black panther posterVamos logo adiantando: Pantera Negra é mais um triunfo do Marvel Studios! A Casa das Ideias entrega um longametragem espetacular, cheio de diversidade e muito representativo dos dias atuais. O diretor Ryan Coogler vem de um cinema engajado (Fruitvale Station – A Última Parada; Creed – Nascido para Lutar) e isso pode ser sentido no filme, no bom sentido, entregando uma aventura de ação baseada em histórias em quadrinhos, mas com uma profundidade diferenciada, boas questões para pensar e até um “quê” de revolucionário, no sentido de que é uma obra que cala fundo na população afrodescendente e – numa surpresa bem vinda – nas mulheres de uma forma geral. Assim, não é apenas diversão, mas um filme político que vai marcar época e, com alguma sorte, marcar também uma geração.

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O Pantera Negra nos quadrinhos. Arte de John Romita Jr.

Criado nas histórias em quadrinhos do Quarteto Fantástico (estreou em Fantastic Four 52, de 1966) por Stan Lee e Jack Kirby, o Pantera Negra já chegou com um papel diferenciado: foi o primeiro super-herói afrodescendente. O primeiro de todos! Depois dele, a Marvel criaria o Falcão (o parceiro do Capitão América), três anos depois, que foi o primeiro super-herói afroamericano; e seguiu criando personagens importantes do gênero, como Luke Cage, Blade, Monica Rambeau (Capitã Marvel/ Fótom) até chegar a Miles Morales, o Homem-Aranha alternativo, que é mestiço de negros e latinos.

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Stan Lee e Jack Kirby na época da criação do Pantera Negra.

Stan Lee era um homem preocupado com seu tempo e em meio às tensões raciais dos EUA nos anos 1960 achou que a metáfora dos X-Men (os mutantes tentando viver num mundo que os odeia, os persegue e tem raiva deles porque são “diferentes”) não era mais suficiente. A enorme população negra dos EUA precisava se sentir representada, com um herói de verdade, não um coadjuvante, então, veio T’Challa, o Rei da nação africana de Wakanda, o Pantera Negra.

blackpanther-conceptart wakandaApós algumas aventuras de introdução em Fantastic Four, o Pantera Negra fez uma participação especial nas aventuras do Capitão América antes de ser introduzido nos Vingadores (a mando de Lee, que também era o editor-chefe da Marvel) em histórias criadas por Roy Thomas (texto) e John Buscema (arte). O sucesso e a popularidade lhes garantiram aventuras solo (por escritores como Don McGregor, Christopher Priest e Reginald Hudlin) e a apreciação do público universitário dos Estados Unidos, por causa do modo como abordava não apenas a questão dos negros naquele país, mas também como trabalhava os problemas da África (colonialismo, exploração, pobreza) e, claro, o Regime do Aparthaid na África do Sul, seja de modo metafórico seja diretamente (saiba mais no Dossiê Especial do HQRock sobre o Pantera Negra nos quadrinhos).

Essa importância social e política do personagem nas HQs é inteiramente captada por Pantera Negra e se transforma, assim, em um produto diferenciado do Marvel Studios.

black panther caracters bannerO filme “chupa” algumas das mais importantes histórias do personagem em uma trama interessante, ainda que relativamente simples: um rei noviço, um opositor ao trono legitimado, os dilemas de como cuidar de sua nação e relacioná-la com o mundo. Mas tudo isso é feito com sensibilidade e um bom texto (assinado por Joe Robert Cole e o diretor Ryan Coogler), que por meio de diálogos e ambientação deixa sua mensagem muito clara.

O texto, desse modo, aborda o legado das gerações anteriores (e nossas responsabilidades para com elas), mas essencialmente, aborda a questão da identidade e da etnicidade. É uma carta de amor à herança africana sua importância nos dias atuais, sem esquecer das máculas históricas, como a escravidão, o colonialismo, a extrema pobreza, as guerras insanas por dinheiro, a questão dos emigrantes e refugiados. O interessante é que Pantera Negra não apenas aborda os temas, mas os incorpora à sua trama, e não hesita em tomar partido.

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O (novo) Rei T’Challa: dilemas contemporâneos.

É interessante ainda, a discussão fundamental da trama sobre se Wakanda deve compartilhar ou esconder suas maravilhas e como deve se relacionar com o mundo, porque toca direto na temática da ação dirigida no mundo atual, devastado por guerras, intolerância religiosa, extrema pobreza e degradação ambiental; e no que podemos fazer sobre isso e como nossas ações podem transformar este quadro.

Pantera Negra também acerta ao abordar a questão étnica não somente no contexto africano, mas relacioná-la tanto com a questão dos emigrantes-refugiados (há dois momentos no longa em que o tema vem à tona) quanto com a herança dos afrodescendentes mundo afora, representados aqui pelos Estados Unidos da América. De modo inesperado, o filme começa e termina nos EUA, numa boa reflexão sobre como a rica herança étno-cultural africana pode ajudar a pensar nos problemas dos afroamericanos imersos num contexto de violência, pobreza e preconceito nas grandes metrópoles do mundo.

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A beleza e modernidade de Wakanda no filme.
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Arte exuberante de Jack Kirby para o Pantera Negra.

A representatividade afrodescendente também é expressa no visual do filme, que é sensacional: baseado – assim como Thor – Ragnarok – no traço do lendário Jack Kirby (o criador visual do Universo Marvel), Pantera Negra estiliza a África numa leitura idílica e positiva, mesclando os elementos tribais e tradicionais junto à mais alta tecnologia possível, pois tal qual nas HQs, Wakanda é uma maravilha tecnológica, impulsionada pela exploração de vibranium, o fictício metal indestrutível que possui incríveis propriedades. A combinação tribaltec do filme é algo incrível, bonito, e também se associa à nascente vertente do afrofuturismo tão em voga nas discussões estéticas, culturais e sociológica de nossos tempos.

black panther tribal final battleO visual também é estonteante na recriação da África, infelizmente, aqui com o uso de tecnologia digital (o longa foi filmado essencialmente em Atlanta, no estado da Georgia, nos Estados Unidos), mas a combinação de cores, luzes carregadas, elementos tribais, tecnologia, cachoeiras, savanas, montanhas e por do sol criam uma Wakanda exuberante que embeleza o filme e poderia garantir uma indicação ao Oscar de Direção de Arte em 2019. Quem sabe?

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Pantera Negra não chega a ser um filme de “estudo de personagens”, mas constrói de modo muito interessante não apenas o dilema de seu protagonista T’Challa (vivido com competência e elegância por Chadwick Boseman), mas vai muito além, com caracterizações fortes dos personagens que o rodeiam, seja no vilão principal – Erik “Killmonger” Stevens, vivido de modo intenso por Michael B. Jordan (que protagonizou Creed – Nascido para Lutar de Coogler, mas também é conhecido dos fãs de HQs como a versão mais recente de Johnny Storm, o Tocha Humana, no Quarteto Fantástico que naufragou em 2015) – seja em seus amigos, como Nakia, Okoye, Shuri e a mãe Ramonda.

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Okoye, a maior guerreira.

Percebeu que os quatro últimos são mulheres? Esse é outro dos maiores trunfos de Pantera Negra: de maneira ainda mais incisiva do que Mulher-Maravilha, o filme da Marvel compõe um elenco feminino que não apenas é forte, mas em conjunto é muito maior do que o próprio T’Challa em seu filme. Nakia (sempre ótima com Lupita Nyong’o) é uma mulher que deixou sua grande paixão de lado para lutar pelo o que acredita; Okoye (com presença forte de Danai Gurira) é a maior guerreira de seu país, representando o dilema entre o dever moral e aquilo em que acredita; Shuri (a maior fonte de humor, por parte de Letitia Wright) sendo uma versão feminina (e mais leve e divertida) de Tony Stark, uma gênia da tecnologia, responsável por impulsionar ainda mais a vanguarda científica de seu país; Ramonda (Angela Basset) tem uma participação menor, mas mostra sua importância como a antiga rainha.

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Nakia, a espiã; e Shuri, a gênia em tecnologia: representação forte.

A representação das mulheres em nenhum momento é piegas, forçada ou carregada de clichês. Sua ação é decisiva na trama e podemos até dizer que são elas quem movem o filme em todos os momentos. É muito simbólico que em determinado momento do filme, em meio à grandiosa batalha final, um marido se renda diante da mulher determinada que não vai abrir mão de seus ideais, como uma forte metáfora da mulher do mundo moderno, que precisa impor sua vontade e seu lugar num mundo em que os homens pensam que têm mais poder do que realmente têm, e ainda abusam dele.

Evocando o orgulho de ser negro e ser mulher, Pantera Negra é um filme de importância social, política e sociológica diferenciado, mesmo permanecendo dentro do gênero dos super-heróis com sua ação frenética, efeitos visuais mirabolantes e lutas de encher os olhos. Aquele fã que quer ver uma diversão escapista de super-heróis também encontra no filme um prato cheio e isso é apenas uma prova de que entretenimento pode divertir e fazer refletir na mesma medida.

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A batalha ritual entre T’Challa e Killmonger.

Mesmo numa fábrica de produção de filmes bem sucedidos (e até certo ponto esquemáticos) como o Marvel Studios, se percebe que o talento de um diretor pode se impor e deixar uma marca, como é feita agora com Ryan Coogler e foi feita antes por James Gunn (com Guardiões da Galáxia), com os irmãos (Anthony e Joe) Russo com Capitão América – O Soldado Invernal e até com Taika Waititi com Thor – Ragnarok (o HQRock não gostou desse filme, mas é inegável que ele tem a “marca” de seu criador).

As questões sociais e políticas continuam movendo a obra de Coogler e é sintomático que uma das tradicionais cenas pós-créditos rompa o padrão “o que vem por aí no Marvel Studios” e apresente um reforço ao elemento político da obra, servindo como um verdadeiro (e bem posicionado) epílogo ao filme.

black-panther-trailer screenshot top of the carMas também há ação com cenas frenéticas de perseguição na Coreia do Sul, que já foi palco de Vingadores – Era de Ultron, e mantém o elo com o vilão daquele filme, Ullisses Klawe (Andy Serkis numa representação psicótica e maluca de seu personagem).

Os pontos baixos de Pantera Negra estão associados ao uso excessivo de CGI em cenas de luta, que por isso não se resolvem tão bem. A mania irritante dos filmes de super-heróis de criar uniformes cada vez mais chamativos (e brilhantes) criam a demanda desnecessária de cobrir o protagonista (e o vilão Killmonger) em roupas digitais, quando o elemento físico real já se mostrou extremamente bem sucedido e bonito na versão mais simples (e mais funcional para fins cinematográficos) usada pelo herói em Capitão América – Guerra Civil, quando apareceu pela primeira vez.

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A batalha final (cheia de CGI) de Pantera Negra contra Killmonger.

Outro ponto baixo de Pantera Negra é que o filme perde parte do peso da metade do 2º Ato para o 3º Ato, justamente o momento em que a ação se sobrepõe e as questões políticas e sociais se diluem mais. Não por isso, mas talvez porque Coogler não tem a manha de construir boníssimas cenas de ação ou luta usando CGI, o que cria um contraste enorme entre a emocionante batalha entre T’Challa e M’Baku (totalmente física) no início do filme e o confronto com Killmonger (ambos uniformizados e cobertos de CGI) no final.

Talvez a sensação de “cansaço” no terço final do longa seja também fruto da necessidade de acelerar a trama para que o tradicional elemento do “retorno do herói” possa ser aplicado, mas isso faz com que a ascensão do reinado de terror de Killmonger seja rápida demais no filme.

Black-Panther-castPorém, esses pontos baixos não tiram o brilho de Pantera Negra, que se apresenta como um filme para os dias atuais, uma obra diferenciada dentre as adaptações de HQs e (permita-me repetir) um triunfo do Marvel Studios em manter a balança diversão-reflexão tão bem posicionada no cinemão hollywoodiano atual.

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Pantera Negra é dirigido por Ryan Coogler (de Creed – Nascido para Lutar) e tem roteiro de Joe Robert Cole e Ryan Coogler. O elenco traz: Chadwick Boseman (T’Challa/ Pantera Negra), Michael B. Jordan (Erik Killmonger), Lupita Nyomg’o (Nakia), Danai Gurira (Okoye), Martin Freeman (agente Everett Ross), Angela Basset (rainha Ramonda), Forest Whitaker (Zuri), Andy Serkis (Ullisses Klawe), Daniel Kaluuya (W’Kabi), Letitia Wright (Shuri), Winston Duke (M’Baku), Sterling K. Brown (N’Jobu), Florence Kazumba (Ayo), John Kani (rei T’Chaka), com participações especiais de Atandwa Kani (jovem T’Chaka/ Pantera Negra), Ashton Tyler (jovem T’Challa), Denzel Whitaker (jovem Zuri/ James), Seth Carr (jovem Killmonger). A estreia no Brasil é em 15 de fevereiro de 2018, um dia antes do que nos EUA.