renato-russo-violc3a3o-bauru-tvGrandes músicos e compositores mudam o mundo com sua obra, deixam legados de fãs e causam comoção quando se vão do plano terreno. Porém, a morte desses artistas também deixam um problema sério da vida real: o espólio. Quem vai ficar com ele? Quem é o responsável? Quem tem mais direito de manusear a obra pós-mortem de um grande artista, sua família (herdeiros) ou seus companheiros de jornada? São questões difíceis de responder. No Brasil, temos um caso célebre com o músico e compositor Renato Russo, líder da Legião Urbana, a maior de todas as bandas de rock do país. Sua morte em 1996 deixou não apenas um vazio (existencial, social e político) por sua obra, mas também feias disputas de posse da propriedade de seu legado. E agora, o drama ganha novo capítulo: numa carta aberta, a irmã do compositor veio a público se queixar do controle “tirânico” que o filho de Russo mantém sobre a obra e o acusa de não somente excluir ela e a mãe do contato com o espólio do artista, como de querer leiloar tudo. Por sua vez, Giuliano Manfredini responde de modo duro, mas direto.

Primeiro, alguns fatos. Ao morrer, Renato Russo – nascido Renato Manfredini Júnior – deixou um apartamento no Leblon, no Rio de Janeiro, lotado de reminiscências de sua obra (letras de músicas manuscritas, cadernos de anotações, diários, instrumentos musicais etc.). Sua família consistia do filho Giuliano – uma criança pequena na época – de um lado (criado com a ajuda de uma tia) e de outro, a irmã Carmen Tereza, a mãe Carminha e o pai Renato. As partes agora brigam entre si. (O pai morreu em 2004).

Entre o fim do ano passado e o começo deste, grande parte desse acervo deixado por Renato Russo foi exposto na Exposição Renato Russo, no MIS de São Paulo, que foi um grande sucesso de público e crítica (saiba mais aqui).

Encerrada a exposição, a irmã de Russo, e também cantora, Carmen Tereza escreveu uma carta aberta ao público, divulgada pelo site Na Telinha. Segue a íntegra do texto:

Foi com profunda tristeza, mágoa e indignação, que eu e a minha mãe, Carminha Manfredini, soubemos por um amigo que no dia do aniversário de 58 anos de meu querido e amado irmão, Renato Russo/Renato Manfredini Júnior, haveria um leilão de todos os seus pertences e objetos pessoais, autorizado pelo seu filho Giuliano Manfredini.

Este leilão irá ocorrer no dia 7 de abril (sábado) a partir das 12:00, no Retiro dos Artistas, Rio de Janeiro.

A tristeza é muito grande porque esses objetos, ou seja, todo o seu acervo cultural e artístico, foi guardado com muito esmero e carinho pelo seu pai, Renato Manfredini, minha mãe e por mim desde a sua morte em 1996. Cuidávamos de tudo, absolutamente tudo: de uma frase escrita por ele em um papel, de seus diários, de suas roupas, instrumentos, livros, LPS, CDS, móveis e de tantos outros objetos daquele apartamento na Rua Nascimento e Silva. E mantivemos o apartamento com a mesma decoração,mobiliário,objetos,como se ele estivesse morando ainda ali.

Em 2004 fui curadora juntamente com Renata Azambuja, de uma exposição intitulada “Renato Russo Manfredini Júnior”, no CCBB de Brasília, em que este acervo foi mostrado a milhares de fãs pela primeira vez. Houve também a recente exposição do MIS, em São Paulo, “Renato Russo”. Ambas foram um sucesso de público, crítica e teve todo o apoio dos fãs, imprensa e de pessoas que gostavam e gostam do Renato.

Como pode Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo, que deveria zelar por todo esse patrimônio, leiloar simplesmente tudo? Se desfazer do mesmo como não significasse nada?

Muitos fatos que aconteceram já há alguns anos, não foram levados a público. Na verdade, minha mãe e eu, não queríamos que assuntos familiares fossem divulgados para gerar especulações envolvendo o nome do nosso querido Renato. Infelizmente, não tivemos outra opção a não ser vir a público, pedir ajuda e mostrar nossa profunda angústia e desalento.

Para se ter uma ideia, uma das atitudes de Giuliano Manfredini, foi a de trocar as fechaduras do apartamento do meu irmão no Rio de Janeiro, para que eu e a minha mãe Carminha, não tivéssemos mais acesso a nenhum pertence dele. Qual não foi a nossa surpresa, quando um dia fomos lá para passar a tarde, (para lembrarmos dele e dos ótimos momentos em família),ver e tocar as suas roupas,cadernos… e não conseguimos abrir as portas! A confirmação veio por uma amiga da família.

Minha mãe que é uma senhora de idade, ficou extremamente desolada já que, não pôde ali ter em suas mãos os pertences do seu filho…. Além disso, ele cortou todo o tipo de relação conosco. Não temos sequer ideia da razão desse afastamento. Ele não fala conosco há quase dois anos…

Vocês podem imaginar a dor da minha mãe, que o criou, não como um neto, mas como um filho, com todo o amor e carinho do mundo? Naturalmente, ela entrou em depressão, mas reagiu porque teve um primeiro filho, este sim, que a amou como se não houvesse amanhã.

Agora ele quer doar tudo como se nada valesse para nós? E os nossos sentimentos? E alguns objetos, que são meus também, por direito, como livros e LPS de infância, fotos? E também alguns que pertencem à minha mãe? E os fãs? Vocês que têm um carinho imensurável e amor incondicional pelo Renato e que nunca mais poderão ter a chance de ver uma outra exposição, pois todo esse espólio vai ser separado,espalhado e dilapidado.

Toda a sua memória cultural e artística será desfeita. Giuliano deveria refletir melhor sobre as consequências que esse leilão trará. As futuras gerações não verão uma bata de show sequer, nem suas calças de couro, absolutamente nada. E para o meu desespero, muitos desses pertences nunca tiveram registro fotográfico.

Fico imaginando o sofrimento que o meu pai que faleceu há 14 anos teria, e também,com certeza,o pesar que as famílias Manfredini e Oliveira sentirão.Todos os meus tios e primos,sem exceção. Ele não tem a mínima noção do que faz ou deve estar sendo muito mal aconselhado por terceiros para agir desta maneira.

Em hipótese alguma somos contra ajudar qualquer instituição.Muito pelo contrário. A minha mãe trabalha com caridade e projetos sociais há quase 45 anos em Brasília-DF.

O que questionamos aqui é o do porquê deste leilão, quando haveria outras alternativas para socorrer o Retiro dos Artistas,que abriga pessoas que merecem todo o nosso apreço, respeito e consideração. Doações, shows beneficentes, ou mesmo como o Renato Russo fez com o seu trabalho solo, ‘The Stonewall Celebration Concert’ (1994), em que parte dos royalties do disco foram doados à Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, campanha organizada por Herbert de Souza. Há muitas formas de se fazer o bem verdadeiramente.

Giuliano pode e deve usar o nome de Renato Russo para quaisquer ações que venham a acudir pessoas merecedoras. Inclusive parte dessa herança deixada por meu irmão Renato, que igualmente tinha uma extrema preocupação por tudo o que guardava (não jogava absolutamente nada fora), poderia ser doada para o Espaço Cultural Renato Russo, em Brasília-DF. Este espaço será reinaugurado em junho de 2018 e terá salas para oficinas e apresentações de dança, teatros, biblioteca e gibiteca. Seria um presente para a cidade e os fãs de todo o país, que poderiam ver e apreciar roupas, manuscritos, instrumentos.

Renato sempre prezou e incentivou a educação e cultura, e ficaria feliz, sem dúvida, que os seus objetos ali estivessem.

Se Giuliano tem a intenção de ser generoso leiloando essas relíquias para o Retiro dos Artistas, porque faz exatamente o oposto, destratando e ignorando a mãe dele e a tia? E os tios,primos e amigos com os quais ele não fala mais?

Ele irá privar não só a minha mãe, a mim e aos incontáveis fãs desse tesouro, mas principalmente a si próprio, que poderia aprender e evoluir individual e intelectualmente com este legado. Sem esses objetos ao nosso alcance, perdem-se todas as referências por ele deixadas. Será praticamente impossível fazermos quaisquer pesquisas mais apuradas sobre o que lia, ouvia, assistia ou pesquisava.

Como disse Carminha Manfredini: “É assim que uma pessoa cai no esquecimento, até desaparecer e enfim, morrer…”.

Obrigada a todos, em meu nome e de minha mãe, por terem lido esse desabafo, e podem acreditar que o meu coração está em mil pedaços (rimou).

Que fiquemos com Deus, com a Luz e com os Anjos! Força Sempre!!!

Carmem Teresa Manfredini.

É um relato impactante, que demonstra a falta de diálogo no seio de uma família que partilha (partilhava? devia partilhar?) o espólio de um dos mais importantes artistas da história do Brasil.

renato russo expo discos e livrosA carta causou comoção e muitos comentários na internet. O próprio Giuliano Manfredini respondeu ao caso, ao ser procurado pela 89 FM, a Rádio Rock, no dia seguinte, 02 de abril, domingo.

Giuliano disse que “divide” o acervo de Renato Russo em duas categorias: uma de uso mais pessoal, relacionado à roupas cotidianas, mobiliário e outros itens; e outro de cunho artístico-intelectual (manuscritos, cadernos, instrumentos musicais etc.). Será apenas o do primeiro tipo que será doada ao Retiro dos Artistas; e que não haverá leilão, apenas a doação para auxiliar os artistas idosos que são abrigados pelo Retiro.

renato russo expo renato-russo-mis-entrada-2-credito-leticia-godoyO herdeiro também relatou – na longa entrevista dada à rádio – que tomou a decisão para preservar a obra do pai: todo o material que está na exposição Renato Russo do MIS permanecerá sob tutela do Museu da Imagem e do Som; e que a exposição será itinerante.

Giuliano ainda acusou os outros familiares de o proibirem de entrar no apartamento do músico por mais de 10 anos e, quando o fez, ficou horrorizado com o fato de que o acervo estava se deteriorando e apodrecendo, trancados no apartamento; sem fazer nenhum trabalho de preservação; que só teria ocorrido com a intervenção do jovem herdeiro. Também acusa a família de viver às custas da Legião Urbana Produções sem nada fazer para preservar a obra do pai.

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Giuliano Manfredini na cama do pai.

Giuliano Manfredini foi criado pela avó desde os 3 anos de idade e, quando completou 18 anos, começou a tomar a frente dos negócios do pai, que perdeu aos 7 anos de idade. Desde então, o rapaz entrou em rota de colisão com os membros remanescentes da Legião Urbana – o guitarrista Dado Villa-Lobos e o baterista Marcelo Bonfá, que também eram compositores – disputando pelo direitos das músicas e, principalmente, sobre o que fazer com o material de arquivo do grupo.

Manfredini insistiu no lançamento de obras ao vivo da banda – como Acústico MTV (1999), Como é que Se Diz Eu Te Amo (2001) e As Quatro Estações Ao Vivo (2004), trazendo, respectivamente, a apresentação acústica na extinta emissora musical, 1992; um concerto completo da última turnê do grupo, realizada em 1994; e um show completo da turnê do álbum As Quatro Estações (o maior sucesso de público e crítica do grupo), realizado no ano de 1990.

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Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá.

Em meio a uma série de disputas, Manfredini e Villa-Lobos e Bonfá, partilham o legado do grupo, mas aparentemente a dupla remanescente conseguiu uma vitória na Justiça e lançou, em 2015, uma versão ampliada do primeiro álbum da Legião Urbana, homônimo, lançado 30 anos antes. O álbum é bastante interessante, trazendo as versões demo que a banda gravou antes da versão final do LP de 1985, trazendo algumas versões melhores de canções famosas, como Ainda é Cedo ou Geração Coca-Cola, que têm pegada mais rock e mais punk do que a original lançada na época.

Além disso, numa decisão inédita, a Justiça permitiu que Villa-Lobos e Bonfá usassem o nome da banda para uma turnê nacional promocional, celebrando os 30 anos da estreia fonográfica da banda. (Veja Aqui!).

O herdeiro investiu também na ampliação da obra solo do pai – que lançou dois discos solo em vida: The Stone Wall Celebration Concert (1994) e Equilíbrio Distante (1995), o primeiro cantado em inglês e o segundo em italiano, todos apenas com covers – lançando obras como O Último Solo (com sobras dos dois anteriores), Duetos (com gravações realizadas com outros artistas, em parceria e duetos) e Presente (com demos de canções antigas – algumas inéditas – e outras nunca gravadas).

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Giuliano Manfredini, o herdeiro.

Nos últimos anos, renderam manchetes a briga do neto com a avó, com o herdeiro expulsando a avó que lhe criou do apartamento de Renato Russo. Mas ao que consta, o músico legou 48 imóveis à família, que vive confortavelmente, não apenas por seus direitos autorais, mas pela aposentadoria de Renato Manfredini (o pai) como um funcionário do alto escalão do Banco do Brasil.

Ainda na entrevista à Rádio Rock, Manfredini acusou seus familiares (primos, tio-avôs etc.) de “mamarem” na Legião Urbana Produções e vivendo às custas do legado do músico, deixando a empresa “dilapidada” em suas palavras.

Como falamos no início, relações familiares e legados artísticos são combinações explosivas, que não se encerram nem de longe no caso de Renato Russo e a Legião Urbana. Mas pelas notícias, podemos dizer – no mínimo – que Giuliano Manfredini tomou uma postura “agressiva” na administração do riquíssimo legado do pai.

Conheça a Discografia Completa da Legião Urbana!