produções, como Homem-Aranha (2002), Hulk (2003), Demolidor (2003), X-Men 2 (2004), Batman Begins (2005) e o próprio Superman – O Retorno. Tudo antes do passo seguinte dessa era, com o universo integrado do Marvel Studios lançado em 2008, sobre o qual iremos falar adiante. Aclamado pela crítica, Singer emergia como a melhor escolha para o problemático filme do homem de aço. Enquanto ainda finalizava X-Men 2 (que teria um sucesso ainda maior do que o primeiro e seria ainda mais aclamado), Singer foi procurado pela Warner e aceitou o convite.
Em julho de 2004, Singer apresentou um tratamento de roteiro escrito com Michael Dougherty e Dan Harris, seus parceiros na sequência mutante, e a Warner deu sinal verde. A proposta do trio era fazer uma “continuação espiritual” de Superman – O Filme (1978), ou seja, um longa que mais ou menos dava prosseguimento àquele velho homem de aço, mas numa ambientação moderna, com novas histórias. Singer até conversou com o diretor Richard Donner para conseguir o aval dele, pois afinal, os dois trabalhavam juntos nos filmes dos X-Men, que eram produzidos pela Donner Films, e o veterano diretor disse que seguisse em frente.

Singer viu o filme do Superman como uma grande oportunidade, por ser um grande fã do longa de 1978, e adiou os planos de um remake de Logan’s Run, enquanto pensava que poderia fazer o homem de aço antes do terceiro filme dos X-Men, que não estava definido ainda. O rápido aceite do diretor animou a Warner, que manteve a data de lançamento do verão de 2006 que tinha para o projeto de Ratner/McG/Abrams e a produção começou imediatamente. Obviamente, Singer sequer se deu ao trabalho de ler o roteiro de Abrams e Schwartz, pois queria ir numa direção totalmente diferente, e iniciou a busca pelo elenco.
Singer optou por um ator desconhecido para o papel principal e foram realizados centenas de testes com atores dos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Austrália (o local escolhido pela Warner para as filmagens), dos quais Chris Pratt (o futuro Starlord dos Guardiões da Galáxia) foi um deles, mas o escolhido foi Brandon Routh, que vinha de uma carreira discreta em soap-operas como Undressed (2000) e One Life to Live (2001-2002), além de uma participação em Gilmour Girls (2001), mas sua aparência, que remetia diretamente ao personagem nas HQs e até alguma semelhança casual com Christopher Reeve foram decisivos.

O restante do elenco principal foram escolhas pessoais de Singer: Kevin Spacey já havia sido um dos finalistas ao papel de Lex Luthor nos tempos de Brett Ratner, e era um amigo pessoal do diretor e protagonista de Os Suspeitos, pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Ator; e ele mesmo indicou Kate Bosworth para Lois Lane, por terem trabalhado juntos recentemente em Vida Além dos Limites, que o próprio Spacey havia protagonizado e dirigido. Singer escolheu Hugh Laurie para o papel de Perry White, porque era um dos produtores de Dr. House, série de enorme sucesso protagonizada por ele, mas justamente pelo intenso cronograma de filmagens do programa não foi possível assumir e o veterano Frank Langella ficou em seu lugar. Mas um egresso de Dr. House ficou no elenco: Zak Penn, num papel menor como um dos capangas de Luthor. Singer colocou James Marsden, com quem trabalhara nos filmes dos X-Men, no papel do par romântico de Lois, porque queria alguém que tivesse um “estilo Superman”, e Marsden já tinha sido um dos finalistas ao papel do homem de aço nos projetos anteriores que não saíram do papel. Eva Marie Saint (de Sindicato dos Ladrões) faz uma pequena participação como Martha Kent, e Singer homenageou o passado convidando Noel Neill (a primeira Lois Lane do cinema) e Jack Larson (o Jimmy Olsen da série de TV dos anos 1950) para pontas rápidas.

Mas um dos elementos de maior homenagem aos filmes antigos, e que conecta O Retorno com eles diretamente, é a reprise de Marlon Brando no papel de Jor-El. O lendário ator havia falecido em 2004, aos 80 anos de idade, mas a família autorizou que a produção usasse imagens não utilizadas das filmagens de 1977 para construir um versão digital do personagem, se aproveitando do efeito de projeção de slides para representar o pai biológico de Kal-El na Fortaleza da Solidão, para esconder o truque. O filme usa diálogos gravados nos anos 1970, especialmente das cenas que Brando gravou para Superman II e que não foram utilizadas (aparecem apenas na The Richard Donner’s Cut, que seria lançada junto com o novo filme em uma coleção de DVDs). Inclusive, o belo monólogo de Brando sobre Kal-El se tornar um luz de inspiração para humanidade foi utilizado no tocante trailer que o filme ganhou na época, e que não aparece em O Retorno.
A pré-produção começou em janeiro de 2005, na Austrália, com a construção dos cenários, e as filmagens se iniciaram em fins de março, ocupando os nove galpões do Fox Studios Australia, com um total de 60 cenários que abraçaram 80% do filme, com o restante em algumas cenas externas nas ruas de Sydney e nos campos da cidadezinha de Breeda, que dublou para Smallville. As filmagens terminaram em novembro.

O Retorno homenageia os filmes antigos do Superman não apenas nos aspectos da história, funcionando na prática como um Superman V, ainda que ignore os eventos das Partes III e IV (mas o que haveria para relatar sobre isso?), mas também no aspecto estético, reprisando a arquitetura de cristais da Fortaleza e da nave kryptoniana que o herói usa, ao pousar de volta à Terra após sua viagem pelo espaço, que é a mesma da pequena nave que o trouxe ao nosso planeta quando bebê no longa de 1978. Por outro lado, O Retorno investiu em uma arquitetura art-decó para o prédio do Planeta Diário e parte do skyline de Metrópolis, construído a partir de efeitos digitais combinando Sydney, Manhattan e elementos fictícios. O figurino dos personagens adota elementos que remetem à década de 1940, ainda que “modernizados” para parecerem atuais. A música do filme foi criada por John Ottman, parceiro constante de Singer, que criou uma trilha inspirada pela original de John Williams, rearranjando o tema principal do herói.
Esteticamente, O Retorno é lindo: bem filmado, com bons atores e uma estética estilizada e incrível. Contudo, o longa falha em criar uma história interessante, com o roteiro de Dougherty e Harris simplesmente mimetizando a mesma trama de Superman – O Filme: Luthor é galhofeiro como antes, tem uma namorada/assistente sexualizada, fútil e burra, é acompanhado por capangas trapalhões, e tem um plano muito similar também, pois tal qual no longa de 1978, o vilão quer ganhar dinheiro vendendo terras. O triângulo amoroso Superman-Lois-Richard não decola, jogando sobre o pobre personagem de Marsden uma concorrência desleal.

O elemento mais controverso do filme – e aqui vai um SPOILER imenso – é o fato de que descobrimos no terceiro ato que Jason, o filho de Lois e Richard, obviamente, é filho do Superman (aparentemente remetendo diretamente à cena de cama que os personagens têm em Superman II). Muitos críticos e fãs acharam a adesão do pequeno supermenino desnecessária, além de complicar bastante a narrativa para filmes futuros. Que não vieram, claro.

Outra coisa que chamou a atenção do público quando lançado é que O Retorno tem pouquíssima ação e a ameaça final – ou ao menos a forma como é conduzida – não faz jus ao personagem: o homem de aço fica sem poderes na ilha de kryptonita e é espancado pelos capangas de Luthor (que passam o filme inteiro sendo uns trapalhões), e como se isso não fosse humilhação o suficiente, o herói ainda fica berrando pateticamente “eu ainda sou o Superman”… É um momento vergonha alheia. Mas a ausência de ação – o Superman passa o filme usando seus poderes contra oponentes que não podem se defender dele (bandidos comuns) ou coisas como carros descontrolados e queda de destroços – contribuiu para o filme não engajar as gerações mais jovens, que tampouco tinham conexão com a velha franquia do herói. O apelo ao público mais velho foi bem mais forte, mas não são eles quem mais compram ingressos de cinema, não é mesmo?
Como resultado, Superman – O Retorno arrecadou US$ 391,1 milhões em bilheteria, o que pode ser considerado um sucesso e bem acima do orçamento de aproximadamente 100 milhões, porém, não foi uma arrecadação espetacular, sendo menor do que sucessos da época, como X-Men 2 (2004), com 407 milhões ou Homem-Aranha 2 (2004), com 788 milhões. Considerando os custos de produção desde os anos 1990, a situação financeira do filme fica um pouco mais complicada e isso foi sentido nos corredores da Warner.
Mais Projetos Inacabados
Superman – O Retorno 2
De início, uma sequência foi planejada, com lançamento previsto para o verão de 2009, e Singer solicitou que Dougherty e Harris desenvolvessem ideias. Um roteiro nunca foi escrito, mas pensaram usar Brainiac ou Bizarro como vilões e usar a “ilha kryptoniana” no espaço como elemento da história, contudo, a reticência do estúdio em dar sinal verde (eles estavam avaliando outras possibilidades) fez com que Singer fosse filmar Operação Valkyria (2008) com Tom Cruise e a Greve dos Roteiristas de 2007-2008 atrasou os planos. No início de 2008, Singer pensava em iniciar a feitura do roteiro e pré-produção, mas Dougherty e Harris já estavam envolvidos em outros projetos.

Por fim, em agosto de 2008, o presidente de produção da Warner, Jeff Robinov, oficializou que a sequência de O Retorno não estava mais em produção e que o estúdio seguiria outro caminho em busca de reunir Superman e Batman nos cinemas.
Liga da Justiça – Mortal
Quando Batman Begins e Superman – O Retorno não fizeram bilheterias espetaculares em 2005 e 2006, respectivamente, a Warner Bros. começou a pensar em alternativas. Embora a sequência de Begins, com Christopher Nolan, estivesse efetivamente em filmagens e a de O Retorno patinava na indecisão, o estúdio comissionou o casal Kieran e Michelle Mulroney para escreverem um filme sobre a Liga da Justiça, reunindo versões separadas de Batman e Superman mais Mulher-Maravilha, Flash, Aquaman, Lanterna Verde e Caçador de Marte. Singer foi pensado para dirigir, mas como ele foi fazer Operação Valkiria, foi contratado o australiano George Miller (da franquia Mad Max) para o cargo.

O elenco privilegiou atores jovens em início de carreira (D.J. Cotrona como Superman, Arnie Hammer como Batman) que foram contratados. No verão de 2008, uniformes e cenários foram construídos e a equipe de filmagens foi interrompida quase literalmente na véspera do início dos trabalhos por uma série de motivos: Batman – O Cavaleiro das Trevas foi um sucesso arrebatador de bilheterias e críticas, o que pôs dúvidas nas cabeças dos executivos da Warner se valia a pena ter um segundo Batman nos cinemas e atrapalhar o desenvolvimento da saga de Nolan. Além disso, estourou a Greve dos Roteiristas de 2008, que impedia os filmes de serem filmados. E, por fim, o governo da Austrália recusou a isenção de impostos que iria baratear a produção.
Com tudo isso, apesar de ter um roteiro pronto, pré-produção concluída, elenco já ensaiado e filmagens prestes a começar, Liga da Justiça – Mortal foi cancelado.
DCEU
Com o cancelamento de Liga da Justiça – Mortal, em 2009, e Christopher Nolan já planejando o último capítulo de sua trilogia (que sairia em 2012), a Warner decidiu começar o passo seguinte e aproveitar um novo filme do Superman para dar início a uma versão cinematográfica do Universo DC. com personagens integrados em vários filmes, tal qual a Marvel havia iniciado com seu MCU, que conectou Homem de Ferro (2008) e O Incrível Hulk (2008) e se desenvolveria a seguir com Homem de Ferro 2 (2010), Thor (2011) e Capitão América – O Primeiro Vingador (2011) culminando na reunião de todos eles em Os Vingadores (2012).
Já tendo desistido de Mortal e sem uma sequência de Superman – O Retorno no meio dos caminhos, o estúdio achou por bem zerar tudo e começar de novo, com o último filho de Kyrpton inaugurando o Universo Integrado da DC, que há época foi batizado de DCU, mas foi retroativamente rebatizado DCEU (DC Expanded Universe).

SUPERMAN – O HOMEM DE AÇO
- The Man of Steel. 2013. Dirigido por Zack Snyder, com roteiro de David S. Goyer, a partir de história de Christopher Nolan e David S. Goyer. Elenco: Henry Cavill (Clark Kent/ Superman), Amy Adams (Lois Lane), Michael Shannon (General Zod), Diane Lane (Martha Kent), Kevin Costner (Jonathan Kent), Laurence Fishburne (Perry White), Harry Lennix (general Calvin Swanwick), Antje Traue (Faora-Ul), Christopher Meloni (coronel Nathan Hardy), Ayelet Zurer (Lara Lor-Van), Richard Schiff (Dr. Emil Hamilton), Christina Wren (capitã Carrie Ferris), Mackienze Gray (Jax-Ur), dentre outros.
Crescendo com habilidades muito maiores do que as dos humanos comuns, Clark Kent cresce se escondendo do mundo, o que lhe custa até a vida de seu pai adotivo. Quando adulto, Clark ronda pelo mundo em busca de um propósito e o encontra quando descobre a verdade sobre si: ele vem de um planeta chamado Krypton, se chama Kal-El e foi enviado por seus pais, Jor-El e Lara, imediatamente antes da destruição de seu mundo natal em um acidente cósmico natural. A atmosfera terrestre e seu corpo biologicamente distinto lhe conferiram seus superpoderes. Mas um grupo de kryptonianos também escaparam do fim e conseguem chegar à Terra para terraformar o planeta e transformá-lo em um novo Krypton, o que obriga Clark a se revelar ao mundo como o Superman para defender a Terra da destruição certa.
Enquanto a Warner ainda pensava em filmar Liga da Justiça – Mortal, no fim de 2008, o estúdio já tinha decidido zerar a franquia do homem de aço e reiniciar sua história no cinema com uma trama nova. Sem saber bem o que fazer, os executivos convidaram famosos escritores de quadrinhos para apresentarem projetos (pitchs na linguagem de Hollywood) sobre o que poderia ser um novo filme do herói, e alguns realmente apresentaram: Grant Morrison propôs adaptar sua história All-Star Superman (aclamada como uma das melhores do personagem em todos os tempos); Mark Waid propôs contar uma nova origem do herói baseada em sua própria história Legado das Estrelas (Birthright), de alguns anos antes; e Mark Millar (de A Foice e o Martelo) propôs uma épica trilogia de 8 horas de duração contando toda a trajetória do herói (do nascimento à morte), com Lex Luthor, Zod e Brainiac, a ser dirigida por Matthew Vaughn, um diretor britânico (de Kick-Ass, X-Men – Primeira Classe e Kingsmen) que aparecerá bastante nessa história daqui em diante.

Mas a ideia promissora que ganhou o estúdio veio de uma fonte mais próxima e aclamada… O diretor Christopher Nolan tinha lançado Batman – O Cavaleiro das Trevas no meio do ano com um sucesso imenso, sendo o primeiro filme de super-heróis a ultrapassar a barreira de 1 bilhão de dólares em bilheterias. Após um breve descanso, Nolan se sentou com seu roteirista David S. Goyer para discutir o terceiro capítulo de sua trilogia (que seria Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que sairia em 2012) e, no meio da conversa (provavelmente por saber do “chamado” da Warner), Goyer lhe apresentou uma proposta de um filme com uma abordagem moderna do Superman nos dias de hoje, e isso impressionou Nolan ao ponto dele ir até aos executivos fazer o pitch. A proposta era Nolan atuar apenas como produtor, Goyer escrever e encontrarem um bom diretor para liderar o projeto.
Como Nolan era uma “galinha dos ovos de ouro”, a Warner aceitou imediatamente!

Claro, com isso, os executivos tinham esperança de que esse novo Superman iria cruzar o caminho do Batman de Nolan (vivido por Christian Bale), pois o estúdio estava resoluto em reunir os dois heróis e construir um Universo Cinematográfico Integrado como a concorrente Marvel havia iniciado há pouco. Porém, sendo um diretor de grande integridade, Nolan estava decidido a encerrar sua história do homem-morcego no vindouro terceiro filme e sequer cogitou qualquer tipo de continuidade ou integração. Mas o estúdio guardou esperança.
Depois de terminar seu trabalho no roteiro de O Cavaleiro das Trevas Ressurge, no início de 2009, Goyer foi comissionado para escrever seu roteiro para o filme que já tinha o título de The Man of Steel, contudo, um pequeno problema surgiu no horizonte: em setembro daquele ano, a família de Jerry Siegel, o criador do Superman, venceu um processo judicial contra a Warner, garantindo 50% dos royalties das origens do herói (seria um filme de origem), os royalties do autor em Action Comics 01 (revista que trouxe a origem do personagem) e uma soma de royalties sobre os filmes pretéritos do herói. E isso não foi o pior para o estúdio: a corte determinou que se um filme do Superman não iniciasse a produção em 2010, a família Siegel poderia processar a Warner por perdas materiais.
Então, o estúdio acelerou o passo – o que fez Goyer se desligar da produção de Ressurge, onde ganhou crédito apenas de história e não de roteiro. Nolan e Goyer fizeram uma lista de potenciais diretores para o estúdio negociar, o que incluía Ben Affleck, que além de ator de filmes como Gênio Indomável (1997 – pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original, ao lado de Matt Damon), Armagedon (1998), Pearl Harbor (2001), A Soma de Todos os Medos (2002), Demolidor (2003) e até ter vivido o ator George Reeves (e portanto o Superman) em Hollywoodland (2006), havia iniciado uma profícua carreira como diretor, lançando Medo da Verdade (2007) e Atração Perigosa (2010), ambos aclamados pela crítica. Outros nomes considerados foram Darren Aronofsky e Ducan Jones.

Mas o estúdio escolheu Zack Snyder, que tinha entregue dois sucessos da linha nerd à Warner: 300 de Esparta (2006 – adaptação da HQ de Frank Miller) e Watchmen (2009 – adaptação da HQ de Alan Moore e Dave Gibbons publicada pela DC Comics em 1986). Inicialmente pensado para o verão de 2012, o filme foi adiado para o ano seguinte, para não fazer concorrência com Ressurge e não gerar uma produção apressada, com tendência de erros.
Para o papel principal, dezenas de atores fizeram testes, incluindo Matthew Goode (que trabalhou com Snyder em Watchmen), Armie Hammer (que seria o Batman de Mortal), Tyler Hoechlin (que faria o Superman na série de TV Supergirl, do Arowverse, e depois, estrelaria Superman & Lois, com 4 temporadas) e Joe Manganiello (o segundo lugar da lista), mas a escolha recaiu sobre o ator britânico Henry Cavill (de O Conde de Monte Cristo e Imortais), que já havia sido um dos selecionados na época de Brett Ratner. Outra escolha dos tempos de Ratner terminou escolhida para Lois Lane, com Amy Adams, que venceu uma disputa tão acirrada quanto a do protagonista, sobre nomes como Kristen Stewart, Mila Kunis, Olivia Wilde e Zoe Saldaña. Snyder convidou Daniel Day-Lewis e Viggo Mortensen para o papel de Zod, mas o escolhido foi Michael Shannon.

Snyder e Goyer conceituaram um filme sombrio e pesado, no qual é criado um motivo crível para Clark Kent se tornar o Superman, que basicamente é a invasão dos Kryptonianos liderados pelo General Zod ao nosso planeta. Antes disso, vemos que Clark não tinha muita certeza de suas origens e rodava o mundo incógnito, ajudando onde fosse necessário, mas sem se revelar, o que remetia a um detalhe da origem do Superman criada por John Byrne nos quadrinhos pós-Crise nas Infinitas Terras, a partir de 1986. Embora o roteiro tentasse criar uma coisa nova, no fim das contas, a invasão de Zod e suas conexões com Jor-El terminaram ficando remanescentes de Superman e Superman II. Ter um longo prólogo em Krypton também.
As filmagens começaram nos arredores de Chicago em agosto de 2011, e seguiram pela cidade vizinha de Plano (que dublou Smallville), estúdios em Vancouver, no Canadá, cuja ilha da Columbia Britânica também fez as vezes do Alasca e do Mar do Norte no filme, com as cenas de deserto gravadas na Califórnia. Snyder criou um design muito interessante para o filme, deixando a tecnologia kryptoniana (naves e artefatos) com elementos biotecnológicos e enchendo a roupa do herói de texturas, adotando, como os quadrinhos já haviam abraçado há algum tempo, que o uniforme do herói é basicamente o tipo de roupa usada em seu planeta natal, com Jor-El e Zod adotando versões muito similares, embora cinzas.

A produção investiu pesadamente na construção de cenas digitais em CGI, se aproveitando da tecnologia inexistente nos filmes antigos (mas em boa parte já presente na época de O Retorno) para dar muita ação ao homem de aço. O artista Jay Oliva ficou responsável por criar as cenas de ação e coordenar sua animação, o que rendeu longuíssimos minutos de batalhas entre Superman, Zod e seus asseclas, em dois embates: primeiro na cidade de Smallville e, depois, no centro de Metrópolis.
Diferente de Superman II, no qual Zod quer simplesmente dominar o planeta, O Homem de Aço cria uma motivação muito mais complexa: tal qual nas HQs e filmes antigos, Jor-El tenta convencer o Conselho Científico de que Krypton irá se destruir e falha, mas desta vez, ao perceber isso, ele rouba o códex kryptoniano, um banco de dados com as informações do DNA da população, e o insere no corpo de seu filho Kal-El, o que o coloca em conflito contra Zod, deixando claro (tal qual insinuado nos filmes antigos e desenvolvido na série de TV Smallville) existir uma conexão de amizade antiga entre Jor-El e Zod. Quando o cientista despacha Kal-El para a Terra, não apenas salva seu bebê, mas toda a herança do planeta.

Zod e seu time estavam fora de Krypton no momento da destruição e passam décadas rodando o espaço em busca das bases espaciais criadas pelo planeta no passado – e todas elas estão destruídas ou abandonadas – mas quando, na Terra, Kal-El ativa a tecnologia da Fortaleza da Solidão, eles recebem esse sinal e vêm ao nosso planeta. O plano de Zod é extrair o códex do corpo de Kal-El e usá-lo para clonar a população kryptoniana de volta, ao mesmo tempo em que pretende terraformar a Terra, ou seja, usar a tecnologia para expandir o núcleo do planeta e aumentá-lo de tamanho, de modo a deixar sua atmosfera mais parecida com a de Krypton. O processo, irremediavelmente, resultaria na morte de toda a vida na Terra.
A ambientação de Clark Kent e seu desenvolvimento como personagem, no filme, também é bastante promissor no roteiro de Goyer… O filme inicia com Clark vivendo perdido, pulando de país em país, de lugar em lugar, nunca firmando raízes, e procurando ajudar as pessoas sempre que possível e tentando nunca chamar muito a atenção para si, e toda vez que alguma situação compromete sua identidade ou seus poderes, ele parte ao destino seguinte. Mas essas “aparições” deixam rastros e Lois Lane investiga isso até encontrá-lo e identificá-lo, o que conecta os dois pela primeira vez. As cenas são intercaladas com enxertos do passado de Clark, mostrando-o criança descobrindo seus poderes e sofrendo com isso, ou obrigado a usá-los para salvar seus amigos e isso gerar desconfiança, suspeição ou perseguição por amigos e vizinhos, além de interações interessantes com seus pais, Martha e Jonathan Kent, que precisam lidar com dilemas éticos complexos por causa de seu filho.

Esse trabalho de construção do personagem por meio de cenas cruzadas do passado e presente é bastante remanescente do trabalho de Christopher Nolan, afinal, ele assinou a história e era produtor executivo do filme, e foi inspirado (e espelhado) diretamente em Batman Begins. E a despeito do exagero quanto à representação de Krypton (anabolizada como quase tudo no trabalho de Snyder), o primeiro ato de O Homem de Aço constrói um dos momentos mais interessantes da cinegrafia do personagem até ali. Henry Cavill entrega uma ótima interpretação, com o auxílio de Kevin Costner e Diane Lane, e produzem cenas tocantes, como a da morte de Jonathan, não mais de um banal ataque cardíaco, mas arrastado por um tornado simplesmente para proteger o segredo do filho, quando Clark poderia ter salvo seu pai na frente de dezenas de testemunhas. Amy Adams, uma atriz que seria muito premiada nos anos seguintes, também interpreta uma Lois interessante, curiosa e independente.

O maior problema de O Homem de Aço é que, no afã de agradar à Warner, que queria o Superman em ação para não repetir o erro de O Retorno, somada à própria empolgação de Snyder em poder mostrar (pela primeira vez no cinema) toda a plenitude dos poderes do herói, o filme termina criando sequências longuíssimas de batalha que transformam O Homem de Aço em uma porraderia poucas vezes vistas em filmes de super-heróis. A batalha final do Superman contra Zod não apenas é muito longa como tem o efeito colateral de destruir dezenas de prédios. E isso depois do ataque de terraformação já ter aberto uma cratera gigantesca de alguns quilômetros de diâmetro no meio da cidade.
Como resultado, o ataque de Zod (mesmo com a intervenção do Superman) teria custado algo na casa da centena de milhares de vítimas, o que deixou a crítica de cabelo em pé. Snyder não foi longe demais? Isso não diminui o Superman, ao não conseguir impedir um número tão grande vítimas?

E esse nem foi o maior problema… A grande questão que perseguiu o roteiro foi: “como parar Zod?”. No filme, os aliados do herói descobrem uma maneira de abrir o portal da Zona Fantasma e esse é o plano para se livrar dos vilões, e Lois Lane e seus amigos conseguem mandar todos para lá, menos o líder. Quando os dois começam sua luta – e a destruição já foi muito grande até ali e vai crescer mais – nos damos conta, pois o filme vai mostrando isso, que o Superman é um cara relativamente jovem, de 33 anos de idade, mas sem nenhuma grande experiência no uso de seus poderes de modo ampliado (ele só aprende a voar com 1h de filme), ao passo que Zod é um militar treinado e um líder de seu planeta. Na trama, quando os kryptonianos se expõem à atmosfera terrestre passam muito mal, pois não se conquistam aquelas habilidades sem um custo e também demora a dominá-las.
A batalha no fim vai mostrando Zod – exposto à atmosfera há relativamente pouco tempo – gradativamente se adaptando ao novo ambiente e ganhando confiança sobre seus novos poderes. A surra que o Superman leva a maior parte do tempo é para lembrar que, na verdade, quando os níveis estiverem equiparados, ele não tem a menor chance.

Por isso, Goyer e Snyder criaram a cena na qual, no fim, o Superman consegue deter Zod com uma chave de braço no metrô de Metrópolis, mas ainda próximos de uma família que tentava se abrigar. Sabendo da empatia do herói, o vilão tenta matar essa família com sua visão de calor, deixando o homem de aço sem alternativas… Então, num gesto desesperado, o Superman quebra o pescoço de Zod e o mata.
Nolan foi contra essa decisão, porque não achava em acordo com o personagem do Superman, mas Goyer e Snyder conseguiram ir adiante com a ideia e convenceram a Warner, que poderia ter barrado a cena, ao argumentarem (com alguma razão, é verdade) que aquele ainda não é o Superman que conhecemos, é alguém descobrindo seus poderes e descobrindo quem é e o que pode fazer. Mas uma vez exibida nos cinemas, a cena se tornou muito polêmica.

Muita gente do público, da crítica e até da DC Comics reclamou sobre aquela decisão, que julgaram desnecessária e descaracterizante do herói. É verdade que Goyer, um fã de quadrinhos, se respaldou no material original: existe uma história pós-Crise nas Infinitas Terras que o Superman encontra com versões de outra dimensão de Zod e seus asseclas e, sem conseguir vencer seus inimigos, o herói termina por matá-los, o que tem como consequência o homem de aço se autoimpor um exílio no espaço por um longo período. Também havia a história O que aconteceu com o homem de aço, de Alan Moore e Curt Swan, o último arco antes de Crise nas Infinitas Terras, no qual, ainda que inadvertidamente, o herói mata o vilão no fim, antes também de desaparecer para sempre.
Mas são exceções. Via de regra, o Superman não mata. Mesmo o Batman, que é mais “violento”, também não mata seus oponentes. Trazer um conto de origem do Superman no qual ele mata seu inimigo não parece ter sido um passo acertado.

O fato é que a cena criou, provavelmente de modo desnecessário, uma grande polêmica que tornou o filme controverso e isso não deve tê-lo ajudado comercialmente. Além disso, seja pelo começo mais “adulto” (atrapalhado pelo longo preâmbulo meio bizarro em Krypton) ou pelo final “porrada até não acabar mais”, O Homem de Aço não agradou ao público em geral, nem aos mais jovens (que gostam de mais ação e porrada) nem aos mais velhos (mais nostálgicos em relação aos filmes antigos e aos valores que o herói representa). Ainda assim, Superman – O Homem de Aço teve uma ótima bilheteria, arrecadando US$ 670 milhões no mundo todo, o que foi a mais alta arrecadação do personagem até ali, embora após uma estreia fortíssima (que mostrou que o mundo queria ver um novo filme do herói), a queda da bilheteria no segundo fim de semana foi de aproximadamente 68%, uma queda altíssima, normalmente associada a grandes fracassos. Isso quer dizer que a expectativa foi frustrada e aqueles que assistiram primeiro o filme desmotivaram os demais a ir vê-lo, porque não gostaram.
Essa recepção mista teria consequências para a franquia do último filho de Krypton.
BATMAN VS. SUPERMAN – A ORIGEM DA JUSTIÇA
- Batman v Superman – The Dawn of Justice. 2016. Dirigido por Zack Snyder, com roteiro de Chris Terrio e David S. Goyer, a partir de história de Zack Snyder e David S. Goyer. Elenco: Ben Affleck (Bruce Wayne/ Batman), Henry Cavill (Clark Kent/ Superman), Amy Adams (Lois Lane), Jesse Eisenberg (Lex Luthor), Diane Lane (Martha Kent), Laurence Fishburne (Perry White), Jeremy Irons (Alfred Pennyworth), Gal Gadot (Diana Prince/ Mulher-Maravilha), Holly Hunter (senadora June Finch), Scoot McNairy (Wallace Keefe), Callan Mulvey (Anatoli Knyazev), com participações especiais de Jeffrey Dean Morgan (Thomas Wayne), Lauren Cohan (Martha Wayne), Michael Cassady (Jimmy Olsen), Harry Lennix (general Calvin Swanwick), e aparições de Ezra Miller (Barry Allen), Jason Momoa (Arthur Cury), Ray Fisher (Victor Stone), dentre vários outros.

Morador da vizinha Gotham City, Bruce Wayne presencia a destruição de Metrópolis pela invasão alienígena dos kryptonianos liderados pelo General Zod (mostrada em Superman – O Homem de Aço) que mata centenas de milhares de pessoas. Wayne é secretamente o Batman e combate o crime há 20 anos e, alimentado por um insano sentimento de vingança contra o Superman, a quem julga um risco eminente à humanidade, se prepara para exterminá-lo, sem perceber que ele e Superman estão sendo manipulados pelo empresário megalomaníaco Lex Luthor, que joga um contra o outro enquanto se apropria da tecnologia kryptoniana. A investigação do Batman o leva a descobrir a existência de outros metahumanos e chega a conhecer um deles: Diana Prince, que secretamente é uma Amazona, da Grécia Antiga.
Batman desenvolve meios de vencer e matar o Superman, mas em meio ao confronto percebem que Luthor é a real ameaça, e criou um monstro kryptoniano imbatível que força a união do cavaleiro das trevas com o homem de aço… e a guerreira amazona que o mundo chamará de Mulher-Maravilha.

A Origem da Justiça não é efetivamente uma sequência de O Homem de Aço, mas ao contrário, um filme criado para apresentar uma nova versão do Batman e fundar as bases da Liga da Justiça. Daí que o Superman de Henry Cavill é apenas um coadjuvante, tendo papel bastante secundário em comparação ao Batman de Ben Affleck, que é o verdadeiro protagonista. Essa decisão – que Snyder e Goyer insistiram em entrevistas posteriores – foi do estúdio e foi vista em retrospecto como equivocada, pois deveria haver um aprofundamento mais detido no personagem do homem de aço antes de envolvê-lo com Batman e Mulher-Maravilha e ainda matá-lo no fim. (Sim, ao fim e ao cabo, o Superman é morto por Apocalipse no terceiro ato).
A morte do Superman sem esse aprofundamento e após apenas um filme que ainda foi recebido de maneira controversa foi entendida como um erro grave da Warner e de Snyder. Mas enfim, foi feito…

Após o lançamento de O Homem de Aço, em 2013, e o retorno financeiro suficientemente bom, a Warner deu luz verde imediatamente ao DCEU, o Universo DC compartilhado no cinema, espelhando o da concorrência Marvel que, àquela altura, já desenvolvia a galope com sequências de filmes individuais (Homem de Ferro 3, Thor 2….) e já tendo reunido seus principais heróis (Os Vingadores, 2012) e preparando até novas franquias (Guardiões da Galáxia, de James Gunn, saiu em 2014). Mas a Warner estava anos atrasada e não queria perder tempo: com um único filme lançado, pois logo em locomotiva a reunião de Batman e Superman que o estúdio já cogitava (e recuava) em fazer há 15 anos!
Também é importante dizer que, após a interrupção de Liga da Justiça – Mortal, em 2008, a Warner seguiu firme com a ideia de um filme da Liga da Justiça, e durante a produção de O Homem de Aço, o estúdio contratou Will Beal para escrever um roteiro para Justice League e ele o fez, ao passo que a Warner queria Ben Affleck para dirigir o longa da equipe, mas após o lançamento de O Homem de Aço, a Warner decidiu descartar o texto de Beal e contratar David S. Goyer para escrever tanto uma sequência para o último filho de Kyrpton quanto um longa da equipe. Goyer começou a desenvolver algumas ideias e discuti-las com Zack Snyder, que naquela altura não iria dirigir o filme da equipe (o estúdio queria Ben Affleck), apenas ganhar um crédito de produtor, para se dedicar ao Superman. Mas o resultado das bilheterias motivou o estúdio a mudar a rota e focar em Batman vs. Superman, para o qual tanto Goyer quanto Snyder foram designados.
Com os trabalhos caminhando bem na pré-produção de Batman vs. Superman ao longo de 2014, o estúdio decidiu seguir de perto os passos da concorrente Marvel – que fazia anúncios de cronogramas de filmes futuros – e (no que seria uma decisão catastrófica), em outubro de 2014, anunciou o cronograma de nada menos 12 filmes!!!!
- Batman vs. Superman – Dawn of Justice, 2016
- Suicide Squad, 2016
- Wonder-Woman, 2017
- Justice League Part I, 2017
- The Flash, 2018
- Aquaman, 2018
- Shazam, 2019
- Justice League Part II, 2019
- Cyborg, 2020
- Green Lantern, 2020
- Superman – The Man of Steel 2 (sem data)
- Batman (sem data).
No que nos interessa, (inspirados no reboot da DC Comics de 2011, Os Novos 52) Snyder e Goyer decidiram apresentar um Batman veterano, que já atuasse naquele mundo há um tempo – o roteiro estabeleceu 20 anos! – mas um mundo em que havia poucos (ou nenhum) metahumanos, o que de algum modo dialogava com o final da Trilogia Cavaleiro das Trevas, mesmo que em outra continuidade. Christopher Nolan foi novamente consultado para este filme, e deu algumas contribuições sem se envolver demais, mas de novo, recebendo o crédito de produtor executivo.

Goyer entregou um roteiro que colocava Batman e Superman em oposição a partir das diferenças marcantes dos personagens exploradas nas HQs da DC Comics pós-Crise nas Infinitas Terras (com cada um discordando do outro por causa de seus métodos), baseado em obras marcantes como Batman – O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, o encontro entre os dois narrado por John Byrne em 1987 e a série Superman/Batman de Jeph Loeb e Ed McGuiness do início dos anos 2000, estabelecendo um Bruce Wayne de uns 45 anos de idade.
O principal movimento de pré-produção foi, portanto, encontrar um novo Batman. Christian Bale foi cogitado, mas seu retorno geraria contradição ao que foi mostrado em Ressurge (e claro que Nolan não aceitaria isso) e, portanto, nunca foi convidado para tal. Como de costume com um papel tão importante um grande número de atores foi convidado a fazer testes e outro tanto se candidatou ao papel. Nomes como Ryan Gosling foram convidados (ele recusou, pois nunca se envolveu em filmes de super-heróis) e muitos audicionaram, como Matthew Goode (que trabalhou com Snyder em Watchmen e já tinha feito teste para o Superman), Richard Armitage, Joe Manganiello e Josh Brolin, que de todos esses foi o que chegou mais perto pegar o papel.

Mas o motivo de Brolin não levar é que o favorito do estúdio, de Snyder e Nolan para o papel de um Bruce Wayne maduro era Ben Affleck. Apesar de sua carreira de ator andar meio “estragada” pelos críticos (ele nunca foi perdoado pelo fracasso de Pearl Harbor e era chamado de canastrão), Affleck se impunha por muitos méritos e, àquela altura era portador de nada menos do que dois Oscars: de Melhor Roteiro por Gênio Indomável (ao lado de Matt Damon) e de Melhor Filme por Argo, que coescreveu e dirigiu. Isso subscrevia um plano da Warner em dotá-lo das condições de estrelar, escrever e dirigir um vindouro filme solo do Batman, pois todos os longas que dirigiu eram aclamados pela crítica. Affleck era um cineasta sério em todos os sentidos.
Affleck relutou bastante em aceitar o papel, pois apesar de ser um grande fã de quadrinhos, já vivera uma situação fracassada nesse campo: estrelou Demolidor, o homem sem medo da Marvel pré-MCU (em 2003) e o longa fora um fiasco. Mas em vista do currículo de Snyder, do envolvimento de Nolan e das conversas sérias e profundas sobre o personagem que teve com o diretor e Goyer, Affleck terminou aceitando vestir o capuz e a capa. Como esperado, o anúncio de sua contratação gerou bastante polêmica, mas parte do público e da crítica gostaram, com base no “outro lado” da carreira do ator-diretor. E quando o filme foi lançado, a interpretação intensa e apaixonada de Affleck rendeu público e crítica e seu papel foi considerado o melhor que o polêmico filme tinha a oferecer (falaremos mais disso adiante).

Na pré-produção, Affleck se mostrou desde o início como uma escolha acertada ao sugerir que o roteiro do longa precisava de refinamento e que gostaria de uma visão mais “erudita” do texto de alguém que não fosse envolvido com as HQs (como era Goyer) e indicou o escritor Chris Terrio, que tinha assinado com ele o roteiro de Argo (e também levou um Oscar por isso). Terrio trouxe maior profundidade ao texto, adicionando os elementos mitológicos que Snyder queria explorar sobre as figuras de Batman e Superman.

A escalação da atriz israelense Gal Gadot como Mulher-Maravilha também causou alguma controvérsia, pelo exíguo currículo da moça e uma participação não tão marcante na franquia Velozes e Furiosos. Advindo do cinema independente e do protagonismo no filme A Rede Social, a escolha de Jesse Eisenberg para Lex Luthor também causou estranheza e perplexidade, especialmente porque ele foi considerado jovem demais para o papel (e com uma aparência ainda mais juvenil do que sua idade), ainda mais em comparação com Cavill (na faixa dos 30 anos) e Affleck (na casa dos 40).

Ao contrário de O Homem de Aço, que foi filmado em Chicago e no Estado de Illinois, Snyder optou por filmar na cidade de Detroit e seus arredores no estado de Michigan, por ser mais barato e, com isso, conseguir viabilizar os complexos efeitos especiais esperados ao longa. As filmagens de segunda unidade começaram já em outubro de 2013 (para aproveitar o clima de início de outono) numa longa sequência de um jogo de futebol americano entre os times da Gotham City University e Metrópolis State University, que terminou não sendo usada na versão final do longa e trazia uma introdução ao personagem Victor Stone, o Ciborgue, vivido por Ray Fisher. (As cenas seriam reutilizadas anos depois na versão de Snyder de Liga da Justiça, conforme falaremos depois).
Os cenários foram construídos no fim daquele ano, e apesar de reutilizarem os sets da Fazenda Kent gravados na cidade de Plano, em Illinois, as filmagens principais começaram em maio de 2014 em Detroit e se estenderam até setembro. Um ciclo de refilmagens ocorreu entre novembro e dezembro.

O visual do Superman permaneceu basicamente o mesmo do longa anterior, com sua roupa cheia de texturas, e o Batman foi criado com uma aparência mais ou menos correspondente, com seu uniforme retratado como uma roupa pela primeira vez no cinema, em vez das armaduras pretas da franquia desde 1989. O homem-morcego foi retratado com uma roupa especial, à prova de balas e fogo, mas totalmente maleável, num estilo que combinava os quadrinhos de desenhistas como Frank Miller em O Cavaleiro das Trevas e de Jim Lee em Hush/Silêncio, inclusive, na manutenção das cores cinza e azul escuros típicas dos quadrinhos tradicionais. As roupas dos dois heróis foram criadas por Michael Wilkinson.

Mas Batman também ganha um segundo uniforme no filme para lutar contra o Superman, sendo uma adaptação bastante fiel da armadura usada em O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller.

A Mulher-Maravilha foi retratada em uma versão fiel dos quadrinhos, apenas com o visual adaptado para parecer a roupa de um guerreiro grego da Antiguidade e as típicas texturas de Snyder. As cores vermelho, azul e dourado foram escurecidas para obter um visual menos chamativo. O resultado, inegavelmente, ficou muito bonito.
Os outros membros da Liga da Justiça aparecem brevemente no filme, como Ciborgue e Aquaman, vividos por Ray Fisher e Jason Mamoa, respectivamente, mas apenas o Flash ganhou um uniforme: uma estranha armadura vermelha cujo o capacete se abre (como o do Homem de Ferro da Marvel!) para mostrar o rosto (barbado!) de Ezra Miller usando uma máscara como a dos quadrinhos. Para quê tudo isso?

Embora fosse segredo por parte da produção até a véspera do lançamento, Batman vs. Superman era baseado em duas HQs, cada uma para um dos personagens que lhe dava o título. Como já vimos, da parte do homem-morcego, Snyder escolheu Batman: O Cavaleiro das Trevas, que mostrava um futuro despótico no qual um Bruce Wayne quase idoso retoma suas atividades para frear a escalada da violência e incomoda o governo fascista dos EUA, que pede ao “bom escoteiro” Superman para detê-lo. Naquela trama, o homem de aço é retratado como um “pau mandado” do governo e num posição quase de vilão.

A outra HQ a influenciar o filme, que só se tomou conhecimento “oficial” no último trailer, foi A Morte do Superman. Após o tema ter circulado por todos aqueles projetos de um filme do último filho de Krypton dos anos 1990 e 2000, finalmente, a trama da HQ escrita por Dan Jurgens, Roger Stern, Louise Simonson e outros, com arte de Jackson Guice, Tom Grummett, Jon Bogdanove e outros, publicada entre 1992 e 1994 (contando sua sequência, O Retorno do Superman), veria sua adaptação cinematográfica.
Na trama do filme – em linhas gerais não tão distinta daquela não-realizada nos anos 2000 – Batman presencia a destruição kryptoniana em Metrópolis mostrada em Superman – O Homem de Aço (pois no DCEU Metrópolis e Gotham são cidades vizinhas, nos extremos de uma baía) e, considerando o “homem do amanhã” uma ameaça, decide exterminá-lo, enquanto o repórter Clark Kent fica intrigado com a escalada de violência do Batman e decide investigá-lo, com ambos sendo manipulados por Lex Luthor, que descobriu suas identidades.

Luthor quer que eles se matem enquanto mobiliza um plano ousado de se apropriar da tecnologia kruptoniana e cria um tipo de clone, usando o DNA do falecido Zod para criar uma criatura monstruosa, que não tem um nome propriamente dito, mas é o Doomsday (Apocalipse) das HQs. Essa fera irrefreável sai à solta por Metrópolis para outro round de destruição, o que obriga Batman e Superman a se unir e ganharem o reforço da Mulher-Maravilha, que se une a eles. Mas ninguém é páreo para o monstro e o Superman sacrifica a própria vida para detê-lo. (Com o homem de aço matando outra “pessoa” em seu segundo filme!).
O mundo vela o Superman, enquanto, arrependido de suas ações, Batman tenta honrar sua memória ao reunir outros metahumanos para formar um grupo e se preparar para algo que está por vir… e trará o longa da Liga da Justiça.

O A Origem da Justiça foi lançado em março de 2016 e foi recebido de maneira dúbia por público e crítica. Nem de longe o longa teve uma recepção efusiva como esperava a Warner.
Muitas foram as questões. A visão complexa e erudita de Terrio, corroborada por Snyder, criou um problema: seu roteiro sugeria um filme de 3 horas de duração, que chegaria às 4 horas sem problemas. E claro que a Warner não queria correr esse risco, batendo o martelo em uma produção blockbuster padrão de 2 horas e meia. Snyder e Terrio terminaram esboçando duas versões: filmaram a versão de 3/4 horas e criaram uma síntese de 150 minutos para atender ao desejo do estúdio, mas a estratégia se mostrou equivocada, pois como a trama foi pensada no referencial “do maior para o menor”, muita coisa ficou apressada, sem sentido ou vazia quando cenas-chave e conceitos essenciais simplesmente não couberam dentro da versão menor.

A profusão de personagens espalhados para todos os lados, muitas subtramas cruzadas, dois protagonistas “desequilibrados” (com muito mais tempo de tela e atenção para o Batman do que para o Superman) e até insinuações de viagens no tempo e realidades alternativas que não são explicadas [com as cenas do “futuro sombrio” na qual o Superman aparece como um tipo de dominador do mundo contra qual o Batman luta e poderia ser “só um sonho”, caso Bruce Wayne não visse o Flash aparecendo diante de si em um tipo de tubo de explosão – algo que existe nas HQs – para falar que “Lois é a chave”…]. Que porra é essa?
Snyder também ignorou os apelos do estúdio em maneirar um pouco a mão e criar um filme “mais leve” para poder dialogar com o grande público, e ao contrário, produziu um filme ainda mais sombrio, pesado e carregado do que O Homem de Aço. Com toda essa densidade mal equilibrada e exposta, A Origem da Justiça se mostrou simplesmente inacessível ao grande público, e isso se refletiu diretamente em sua recepção.

Além do já relatado equívoco de matar o Superman antes que o público se importasse com ele, o erro de apresentar Batman e Mulher-Maravilha no mesmo filme (mais arremedos de Flash, Aquaman e Ciborgue) deixaram tudo meio bagunçado e sem foco. Tivesse focado apenas na dupla do título, o filme teria bem mais condições de apresentar algo ininteligível ao grande público. Ou a qualquer um.
E vale à pena acrescentar: A Origem da Justiça chegou aos cinemas no mesmo ano que Capitão América – Guerra Civil da concorrente Marvel. Esse também era um filme focado em dois heróis (Capitão América e Homem de Ferro) lutando entre si e lotado de personagens e subtramas, mas com a diferença de ter já 8 anos correntes de MCU: Homem de Ferro já tinha três filmes, era o terceiro filme do Capitão América e os Vingadores já tinham tido dois filmes, de modo que havia espaço para apresentar Pantera Negra e Homem-Aranha (dois novos personagens naquele universo) com alguma folga. Este não era o caso do recém-inaugurado DCEU cujo A Origem da Justiça é apenas a segunda entrada.

Todas essas questões tiveram grandes impactos em sua recepção. Batman vs Superman teve uma abertura forte: seu primeiro fim de semana nos EUA arrecadou US$ 166 milhões, seis a mais do que Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, somando uma estreia global de 422,5 milhões, a segunda maior da história da Warner e a quinta maior de todos os tempos. Porém, a recepção fria da crítica e o mal estar do público com aquele filme duro, escuro, denso, carregado, tresloucado em termos de múltiplas histórias… enfim, as impressões iniciais não foram nada boas. Nada mesmo! Então, o segundo final de semana bateu um recorde negativo: a segunda maior queda de bilheteria de um filme de super-heróis na história, de 81,2%!!!!! Perdeu apenas para o Hulk de 2003.

No final das contas, A Origem da Justiça arrecadou US$ 873,6 milhões nas bilheterias. Esse número poderia ser considerado um sucesso para quase todo e qualquer filme, mas neste caso, os “quase” importam muito. Tendo em vista que Superman e Batman tinham longos históricos cinematográficos, que eram os super-heróis mais famosos de todos os tempos, conhecidos do público do mundo todo sem precisar de apresentações… e estarem reunidos no cinema pela primeira vez… Ninguém pode culpar a Warner por esperar que o longa atingisse 1 bilhão de dólares na arrecadação. E ter ficado aquém o transformou num fracasso.
E não custa lembrar: àquela altura, a concorrência do Marvel Studios já tinha alcançado a marca do 1 bilhão várias vezes, com dois filmes do Homem de Ferro, dois dos Vingadores e mesmo o concorrente direto Guerra Civil bateu a marca naquele mesmo ano. Isso não fez a Warner feliz. Não mesmo!

Snyder conseguiu que sua versão de 3 horas de duração (31 minutos a mais do que nos cinemas) fosse lançada em vídeo doméstico com o título de Ultimate Edition, e a maioria dos críticos gostou mais dessa versão, porque fazia a história ter mais sentido. Porém, era preciso considerar que para quem não gostou do longa pelo seu tom e estilo, não fazia nenhuma diferença.
LIGA DA JUSTIÇA
- Justice League. 2016. Dirigido por Zack Snyder e Joss Whedon (este, não creditado), com roteiro de Chris Terrio e Joss Whedon, a partir de história de Zack Snyder e Chris Terrio. Elenco: Ben Affleck (Bruce Wayne/ Batman), Henry Cavill (Clark Kent/ Superman), Gal Gadot (Diana Prince/ Mulher-Maravilha), Ezra Miller (Barry Allen/ The Flash), Jason Momoa (Arthur Cury/ Aquaman), Ray Fisher (Victor Stone/ Ciborgue), Jeremy Irons (Alfred Pennyworth), Diana Lane (Martha Kent), Connie Nielsen (Rainha Hipólita), J.K. Simmons (Comissário James Gordon), Ciarán Hinds (Lobo da Estepe), Amber Head (Mera), Joe Morton (Dr. Silas Stone). Versão de Zack Snyder lançada em 2021.

Enquanto o mundo vive o luto pela morte do Superman, Bruce Wayne e Diana Prince percebem que uma grande ameaça alienígena organiza um ataque à Terra e reúnem os metahumanos que descobriram existir durante os eventos de A Origem da Justiça. Vindos do planeta Apokolips governado pelo lendário tirano cósmico Darkseid, os parademônios e seu comandante, Lobo da Estepe (Steppenwolf), começam a sequestrar cientistas pelo planeta em busca da Caixa Materna, um poderoso artefato cósmico esquecido na Terra milhares de anos antes em uma batalha de Apokolips contra a humanidade com o reforço dos Deuses Gregos, das Amazonas, dos Atlantes e da Tropa dos Lanternas Verdes. Forjando uma frágil aliança, Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Aquaman e Ciborgue se unem para tentar impedir que eles transformem a Terra em um planeta mais estéril e sombrio como Apokolips, mas suas forças não são o suficiente.
Isso leva o Batman a criar o plano maluco de usar o poder da Caixa Materna para ressuscitar o Superman, como último plano para impedir a catástrofe, mesmo sabendo das consequências sinistras deste ato. O plano dá certo e, embora o homem de aço volte dos mortos raivoso e fora de si, com o passar das horas ele recobra a consciência há tempo de se unir aos outros heróis e liderar a batalha final contra o Lobo da Estepe. Vencida a ameaça, os heróis decidem permanecer unidos como um grupo, nascendo a Liga da Justiça.

Nenhum outro filme de super-heróis teve um histórico de produção mais complicado e polêmico do que Liga da Justiça. O que devia ser a grande virada da DC Comics no cinema, o momento histórico em que seus famosos personagens – e convenhamos, os heróis da DC já eram mais conhecidos do público em geral do que os da Marvel desde sempre – se reuniriam na tela grande pela primeira vez… tudo transformado em um dos maiores fiascos da história recente do cinema. Simplesmente inacreditável. E como nosso foco aqui é o Batman, não podemos esquecer que as implicações desse fracasso para o cavaleiro das trevas foram imensas.

Para começar, Zack Snyder e Chris Terrio planejaram um filme grande dividido em uma trilogia baseada nas sementes plantadas em Batman vs Superman: uma invasão de Apokolips à Terra, os heróis lutando contra Darkseid e perdendo, Bruce Wayne e Lois Lane tendo um caso na esteira da morte do homem de aço (ela ficando grávida!), a Liga da Justiça ressuscitando o Superman para ter uma nova chance e perdendo de novo, Lois Lane sendo morta pelos vilões e o Superman ficando vulnerável à Equação Anti-Vida de Darkseid, ajudando o vilão a criar o futuro sombrio visto nas alucinações de A Origem da Justiça, a Terra sendo basicamente arrasada pelos vilões, os heróis sobreviventes se reunindo num plano para voltar ao passado e mudar os eventos, o Flash retornando no tempo e conseguindo avisar o Batman e os heróis vencendo com o sacrifício do cavaleiro das trevas. Clark Kent se reunindo a Lois e os dois criando o filho de Bruce, que será um novo Batman no futuro.
Esse era o plano que – ainda bem! – não pôde ser executado pela dupla.
A Warner ficou ressabiada com o mau resultado de Batman vs Superman e pediu um filme menor, menos sombrio, mas a verdade é que em nenhum momento Snyder e Terrio se dispuseram a cumprir essas exigências, mas ao mesmo tempo, não conseguiram definir claramente sobre o que era o primeiro filme… De novo, Snyder tentou “engabelar” a Warner, criando o roteiro para um filme de 4 horas de duração e se preparando para filmá-lo, algo que o estúdio não concordou. Mas era um barco muito caro, portanto, ele continuou a navegar mesmo com todos esses problemas.

Também ficou acertado que o longa iria preparar o terreno para uma nova série de filmes solo do Batman, que seriam escritos, dirigidos e estrelados por Ben Affleck. Por causa disso, Affleck foi elevado à categoria de produtor executivo de Liga da Justiça, o que teoricamente lhe dava poder de decisão criativa e de veto.
Os atores foram reunidos e as filmagens iniciaram em abril de 2016, ao mesmo tempo em que a DC Films ia sendo estabelecida com o quadrinista Geoff Johns na presidência, ao lado do produtor Jon Berg. Enquanto as declarações do estúdio – e de Johns – eram de que Liga da Justiça seria mais linear e simples e com temática mais otimista, não era isso o que estava no roteiro de Snyder-Terrio nem no conteúdo das filmagens, que continuavam escuras e densas, carregadas de filtros, no mesmo estilo do anterior. Os executivos começaram a perceber isso na medida em que provas das filmagens chegavam aos escritórios e ficaram muito preocupados.

Foi feito um acordo tácito entre a Warner, a DC Films de um lado e Snyder do outro de que a trama da morte de Lois Lane seria deixada para o segundo filme, o que fazia Liga da Justiça – Parte 1 (como o longa era chamado então) mais focado nos heróis lutando contra Darkseid e vendo que não conseguiam vencer, decidindo ressuscitar o Superman, com a volta do homem do amanhã garantindo o prometido “tom de esperança e positivo” que o estúdio tinha fé em incluir. Em algum momento, também, decidiram não “gastar” Darkseid logo na Parte 1 e – no que se provou um equívoco fenomenal – tiraram-no do filme e, no seu lugar, colocaram seu lacaio Steppenwolf como o inimigo físico que os heróis precisavam enfrentar.
Isso terminou colocando os mais famosos heróis do mundo se reunindo para enfrentar um personagem sem expressão, um erro praticamente imperdoável que aparentemente ninguém se deu conta.

A subversão de Snyder de filmar muito mais do que o filme “comportava” (com seu plano de 4 horas em mente) fizeram as filmagens se arrastarem pela maior parte do ano de 2016. Em algum momento no meio das gravações a Warner assistiu um compilado de cenas ficou estarrecida: não era nada do combinado, o filme continuava sombrio, arrastado, denso, duro e ininteligível. Numa decisão polêmica, mas algo padrão em Hollywood, Geoff Johns foi encarregado de reunir “comitê consultivo” de cineastas e escritores, com nomes como Joss Whedon (diretor dos dois primeiros filmes dos Vingadores e que tinha acabado de sair da Marvel após algumas divergências e chegava à DC para dirigir um filme da Batgirl), Allan Heiberg (roteirista de Mulher-Maravilha, que também estava em produção), Seth Grahame-Smith (contratado para dirigir The Flash) e Andrea Berloff (roteirista que tinha sido indicado ao Oscar no ano anterior por Straight Outta Compton). O comitê passou a reescrever o roteiro de Liga da Justiça para lhe dar um tom mais otimista e leve.
Chegou ao tenso ponto em que Snyder filmava várias versões da mesma cena ao mesmo tempo com seu estilo e com as indicações do comitê para que fossem escolhidas depois na edição. As filmagens terminaram no fim do ano e Snyder ficou responsável por montar um copião para que os executivos e o comitê assistissem a versão prévia do longa (ainda sem os efeitos especiais). O veredito do estúdio, quando isso aconteceu por volta de fevereiro de 2017, foi: o filme era impossível de assistir… ininteligível, sem foco, confuso e repetindo todos os mesmos erros de A Origem da Justiça, com personagens e tramas demais que não se entendiam. E o pior, como era esperada uma sequência, nenhuma das inúmeras subtramas do longa eram resolvidas, deixando o filme com cara de inacabado.

De imediato, o estúdio contratou Joss Whedon para reescrever o roteiro de modo que Snyder fizesse extensas refilmagens para ajustar o tom e os temas. O diretor relutou e resistiu, mas em Hollywood, quem é dono dos porcos (a Warner), manda. Era aceitar ou cair fora. De início, Snyder aceitou e os trabalhos de planejamento começaram, mas era impossível reunir os atores (todos famosos e em momentos de ápice em suas carreiras) em um tempo hábil, afinal, estavam todos muito ocupados, o que jogou a previsão das refilmagens para julho e agosto, um prazo exíguo demais, pois o lançamento estava agendado para novembro de 2017.
Nos embates que se seguiram, o clima ficou muito tenso. Muito tenso mesmo. E então, em março de 2017, a filha de Snyder se suicidou. O diretor de início mergulhou no trabalho para compensar sua dor, mas com o clima péssimo no estúdio e vendo sua criatividade tolhida, decidiu jogar a toalha e se demitiu.

A Warner viu a ação com alívio, pois era o que esperava. Então, designou Joss Whedon (que já estava reescrevendo o roteiro) para assumir a direção das refilmagens. Whedon aceitou pensando que a data de estreia seria adiada para março de 2018 e, com isso, ele refilmaria mais de 60% do filme e ganharia o crédito de diretor (pois essa é uma regra pétrea do sindicato dos diretores). Se refizesse menos do que isso, não ganharia o crédito.
A notícia da demissão de Snyder não foi publicizada e Whedon oficialmente era apenas um novo roteirista, mas as refilmagens começaram a ocorrer ao longo dos meses de julho, agosto e setembro, feitas de modo picotado ao sabor das agendas dos atores.

As refilmagens foram tensas e marcadas de conflitos. Aparentemente, Ben Affleck não estava feliz com o conteúdo apresentado por Whedon, preferindo o tom de Snyder. Para piorar, ele estava tendo problemas em acertar o passo com o filme do Batman, sentindo a pressão de carregar um personagem tão importante com tanta atenção em cima de si. Affleck era, para todos os efeitos, um cineasta independente, e trabalhar (como diretor e roteirista) sob a égide de um grande estúdio e de uma franquia o deixou muito desconfortável. Gradativamente, ele começou a ter problemas com álcool, um “detalhe” que acompanhou toda a sua vida adulta. Seu casamento com a atriz Jennifer Gardner também acabou no processo.

Ray Fisher e Gal Gadot revelaram em depoimentos futuros insatisfação com o comportamento abusivo de Joss Whedon, com o diretor acusado de comentários racistas e machistas, e Fisher mais tarde faria uma grande campanha contra ele, exigindo punição, no que foi corroborado por outros membros da equipe técnica (mas não dos atores), inclusive, reclamando da postura condescendente de Johns e Berg.
Neste ponto houve um grave problema: Henry Cavill, que tinha um papel protagonista como o ressuscitado Superman, estava filmando Missão Impossível – Efeito Fallout, e para o papel ostentava barba rala e bigode. Ele até podia comparecer às refilmagens, porque as gravações deste estavam suspensas devido a um machucado da estrela Tom Cruise, contudo, era impedido por contrato a raspar o bigode (é assim que Hollywood funciona). No que terminou sendo um enredo rocambolesco, o diretor Christopher McQuarrie autorizou Cavill a raspar o bigode para participar das refilmagens de Liga da Justiça, desde que a Warner pagasse 5 milhões de dólares à Paramount para incluir uma barba digital no rosto do ator quando ele voltasse a filmar em algumas semanas. Mas quando os executivos da Paramount descobriram o acordo, negaram veementemente e ameaçaram aplicar uma multa contratual caso Cavill raspasse seus pêlos!

Como resultado, o processo teve que ser inverso: Cavill compareceu às regilmagens de Liga da Justiça com bigode para que os técnicos de efeitos especiais o tirassem na pós-produção. Assim foi feito, mas por um motivo nunca inteiramente esclarecido, a Warner bateu o pé em não adiar o lançamento do longa, mantendo a data de novembro de 2017! Isso quando as filmagens do filme – um blockbuster carregado de efeitos especiais em todas as cenas e cujo o (inexpressivo) vilão principal era inteiramente construído de modo digital – se encerram em setembro! A maior explicação para o não adiamento é que, como a Warner Bros. foi comprada pela AT&T na época, se o filme não fosse lançado naquele ano, os executivos não receberiam seus dividendos correspondentes, precisando renegociá-los sob o teto da nova proprietária.
Como resultado, Liga da Justiça chegou aos cinemas do mundo em novembro de 2017 como um filme inacabado. Como as refilmagens de Whedon não atingiram a marca de 60%, ele não foi creditado como diretor, apenas como roteirista, e também (sejamos justos) não entregou o filme que planejou, pois não houve tempo para isso. A questão dos créditos gerou alguma polêmica em Hollywood, pois o diretor de fotografia original, Fabian Wagner, disse que apenas 10% do material que fez com Snyder foi usado, ao passo que o registro do estúdio mostra que Whedon escreveu 80 páginas de roteiro. (Na conta de Hollywood, cada página tem mais ou menos 1 minuto de filme e como o filme tinha 120 minutos…). Chris Terrio chamou o resultado final do filme de “vandalismo” e tentou na justiça ter seu nome tirado dos créditos, algo que não conseguiu, por causas das confusas regras de autoria de Hollywood.

Os efeitos especiais da versão do cinema eram capengas, o filtro avermelhado aplicado para clarear o azul escuro de Snyder ficou muito artificial e, o pior de tudo, cobrir o bigode de Cavill gerou uma boca virtual horrorosa para o Superman, o maior “defeito” especial que um filme de primeira linha já ostentou. Algo vergonhoso e inacreditável!
Whedon adicionou humor ao filme e algumas cenas mais “humanas” – uma das quais acho interessante, é um flerte entre o Batman e a Mulher-Maravilha, na qual ela o ajuda com alguns ferimentos (destacando que ele é apenas um homem) e há uma conversa meio íntima entre os dois, o que mostra o potencial da história se fosse feita em outras condições – e refez todas as cenas do Superman, para lhe dar um ar mais otimista e luminoso, o que, no fim, resultou que o personagem tem aquela boca torta e artificial em todas as cenas em que aparece! E o filme ainda é um Frankstein, pois não se resolve enquanto tom e história, mesclando de modo bizarro os estilos tão distintos de Snyder e Whedon.

O resultado é um filme ainda confuso e sem brilho, com uma história direta, mas sem coração e uma ameaça genérica e sem graça demais para justificar a união de Superman, Batman, Mulher-Maravilha e companhia.
O resultado foi expresso imediatamente: embora a Warner esperasse uma estreia de 120 milhões no primeiro fim de semana nos EUA (uma expectativa modesta, em vista dos problemas de produção), Liga da Justiça arrecadou apenas US$ 93,8 milhões, ou seja, 45% a menos! Em comparação, lembre que Batman vs Superman arrecadou 166 milhões no fim de semana de estreia, quase o dobro! No segundo final de semana, a bilheteria nos EUA caiu para 41,1 milhões apenas. No mundo inteiro, a arrecadação total de Liga da Justiça foi de apenas US$ 657,9 milhões, abaixo de Batman vs Superman, de Esquadrão Suicida e de Mulher-Maravilha (que estreou em junho do mesmo ano). Foi o maior fracasso da história da DC nos cinemas em vista da importância do longa!
O fracasso comercial do longa e a insatisfação do público terminaram por condenar o DCEU à morte já no seu nascimento. Dali em diante, a Warner não conseguiu mais acertar seu passo (se é que acertou em algum momento) e tudo desandou. Os filmes individuais dos membros da Liga da Justiça desandaram, como The Flash passando pelas mãos de meia dúzia de diretores antes de ser lançado no longíquo 2023, Mulher-Maravilha 1985 saindo em meio à pandemia de Covid-19, em 2021, como um fracasso de público e crítica, e apenas Aquaman (2018) sendo bem sucedido, sendo o único de todos os filmes do DCEU a ultrapassar a marca de 1 bilhão nas bilheterias.
Superman e Batman tiveram filmes individuais planejados que nunca se concretizaram e restou à DC investir em peças menores, como Shazam! e Aves de Rapina – Arlequina e sua Fantabulosa Emancipação, para surfar na popularidade de Margot Robbie a questionável decisão de fazer uma mistura de reboot com sequência com O Esquadrão Suicida, dirigido e escrito por James Gunn (advindo da Marvel com Os Guardiões da Galáxia).

Em paralelo, um grupo de fãs de Zack Snyder (discretamente incentivados por ele mesmo via redes sociais) iniciou uma ruidosa campanha na internet de release The Zack Snyder’s Justice League, o que rendeu anos e anos de postagens e discussões nas redes. Mas no fim, com a eclosão da pandemia em 2020 e a impossibilidade de lançar material novo (ou produzi-los), a Warner (que mudou de direção novamente no meio do caminho, comprada pela Discovery) terminou cedendo e lançou a chamada Snyder Cut no formato online no streaming do HBO Max em 2021, pagando 70 milhões ao diretor para finalizar o filme, que resultou em 4 horas de duração em tom escuro e um Superman com uniforme preto em vez de azul.
A versão de Snyder é melhor do que a do cinema, com a história fazendo mais sentido e ganhando mais peso com a adição de Darkseid nos bastidores (se não como oponente físico), mas carece dos mesmo problemas de não-solução da trama de seu predecessor e o Steppenwolf (bem mais assustador do que a versão anterior, é verdade) ainda sem justificar a reunião da Liga da Justiça.
Sequências e Projetos Não-Realizados: O Fim do DCEU
O maior prejudicado imediato com o fracasso de Liga da Justiça foi o Superman. Os executivos da Warner perderam a fé no personagem e a boca mal feita digital do homem de aço manchou a reputação cinematográfica do personagem e do ator Henry Cavill.
Porém, antes do lançamento de Liga da Justiça houve esperança. Após o lançamento de Batman vs. Superman – A Origem da Justiça e com Liga da Justiça em produção, começou efetivamente a pré-produção de uma sequência para O Homem de Aço. Quando a Warner anunciou seu cronograma de 12 filmes, a sequência estava nos planos, embora sem uma data definida. Mas em agosto de 2016 a roda começou a girar e o estúdio começou a ouvir propostas para a continuação.

O que mais avançou nesse quesito foi Matthew Vaughn (de Kick-Ass e Kingsmen), diretor britânico que foi aclamado por X-Men – Primeira Classe (2011) e que queria muito desenvolver um filme do Superman. Inclusive, ele já havia apresentado um pitch (como dissemos lá em cima) ao lado do quadrinhista escocês Mark Millar com a proposta de uma nova trilogia de filmes, mas o estúdio optou por desenvolver o que virou O Homem de Aço. Sabendo do interesse, Vaughn foi convidado de novo e, em março de 2017, apresentou uma proposta de sequência para O Homem de Aço, com Henry Cavill e Amy Adams continuando as histórias dos personagens após os eventos de Liga da Justiça, mas com uma abordagem diferente de Zack Snyder, mais luminosa, mais focada na esperança que o último filho de Krypton significa para as pessoas. Vaughn foi incentivado a desenvolver sua ideia, mas após o lançamento de Liga da Justiça, em novembro de 2017, o estúdio parou tudo. O projeto de uma sequência saiu dos planos.
Henry Cavill não desistiu da ideia e continuou a procurar parceiros e criadores para desenvolver projetos que convencessem a Warner a retomar o Superman, mas esbarrava na apreensão do estúdio. Um desses foi o diretor e roteirista Christopher McQuarrie, com quem Cavill trabalhou em Missão Impossível – Efeito Fallout, que apresentou um pitch para a Warner em julho de 2018, mas o estúdio não aceitou. No final de 2018, a Warner convidou o diretor James Gunn para produzir o filme que quisesse na DC Entertainment e tentou convencê-lo a desenvolver um novo longa do Superman. Gunn havia sido demitido do Marvel Studios pela Disney após uma série de tweets ofensivos antigos virem à tona e a Warner não perdeu tempo. Gunn amava o homem de aço, mas não conseguiu se conectar o suficiente para criar uma história e dispensou o projeto, indo fazer O Esquadrão Suicida, que sairia em 2021.

Ao mesmo tempo, a relação de Cavill com a Warner azedou de vez em setembro de 2018 quando o ator não aceitou as condições de um contrato para que ele fizesse uma ponta numa cena pós-créditos de Shazam!. O estúdio gravou a cena com um dublê sem que o rosto do personagem aparecesse (na cena, Billy Baston leva o Superman até a escola do amigo Fred Freeman para levantar a bola do amigo). Desse ponto em diante, a Warner considerava que a “temporada” de Cavill havia encerrado – assim como a Ben Affleck no Batman – e começou a procurar um substituto para o papel, enquanto Cavill prosseguia tentando viabilizar seu retorno ao personagem.

A Warner abriu de novo uma chamada para ouvir grandes criadores sobre o Superman, e o célebre ator Michael B. Jordan (de Creed e Pantera Negra) fez um pitch de um filme com uma versão negra do Superman a ser estrelado por ele, o que o estúdio gostou bastante e tentou envolver o diretor e roteirista J.J. Abrams (que escrevera o roteiro de um dos projetos não-realizados, lembram?) e a ideia deu alguns passos.

Porém, Cavill encontrou um forte aliado em Dwayne “The Rock” Johnson, um dos atores mais populares daquela época e um grande campeão de bilheteria, sendo um dos poucos atores que atraíam público apenas por seu nome, independente do filme ou da história. Naquele ponto, fazia anos que Johnson negociava com a Warner para viver o personagem Black Adam (Adão Negro), uma contraparte maligna do Shazam. De início, Adão Negro seria o vilão do filme sobre Billy Batson, mas os produtores acharam melhor separar as coisas e criar um filme próprio para Johnson estrelar. A Warner estava muito confiante nisso, por causa da força de The Rock, e Cavill se aliou a ele para vincular o Adão Negro e o Superman. A ideia de fazer o filme de Black Adam com ele contra o Superman circulou com força nos corredores da Warner, mas o estúdio preferiu desenvolver o personagem (desconhecido do grande público) primeiro, então, ficou acertado que a sequência de Black Adam seria algo como Adão Negro versus Superman.
Com isso, Cavill conseguiu um novo contrato e fez uma participação especial no filme Adão Negro, que estreou em outubro de 2022, com os dois se encontrando numa cena pós-créditos que foi mantida em segredo até o lançamento. Naquele ponto, Cavill conseguiu dar início ao desenvolvimento de um novo filme do homem de aço e a Warner queria um grande diretor envolvido, de preferência Christopher McQuarrie, embora ele estivesse bastante ocupado com a franquia de Missão Impossível de Tom Cruise. Steven Knight, famosíssimo por ter criado a série de TV Pinky Blinders, criou um tratamento de roteiro para o filme, mas o estúdio não se empolgou e pediu mudanças. O diretor Andy Muschetti, que estava filmando The Flash na época, emergiu como um forte candidato a assumir o novo filme do Superman, querendo (assim como Vaughn) restituir o tom do filme de Richard Donner, e em vista desse arranjo, e de uma demanda de roteiro, Cavill gravou uma participação especial em The Flash, que traria o velocista da DC viajando por diferentes realidades e teria a Supergirl fazendo sua estreia no DCEU num papel de destaque.

Então, em outubro de 2022, a Warner anunciou uma reestruturação que criava o DC Studios (no lugar da DC Films) com James Gunn e Peter Zafran como CEOs para recriar o (renomeado) DCU. Henry Cavill se animou para desenvolver seus projetos com o Superman (envolvendo Knight e Muschietti ou McQuarrie), mas a ideia de Gunn era fazer um reboot total e reiniciar o Universo DC nos cinemas do zero. Era o fim da linha para Henry Cavill e seu Superman.
Por causa disso, a participação do ator em The Flash, que saiu em 2023, foi cortada, para não gerar expectativa em cima de algo que não iria mais acontecer. Aquaman – O Reino Perdido foi o último filme do velho DCEU e tanto ele quanto The Flash foram dois imensos fracassos.

O DCU
O plano de James Gunn era começar o Universo DC nos cinemas desde o início e ele mesmo assumiu o roteiro e a direção de Superman – Legacy, o filme que daria início a essa nova fase. O longa perdeu o subtítulo Legacy bem rápido e virou apenas Superman, estrelado por David Corenswet.




Que grande artigo, Irapuan, tão profundo qto abrangente! Já se programou pra ver? Depois solta sua critica aqui. Pelas primeiras impressões dos canais de cultura nerd esta versão parece ser a mais inspirada em quadrinhos dentre todas as adaptações cinematográficas, estou animado. Abraço! 👋
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Obrigado, Jorge. Sim, pretendo assistir esses dias. Tenho lido isso também. Espero que sim. Vamos ver. Espero que dialogue com o público. Vamos ver e trocar nossas impressões por aqui. Abração!
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