stan lee today 02Na segunda-feira, 12 de setembro, o mundo perdeu o grande Stan Lee, o maior de todos os criadores das histórias m quadrinho s em todos os tempos, criador de personagens como Homem-Aranha, Hulk, Thor, Homem de Ferro, Doutor Estranho, Pantera Negra, Vingadores, X-Men, Demolidor, Viúva Negra, e muitos outros. E para celebrar sua memória, não apenas como criador, o HQRock apresenta As Melhores Histórias de Stan Lee, mostrando claramente porque ele tem toda essa fama!

Embora um dos maiores créditos de Stan “The Man” Lee foi seu papel como criador de personagens e conceitos; e de seu trabalho como editor; o rosto público da Casa das Ideias também escreveu grandes histórias que são clássicos absolutos das HQs mundiais e justificam seu nome como “o maior de todos” entre todos os criadores.

Em todas essas funções, ele revolucionou as histórias em quadrinhos, ao incorporar uma série de inovações e transgressões.

Resultado de imagem para john romita srTalvez a maior de todas as contribuições de Lee para as HQs e os super-heróis em particular foi a humanização dos personagens. Embora sejam heróis gloriosos, as criações de Lee são humanas, falhas e cheias de defeitos. Como as pessoas comuns. Assim, suas histórias mostram os heróis tendo que lidar com sua própria humanidade: orgulho, vaidade, ciúmes, mesquinhez, e tantos outros sentimentos não tão nobres que estão conosco.

Resultado de imagem para jack kirby steve ditko john romitaQuando ganhou seus poderes de Homem-Aranha, Peter Parker foi fazer o que qualquer pessoa normal faria: foi usá-los para ganhar fama e fortuna! Assim, seu uniforme é confeccionado por um empresário para que ganhe dinheiro com aparições na TV. Parker só empregou seus poderes “para o bem” quando foi acometido de uma tragédia: em certa ocasião, foi enganado por um produtor de TV que não lhe pagou o que devia e, coincidentemente, presenciou um assalto, na qual um ladrão levou a grana do cara. Peter tinha habilidade o suficiente para impedi-lo, mas não fez nada, como uma vingança contra o produtor.

Imagem relacionadaPoucos dias depois, ao voltar para casa, viu que seu Tio Ben Parker, que lhe criou como filho, depois que ficou órfão, fora assassinado por um ladrão. Enfurecido, o Homem-Aranha saiu em busca do assassino e, com seus poderes, o prendeu fácil, apenas para descobrir que era o mesmo cara de deixara passar na TV. Se o tivesse prendido naquela ocasião, o bandido não teria matado seu tio.

O evento lhe ensina uma lição: o lema de seu tio está certo, “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”.

Imagem relacionadaIsso era um personagem verdadeiramente humano, totalmente diferente dos que haviam por aí. E não parava por aí: Parker era apenas um adolescente no Ensino Médio, magro, não tão bonito, impopular, azarado, que sofria bullying dos valentões da escola, não tinha sorte com as garotas (que o achavam CDF demais). E mais: com a morte do Tio Ben, ele e a tia May viviam apenas da pensão do falecido, numa situação beirando à pobreza, ainda mais com os problemas de saúde da tia, que passara a sofrer do coração e que, precisava de remédios caros para viver e não podia ter sobressaltos. Qualquer susto poderia matá-la. É por isso que decide manter a identidade secreta, para poupá-la. Ainda mais quando o jornal Clarim Diário começa a taxar o aracnídeo de ameaça e de bandido.

Um herói com problemas financeiros era algo inédito, num mundo onde os heróis ou eram sujeitos ricos (como o Batman e o Arqueiro Verde) ou tinham empregos estáveis (Mulher-Maravilha, Flash, Lanterna Verde) ou não tinham nada mas nunca pensavam em dinheiro por qualquer motivo. Ser adolescente também era uma novidade, já que aos jovens cabiam apenas a função de serem “ajudantes de heróis”, como Robin, Ricardito e Moça-Maravilha.

Também se preocupava em sempre dotar seus heróis de pontos fracos, que os tornavam mais humanos: o Demolidor era super-habilidoso e tinha sentidos super-apurados, mas era cego; o Homem de Ferro dependia de sua armadura para não morrer, pois ela afastava magneticamente os estilhaços de uma bomba de seu coração; embora poderoso como um deus, em sua identidade civil, Thor virava o médico Donald Blake, que era manco de uma perna;

O Método Marvel de Escrita

Claro, antes disso, precisamos falar sobre as parcerias de Lee e sua importância. De fato, como quase tudo na vida, ele não fez tudo sozinho. Em suas origens, a Marvel Comics era uma empresa pequena e tinha só um pequeno punhado de empregados, contratando seus artistas – roteiristas e desenhistas – como terceirizados, ou seja, free lancers. E para tornar tudo ainda mais barato, o dono da Marvel, Martin Goldman, deixava o próprio Lee escrever quase tudo, pagando-lhe por fora a escrita – um valor fixo de tantos dólares por página – de modo que só precisavam de reforço “de fora” mesmo para desenhistas e arte-finalistas.

Stan Lee atingiu o sucesso cedo, mas depois amargou uma longa má fase antes da volta por cima.
O jovem Stan Lee.

A Marvel fora fundada em 1939 com o nome Timely Comics, e Stan Lee fora contratado como um tipo de office boy quando tinha apenas 17 anos de idade, e a Timely foi “grande” nos anos 1940 por causa do sucesso de Capitão América, Tocha Humana e Namor, o príncipe submarino, e entrou em crise no pós-Guerra com o declínio dos super-heróis, passando por uma fase “em baixa”, publicando outros gêneros (faroeste, ficção científica, terror, policial, romance e monstros, sob um novo nome, Atlas Comics, até que, com a ideia de um novo universo de super-heróis, decidiu-se por mudar de nome de novo, agora para Marvel Comics, em 1961.

Stan Lee no estilo "jornalista da velha guarda", em 1965, cede espaço para...
Stan Lee no início dos anos 1960.

Nos anos iniciais da Marvel “moderna”, a partir daquela mudança, ainda se tinha um empresa pequena, na qual quase todas as histórias eram escritas por Stan Lee e desenhadas por um pequeno grupo de desenhistas, das quais Jack Kirby, Steve Ditko e Don Heck eram os principais. Então, para dar conta do volume de trabalho – e não se esqueça, Lee era o editor-chefe da Marvel e este era o seu cargo na empresa, era nesta função que cumpria sua jornada de trabalho diário, de modo que os roteiros que escrevia, como já dissemos, eram “trabalho por fora”, e Lee os fazia fora do turno de trabalho,  ou seja, no período noturno e nos fins de semana – o escritor criou o Método Marvel de produção de HQs.

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Steve Ditko, cocriador do Homem-Aranha.

Era algo simples: em vez de produzir um roteiro detalhado (descrevendo cenas e personagens, com sugestões de quantos quadros por página e com os roteiros bem delineados), Lee criava uma sinopse da história, uma ideia do que ela seria (e que dependia do caso, podendo ser desde uma descrição rápida de dois parágrafos até um ou duas páginas de texto) e passava ao desenhista, que se encarregava da função de delinear os personagens, criar o ritmo da história e desenvolver cenas e situações a partir de desenhos e movimentos.

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Uma das raras fotos de Stan Lee e Jack Kirby juntos, em 1966.

Quando a história voltava – apenas com os desenhos à lápis – Lee exercia a função de editor: avaliava o material e sugeria mudanças ou adaptações. O artista realizava o que era necessário (Lee era o editor-chefe) e entregava de novo o material em sua “versão final”, que, uma vez aprovada, era encaminhada para o arte-finalista cobrir o lápis com tinta nanquim e o próprio Lee (já não mais editor, mas de novo escritor) usava seu contra-turno para escrever os diálogos (em balões) e recordatórios (aqueles quadrados com texto) que davam detalhes e, às vezes, aprofundavam a história.

Resultado de imagem para stan lee jack kirbyQuando havia uma relação mais colaborativa entre Lee e os desenhistas – o que no primeiro momento, era muito mais claro com Kirby e Ditko, do que com Heck, por exemplo – todo esse processo era precedido de uma discussão ou debate de ideias e proposta, que iriam resultar naquilo transcrito acima.

Resultado de imagem para jack kirby steve ditko john romitaDepois, com o passar dos anos, o processo gerou algumas variações: Kirby e Ditko, por exemplo, se apropriaram de alguns personagens – Thor no primeiro caso; Homem-Aranha e Doutor Estranho, no segundo – de modo que os desenhistas até mantinham o momento prévio de discussão de ideias, mas não raro pulavam a primeira etapa do processo (a sinopse de Lee) e já criavam os desenhos, que seguiam ao restante das etapas.

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Stan Lee e John Romita nos anos 1970.

Depois do primeiríssimo ciclo da Marvel, que gerou seu grande sucesso, chegou uma nova leva de artistas, que tiveram que se adaptar ao processo criado por Lee, alguns casos não deram certo (e estes artistas ou saíram da editora ou não trabalharam muito co Lee e sim com outros roteiristas, que usavam mais a técnica tradicional – o roteiro completo), mas os que conseguiram se adaptar criaram também trabalhos sensacionais, como John Romita, John Buscema e Gene Colan.

... o Stan Lee superstar de 1968.
Stan Lee superstar em 1968.

Então, num processo tão colaborativo como este, é muito difícil dizer “quem fez o que”. Isso quer dizer que esta lista das Melhores Histórias de Stan Lee não significa, em momento algum, ignorar as (grandes, enormes, imensas) contribuições de cada um dos desenhistas que trabalharam nelas, mas também destacar que nelas é possível identificar, algo claramente, a influência do próprio Lee, por seu estilo de narrativa, pelas formas como as palavras foram usadas, mas principalmente, no ponto de que não cabia ao escritor simplesmente a função de “preencher espaço com palavras” nas histórias, mas dosar aqueles personagens de humanidade e de conceitos que foram, fundamentalmente, marcas suas e não de seus colaboradores.

O que fica ainda mais claro quando se analisa do trabalho desses desenhistas sem Lee, com outros roteiristas.

Lee criou uma forma de narrativa muito peculiar: laudatória, exagerada, dramática, com humor por vezes ácido e irônico. A grandiloquência em seus editoriais tinha marca tão exagerada que ia pelo caminho do humor voluntário, mas algo disso sobrevivia nas histórias também, especialmente nas mensagens de capa e abertura de histórias que enfatizavam o especialmente o drama, mas também o suspense. Isso contribuía para dar um ar épico às grandes aventuras.

As Histórias

Portanto, vamos às melhores histórias de Stan Lee!

Amazing_Spider-Man_Vol_1_5001) Spider-Man No More

Amazing Spider-Man 50, de 1967, arte de John Romita

Uma das histórias mais humanas de um dos personagens mais humanos entre todos. Nunca Mais mostra a culminância dos primeiros anos de ação do Homem-Aranha em torno de um ponto crucial: qual o custo que Peter Parker pagou por ter se tornado o herói? É uma questão interessante, pois diversas vezes, antes e depois (e mais além com outros escritores), Parker manifestou interesse em abandonar sua identidade heroica.

E a grande razão disso tudo era que o “amigão da vizinhança” simplesmente destruiu a vida de Peter. Em prol de fazer o bem com seus poderes, em fazer levar o lema de seu falecido tio Ben de que “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”, Peter negligenciou a saúde da tia May que lhe criara; ganhou fama de indiferente perante seus amigos; perdeu o amor de Betty Brant, sua primeira namorada séria; não ia bem na Universidade Empire State, apesar de ser o aluno mais brilhante da sala; não podia ter um bom emprego por causa da jornada noturna de heroísmo. E o que ganhou o Homem-Aranha em troca? Difamação, acusado de ser um criminoso pelo jornal Clarim Diário, comandado pelo editor J.J. Jameson.

ASM50_03-e1375931176343Uma série encadeada de eventos leva Peter ao limite e, numa atitude desesperada, ele desiste de tudo! A icônica cena – belamente desenhada por John Romita – de Parker deixando o uniforme do Homem-Aranha em uma lata de lixo (também presente de modo mais humilde na capa e adaptada ao cinema em Homem-Aranha 2, de Sam Raimi, em 2004) ilustra o ápice da frustração do personagem. Mas Peter vai descobrir que não pode deixar o passado para trás, que não consegue se livrar de sua responsabilidade, que o Homem-Aranha é o que ele é.

ASM 50 Kingpin_01Um ótimo exemplar de como Stan Lee emprestava humanidade e profundidade aos seus personagens. E também, de como cada ação tem consequências: no pequeno intervalo em que Peter abandona tudo, a roupa do Aranha é achada e noticiada e exposta por Jameson, o que incentiva o chefão criminoso Wilson Fisk a tomar o controle de todas as gangues do submundo, se tornando o Rei do Crime, um poderoso vilão para o herói dali para frente.

Fantastic_Four_Vol_1_4902) The Coming of Galactus

Fantastic Four 48, 49, 50, de 1966, arte de Jack Kirby

Stan Lee e Jack Kirby produziram as 102 primeiras edições da revista do Quarteto Fantástico e muitos consideram este material como o melhor da dupla, porque era um exercício borbulhante de criatividade e que lançou verdadeiramente as bases de grande parte do que é o Universo Marvel. Além dos heróis em si e sua galeria impressionante de vilões – como o Doutor Destino, Galactus, os aliens Kree e Skrulls, o Aniquilador etc. – muitos elementos importantes da Marvel foram introduzidos nessa revista, como a volta de Namor, o príncipe submarino; o Vigia; os Inumanos; o Pantera Negra; e o que nos interessa aqui, o Surfista Prateado.

fantastic four 50 silver surfer and galactusA história da introdução de Galactus e Surfista Prateado além de um clássico absoluto do Quarteto, da Marvel e dos anos 1960, é um ótimo exemplo de como funcionava o Método Marvel. Lee e Kirby criaram a ideia de Galactus, o devorador de mundos, vir à Terra e tal, e o segundo foi fazer os desenhos. Quando Lee foi ver, notou que Kirby tinha introduzido um personagem novo que não estava nas conversas anteriores e perguntou quem era aquele cara nu, careca e surfando numa prancha espacial. Kirby respondeu: é o Surfista Prateado. E por que o introduziu sem pedir? Porque (como fã de mitologia que era) achou que um ser tão poderoso quanto Galactus provavelmente teria um arauto.

A trama de A Vinda de Galactus é muito interessante, cheia de tensão e suspense. Ao testemunharem uma série de estranhos fenômenos atmosféricos, o Quarteto Fantástico vai investigar e descobre que o responsável era Uatu, o Vigia, membro de uma raça alienígena dedicada a apenas observar e registrar a história dos planetas, estava tentando esconder a Terra de Galactus, o devorador de mundos, um ser de imenso poder cósmico que literalmente se alimenta da energia de planetas. Galactus tem um arauto, o Surfista Prateado que singra o cosmos em busca de alimento para seu mestre.

fantastic four 49 silver surfer and aliciaO Surfista já é um ser de imenso poder e o Quarteto com muita dificuldade consegue empatar a luta, mas o alienígena é acolhido pela escultora cega Alicia Masters, a namorada do Coisa, e ao perceber a ausência de preconceito da moça e sua vida cheia de humanidade, o arauto se apieda da Terra e, pela primeira vez, tenta se voltar contra seu mestre para impedir a destruição de nosso planeta.

fantastic four 49 galactus firstEnquanto isso, o Vigia concede ao Quarteto a posse de uma arma secreta, o Nulificador Total, que é a única coisa a qual Galactus teme. O gigante vai embora, mas como punição, deixa o Surfista Prateado preso à Terra, impedido de sair e retornar ao cosmos.

A Trilogia de Galactus, como também é conhecida, é uma grande aventura dos quadrinhos, muito mais poderosa do que a pálida versão dela apresentada nos cinemas em Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, de 2007.

03) Parable

Silver Surfer 01-02, de 1988, arte de Moebius

Embora a ideia inicial do Surfista Prateado tenha sido de Jack Kirby, Stan Lee criou um laço fortíssimo com o personagem, ao ponto de se tornar o seu favorito particular. Assim, uma das últimas grandes histórias produzidas pelo mestre foi justamente do personagem. Parábola tem o mérito de trazer a arte fantástica do francês Moebius, que muito raramente trabalhou com super-heróis, e a história mostra um futuro distópico no qual Galactus vem consumir a Terra e, outra vez, o Surfista se eleva para tentar impedir.

04) The Final Chapter

Amazing Spider-Man 31, 32, 33, de 1965, arte de Steve Ditko

Stan Lee e Steve Ditko fizeram as 38 primeiras edições de Amazing Spider-Man, montando as bases fundamentais do universo do Homem-Aranha. Este período corresponde desde quando Peter Parker se tornou o amigão da vizinhança até quando ingressou na Universidade Empire State e conheceu uma vida ligeiramente nova.

É certo que Ditko tinha uma predominância na revista, pois o Aranha e o Doutor Estranho se tornaram os seus personagens por excelência e ele passou a ser mais ativo no comando das histórias. Mas Lee empregou uma série de artifícios às aventuras do escalador de paredes, fosse Peter pensando em sua vida miserável, fosse na característica de rufão que emergia quando vestia a máscara e passava a confrontar bandidos.

Além disso, as histórias do Homem-Aranha se beneficiavam de ser mais “pé no chão” do que a média da Marvel, trazendo vislumbres de realismo fantástico. E este definitivamente é o caso de O Capítulo Final, o ápice da parceria Lee-Ditko.

Na trama, a tia May é envenenada radioativamente e está prestes a morrer. Sua única salvação é um isótopo raro que está chegando a Nova York, mas que desperta o interesse de um misterioso novo chefe criminoso, que emprega um exército de capangas. No fim, Peter irá descobrir que o chefão não é outro senão o tradicional Dr. Octopus, mas isto não é o mais importante.

O grande lance de O Capítulo Final é a cena do desabamento. Após fracassar em segurar os criminosos, o Homem-Aranha acaba soterrado em toneladas de entulhos metálicos numa câmera que está inundando de água. O peso é muito maior do que aquele que Peter pode erguer e está condenado a morrer enterrado e afogado ali, enquanto sua tia também morrerá. O desespero e a petulância em se entregar fazer o herói usar todas as suas forças, aquelas que nem sabia que tinha, para erguer seu túmulo metálico e sair dali.

Não bastasse os balões e a narrativa dramática de Lee, a cena é embelezada pela arte claustrofóbica de Ditko que, quase sempre pelo mesmo ângulo, que demonstra a tensão crescente e, depois, a vitória e o triunfo. Tanto que quando Ditko entregou os desenhos, Lee os olhou e disse: “você acaba de desenhar as três páginas mais famosas da história!”. E ele estava certo.

Um clássico de superação que foi adaptado ao cinema em uma cena de Homem-Aranha – De Volta ao Lar, de 2017.

Resultado de imagem para silver surfer 04 196805) The Good, The Bad, The Uncanny

Silver Surfer 04, de 1968, arte de John Buscema

Embora o esforço inicial de criação do Surfista Prateado tenha sido de Jack Kirby, Stan Lee desenvolveu um forte elo com o personagem e o adotou como um de seus favoritos. Assim, em 1968, após algumas aparições na revista do Quarteto Fantástico, Lee deu início à revista solo de Norin Radd, mas agora, ao lado do desenhista John Buscema, um dos maiores da história da Marvel e com passagens marcantes em Vingadores, Quarteto Fantástico, Thor e Conan, o bárbaro.

O Bom, o Mau e o Estranho é um grande clássico dessa revista, na qual – preso na Terra por um feitiço de Galactus – o Surfista Prateado vive uma existência atribulada, cheia de dúvidas existenciais, o peso na consciência por sua ação como arauto do devorador de planetas e a busca de redenção, na qual enxerga, em nós humanos, um exemplo de exacerbação e inspiração ao mesmo tempo. O tom filosófico e questionador dessas aventuras escritas por Lee marcaram época e mostram de modo interessante as ideias pacifistas e igualitárias do escritor.

Nesta história em particular, Norin Radd é manipulado por Loki e termina entrando em conflito com Thor, mas esta jornada é apenas a ponta de lança de um conto emocional.

Imagem relacionada06) The Peril and the Power

Fantastic Four 57, 58, 59, 60, de 1966, arte de Jack Kirby

Depois de estrear na revista do Quarteto Fantástico, o Surfista Prateado causou um grande impacto nos leitores e retornou algumas vezes. Esse foi o principal dos regressos: em O Perigo e o Poder, o ex-arauto de Galactus é vítima de um ataque do Doutor Destino, o maior inimigo do Quarteto, que consegue roubar sua energia cósmica. Uma grande aventura que demostra a força das histórias da “primeira família” nas mãos de Lee e Kirby.

Resultado de imagem para captain america 109 kirby07) The Hero That Was/ Lest We Forget!

Captain America 109, 111, de 1968/1969, arte de Jack Kirby

Jack Kirby foi o principal criador do Capitão América, ao lado de Joe Simon, ainda em 1941. Mas Stan Lee começou a escrever o sentinela da liberdade naquele ano mesmo, primeiro como assistente da dupla, depois, como roteirista principal. Assim, quando Lee e Kirby trouxeram Steve Rogers de volta – numa trama que mostrava que o herói tinha ficado congelado, após um acidente, o que lhe permite despertar no presente depois de décadas em animação suspensa, tão jovem quanto antes – tornaram o personagem um dos mais explosivos da Marvel; com Kirby criando visuais estonteantes e grandes cenas de ação ressaltando a força e agilidade do heróis, e sua maestria no uso do escudo; e Lee lhe dando uma alma atormentada, de um sujeito que estava “fora de seu tempo” e se sentia perdido e sem propósito quando não lutava por justiça.

Resultado de imagem para captain america 109 kirbyEntre 1964 e 1969, Lee e Kirby criaram a primeira onda de histórias do Capitão América na Marvel moderna e estabeleceram todos os preceitos básicos do personagem, já que em grande medida as histórias das décadas de 1940 e 50 foram desconsideradas. Esta etapa se encerra nessas duas histórias, O Herói que Era e Para Não Esquecer, publicadas em 1968 e 1969, respectivamente. A primeira conta a origem do sentinela da liberdade, na primeira vez que sua história é recontada nos tempos modernos (havia sido mostrada rapidamente numa revista de 1965, recontando o que fora mostrado em 1941). Mas agora, o conto de origem é ampliado e mostra detalhes interessantes de como Steve Rogers se tornou o herói que conhecemos, ao mesmo tempo, adicionando drama de seus tormentos contemporâneos.

Resultado de imagem para captain america 111 kirbyA segunda história é um relato da biografia do herói desde os tempos da II Guerra ao despertar no presente e na retomada da vida ao lado dos Vingadores. É a oportunidade de amarrar a nascente cronologia do herói por seus dois principais escritores.

Embora ambas as histórias, por sua origem, sofram do estilo “documentário” ao relatar episódios soltos e tentá-los amarrá-los em uma única trama, é uma maneira interessante de visitar a vida do Capitão América e entender quem ele é. Infelizmente, ambas representam o último esforço conjunto de Lee e Kirby com o herói: Lee continuou escrevendo o personagem até 1971, juntamente a outros desenhistas (principalmente, Gene Colan e John Romita), enquanto Kirby se afastaria e só retomaria o personagem (agora escrevendo e desenhando sozinho) em uma explosiva sucessão de tramas entre 1976 e 1978.

Imagem relacionada08) The Power and the Price

Silver Surfer 03, de 1968, arte de John Buscema

De novo, o Surfista Prateado e seus contos atormentados: nesta aventura, enquanto aprendendo a viver na Terra, e odiado pelos humanos, que o vêm como o arauto de Galactus (ou simplesmente, um alienígena que deve ser temido), os poderes de Norin Radd chamam a atenção de Mefisto, o poderoso senhor do reino do inferno – ou seja, a versão Marvel do Diabo, que faz aqui sua estreia.

Resultado de imagem para silver surfer 03 1968 The Power and the PriceNa trama, encantado pelo poder do Surfista, Mefisto tenta capturar sua alma e sequestra Shalla-Bal, o grande amor do herói, que ele abandonou em seu planeta natal, Zenn-La, quando se sacrificou para se tornar o arauto de Galactus em troca do devorador de planetas poupar seu planeta. Mefisto tenta de várias formas corromper a mente do Surfista, até tenta dominá-la para que sua maldade o afete, mas Radd é tão puro que é o demônio quem é afetado por sua bondade!

Resultado de imagem para Daredevil 4709) Brother, Take my Hand!

Daredevil 47, de 1968, arte de Gene Colan

Apesar de escrever HQs de ação e aventura com super-heróis, Stan Lee sempre buscou compensá-las com contos mais humanos, de maior valor literário. Histórias “pequenas” que ganhavam em qualidade e humanidade. E este é o caso. Mais de uma vez, o próprio Lee citou esta história como uma das que mais tinha orgulho de ter escrito.

Resultado de imagem para Daredevil 47Na trama de Irmão, Segure Minha Mão, o Demolidor conhece Willie Lincoln, um soldado na Guerra do Vietnã que ficou cego em ação. Ao conversarem, fica sabendo que o rapaz, que é afrodescendente, tinha sido policial em Nova York e que fora demitido da força, falsamente acusado de suborno. Usando de sua identidade secreta, o homem sem medo lhe diz que, quando voltar ao país, procure o advogado de defesa, Matt Murdock.

Lincoln faz isso e Murdock descobre que ele foi chantageado por um chefão do crime e vai lutar, nas duas frentes que pode, para limpar seu nome. Uma bela história de redenção.

Resultado de imagem para The Goblin Lives10) The Goblin Lives

Spectacular Spider-Man 02, de 1968, arte de John Romita

Stan Lee adorava histórias dramáticas. E carregadas com suspense então…  O Duende Vive é fruto do esforço de Lee de criar uma segunda revista para o Homem-Aranha, entrando num estilo que a concorrente DC Comics já adotava há muito tempo com seus personagens. Mas o editor-chefe da Marvel queria algo diferente: The Spectacular Spider-Man seria uma revista de estilo magazine, de formato maior, mais páginas e roteiro mais rebuscado. E edição 01 foi em preto e branco, mas Lee decidiu fazer o número 02 em cores, trazendo uma bombástica batalha contra o Duende Verde, o mais perigoso dos vilões do Aranha naquela época.

O Duende Vive era a primeira aparição do vilão desde 1966, quando descobriu a identidade secreta do Homem-Aranha e revelou a sua própria: Norman Osborn, empresário do ramo químico que, coincidentemente, era pai de Harry Osborn, então, o melhor amigo de Peter Parker. Naquela história, ao final, a batalha do Aranha com o Duende terminou em uma grande explosão e Orborn ficando com amnesia, esquecendo que tinha sido o vilão.

Resultado de imagem para The Goblin Lives john romitaNa trama desta nova, vendo o amigo com muitas dificuldades financeiras, Harry oferece a Peter um estágio na empresa do pai, e este aceita. Impressionado com a inteligência do rapaz, Osborn se aproxima dele, mas o contato vai fazendo sua mente se lembrar que ele fora o Duende Verde e que Peter é o Homem-Aranha! A tensão entre os dois vai crescendo em meio a uma festa dos amigos de Harry até eclodir em um grande confronto, tudo embalado na belíssima arte de John Romita!

Resultado de imagem para Fantastic Four Annual 0311) Bedlam at the Baxter Building

Fantastic Four Annual 03, de 1965, arte de Jack Kirby

Stan Lee também tinha o talento para fazer histórias grandiosas e estapafúrdias. Esta é uma delas com um ótimo resultado: Distúrbio no Edifício Baxter mostra o casamento de Reed Richards e Sue Storm, o Senhor Fantástico e a Mulher-Invisível do Quarteto Fantástico. Como os heróis não têm identidade secreta, convidam todos os heróis da Marvel para a cerimônia.

Mas é claro que o Doutor Destino não ia deixar uma coisa dessas barato! O vilão provoca vários outros inimigos para realizar um ataque público ao casório, o que vira uma aventura incrível e engraçada, com a outra metade da equipe, Tocha Humana e O Coisa, fazendo das tripas coração para que a cerimônia prossiga normalmente, no que contam com a ajuda de vários outros heróis. Apenas uma história de ação inconsequente muito divertida.

No fim, num recurso que os escritores adotaram algumas vezes, os próprios Lee e Kirby aparecem no fim da história, sendo barrados na cerimônia. A situação seria adaptada ao cinema (sem Kirby, que morreu em 1994) em O Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, em 2007.

Resultado de imagem para Amazing Spider-Man Annual 0112) The Sinister Six

Amazing Spider-Man Annual 01, de 1964, arte de Steve Ditko

Como a anterior, esta é apenas uma aventura cheia de ação, mas das boas. O Sexteto Sinistro traz a estreia do grupo homônimo de super-vilões: o Doutor Octopus consegue reunir alguns dos piores inimigos do Homem-Aranha (Abutre, Mistério, Electro, Homem-Areia e Kraven, o caçador) para dar cabo dele definitivamente. Não há muita “história”, apenas uma grande ação do amigão da vizinhança contra seus mortais inimigos em belíssimos quadros de página inteira assinados por Steve Ditko.

Resultado de imagem para Amazing Spider-Man Annual 0113) Spider-Man

Amazing Fantasy 15, de 1962, arte de Steve Ditko

Esta talvez seja a mais importante das histórias de Stan Lee dentre todas! Em apenas oito páginas, vemos a origem do Homem-Aranha: picado por uma aranha radioativa, virando uma atração na TV, a morte do tio Ben, e a captura do assassino que lhe ensina a lição de que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Uma história revolucionária, por causa de seus elementos simples, mas principalmente, por fundamentar um herói absolutamente humano, cheio de falhas, um jovem estudante, com problemas financeiros e dificuldade de sair com uma garota.

Resultado de imagem para Amazing Spider-Man 96, 97, 9814) In the Grip of the Goblin

Amazing Spider-Man 96, 97, 98, de 1971, arte de John Romita e Gil Kane

Stan Lee sabia sacudir as coisas. E o fez com Nas Mãos do Duende, ao quebrar o código de autocensura dos quadrinhos da época.

Antes um parentese: nos anos 1950, os super-heróis perderam popularidade e foram substituídos por HQs de outros gêneros, como ficção científica, policial, faroeste, terror, romance. Mas o conteúdo adulto da maioria dessas revistas levou à campanha difamatória do psiquiatra Fredric Wertham, que escreveu o livro A Sedução do Inocente, que acusa os quadrinhos de serem a causa da crescente delinquência juvenil. Em resposta, para se proteger, as editoras criaram em 1954 o Comic Code Authority (CCA), um órgão de autocensura que proibia uma série de coisas nas histórias: violência, mortes explícitas, sexo ou sexualidade, drogas ilegais, elementos de terror e criaturas do gênero. Sem o selo de aprovação do CCA, muitas bancas e distribuidoras simplesmente se negavam a vender as revistas, o que era morte certa à publicação caso não acatasse a censura. O CCA acabou com os gêneros policial e de terror e levou à falência muitas editoras, enquanto os quadrinhos de super-heróis tiveram que se infantilizar para não morrer.

Da maneira que pode, Lee fez sempre alguma resistência ao CCA e sua maior batalha foi envolvendo as drogas. O fato é que o Ministério da Educação dos EUA solicitou que a Marvel usasse sua influência para abordar o tema das drogas, com a explosão do consumo de substâncias psicotrópicas e alucinógenas nos anos 1960. E o escritor decidiu fazer isso logo de modo bombástico, na revista de maior sucesso da Casa de Ideias: The Amazing Spider-Man, aquela do Homem-Aranha.

Resultado de imagem para Amazing Spider-Man 96, 97, 98Na trama em três capítulos, Peter Parker cruza o caminho com um jovem que quase pula de um prédio por estar sob efeito de drogas e pensa na questão; ao mesmo tempo em que o amigo Harry Osborn termina o namoro com Mary Jane Watson e usa drogas para superar. A saúde abalada do filho termina por facilitar a transformação (de novo) de Norman Osborn no Duende Verde e mais uma grande batalha entre eles, desta vez, com desenhos de John Romita na primeira parte e de Gil Kane nas demais.

Como resultado, mesmo pelo efeito educativo, o CCA não autorizou a publicação da história, então, Lee (que também era o editor-chefe da Marvel) simplesmente decidiu publicá-la sem o selo de aprovação mesmo, sendo a primeira vez que isso acontecia desde que o órgão fora criado.

Resultado de imagem para The Mighty Thor 13615) To Become a Immortal!

The Mighty Thor 136, de 1967, arte de Jack Kirby

As aventuras de Thor eram o playground favorito de Jack Kirby na Marvel dos anos 1960, mas Stan Lee também dava suas contribuições, como é o caso dessa história, mais voltada à humanidade do deus do trovão. Ou à falta dela.

Nas tramas gerais de Thor, realizadas desde 1962, o médico norteamericano Donald Blake encontra o martelo de Thor na Noruega, quando tenta fugir de uma invasão alienígena que presencia. tomado pelo poder do deus do trovão, Blake afugenta os aliens e volta para casa para viver como um super-herói. Mas fica claro que os deuses nórdicos existem e, gradativamente, eles começam a aparecer: Odin, o pai dos deuses; Loki, o deus da trapaça; Heimdall, o guardião da Bifrost, a ponte do arco íris; e, claro, a cidade mágica de Asgard, com Blake descobrindo que ele era Thor o tempo inteiro, estava apenas cumprindo uma lição de humildade criada por seu pai.

Mas como Blake, Thor se apaixonou por Jane Foster, uma enfermeira que trabalhava com ele. Mas Odin achava que ela não lhe era digna. Nessa história, enquanto o deus do trovão enfrenta O Desconhecido, Odin dota Jane de poderes cósmicos, mas a garota é apenas humana e não consegue lidar com eles. Odin, então, a manda para a Costa Oeste, onde ela vai trabalhar com o Dr. Keith Kincaid, sem lembranças de sua vida com Thor.

Ao deus do trovão só cabe se resignar da decisão. Putz!

Bônus:

Resultado de imagem para Amazing Spider-Man 600 identity crisisIdentity Crisis

Amazing Spider-Man 600, de 2009, arte de Marcos Martins

Para não ficarmos só no passado, Crise de Identidade é uma pequena joia de tempos bem recentes. Comemorando a 600ª edição de Amazing Spider-Man, em 2009, a Marvel publicou uma revista megaespecial, com mais de 100 páginas e várias histórias. Uma delas é escrita por Stan Lee e imagina o Homem-Aranha indo a um psicólogo e falar de seus problemas como herói, enquanto a bela arte de Marcos Martins exibe o terapeuta com o semblante do The Man itself. Engraçado e interessante.

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