A Invasão Britânica: 50 anos de rock.
A Invasão Britânica: 50 anos de rock.

Há exatos 50 anos era dada a largada para um dos maiores (senão o maior) fenômenos da música popular do século XX: a Invasão Britânica, movimento no qual as bandas britânicas de rock tomaram de assalto as rádios (e as TVs) dos Estados Unidos e espalharam pelo mundo a segunda e mais importante disseminação global do rock. Liderada pelos pioneiros The Beatles, a Invasão Britânica revelou ao mundo alguns grupos mais famosos, importantes e lendários do rock, como Rolling Stones, The Who e Pink Floyd.

Os Beatles: pioneiros absolutos.
Os Beatles: pioneiros absolutos.

Para celebrar a data, o HQRock traz um post especial sobre a Invasão Britânica, sua importância e seu legado.

Então, deixe seu cabelo crescer, plugue sua guitarra, faça o público gritar até perder a voz e detone uma música forte, distorcida e pujante!

A Invasão!

Os Beatles no Ed Sullivan: fenômeno.
Os Beatles no Ed Sullivan: fenômeno.

O mundo não estava esperando. Não estava preparado. Os Estados Unidos nem viram o que lhe atingiu

Em 07 de fevereiro de 1964, a banda britânica The Beatles (que tinha surgido menos de dois anos antes e fazia grande sucesso na Europa) aportou nos EUA pela primeira vez, para fazer uma mini-turnê. Sem esperar, os EUA foram virados de cabeça para baixo. Literalmente da noite para o dia, os Beatles se transformaram no maior fenômeno popular de música que aquele país (e o mundo) já vira. Milhares de jovens invadiram o Aeroporto Internacional JFK, em Nova York; suas canções monopolizaram as rádios de costa a costa; seus discos atingiram cifras de vendagens jamais vistas; sua primeira aparição na TV nortemaericana – no programa The Ed Sullivan Show (dois dias depois) – marcou uma audiência recorde (que demorou décadas para ser batida), com 73 milhões de telespectadores.

Era algo que carecia de definição. Era uma loucura. Uma mania. A beatlemania!

Os Rolling Stones ao vivo em 1964.
Os Rolling Stones: outra peça fundamental do movimento.

E o pior: apesar de ser o maior de todos os fenômenos, os Beatles foram apenas o começo. Depois do choque inicial e do público degustar violentamente a música do quarteto de Liverpool, descobriram que a Grã-Bretanha produzia dezenas de bandas com aquela nova sonoridade, um rock enérgico, levado nas guitarras elétricas e reforçado com vozes fortes e harmônicas. Por isso, logo, logo, vários outros grupos ingleses passaram a dividir a atenção do público e da mídia: The Animals, The Hollies, The Dave Clark Five, The Rolling Stones… E parecia que não parava nunca: The Yardbirds, The Who, The Manfred Mann

A Invasão Britânica criou não apenas um fenômeno social, musical, cultural. Ela criou o rock que conhecemos hoje. Definiu as bases de um gênero musical que, muito mais do que apenas música, é um estilo de vida.

Como aconteceu?

The Yardbirds: banda que lançou o guitarrista Eric Clapton (dir.).
The Yardbirds: banda que lançou o guitarrista Eric Clapton (dir.).

Claro, todo mundo sabe: o rock não surgiu na Inglaterra. O rock nasceu nos Estados Unidos: é fruto de um grande intercâmbio de gêneros musicais “de raiz”, ou seja, populares, que se combinaram nos interiores do país e se popularizaram nos grandes centros urbanos. Blues, Rhythm and Blues, Country and Western, Folk Song se combinaram para formar um novo gênero que devia elementos a todos esses, mas criava uma combinação única em sua diferença: era frenética, forte, violenta, sensual, polimorfa. Era o rock and roll.

Ao longo dos anos 1950, o rock and roll foi se popularizando, cativando um público cada vez maior; e das pequenas gravadoras independentes saltou para as grandes gravadoras, as rádios nacionais, a TV e o sucesso internacional. Artistas como Bill Harley and his Comets, Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry, Buddy Holly, Jerry Lee Lewis fizeram a transição e viraram ídolos. Conquistando a mídia a partir de 1954, o rock se torna um fenômeno mundial em 1956.

The Who em 1965: ícones dos anos 1960.
The Who em 1965: ícones dos anos 1960.

Mas tão rápido e intenso eles brilharam, tão logo desapareceram. Depois de 1959, aqueles ídolos simplesmente não conseguiram mais atingir o mesmo sucesso e desapareceram da grande mídia. O rock, assim, parecia mais uma daquelas efêmeras modinhas musicais que surgem de tempos em tempos, como o Twist. E a música dos EUA do início da década de 1960 parecia mostrar que seria sempre assim.

Mas não.

Do outro lado do Oceano Atlântico, na Grã-Bretanha, o rock and roll também fez sucesso a partir de 1956. Mas causou um efeito diferente. A Inglaterra era um país muito diferente dos EUA. Ainda sofrendo as consequências da II Guerra Mundial disputada em seu quintal, com racionamento, pobreza, falta de perspectiva, um enorme esforço estatizador e uma juventude desiludida, sem perspectivas, à procura de algo em que se agarrar.

The Animals: grande banda do início da Invasão Britânica.
The Animals: grande banda do início da Invasão Britânica.

O rock era o que eles precisavam. Mas na Grã-Bretanha não se tinha o grande aparelho de mídia que existia nos EUA. A TV era estatal, controlada pela BBC. O rádio também. A programação radiofônica era restrita ao que o governo julgasse “digno” de ser ouvido. Rock era considerado ofensivo. Não tocava no rádio. Só existiam quatro gravadoras de discos e não havia gravadoras independentes.

O jovem quer fazer música? Ótimo! Mas quem tem dinheiro para comprar uma guitarra elétrica importada (a Inglaterra não produzia esse instrumento) numa terra em que até açúcar era difícil conseguir?

Por tudo isso, o rock foi um movimento muito mais marginal e subversivo na Grã-Bretanha do que nos EUA. Especialmente no início da década de 1960, vai se criando todo um cenário rock no país, mas extremamente marginal. Foi preciso chutar a porta para ganhar espaço.

Ali, o rock também bebeu em outras fontes: na música sinfônica europeia; na música popular anglo-saxônica… Ali o Jazz e o Blues faziam muito sucesso entre os intelectuais; e a combinação do blues rural com sua herança popular deu origem ao Skiffle, um gênero tipicamente inglês: rápido, rústico, rascante. A base fundamental que fez o rock inglês ser diferente do rock americano.

The Hollies: representantes da vertente leve.
The Hollies: representantes da vertente leve.

Após alguns ensaios de roqueiros ingleses – com Cliff Richards and the Shadows, por exemplo – no início dos anos 1960, logo em seguida, uma verdadeira cena roqueira explode capitaneada pelos Beatles. O quarteto formado em Liverpool, no norte do país (uma região considerada caipira, atrasada, provinciana e pobre) precisou de muita insistência e perseverança para romper a barreira imposta pelo sul (onde ficava Londres), mas conseguiu e a partir do lançamento de seu primeiro disco, em 1962, torna-se um grande fenômeno de vendas no país. E não demora para o sucesso escoar pelo resto da Europa.

O sucesso dos Beatles chamou a atenção das gravadoras e abriu o caminho para toda uma horda de bandas que estavam esperando para estourar. Num primeiro momento, a própria região de Liverpool providenciou uma enorme gama de artistas, como Garry and the Peacemakers, Billy J. Kramer and the Dakotas, The Fourmost, Cilla Black, The Hollies etc.

Paralelamente, a capital Londres começara a gestação de uma outra cena musical, mais pautada na influência do R&B. Mas o sucesso dos Beatles abriu as portas para eles também, então, The Animals, The Rolling Stones, The Yardbirds, The Manfred Mann também estouraram nas paradas, entre 1963 e 1964.

O som de Beatles, Stones e Cia. era bastante diferente do rock and roll americano dos anos 1950, e se transformou na principal referência para todo o rock que veio a seguir. Inclusive aquele feito nos EUA. Por isso, o rock tal qual o conhecemos hoje – com as bandas que ouvimos atualmente – é muito mais um fruto da Invasão Britânica do que daquele primeiro movimento dos anos 1950.

Conquistando o mundo

Os Beatles ao vivo em Washington-DC.
Os Beatles ao vivo em Washington-DC.

Apesar dessas bandas serem de grande sucesso na Europa, todos sabiam que para conquistar o mundo era preciso dominar os EUA. E os ianques não estavam afim.

Nunca os EUA precisaram dar bola ao show business  britânico. Nunca um artista musical britânico havia feito sucesso nos EUA antes. Afinal, eram eles quem ditavam os sucessos do mundo.

Para se ter uma ideia, a gravadora dos Beatles era a poderosa EMI, a maior da Inglaterra. A subsidiária da EMI nos EUA era a Capitol Records. E esta se negava a lançar os discos dos Beatles nos EUA por puro desinteresse. Mesmo com a banda fazendo sucesso na Europa, coube inicialmente a pequenas gravadoras independentes lançarem os primeiros discos dos Beatles naquele país. Foi preciso uma pressão da matriz para obrigar a Capitol a lançar os discos dos Beatles.

A Capitol reclamou, mas fez. O resultado? O compacto I want to hold your hand chegou ao primeiro lugar das paradas dos EUA e se transformou no maior fenômeno de vendas que o país já vira. Com o n.º 1 nos EUA, então, os Beatles decidiram ir ao país se apresentar.

A Tomada dos EUA

Curiosamente, devido ao pouco tempo, os Beatles agendaram apenas uma mini-turnê aos EUA, que envolvia apenas dois concertos (no Colliseum de Washington, DC e no Carnegie Hall em Nova York) e três apresentações no programa de Ed Sullivan.

A primeira aparição no Ed Sullivan, em 09 de fevereiro de 1964, foi a primeira vez que os Beatles tocaram nos EUA e é um marco histórico.

The Byrds: reação americana.
The Byrds: reação americana.

A Reação Americana

Durante o ano de 1964, as paradas de sucessos dos EUA foram dominadas pelas bandas britânicas. Mas isso também ensejou uma reação. Logo, as gravadoras investiram em bandas de rock nacionais, algumas já existindo outras novinhas em folhas. Assim, em 1965, bandas “made in USA” fizeram grande sucesso, como The Beach Boys, The Byrds, Simon & Garfunkel, The Mamas and the Papas e muitas outras.

Bob Dylan vira roqueiro depois da Invasão Britânica.
Bob Dylan vira roqueiro depois da Invasão Britânica.

O cantor Bob Dylan já fazia sucesso antes dos Beatles. Mas NÃO FAZIA rock! Tocava música folk: canções calmas, acústicas, no violão. E foi influenciado pelos Beatles que ele empunhou uma guitarra elétrica e criou o folk rock, misturando os dois estilos. Causou a revolta dos puristas do folk, mas se transformou em um ídolo internacional. E um dos maiores compositores da história!

O advento de um cenário de rock também nos EUA deixou o rock ainda mais colorido e fortaleceu o gênero. Contudo, foram mesmo os britânicos quem dominaram o rock ao longo de toda a década de 1960.

Depois da Reação

Os Stones ao vivo em 1966.
Os Stones ao vivo em 1966.

Apesar da grande qualidade do material dos artistas norteamericanos, os britânicos continuaram a despejar um rock impressionante pós-1965, em bandas como The Yardbirds, The Who, The Spencer Davis Group e Them.

Jeff Beck: pioneiro dos truques de guitarra.
Jeff Beck: pioneiro dos truques de guitarra.

Os Beatles dominavam o mundo com uma sequência matadora de álbuns de sucesso (Please, Please Me; With the Beatles; A Hard Days Night; Beatles For Sale; Help! e Rubber Soul, foram lançados entre 1963 e 1965). Os Rolling Stones mostravam um rock mais sujo, em sucessos como The las time, Satisfaction, Get off my cloud. Os Yardbirds colocavam a guitarra no centro do palco (primeiro com Eric Clapton, depois com seu substituto, Jeff Beck), popularizando os efeitos de distorção e feedback. O The Who faziam um som poderoso, com guitarra, baixo e bateria muito altos e muito fortes, cantando letras que eram hinos, como My Generation, que lançou o lema “espero morrer antes de envelhecer”.

Além disso, o The Who inaugurou a era da destruição dos instrumentos no palco!

Apesar de suas diferenças culturais e estéticas, a Invasão Britânica e a Reação Americana se uniram em 1966 para formar o Psicodelismo, a estética marcada pelas cores abundantes, a música experimental, o elogio às drogas e nascedouro do movimento hippie.

Discos da Invasão...
Discos da Invasão…
A profusão de cores de Pink Floyd...
A profusão de cores de Pink Floyd…
... e Cream.
… e Cream.

Contudo, apesar da importância de artistas como Jefferson Airplane e The Doors (indiscutíveis), a maior parte dos grandes nomes do Psicodelismo veio da Grã-Bretanha: Pink Floyd, Cream (a nova banda de Eric Clapton), Traffic… Sem falar na adesão de artistas “veteranos”, como os Rolling Stones.

A icônica capa de Sgt. Peppers, de 1967.
A icônica capa de Sgt. Peppers, de 1967.

E sem esquecer por um único minuto que o apogeu sonoro do psicodelismo é o álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, lançado em 1967.

The Who em 1970.
The Who em 1970.

Outro grande nome do Psicodelismo é americano: Jimi Hendrix. Mas o guitarrista só conseguiu sucesso depois que emigrou para a Inglaterra e formou uma banda com dois britânicos: The Jimi Hendrix Experience, que virou um grande fenômeno.

O psicodelismo encanta ouvintes até hoje, com seus sons viajadões, capas coloridas e muita experimentação sonora. Abriu os rumos para o rock progressivo que se desenvolveria em seguida, em bandas como Pink Floyd, Yes, Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer.

Eric Clapton: um dos principais guitarristas dos anos 1960 (e da história).
Eric Clapton: um dos principais guitarristas dos anos 1960 (e da história).

Os anos 1960 eram muito intensos, por isso, as bandas produziam muito e duravam pouco. Pioneiros como Animals, Yardbirds, Hollies etc. mal sobreviveram a 1967, encerrando as atividades ou desaparecendo da grande mídia. Alguns artistas eram tão notáveis que conseguiram sucesso em várias empreitadas diferentes: Eric Clapton saiu dos Yardbirds em 1965; entrou para os Bluesbreakers de John Mayall; fundou o Cream em 1966; mudou-se para o Blind Faith em 1969; e fundou o Derek and the Dominos em 1970! O superastro-mirim Steve Winwood (que só tinha 15 anos em 1965), após o sucesso com The Spencer Davis Group; formou o Traffic em 1967; uniu-se a Eric Clapton no Blind Faith em 1969; e voltou ao Traffic em 1970!

Joe Cocker em Woodstock.
Joe Cocker em Woodstock.

Por isso, em 1968 e 1969, já havia toda uma nova cena musical. As bandas que sobreviveram à passagem do tempo – Beatles, Stones, The Who – já produziam uma sonoridade totalmente diferente, mais madura e ousada (veja White Album e Abbey Road dos Beatles; Beggars Banquet e Let it Bleed dos Rolling Stones; e Tommy, do The Who, todos lançados entre aqueles anos). Foi a era dos grandes festivais e que rendeu o lendário Festival de Woodstock, em 1969, que revelou ao mundo nomes como Joe Cocker e Crosby, Stills, Nash & Young; além de contar com apresentações de Jimi Hendrix, Janis Joplin e The Who.

Os Beatles no fim da carreira.
Os Beatles no fim da carreira.

Os norteamericanos continuaram a produzir boas bandas – The Band, Creedene Clearwater Revival, Grateful Dead – mas os britânicos pareciam continuar a dominar a cena, com o surgimento de toda uma nova leva de artistas pós-1969, com Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple, David Bowie, Elton John e muitos outros.

Legado

A importância da Invasão Britânica sequer pode ser medida. Ela definiu o que conhecemos como rock hoje. E é a referência-mor para todos os grandes artistas do gênero.

A inversão do polo artístico musical global trouxe uma mudança radical à música do século XX e o surgimento de um dos momentos mais importantes da história da música, com a revelação de artistas que estão entranhados no DNA musical das gerações posteriores.

E pensar que tudo isso explodiu há 50 anos, quando um quarteto cabeludo pôs os pés nos Estados Unidos pela primeira vez.