O crepúsculo da vida pode ser muito triste e no caso do rock, isso vem se mostrando de partir o coração. Depois de um caso como o de Eric Clapton, agora, outro gigante do rock clássico está com uma doença incapacitante que pode fazê-lo se aposentar precocemente: o cantor e guitarrista britânico Peter Frampton anunciou que fará uma Turnê de Despedida antes que fique impossibilitado de tocar.

Em uma participação no This Morning: Saturday, da CBS (via CBS News), Feampton disse que está sofrendo de miosite por corpos de inclusão, uma doença muscular que ataca aos músculos e tendões e está lhe atrapalhando a tocar, com a perspectiva da total incapacidade no futuro.

O músico disse que foi diagnosticado há cerca de um ano e meio, depois que uma queda no palco o levou a um médico que descobriu a doença. Mas após o fim de sua última turnê, no verão (do hemisfério norte) passado, sentiu os sintomas crescerem e após uma queda séria enquanto estava de férias com a filha em Maui sentiu que deveria se aposentar dos palcos.

À CBS, o guitarrista falou:

Subir escadas ou descê-las é a coisa mais difícil para mim. Eu terei que usar uma bengala… e a outra coisa que notei é que não consigo levantar as coisas acima de minha cabeça.

O que irá acontecer, infelizmente, é que afeta os tendões de meus dedos. Porque os primeiros sinais são nos tendões, sabe? Então, para um guitarrista, isso não é muito bom.

Frampton diz que ainda consegue tocar muito bem, mas isso pode mudar em breve. Por isso, quer fazer a turnê de despedida:

[Estou bem agora], mas daqui há um ano, talvez, eu não esteja tão bem… Sou um perfeccionista e não quero sair por aí e me sentir como “Oh, eu não consigo, isto não está bom”. Isto seria um pesadelo para mim. Tenho tocado guitarra por 60 anos. Comecei quando tinha 8 e tenho 68 anos agora, então, tive uma boa carreira.

E finaliza com certo alívio:

Não é um risco de vida [sua doença], é uma mudança de vida.

Ciente disso, está gravando furiosamente o máximo que pode, “por razões óbvias”, diz, e desde outubro do ano passado já finalizou 33 novas canções, para lançamentos futuros.

Frampton disse que é muito exigente consigo mesmo e que já percebe que tem dificuldade de fazer o seu melhor, o que lhe faz considerar parar totalmente de tocar. Sua Farewell Tour será pelos EUA e tem até agora 51 datas, começando em 18 de junho em Tulsa, em Oklahoma.

Peter Frampton performs on stage, JFK Stadium, Philadelphia, 11th June 1977. (Photo by Michael Putland/Getty Images)

Peter Frampton nasceu em 1950, em Bromley, na Inglaterra, filho de um professor de artes e, incentivado pela mãe, começou a tocar banjo quando tinha apenas 7 anos de idade, migrando logo em seguida para o violão e o piano, com aulas clássicas. Aos 12 anos, ele fundou sua primeira banda, The Little Ravens e conheceu David Bowie, que era o pupilo de seu pai na Bromley Tech School, e os dois ficaram bastante amigos, tocando violão juntos canções de seus ídolos, como Buddy Holly e The Shadows.

Após passar por algumas bandas, aos 16 anos, Frampton conseguiu o sucesso com o grupo The Herd, se tornando um tipo de Teen Idol, mas procurou se desfazer de tal imagem dois anos depois, quando se uniu ao também cantor e guitarrista Steve Marriott, que vinha da banda de sucesso The Small Faces, e a dupla fundou o Humble Pie, um grupo de hard rock, mais pautado na sonoridade de contemporâneos como Led Zeppelin e Black Sabbath.

Embora nunca um sucesso de massas, o Humble Pie foi uma banda bastante apreciada no circuito de rock pesado e ganhou notoriedade, fazendo o nome de Frampton, até ele decidir sair do grupo e se lançar em carreira solo com o celebrado álbum Wind of Change, que contou com participações especiais do tecladista-sensação Billy Preston e do ex-beatles, Ringo Starr.

Apesar disso, a carreira solo não emplacou de verdade, mesmo com os discos chamando alguma atenção na mídia especializada. Tudo mudou com o lançamento de Peter Frampton Comes Alive!, em 1976, que se tornou um fenômeno de vendas, o disco ao vivo de maior sucesso da história, que acumulou 8 Discos de Platina, e foi o mais vendido daquele ano, ficando 10 semanas em 1º lugar das paradas da Billboard.

O álbum gerou seus três maiores hits: Show me the way, Baby, I love the way e Do you feel like we do?.

A superexposição, porém, fez mal à sua carreira, e o disco seguinte, I’m In You (1978) ainda fez sucesso, mas com menos fôlego, embora ainda tenha ganhado uma Estrela na Calçada da Fama, em 1979. Àquela altura, ele já tinha manchado a carreira com dois eventos: primeiro o filme Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1978), que tentou adaptar o clássico álbum dos Beatles como uma história em longametragem e fracassou miseravelmente; e depois, com um acidente de carro quase fatal, enquanto de férias nas Bahamas, que o deixou fora do ar por um tempo.

Ele regressou em 1980, mas não conseguiu replicar o sucesso de outrora, entrando em uma fase de decadência até que, em 1986, conseguiu um pequeno regresso com o hit Lying, que fez sucesso nos EUA, e em seguida, reforçado quando foi convidado pelo velho amigo David Bowie, então, um mega-super-star mundial, para tocar guitarra em seu disco Never Let Me Down, e na turnê subsequente.

A partir de então, Frampton não regressou ao sucesso do passado, mas manteve uma carreira digna, seguinte sempre em turnê.