O Superman em visual atual, por Jim Lee.
O Superman em visual atual, por Jim Lee.

Existem personagens que têm uma só origem. O conto de oito páginas de Stan Lee e Steve Ditko sobre como Peter Parker se tornou o Homem-Aranha permanece intocável dentro do cânone do mais popular herói da Marvel; do mesmo modo, apesar das reformulações cronológicas da DC Comics, a origem do Batman escrita por Frank Miller e David Mazzucchelli em 1987 não contradiz em nada a origem de Bob Kane e Bill Finger de 1939, e também, ambas não foram alteradas pelo recente reboot da DC, que começou em agosto de 2011 e ainda está em seus primeiros capítulos.

Este definitivamente não é o caso do Superman.

O mais icônico dos heróis, o primeiro de todos, aquele que criou a Era de Ouro dos Quadrinhos e deu a largada ao gênero de super-heróis, já teve várias origens diferentes contadas ao longo de seus 75 anos de publicação, desde que os quase adolescentes Jerry Siegel e Joe Shuster o criaram, em 1938.

Obviamente, alguns elementos fundamentais permanecem inalterados desde os tempos das primeiras histórias de Siegel e Shuster, como Kal-El ser o último filho do planeta Krypton: à beira do cataclisma, o cientista Jor-El envia à Terra o seu único filho, na esperança de que ele sobreviva e faça o bem. Na Terra, o jovem Kal-El cai em Smallville no Estado do Kansas e é criado por um casal de fazendeiros chamados Jonathan e Martha Kent, que o batizam como Clark. As condições geocósmicas distintas entre Krypton e a Terra proporcionam ao jovem superpoderes fantásticos, como força centenas de vezes maior do que a humana, supervelocidade e a capacidade de voar, entre várias outras.

No meio disso, contudo, muita coisa mudou ao longo das décadas. Em continuação a nosso dossiê sobre o Superman (leia aqui), o HQRock apresenta, agora, as várias origens do Superman:

Era de Ouro

A rapidíssima origem do Superman em Action Comics 01, de 1938.
A rapidíssima origem do Superman em Action Comics 01, de 1938.

Poucos detalhes da origem do Superman foram reveladas em suas primeiras histórias. Action Comics 01, de 1938, mostra que ele nasceu em um planeta à beira da destruição e é enviado para a Terra em uma nave espacial. Mas com o passar do tempo, se consolidou a premissa de que Clark Kent se criou no interior e, após a morte dos pais adotivos, se mudou para Metrópolis, onde se tornou o Superman. Não foram dadas muitas pistas de alguns detalhes, como por exemplo, qual era o planeta de onde veio ou porque ele se tornou o Superman.

Alguns fatos contradizem o que se convencionou posteriormente, como o fato de que a nave do bebê é encontrada por um motorista anônimo que entrega o bebê a um orfanato, onde é adotado por uma família.

A primeira aventura do herói mostra o primeiro encontro entre o Superman e sua futura namorada, Lois Lane, em Action Comics 01. A história já estabelece uma premissa que seria válida na maioria das interpretações do herói dali em diante: Lois Lane apaixonada pelo heróico Superman, não percebe que ele é o pacato, covarde e desastrado Clark Kent, que é seu parceiro de reportagens no Planeta Diário, ignorando-o.

Mais tarde, a própria DC criou uma série de contradições ao publicar as histórias do Superboy, uma versão adolescente do herói, mostrando Clark Kent agindo com seus poderes – e seu uniforme – desde a tenra juventude. Nessas histórias é que foram dados pela primeira vez detalhes de sua juventude, como a própria cidade de Smallville, o nome de seus pais dotivos (Jonathan e Martha) e seus amigos: sua paixão da adolescência, Lana Lang, e seu melhor amigo Pete Ross. Alguns de seus vilões também foram transpostos para essa realidade, como Lex Luthor, já careca em sua adolescência!

O primeiro encontro com Lois Lane.
O primeiro encontro com Lois Lane.

Essa contradição fundamental entre um herói que já começou a agir adulto (conforme é dito nas primeiras aventuras publicadas) e outra versão paralela em que havia o Superboy obrigou à primeira reformulação cronológica do Superman e mudanças na sua origem. É tal reformulação que marcaria a passagem do personagem para a Era de Prata.

Os pais do Superman (a dir.) demoraram para ter versão definida.
Os pais do Superman (a dir.) demoraram para ter versão definida.

As primeiras histórias do Superman, publicadas em Action Comics em 1938 e 1939, traziam pouquíssimas informações sobre a origem do herói. Em Action Comics 01, sua origem é resumida em uma única página, que explica “cientificamente” seus poderes e apenas informa que ele veio de outro planeta e que tem o organismo diferente, parecido com o humano, porém, mais evoluído.

Os nomes dos pais adotivos de Clark Kent mudaram algumas vezes nos anos seguintes. Em uma tira de jornal escrita por Jerry Siegel (o criador do personagem) e desenhada por Russel Keaton em 1935 (antes da publicação do personagem em Action Comics 01, três anos depois) e que jamais foi publicada (e que só foi descoberta recentemente em meio ao processo judicial dos herdeiros do escritor pela posse dos direitos autorais do personagem contra a DC Comics e a Warner Bros.), os pais do personagem são chamados de Sam e Molly Kent. Mas isso nunca veio ao público, então, não conta.

"Superman 146", de 1961, consolida a cronologia do herói na Era de Prata.
“Superman 146”, de 1961, consolida a cronologia do herói na Era de Prata.

A revista Superman 01, de 1939, trouxe uma versão um pouco ampliada da origem do herói (apenas aumentando aquilo já publicado em Action Comics 01, um ano antes) e apresenta apenas o nome de Mary Kent como sua mãe adotiva. Outras histórias posteriores terminaram chamando seu pai de John, dando-lhes os nomes mais comuns da Terra. O famoso livro Adventures of Superman, de 1942, por George Lowther – que por muito tempo foi considerado “oficial” – trazia os nomes de seus pais como Eben e Sarah Kent, os mesmos que apareceram na série de TV The Adventures of Superman, a partir de 1952, com George Reeves no papel do herói.

Um retrato do jovem casal Martha e Jonathan Kent na Era de Prata.
Um retrato do jovem casal Martha e Jonathan Kent na Era de Prata.

A revista Superman 53, de 1948, edição comemorativa dos 10 anos do personagem, estabeleceu oficialmente os nomes como John e Mary Kent. Contudo, pouco depois, as histórias do Superboy trouxeram seu pai sendo chamado de Jonathan em Adventures Comics 149, em 1950, e logo em seguida, sua mãe como Martha em Superboy 12, de 1951. A partir de então, se convencionou mostrar o casal Kent como dois velhinhos pacatos que poderiam ser avós de Clark.

No entanto, afora as mudanças nos nomes dos pais, os elementos básicos da origem do Superman se mantiveram na Era de Ouro, como sua origem caipira; Clark Kent como sendo um jornalista desastrado; Lois Lane apaixonada pelo Superman, mas não por Clark; e o retrato de Krypton como uma utopia futurista. Também havia vários tipos de kryptonita (a fraqueza do herói), variando seus efeitos a partir da cor: verde, vermelha, azul, amarela, dourada, rocha, preta, cinza etc.

Lex Luthor em sua estreia, ainda com cabelos ruivos.
Lex Luthor em sua estreia, ainda com cabelos ruivos.

O grande vilão Lex Luthor apareceu cedo no cânone do Superman, mas inicialmente era retratado como um cientista de cabelos ruivos. Depois de um tempo – e por um erro de um desenhista – terminou sendo representado como calvo, o que se tornou a sua marca a partir de então. O Lex Luthor da Era de Ouro (e do Era de Prata, também) era o típico “cientista louco” dos quadrinhos, sempre fugindo da cadeia para tentar um novo grande plano.

Era de Prata

A clássica história de Siegel: "Retorno a Krypton", com o herói encontrando sues pais, Jor-El e Lara.
A clássica história de Siegel: “Retorno a Krypton”, com o herói encontrando sues pais, Jor-El e Lara.

No início dos anos 1960, a DC decidiu organizar a cronologia do Superman e os escritores Jerry Siegel e Otto Binder foram os responsáveis por organizar todos os principais eventos da vida do personagem e colocá-los em uma lógica cronológica. O que foi feito foi, na verdade, ajustar a realidade do Superman à do Superboy, de modo que ficou oficializada as duas versões do personagem, adulto e adolescente.

Siegel e Binder também definiram alguns pontos fundamentais: Jor-El era o principal cientista de Krypton e alerta a todos do fim iminente do planeta, mas ninguém acredita nele; o jovem Kal-El é enviado à Terra não como um bebê, mas como uma criança de três ou quatro anos, para explicar porque ele tinha lembranças de seu antigo mundo; na Terra, cai em Smallville e é adotado por Jonathan e Martha Kent, que escondem o seu segredo; em Smallville, Clark convive com Lana Lang e Pete Ross, bem como com um jovem Lex Luthor; Clark age como Superboy desde cedo; quando seus pais morrem, ele muda-se para Metrópolis e passa a ser conhecido como Superman; conseguindo um emprego no Planeta Diário, conhece a repórter Lois Lane, o fotógrafo Jimmy Olsen e o editor Perry White; Luthor também adulto, é o maior cientista da Terra e um grande inimigo da humanidade.

A Lana Lang ganhou mais destaque como namoradinha do Superboy.
A Lana Lang ganhou mais destaque como namoradinha do Superboy.

Uma das histórias de Jerry Siegel – Retorno a Krypton, de 1961 – inclusive mostra que Jor-El não só escolheu a Terra para abrigar seu filho Kal-El, como também escolheu o casal Jonathan e Martha Kent para adotá-lo, direcionando a eles o foguete que transportou seu filho.

Na mesma época, o Superman passou a interagir mais com os outros heróis do Universo DC, formando a Liga da Justiça com Batman, Flash, Lanterna Verde, Mulher-Maravilha etc. Aproveitando isso, a DC aproveitou para explicar o porquê das antigas contradições cronológicas.

Nos anos 1940, o Superman tinha interagido com a Sociedade da Justiça, bem como com as velhas versões de Flash e Lanterna Verde. Esses dois heróis tinham ganhado novas versões que não tinham praticamente nada a ver com as antigas e como explicar isso? A DC criou, então, o conceito de Multiverso, na qual existiam universos paralelos com realidades paralelas. Com isso, na “nossa” realidade, chamada de Terra-1, havia a versão que conhecíamos do Superman e da Liga da Justiça, mas existia a Terra-2 na qual o Superman não foi o Superboy e começou a agir já adulto, interagindo com a Sociedade da Justiça.

Na Terra-2, além dos heróis da “velha guarda”, como as velhas versões de Flash e Lanterna Verde, havia versões mais velhas do Superman e do Batman.

O elenco da Era de Prata: definindo a cronologia.
O elenco da Era de Prata: definindo a cronologia.

Voltando à Terra-1, que é o que realmente importa em termos de cronologia, a Era de Prata organiza todo o cânone do Superman e é a grande referência até hoje, principalmente, porque grande parte dos escritores de quadrinhos da atualidade começaram a ler nessa época suas aventuras. Dentre esses elementos estão as versões de Lex Luthor como cientista louco; Brainiac como um robô de aparência humana e verde; a Fortaleza da Solidão com uma imensa chave dourada na porta; a Cidade Engarrafa de Kandor, oriunda do planeta Krypton, feita miniatura por Brainiac e com uma centena de milhares de kryptonianos dentro, sem poder sair etc.

Falando em kryptonianos, não podemos esquecer da Supergirl, que é apresentada como a prima do Superman e também sobrevivente de Krypton. Outros kryptonianos apareciam de vez em quando, como o General Zod, vilão que enfrentou primeiro o Superboy e, depois, se transformou em um dos principais oponentes do herói. E, por fim, havia Krypto, o supercão, o cachorro de estimação do bebê Kal-El, que também chegou à Terra.

Enfim, havia tantos kryptonianos na Terra na Era de Prata, que parecia que Jor-El e Lara eram os únicos que tinham morrido na explosão do planeta!

Siegel contou a origem da rivalidade com Lex Luthor em uma história do Superboy.
Siegel contou a origem da rivalidade com Lex Luthor em uma história do Superboy.

O vilão Lex Luthor ganhou mais profundidade na Era de Prata. O vilão foi incorporado às aventuras do Superboy, mostrando que Lex e Superboy eram amigos na adolescência. Uma história de Adventure Comics 271, de 1963, mostra a origem da rivalidade de ambos, quando um experimento de Lex dá errado e explode. No afã de conter o incêndio, o Superboy usa seu supersopro para conter as chamas, o que termina arrancando todos os cabelos do jovem ruivo. Por mais ridículo que possa parecer aos dias de hoje, nesta versão, o ódio do vilão contra o herói nasce da perda dos cabelos.

Era de Bronze

Superman - O Filme trouxe uma origem com diferenças.
Superman – O Filme trouxe uma origem com diferenças.

Não houve grandes modificações cronológicas no Superman na Era de Bronze. Apenas as aventuras do personagem passaram a ter um conteúdo um pouco mais adulto e crítico, a partir das histórias escritas por Dennis O’Neil e Elliot S. Magin, com desenhos de Curt Swan, Murphy Anderson e, mais tarde, Ross Andru, José Garcia-Lopes e Eduardo Barreto.

Na verdade, em vez de qualquer alteração significativa na origem, houve transformações no “presente” do herói, com o Superman se tornando menos poderoso do que antes, Clark Kent passando a ser âncora de televisão (em vez de repórter de jornal) e a kryptonita sendo extinta.

Um elemento importante da Era Bronze, que não pode ser esquecido e funciona como uma origem também, é Superman – O Filme, de 1978. Dirigido por Richard Donner, com história de Mario Puzzo (de O Poderoso Chefão) e roteiro final de Tom Mankiweickz. O filme, claro, simplifica a origem do herói para algo mais realista e linear, já que não se pode incorporar todos os elementos cronológicos na transposição dos quadrinhos para o cinema.

Marlon Brando como Jor-El.
Marlon Brando como Jor-El.

No filme, Krypton é mostrado como um planeta pacífico, estarrecido com as ações terroristas do General Zod e seus comparsas, que são julgados e condenados no início do longa. Marlon Brando interpreta uma versão firme e amorosa de Jor-El, o pai biológico do Superman. A ambientação de Krypton não seguiu os trâmites das HQs, em que o planeta aparece em tons futuristas à lá Jetsons. No cinema, Krypton tem uma aparência glacial e os objetos físicos são cristais, o que vai resultar, mais tarde, em uma Fortaleza da Solidão com a mesma aparência.

Na trama, Kal-El sai de Krypton como um mero bebê, mas chega à Terra como uma criança de uns três anos de idade, numa tentativa de se adequar à Teoria da Relatividade quanto às longas distâncias espaciais. Adotado por Martha e Jonathan Kent (com este vivido pelo velho galã Glen Ford) – um casal de idosos que não podia ter filhos (como nos quadrinhos) – Clark cresce na pacata Smallville sem despertar grandes suspeitas de seus colegas, mas vivendo como alguém meio isolado. A versão adolescente de Clark é vivida pelo ator Jeff East. A paixão por Lana Lang é rapidamente tratada em uma única cena (mas seria retomada em Superman III, de 1983).

General Zod (ao meio) e seus comparsas: filme definiu o personagem como o grande vilão.
General Zod (ao meio) e seus comparsas: filme definiu o personagem como o grande vilão.

No fim da adolescência, Clark vê seu pai morrer de um ataque cardíaco e esta é a motivação para seguir um impulso de ir ao norte. Um único cristal kryptoniano dá origem à Fortaleza da Solidão, onde o adolescente “conhece” seu pai, Jor-El, por meio de uma projeção holográfica capaz de responder perguntas. O filme estabelece que Clark passa anos treinando na Fortaleza (algo entre 10 ou 20 anos) e ao sair já é o Superman feito, agora, sim, interpretado por Christopher Reeve. Um Superman de 40 anos de idade parece ser o personagem do filme, já que as legendas iniciais mostram a cidade de Metrópolis em 1938, cortando em seguida para o planeta Krypton antes da destruição.

De qualquer modo, a origem do filme é bastante fiel aos quadrinhos de um modo geral. À exceção de que sua mãe, Martha, permanece viva, e que o Superman pode se “comunicar” com Jor-El por meio da Fortaleza. Um detalhe curioso é que, ao contrário das versões existentes, Kal-El não chega à Terra em um foguete, mas em uma moderníssima nave espacial em formato de estrela.

Também vale à pena anotar que Superman – O Filme estabelece que o símbolo do herói, o “s” no peito, é na verdade o brasão de sua família kryptoniana. As cenas em Krypton mostram os habitantes do planeta, quando em trajes formais, estampando diferentes símbolos no tórax. Cabe que o de Jor-El “parece” com a letra S. Na Terra, o símbolo é interpretado como um S, que leva Lois Lane a chamá-lo de Superman. Foi uma boa sacada do roteiro.

Superman se comunica com Jor-El na Fortaleza da Solidão.
Superman se comunica com Jor-El na Fortaleza da Solidão.

Outro aspecto interessante é que Superman – O Filme mostra uma cena, aparentemente sem sentido, de Jor-El atuando no julgamento de três criminosos, dentre eles, o General Zod (magistralmente interpretado por Terence Stamp). O sentido só veio em Superman II – A Aventura Continua, de 1980, onde Zod, Ursa e Non escapam de sua prisão na Zona Fantasma e vêm à Terra em busca do filho de Jor-El por vingança.

De grande sucesso, Superman II (dirigido não por Richard Donner, mas por Richard Lester) definiu Zod como o grande vilão do Superman, embora isso não tenha sido capitaneado nos quadrinhos senão 20 anos depois. Há uma versão de Superman II dirigida por Donner (disponível em DVD), que é melhor do que a versão original de 1980. (Leia a resenha do HQRock sobre o filme clicando aqui).

Alguns dos elementos dos filmes teriam grande impacto na cronologia dos quadrinhos anos mais tarde.

ERA SOMBRIA

O Superman de John Byrne.
O Superman de John Byrne.

O evento Crise nas Infinitas Terras, que modificou fundamentalmente a cronologia da DC Comics ocorreu no limiar da Era de Bronze para a Era Sombria. O megaevento transcorreu por 12 meses entre 1985 e 1986 e este último ano marca o lançamento de Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller e Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, dois do principais marcos iniciais da Era Sombria.

Assim, poderíamos dizer que Superman: O Homem de Aço, a minissérie de 1986, escrita e desenhada por John Byrne, que trouxe a nova origem do herói pós-Crise já ocorreu dentro da área de influência da Era Sombria, embora as histórias do Superman só iriam espelhar mesmo tais características um pouco mais tarde, já no início dos anos 1990, tendo como marco simbólico a própria A Morte do Superman, de 1992.

Um aspecto interessante é que, a partir de Crise nas Infinitas Terras, a origem do Superman passaria a ser mudada o tempo todo em vários aspectos. Vamos conhecer aqui as principais versões.

Superman: O Homem de Aço

"Superman: Man of Steel", a nova origem pós-Crise por John Byrne.
“Superman: Man of Steel”, a nova origem pós-Crise por John Byrne.

O Homem de Aço foi uma minissérie em quatro edições publicada em 1986 mostrando a nova origem do Superman pós-Crise nas Inifinitas Terras. Com textos e desenhos de John Byrne (o maior astro dos quadrinhos da época), a história estabelece uma série de diferenças ao cânone do Superman de então. A versão de Byrne humanizava o Superman, mostrando-o menos poderoso. Também acabava com o ridículo mistério em torno de sua identidade secreta: como não usava máscara, ninguém pensava que o Superman tinha uma identidade secreta, o que ajudava Clark Kent a manter o anonimato. Assim, Clark não precisava ser desastrado ou atrapalhado. Ao contrário, era um ex-jogador de futebol – o que explicava seu corpão e seu porte – e o melhor repórter do Planeta Diário em competição com Lois Lane. Nesta versão, Clark Kent se tornava o real personagem, enquanto o Superman era apenas uma máscara.

Lois Lane encontra Clark Kent na história de John Byrne.
Lois Lane encontra Clark Kent na história de John Byrne.

Lois Lane se tornou uma mulher mais moderna e madura. Nada da louca casamenteira dos anos 1960: alguém que ama o Superman, mas tem sua própria identidade e moral muito alta. Também fica definido que é Lois quem batiza o Superman, usando este termo para se referir ao misterioso herói que salvou o avião experimental que estava caindo sobre Metrópolis, marcando a primeira aparição pública do homem de aço.

Uma curiosidade é que esta primeira aparição foi sem um uniforme, que o herói só cria após ter sido “descoberto”, após anos agindo secretamente às sombras. Assim como em Superman – O Filme, a história de Bryne estabelece o “s” como um símbolo kryptoninano que é interpretado como uma letra aqui na Terra.

Lois Lane encontra um Lex Luthor ainda com cabelos.
Lois Lane encontra um Lex Luthor ainda com cabelos.

Lex Luthor, por sua vez, deixou de ser o “cientista louco” de sempre para se tornar um empresário corrupto, mas de “ficha limpa”, adorado pelo público, esmagando quem ouse ficar em seu caminho, mas sempre conseguindo se livrar de qualquer acusação, quando elas surgem. Mais ou menos como o Rei do Crime nas histórias do Homem-Aranha e do Demolidor na concorrente Marvel Comics.

Lex Luthor já calvo por John Byrne.
Lex Luthor já calvo por John Byrne.

Nesta versão, o personagem é muito mais velho do que o Superman e inicialmente é ruivo e calvo, perdendo os cabelos rapidamente após o aparecimento do Superman. Numa metáfora da versão da Era de Prata, Luthor se torna calvo por causa do estresse causado pelo homem de aço às suas atividades criminosas e ao risco de ser “desmascarado” pelo novo herói. Dentro dessa representação, claro, não há espaço para qualquer tipo de amizade ou conhecimento entre Lex e Clark Kent quando jovens, tal qual na versão antiga. Esse elemento, portanto, também foi eliminado.

Entre as decisões mais polêmicas de Byrne estava o fato de que Superman era realmente o último filho de Krypton, portanto, não existia nenhum outro kryptoniano no novo Universo DC, o que acabava com a Supergirl (ela nunca existiu nessa nova realidade), com a cidade engarrada de Kandor, com o General Zod e até com Krypto, o supercão. Também ficou estabelecido que Clark Kent só começou a agir como o Superman já adulto, não existindo, portanto, o Superboy. E entre todas as kryptonitas, apenas a verde passou a existir.

A nave de Kal-El decola de Krypton em seu momento final por John Byrne.
A nave de Kal-El decola de Krypton em seu momento final por John Byrne.

Além disso, é importante notar que, nesta versão, o Superman passa toda a juventude sem grandes pistas sobre suas origens. No primeiro capítulo de O Homem de Aço, vemos que Jonathan Kent só revela a Clark que o encontrou em uma nave espacial, quando o rapaz está no fim do colegial e se torna um campeão de Futebol Americano. A cena mostra as preocupações de Jonathan de que o filho faça bom uso de seus poderes. Embora em um sentido diferente, a cena ressoa aquela de Superman – O Filme, na qual pai e filho conversam sobre qual o sentido de seus poderes.

E um parêntese importante: na cronologia pós-Crise, os pais terráqueos do Superman, Jonathan e Martha Kent, permanecem vivos durante a carreira do herói, mudando radicalmente o status de órfão que o herói tinha desde sempre. 

Na cronologia criada por Byrne, somente após um ano de ação como o Superman em Metrópolis é que Clark descobre sua origem kryptoniana, quando um artefato de sua nave lhe passa todo o conteúdo da herança de Krypton.

O planeta Krypton, inclusive, é retratado como uma sociedade fria e tecnocrata, ao contrário da utopia futurista da Era de Prata. Na visão pós-Crise, Krypton é um planeta na qual as relações humanas são impessoais e os sentimentos são reprimidos e quase intolerados. Jor-El é uma exceção dentro desse sistema e mostra caloroso e amoroso com Lara, o que até a surpreende. Esse também é um dos motivos para mandar o bebê Kal-El para a Terra, pela admiração que o cientista tem da cultura terrestre.

O casamento de Lois e Clark em 1998: marco histórico.
O casamento de Lois e Clark em 1998: marco histórico.

No geral, O Homem de Aço foi muito bem recebida por público e crítica; e é uma história muito boa mesmo. Um clássico do personagem por um grande artista no auge de sua forma. Contudo, algumas das mudanças desagradaram bastante os fãs mais antigos, principalmente aquelas que eliminavam elementos como a Supergirl, Krypto, Kandor e Zod. Daí que houve várias tentativas posteriores de acrescentar esses elementos de volta ao cânone do Superman.

Vale ressaltar, por fim, que a cronologia estabelecida por O Homem de Aço continuou se desenvolvendo nas décadas seguintes, permanecendo válida até pelo menos 2003, quando O Legado das Estrelas (veja abaixo) trouxe transformações mais sérias. Ainda assim, O Homem de Aço e a cronologia que gerou continuou a valer até 2011, quando veio Os Novos 52 (também mais abaixo). 

Nesta cronologia, Lois Lane desiste de “perseguir” o Superman e termina se apaixonando e se envolvendo com Clark Kent, até que este revela sua identidade secreta para a amada, numa história de 1991. Pouco tempo depois, veio A Morte do Superman, em 1992, quando o herói foi dado como morto, embora, claro, tenha voltado em O Retorno do Superman, em 1993

Sem segredos em suas vidas, Clark Kent e Lois Lane terminaram se casando em 1998, nas comemorações dos 60 anos do personagem, numa edição especial com toda a pompa. 

Smallville

Smallville mostra Clark Kent adolescente no início.
Smallville mostra Clark Kent adolescente no início.

Como já vimos, outras mídias também influenciam bastante o cânone do Superman. E a série de TV Smallville foi outro desses casos. A produção focava na juventude de Clark Kent antes dele se tornar o Superman e fez um grande sucesso já em sua estreia, em 2001, terminando por durar nada menos do que 10 temporadas e só se encerrar em 2011.

Smallville apresenta, em seu Episódio Piloto, uma origem do Superman ligeiramente diferente daquela estabelecida nos quadrinhos. A principal adesão foi que a nave do pequeno Kal-El chegou à Terra camuflada em meio a uma chuva de meteoros. Era uma maneira de adaptar o episódio à modernidade, afinal, como o Governo dos EUA e a NASA não iriam perceber a queda de uma espaçonave no país? Outro aspecto interessante é que a série também tratou de definir bem claramente a geografia do homem de aço: estabelecendo a cidade de Smallville no centro do Kansas e Metrópolis como uma grande cidade do meio-oeste dos EUA, há cerca de 80 km de distância. Nos quadrinhos, Metrópolis sempre foi tratada como uma cidade da Costa Leste, vizinha à Nova York, por exemplo.

Smallville mergulha fundo na psiquê de Lex Luthor.
Smallville mergulha fundo na psiquê de Lex Luthor.

Apesar de fortemente influenciada pela versão de John Byrne sobre o universo do Superman, a série resgatou vários elementos da Era de Prata, principalmente no fato de Clark Kent e Lex Luthor serem amigos quando jovens. Na série, Luthor é cerca de seis anos mais velho do que Clark, mas os dois terminam se tornando amigos. O retrato do vilão é de um sujeito dúbio, com grande potencial para o bem, mas que termina atraído para o mal por uma série de fatores, dentre os quais a obsessão com os segredos em torno de Clark e a má influência de seu pai, Lionel Luthor, retratado como um empresário inescrupuloso e totalmente maligno.

Lionel Luthor é uma adesão importante de Smallville.
Lionel Luthor é uma adesão importante de Smallville.

A figura de Lionel Luthor – personagem inexistente nos quadrinhos, onde o pai do personagem era chamado de Jules na Era de Prata – foi outra adesão importante, estabelecendo-o como a grande influência que levou Lex ao “lado negro”. Aliás, um dos maiores trunfos de Smallville foi justamente em construir uma trágica história familiar em torno de Lex Luthor, de modo a embasar sua persona vilanesca posterior.

A 3ª Temporada é especialmente dedicada a explorar essas origens, mostrando que Lex chegou a ter um irmão mais novo, Julian, que morreu de forma inesperada. Lionel pensa que foi o próprio Lex, com inveja, quem assassinou o bebê e este é um dos motivos para o modo como trata o filho. Contudo, após uma série de reviravoltas, Lex termina descobrindo que foi sua própria mãe, Lena, quem matou a criança, para evitar que Lionel transformasse os irmãos em inimigos e concorrentes. O arrependimento terminaria por levá-la ao suicídio.

A série transforma o amigo Pete Ross em um afrodescendente, mas o personagem perdeu força ao longo dos episódios, sendo afastado após a 3ª Temporada. Lana Lang deixa de ser uma menina ruiva para se tornar uma morena com traços japoneses. E é introduzida uma personagem totalmente nova: Chloe Sullivan, uma colega de classe de Clark, apaixonada por ele e com o sangue jornalístico correndo nas veias. Eventualmente, ela é revelada como prima de Lois Lane, que por sua vez é introduzida mesmo na série na 4ª Temporada, portanto, conhecendo Clark muito antes dele se tornar o Superman, ao contrário do cânone dos quadrinhos.

Jonathan e Martha Kent em Smallville: mais jovens.
Jonathan e Martha Kent em Smallville: mais jovens.

Já os pais terráqueos de Clark, Jonathan e Martha, são rejuvenescidos nesta versão, diminuindo a distância cronológica entre eles. Aliás, o casal é bem jovem. Em dado episódio, um colega da escola diz a Clark que a mãe dele é “hot” (uma gata/ é quente). Com o desenrolar da série a personalidade da ambos é bastante explorada: Jonathan é a bússola moral que guia Clark, mas também é alguém meio destemperado e com um passado de juventude rebelde. Martha tem origens ricas e relações cortadas com a família por ter ficado em Smallville e casar com um pequeno fazendeiro. Em dado momento, Jonathan se candidata ao Senado Estadual do Kansas e tem como rival justamente o vilão Lex Luthor.

Jor-El e Zod são mostrado como amigos na juventude.
Jor-El e Zod são mostrado como amigos na juventude.

Em um panorama geral, Smallville procura se manter próxima em termos conceituais do universo criado em Superman – O Filme. Isso passa por questões estéticas – à exceção da nave que traz o bebê Kal-El, todo o resto da representação de Krypton e da Fortaleza da Solidão são baseados no visual do filme. Algumas questões lançadas no filme também fundamentam a história, a implícita relação passada de amizade entre Jor-El e o General Zod (insinuada em Superman – O Filme e em Superman II, mais ainda na versão de Richard Donner) é bastante explorada na Temporada 9 da série. A Zona Fantasma também tem um papel importante a partir da 7ª Temporada.

A formação da Liga da Justiça.
A formação da Liga da Justiça.

Assim como Jonathan Kent morre de ataque cardíaco na primeira parte de Superman – O Filme, tem destino semelhante em Smallville, morrendo no 100º episódio, na 5ª Temporada. Porém, num contexto diferente, após vencer as eleições para o Senado Estadual. Posteriormente, Martha Kent assume a vaga do marido no Congresso Estadual. A personagem começou a rarear suas participações na 8ª Temporada e na é revelado que ela, agora, era parte do Senado Federal, embora as novas eleições não tenham sido mostradas no seriado.

O Gavião Negro e o Arqueiro Verde se desentendem tal qual nos quadrinhos.
O Gavião Negro e o Arqueiro Verde se desentendem tal qual nos quadrinhos.

O pai biológico Jor-El também tem papel destacado na série, se comunicando com o filho por meio da Fortaleza da Solidão tal qual em Superman – O Filme.

Além disso, vários elementos da cronologia do Superman são usados no seriado, embora adaptados para a condição de que Clark ainda não é o Superman ao longo da série. Mesmo assim, vilões como Brainiac, Zod, Apocalipse (Doomsday), Metallo, Mestre dos Brinquedos, Esquadrão Suicida, Cheque-Mate e Darkseid aparecem em destaque. Também outros herói, como Aquaman, Flash, Ciborgue e Arqueiro Verde, o que leva à formação da Liga da Justiça na 6ª Temporada. Diversos outros heróis continuaram aparecendo, como Supergirl, Canário Negro, Zatanna, Caçador de Marte, Gavião Negro, A Sociedade da Justiça completa, a Legião dos Super-Heróis, Máxima, Besouro Azul, Gladiador Dourado e até os Super-Gêmeos (!).

Clark alcança um míssil para detê-lo: escalada de heroísmo.
Clark alcança um míssil para detê-lo: escalada de heroísmo.

Batman e Mulher-Maravilha não chegaram a aparecer – por ordem da Warner Bros. – mas foram discretamente citados nos episódios finais.

Clark usando uma prévia do uniforme na Fortaleza da Solidão.
Clark usando uma prévia do uniforme na Fortaleza da Solidão.

Dentre as mudanças significativas na origem do Superman, Smallville apresenta que Clark começou a agir como herói muito antes de usar seu uniforme e nome famoso – o que em certo sentido serve como uma metáfora do antigo Superboy. Na 8ª Temporada, Clark já é um vigilante atuante em Metrópolis, embora não use um uniforme propriamente dito, apenas suas roupas civis. Movendo-se em alta velocidade, é batizado pelo fotógrafo Jimi Olsen como “O Borrão Azul e Vermelho”.

Dali até o fim do seriado, Borrão será o nome pelo qual o herói será conhecido e vai ficando cada vez mais famoso. Clark usa um tipo de uniforme preto na 9ª Temporada (um sobretudo e seu símbolo kryptoniano do “s” no peito) e uma jaqueta de couro vermelha com o símbolo em alto relevo na 10ª. No último episódio, Clark usa o uniforme do Superman pela primeira vez para deter a ameaça de Darkseid e salvar o mundo.

Superman: O Legado das Estrelas

O Legado das Estrelas: origem para os anos 2000.
O Legado das Estrelas: origem para os anos 2000.

A DC Comics não conseguiu manter uma linha 100% coesa dentro da nova cronologia pós-Crise, por isso, de vez em quando, era preciso fazer ajustes, como foi a saga Zero Hora, de 1994, que trouxe “correções” a alguns personagens. O Superman terminaria ganhando uma “nova” origem um pouco depois, na maxissérie O Legado das Estrelas, com textos de Mark Waid e desenhos de Leinil Francis Yu, publicada em 12 capítulos, entre 2002 e 2003.

Legado das Estrelas termina por incorporar algumas das intervenções de Smallville aos quadrinhos. É retomado o conceito de amizade juvenil entre Clark Kent e Lex Luthor (o que, consequentemente, exige o rejuvenescimento do vilão) e seu pai passa a ter o nome de Lionel, inclusive, com a mesma aparência do seriado. Nesta versão, contudo, ele não é um empresário milionário, mas um pobretão alcoólatra que explora a inteligência do filho para ganhar dinheiro.

Lex Luthor e Superman: relação mais complexa.
Lex Luthor e Superman: relação mais complexa.

Numa referência à Era de Prata, Lex perde os cabelos em um acidente de laboratório, o mesmo que termina por vitimar seu pai.

Nesta versão, além de empresário, Lex Luthor será um cientista de um ramo que estuda a possibilidade de vida extraterrestre. Tal qual em Smallville, Luthor encontra um artefato kryptoniano (uma peça de metal) que muda sua vida e se torna obcecado com a possibilidade de um alienígena (potencialmente perigoso) estar vivendo na Terra.

Neste sentido, Mark Waid reforça a ideia – nascida lá pelos anos 1990 em consequência das histórias pós-Crise – de que a razão do ódio de Lex Luthor pelo Superman é, em certo sentido, um sentimento de preservação da raça humana diante de uma ameaça tão poderosa.

Assim, o problema do vilão não é tanto sua ideologia – que é até compreensível – mas a sua metodologia assassina, genocida e maligna.

O jovem Clark tenta ajudar as pessoas na África, mas nem sempre isso é possível.
O jovem Clark tenta ajudar as pessoas na África, mas nem sempre isso é possível.

Quanto ao Superman propriamente dito, O Legado das Estrelas tenta conciliar vários elementos de O Homem de Aço de John Byrne, embora contradiga outros. O foco na nova origem é em explicar, por exemplo, porque o Superman não usa uma máscara (pois quer ter a confiança das pessoas) e mostrando Clark rodando o mundo e ajudando as pessoas antes de se tornar o Superman quando mais adulto.

Esse elemento de uma “jornada” de Clark Kent pelo mundo antes de se tornar o Superman – que também estava presente na versão de Byrne, embora não tenha sido explorada em detalhes – é um elemento mais fundamental em O Legado das Estrelas. Vemos o jovem Clark vivendo na África, por exemplo, tentando ajudar desesperadamente as pessoas. Inclusive, a obra retoma conceitos como da clássica história É preciso haver um Superman? e de Superman: Paz na Terra, na qual se mostra que nem sempre todos esses poderes são úteis.

Clark e Lois em O Legado das Estrelas.
Clark e Lois em O Legado das Estrelas.

Assim como em Byrne, Mark Waid acerta ao colocar que Clark Kent se tornar um super-herói uniformizado para ajudar a humanidade e combater o crime não é uma escolha nem óbvia nem imediata. Que é necessário um caminho para chegar até esse ponto.

Neste sentido, aparentemente, O Legado das Estrelas influenciou bastante o roteirista David S. Goyer na concepção de Superman – O Homem de Aço, o filme, que pelos trailers demonstra ter essa mesma essência.

Outro ponto importante é que Mark Waid muda o conceito de Krypton, que deixa de ser uma fria sociedade tecnocrata para um planeta com mais calor e orgulhoso de sua herança heróica, algo que é outro tema fundamental à obra. O “s” do Superman, tal qual em Superman – O Filme, é o brasão da família El e representa a esperança na cultura kryptoniana.

Superman: Origem Secreta

Origem Secreta: Origem da cronologia anterior.
Origem Secreta: Origem da cronologia anterior.

Em certo sentido, apesar de ser uma boa história por si só, Origem Secreta é uma origem desnecessária dentro do cânone do Superman. Isso porque foi publicada em 2009 e se tornou não-válida já dois anos depois, por causa dos Novos 52. Também é estranho que o grande arquiteto dos Novos 52 tenha sido o mesmo Geoff Johns que escreveu Origem Secreta. E as duas origens não são sequer relacionáveis!

Origem Secreta foi uma minissérie publicada em várias partes, com roteiro de Geoff Johns e desenhos de Gary Frank. Johns trabalhou no cinema e foi assistente de Richard Donner. Por isso, sua origem vem no sentido de tornar oficiais muitos dos elementos usados em Superman – O Filme para dentro das revistas do herói. Para começar, o artista Frank desenha o homem de aço exatamente com o rosto de Christopher Reeve, num efeito impressionante.

O primeiro encontro entre Clark e Lex em Origem Secreta.
O primeiro encontro entre Clark e Lex em Origem Secreta.

Na verdade, Origem Secreta tenta construir um tipo de intermédio entre as principais origens do último filho de Krypton. Por isso, mistura elementos da Era de Prata, de O Homem de Aço, de O Legado das Estrelas e de Superman – O Filme e Smallville.

A trama usa o aspecto estético do filme de Donner para Krypton e o planeta ganha um ar um pouco mais quente do que o ambiente frio e calculista da versão de John Byrne. Jonathan e Martha Kent são ligeiramente rejuvenescidos, mas permanecem vivos, tal qual a cronologia de Byrne. A cidade de Smallville se torna mais parecida com aquela do seriado homônimo – inclusive na representação física das ruas, da Fazenda Kent e do celeiro vermelho – e há até uma citação discreta à personagem Chloe Sullivan (inexistente nos quadrinhos até então).

Uma das cenas do seriado, inclusive, é recriada na revista: quando um tornado atinge Smallville e Clark usa seus poderes para salvar a amiga-namorada Lana Lang.

Assim como em O Legado das Estrelas, Origem Secreta retoma o conceito da amizade juvenil entre Clark e Lex Luthor e a torna ligeiramente mais próxima daquela adotada em Smallville, embora dessa vez, Lex estude no mesmo colégio que Clark.

Origem Secreta: mimetizando a estética de Superman - O Filme.
Origem Secreta: mimetizando a estética de Superman – O Filme.

Grande fã da Era de Prata, Johns resgata vários elementos daquele período, procurando conciliá-los à visão de Bryne, por exemplo. Assim, traz de volta a ideia do Superboy – apagado na versão de Bryne e na de Mark Waid – embora de uma maneira diferente, com o herói agindo em segredo, sem que ninguém soubesse de sua existência. Isso possibilita um encontro adolescente entre Clark e a Legião dos Super-Heróis, permitindo as aventuras entre eles, preenchendo o que muitos julgam uma das maiores lacunas da cronologia pós-Crise.

Afinal, as aventuras da Legião dos Super-Heróis ao lado do Superboy estiveram entre os maiores sucessos dos quadrinhos dos anos 1960 e formaram toda uma geração de leitores. Ao eliminar a existência do Superboy em Crise das Infinitas Terras, a DC inviabilizou cronologicamente àquelas velhas aventuras e os próprios personagens da Legião, que nunca conseguiram uma existência própria para além do apoio do Superboy.

Geoff Johns, então, encontrou um modo de dar um “drible” nisso. 

Assim como Byrne havia feito, Johns também vincula a origem do vilão Metallo à ação direta de Lex Luthor, mas desta vez, é mostrada uma trama mais aprofundada, na qual John Corben é um ex-namorado de Lois Lane e é cobaia de um experimento comandado por Luthor de um lado e pelo general Sam Lane (o pai de Lois) por outro.

Superman: Terra 1

Terra Um: versão alternativa e moderna do Superman.
Terra Um: versão alternativa e moderna do Superman.

A DC Comics lançou a linha Terra 1 como um tipo de graphic novel destinada ao grande público, não somente aos leitores de quadrinhos. E fez muito sucesso com a primeira tentativa – Superman: Terra 1, escrita por J.M. Straczynski e desenhada por Shane Davis. É uma abordagem moderna e meio realística da origem do Superman. E não custa lembrar: é não-canônica, ou seja, não faz parte da cronologia oficial do personagem. Ou seja, se enquadra na mesma categoria dos filmes e séries.

Em Terra 1, Clark Kent é ainda bem jovem, na casa dos 20 e poucos anos. Ela vai a Metrópolis em busca de uma identidade, em busca de um lugar no mundo, sem saber o que fazer com o seus espantosos poderes. Uma das opções é ser repórter do Planeta Diário.

O Superman na bela arte de Shane Davis.
O Superman na bela arte de Shane Davis.

Então, Metrópolis sofre a invasão de uma frota alienígena que descobriu que o último dos kryptonianos vive ali. Esses seres eram rivais históricos de Krypton e são parcialmente responsáveis pela destruição do planeta. Os invasores fazem um ultimato: ou entregam Kal-El ou morrerão. Assim, Clark assume sua herança kryptoniana e se torna o Superman para defender seu planeta adotivo.

Como é uma graphic novel, Terra 1 se beneficia de não depender de nenhuma outra história – nem para frente, nem para trás – e conta uma versão enxuta e concisa da origem do Superman. Straczynski, um escritor dado a polêmicas – teve uma ruidosa passagem pela Marvel, trabalhando em Homem-Aranha e Thor, de onde saiu em meio a uma briga pública com seu editor – acerta desta vez, com um texto ágil e reflexivo.

Não é uma origem “oficial”, mas serve como uma boa porta de entrada para novos leitores do Superman. Pontos para o escritor por ter preferido criar um novo vilão, em vez de repetir alguma história prévia.

Além disso, dá para perceber que o plot geral da obra inspirou o filme Superman – O Homem de Aço, que colocou Zod e seus comparsas no lugar dos personagens criados por Straczynski.

Os Novos 52

O novo visual do herói no reboot. Arte de Jesus Marino.
O novo visual do herói no reboot. Arte de Jesus Marino.

Decidida a mudar tudo (mais uma vez…) a DC Comics lançou em 2011 uma empreitada chamada Os Novos 52, uma completa reformulação editorial e cronológica de seu universo ficcional. Revistas foram canceladas e substituídas por novos “números 01”, equipes criativas foram trocadas e toda a cronologia foi reconstruída. Apesar de heróis como Batman e Lanterna Verde terem sofrido poucas mudanças iniciais, por causa do sucesso que faziam (e por terem universos ficcionais mais coesos), o restante foi bastante afetado. E o Superman mais ainda.

Para começar, o visual do herói foi significativamente modificado. Saiu a sunga vermelha característica, entrou um uniforme que é na verdade uma armadura. Sua personalidade também foi alterada: agora, o homem do amanhã é mais mais impulsivo, impetuoso e raivoso, como uma forma de torná-lo mais antissocial e aproximá-lo dos antiheróis tão populares nos dias de hoje, como Batman e Wolverine.

Superman começou a agir sem uniforme.
Superman começou a agir sem uniforme.

O personagem foi lançado em Os Novos 52 em três vertentes distintas. A revista Action Comics (por Grant Morrison e Rags Morales) mostrava-o bastante jovem, quase adolescente, iniciando seus primeiros passos como vigilante na cidade de Metrópolis. Ele não usava uniforme, apenas seu símbolo kryptoniano e uma capa vermelha; quase não era visto, porque se movia a altas velocidades; e era temido pela população e perseguido pela polícia.

A revista Justice League (por Geoff Johns e Jim Lee) já o exibia um pouco mais à frente no tempo, ainda jovem e impetuoso, mas usando um uniforme que parece uma armadura, unindo-se pela primeira vez com outros heróis, como Batman, Lanterna Verde e Mulher Maravilha, para deter a invasão de Darkseid.

E a revista Superman (por George Perez e Jesus Merino) mostrava o presente, cinco anos depois dos eventos de Justice League, com o herói já estabelecido e bem mais próximo do Superman que conhecemos.

As modificações no homem de aço foram as mais radicais desde Crise nas Infinitas Terras. Ficou estabelecido que os heróis da DC são mais jovens e que só atuam há cerca de cincos anos. O Superman foi um dos primeiros a agir, quando sequer a palavra “super-herói” existia. Somente depois que o último filho de Krypton salva a Terra de uma invasão de Brainiac e forma a Liga da Justiça é que começa a ser verdadeiramente aceito pela população.

Lois e Clark: não mais casados.
Lois e Clark: não mais casados.

Assim como na Era de Prata, Clark migrou para Metrópolis depois da morte de seus pais (ficando órfão novamente), mas agora, é mostrada sua juventude na cidade. Sem dinheiro, vai morar num cortiço na região do Beco do Suicídio e passa a agir como o Superman para ajudar sua vizinhança pobre. Com o tempo, termina combatendo o crime, mas sem uniforme: apenas ostentando seu símbolo do S e a capa. Ele também não sabe quase nada sobre suas origens kryptonianas, descobrindo-as com o tempo.

Na batalha contra Brainiac, Clark entra em contato com artefatos kryptonianos e passa a usar uma armadura especial de sua terra-natal, que inclusive é capaz de aparecer e desaparecer, por causa da nanotecnologia. Somente nesse ponto se torna, realmente, um vigilante uniformizado.

A Liga da Justiça nos Novos 52.
A Liga da Justiça nos Novos 52.

Em paralelo, fica estabelecido que Batman é o pioneiro entre os super-heróis, pois começou a agir um pouco antes de todos os demais. Porém, o homem-morcego agia nas sombras e era tomado como uma lenda urbana até o Superman aparecer. Na esteira da aceitação pública do Superman, outros heróis começam a aparecer e sair das sombras, como Lanterna Verde, Flash e mais tarde, Aquaman e Mulher Maravilha.

A invasão de Darkseid à Terra é o que une os heróis na Liga da Justiça nesta versão.

Quanto ao Superman, propriamente dito, no momento em que suas histórias reiniciam no presente – na revista Superman – vemos que Clark e Lois não são mais casados como na cronologia anterior e que há certa frieza no trato entre os dois. Na verdade, as histórias subsequentes vão mostrando que houve um “passado” entre Clark e Lois, mas enquanto ela ainda tenta se manter por perto, ele é quem se afasta. O status quo dos personagens mudou bastante: refletindo um pouco a abordagem das histórias dos anos 1970, o Planeta Diário é adquirido por uma rede de notícias, a Galáxia, e Lois Lane se torna a editora responsável pelas várias mídias. Clark continua como repórter do Planeta Diário e, para todos os efeitos, é um subordinado dela.

O beijo de Superman e Mulher-Maravilha em Justice League 12 chamou a atenção da mídia.
O beijo de Superman e Mulher-Maravilha em Justice League 12 chamou a atenção da mídia.

E como não há sequer um romance entre o Superman e Lois Lane, a vaga tem que ser ocupada, não é? Assim, em Os Novos 52, a DC Comics teve coragem e finalmente uniu em um relacionamento sério e estável o herói com a Mulher-Maravilha. União esta que havia sido apenas insinuada por John Byrne lá atrás (em histórias de 1987) e retomada casualmente em histórias que retratavam o futuro (como O Reino do Amanhã). 

Agora, no seio da Liga da Justiça, Superman e Mulher-Maravilha formam um casal. Por enquanto…

***

Então, qual a sua origem favorita do Superman? 

Resposta nos comentários!

Superman foi criado por Jerry Siegel e Joe Shuster em 1938 e desde então é publicado pela DC Comics.