Star-Wars-Han-Solo cinema posterChegou aos cinemas o segundo capítulo de Star Wars Anthology, uma série de filmes derivados da saga espacial mais famosa do cinema, agora, pautada em um de seus personagens mais famosos e queridos: Han Solo – Uma História Star Wars? E o resultado? Bem, sofre justamente do peso impresso à frase anterior. Embora não seja um filme ruim, Solo é o primeiro erro da LucasFilm na fase pós-Disney iniciada em 2015.

São vários os problemas de Solo: o filme é um colcha de retalhos de referências e fan services; a história é absolutamente desnecessária à saga em geral; e com isso o filme não tem muito mais a apresentar senão as autorreferências de Star Wars.

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L3, Han e Lando na cabine da Millenium Falcon.

Até um grande fã da saga pode ficar incomodado com o excesso de autorreferência de Solo. Sem exagero, parece que cada cena, cada diálogo existe apenas para fazer referência a algum elemento (geralmente desimportante) de Star Wars, seja do passado, futuro ou presente da cronologia apresentada neste filme. Fora dos easter eggs, Solo não tem muito a oferecer.

A trama é genérica e comete uma falha muito comum em Hollywood: na ânsia em “deixar tudo amarrado” e poupar recursos fílmicos (para investir em efeitos especiais, por exemplo) é aquela típica história que se resolve toda de uma vez, numa única linha de ação sem intervalos. Dessa forma, à exceção de um preâmbulo passado três anos antes, toda a trama de Solo se passa no intervalo de dois ou três dias, o que é pouco tempo demais para justificar a ligação entre os personagens como Han, Chewbacca e Tobias Beckett. Esse detalhe afrouxa a verossimilhança sentimental do longa.

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Tobias Beckett, ladrão e mentor.

A história em si é genérica, sem grandes atrativos, um típico “filme de assalto” que é um gênero hollywoodiano com uma fórmula pronta. O que sobra são as referências.

Solo tem a preocupação irritante de justificar cada frase, cada referência que o personagem Han Solo original emitiu na Trilogia Clássica de Star Wars. Ele fez o Circuito de Kessell em apenas 12 parsecs? Atirou primeiro? Disse “eu sei” como resposta a “eu te amo”? É amigo de Chewbacca? Conhece o malandro Lando Calrissian? Ganhou a Millenium Falcon num jogo de Sabacc?

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Lando numa mesa de Sabacc.

Nesse sentido, Solo é um exercício de acabar com a imaginação: para quê imaginar como essas coisas aconteceram se podemos mostrar o porquê todo de uma vez em um filme genérico?

Por outro lado, se você assistir Solo apenas como uma aventura de ação espacial sem grandes preocupações com a saga Star Wars como um todo, é um daqueles filmes de Sessão da Tarde: divertido e esquecível.

Não quer dizer que Solo não tenha méritos: os efeitos visuais são muito bons (o que é impressionante em uma produção que sabemos foi cheia de percalços, com a demissão dos diretores Phil Lord e Chris Miller após filmarem 3/4 do longa e serem substituídos pelo veterano Ron Howard, que deve ter refeito 70% do original) e se usam bons momentos de ação.

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Han e Chewie no arenoso planeta Severeen.

Howard acerta ao não cair na tentação do big close, uma mania hollywoodiana também muito em voga no Brasil: concentrar o foco da câmera no rosto dos atores na maior parte dos diálogos e momentos dramáticos. Se por um lado o efeito fortalece cenas emocionais, por outro, o uso em excesso (que é quase sempre o caso) faz a obra carecer de contexto e ganhar visual cansativo. E porque apenas mostrar o rosto dos atores quando se investem milhões na construção de cenários detalhados e realistas e grandes efeitos visuais digitais?

Ron Howard não faz isso em Solo, e seus closes quase sempre mostram pelo menos do peito ou da cintura para cima de seus atores, o que valoriza o figurino, a fotografia e os cenários. Por isso, vemos muito bem o palácio do gângster Dryden Vos, a mesa de Sabbacc na qual Lando Calrissian está jogando e o belo interior da Millenium Falcon, talvez de um jeito poucas vezes visto.

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O belo interior da Millenium Falcon.

Outra coisa interessante que Solo se beneficia de um diretor veterano – Howard dirigiu Apolo 13, O Código Da Vince e Frost/ Nixon – é o uso criativo de enquadramentos e sequências. Pequenos detalhes desse tipo tornam Solo muito bonito visualmente: na cena em que Han pilota a Millenium Falcon pela primeira vez e eles são perseguidos por caças TIE, a câmera mostra o personagem sentado em sua cadeira e movendo aos controles ao mesmo tempo em que olha pela vidraça e vê o caça inimigo exatamente ao seu lado perigosamente se aproximando; noutra cena, enquanto Han e seus amigos estão em meio a um grande tiroteio, a câmera foca no rosto de Aldren Ehrenreich com seu blaster na mão disparado na direção do telespectador ao mesmo tempo em que vai andando para trás e entrando de costas pela rampa de acesso da Falcon até estar dentro da nave, num jogo cinematográfico cheio de truques e luzes, pois sabemos que o cenário externo e interno foram filmados separadamente, mas usa a cinematografia para que o público nem perceba isso.

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Emilia Clark como Q’ira.

O elenco de Solo também está muito bem. Woody Harrelson é conhecido por seus tipos durões de moralidade dúbia, então, está confortável na pele do ladrão Tobias Beckett; Emilia Clark, amada pelos nerds por Games of Thrones, enche sua Q’ira de simpatia e responde bem aos momentos dramáticos; Donald Glover dá um show em sua versão cheia de charme e malandrice do capitão Lando Calrissian, sendo provavelmente, o ponto alto do elenco ao lado de Paul Bettany como o gangster Dryden Vos.

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Dryden Vos.

O grande ponto de dúvidas da crítica é contra o protagonista Alden Ehrenreich. Bastante criticado por alguns, na verdade, o ator americano de sobrenome alemão está ótimo em seu papel. Ehrenreich vem de uma curta carreira de trabalho com grandes diretores: Francis Ford Coppolla (Tetro, Virginia), Woody Allen (Blue Jasmine) e os irmãos Cohen (Ave, César). Ele entrega jovialidade, um bom coração, um toque de malandragem e outro (maior) de safadeza a seu Han Solo e, no contexto do filme – que é o que importa – está muito bom. Eu o colocaria sem dúvidas como um dos destaques do filme, fazendo trio com Glover e Bettany. solo-movie-new-trailer-942978

O problema é a comparação com Harrison Ford, armadilha na qual muitos críticos caem. Não adianta fazer isso. Ehrenreich também seria massacrado (provavelmente muito mais) caso tentasse imitar a performance de Ford 40 anos atrás (!). Ele não faz isso. Ehrenreich fez o seu próprio Han Solo e ele é distinto do de Ford. O fã hardcore pode encontrar consolo no fato de que Solo mostra o contrabandista aos 20 e poucos anos, mais ou menos 10 anos antes de sua “estreia” em Uma Nova Esperança, e ainda não é, portanto, aquele cara que Ford interpretou. É um personagem em formação e isso é muito difícil de fãs e críticos entenderem.

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Harrison Ford como Han Solo em O Retorno de Jedi.

Mas ao mesmo tempo, na hora em que é outro ator fazendo o mesmo papel (mesmo que seja no mesmo tempo cronológico ou sequência), este irá imprimir a sua marca no personagem; caso contrário, resta apenas a imitação. Um bom ator, captará a essência do personagem (charme, malandragem, ceticismo, ironia), mas usará essas ferramentas de modo diferenciado. É o ocorre com James Bond, que mantém sua essência em 50 anos de franquia cinematográfica, mesmo interpretado por seis atores diferentes. É o que Ehrenreich faz.

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O belo visual de Enfys Nest e sua gangue.

Assim, Han Solo – Uma História Star Wars é um ponto mais baixo na nova fase da franquia, estando aquém de Os Últimos Jedi, Rogue One ou O Despertar da Força, mas também não é um filme ruim. Longe disso. Aos fãs da saga, Solo entrega um punhado de visuais bacanas – veja o vilão Enfys Nest – , o detalhamento de eventos históricos (o que acho desnecessário, com já disse) e até uma pequena (grande?) surpresa no fim. O filme deixa uma grande porta aberta para sequências, que virão no depender do sucesso desse capítulo.

Contudo, aqui mora a armadilha: com sua trama genérica e excesso de autorreferência, Solo tem pouco a oferecer aqueles que não são fãs de Star Wars e, com isso, pode ter muita dificuldade em emplacar com o grande público e desconfio que não fará nem de longe o sucesso esmagador dos outros três produtos entregues desde 2015, cada um dos quais ultrapassando a rara marca de 1 bilhão nas bilheterias.

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Han Solo – Uma História Star Wars é dirigido por Ron Howard, a partir de um roteiro de Lawrence Kasdan e Jonathan Kasdan. O elenco traz: Alden Ehrenreich (Han Solo), Emilia Clark (Q’ira), Woody Harrelson (Tobias Beckett), Joonas Suotamo (Chewbacca), Donald Glover (capitão Lando Calrissian), Phoebe Waller-Bridge (voz de L3-37), Paul Bettany (Dryden Vos), Tandie Newton (Val), Erin Kellyman (Enfys Nest), Jon Favreau (voz de Rio Durant), dentre outros. A estreia no Brasil foi em 24 de maio de 2018.