Com Shazam! chegando aos cinemas, muitas pessoas irão conhecer o Shazam, o herói da DC Comics que já foi acusado de plagiar o Superman e cujo o nome original era Capitão Marvel. Para matar a sede de conhecimento, o HQRock apresenta um pequeno Dossiê sobre o mortal mais poderoso da Terra, adaptado de uma postagem mais antiga, de 2012.

Primeiro um aviso aos navegantes: o nome real do Shazam era Capitão Marvel e shazam era a palavra que Billy Batson gritava para se transformar no heróis – e também o nome do mago que lhe concedeu os poderes – mas a partir de 1973, quando o personagem foi comprado pela DC Comics, passou-se a usar o nome Shazam na capa das revistas, porque naquela época, a concorrente Marvel Comics já tinha registrado um herói chamado Capitão Marvel, aquele em cujas as histórias surgiria Carol Danvers, que se transformaria na super-heroína que se chamou primeiro Ms. Marvel e que hoje usa o nome Capitã Marvel (em inglês Captain Marvel não tem distinção de gênero) e também acabou de estrear nos cinemas. O fato de todas as suas revistas desde os anos 1970 usarem o título Shazam fez com que muitos leitores, e mais ainda o grande público, se referissem a Billy Batson como seu nome sendo Shazam, mas foi somente em 2011 que a DC abandonou completamente o nome Capitão Marvel para se referir ao Shazam e este se tornou o seu nome oficial.

Shazam?

O Mortal Mais Poderoso da Terra

Com o nome de Capitão Marvel, o Shazam foi criado pelo escritor Bill Parker e pelo desenhista C.C. Beck e publicado pela primeira vez em Whiz Comics 02, de 1939, da editora Fawcett Comics, uma das dezenas de editoras que publicavam quadrinhos de super-heróis nos EUA na época.

O Capitão Marvel tinha um grande visual, com seu uniforme vermelho, símbolo de raio amarelo no peito, botas de bucaneiro, braceletes dourados e uma capa branca com listras e laços (!) amarelos. Como forma de se opor à identidade infantil, o rosto do herói era o de um homem maduro, queixo quadrado, olhos meio apertados e cabelos pretos meio ondulados e com “entradinhas”. O rosto do Capitão Marvel foi criado por C.C. Beck e inspirado no ator Fred MacMurray.

Uma curiosidade sobre sua criação é que dois problemas editoriais atrasaram o lançamento do herói em alguns meses. Primeiro, a revista em que ia estrear teria o nome de Flash Comics 01, mas a Fawcett descobriu, no momento de registro, que a National Periodicals – a DC Comics – já tinha uma revista registrada com esse nome (mas que só chegaria às bancas no ano seguinte, em 1940, e traria o The Flash como seu protagonista). Então, a Fawcett modificou a capa da revista – que traria o Shazam na capa, levando um tiro – alterando o nome para Thrill Comics, e quando foi registrar, também descobriu que existia outra revista com esse nome, agora, pela editora Standart Comics.

A terceira tentativa foi com Whiz Comics e aí deu certo. Mas apareceu outro problema: a Fawcett descobriu que já existia um herói com o mesmo nome de seu personagem principal!

O escritor Bill Parker batizou o herói originalmente com o nome de Captain Thunder (Capitão Trovão) – daí o símbolo no peito e o raio que atinge Billy Batson quando grita o nome shazam – mas quando foi registrar o personagem, com a revista já impressa, a Fawcett Comics descobriu que a editora Fiction House já tinha um personagem com esse nome. A história foi remendada para que os balões que traziam a palavra Thunder fosse substituídos por Marvel. Mas isso impossibilitou que o herói aparecesse na Whiz Comics 01, por isso, ele só apareceu na Whiz Comics 02.

A capa de “Whiz Comics 02”, de 1939, pela Fawcett. Plágio do Superman?

Em sua trama, o menino Billy Batson – de aproximadamente 10 ou 12 anos – é um um garoto órfão e vendedor de jornal nas ruas e é levado até um velho mago chamado Shazam que é responsável pela poderosa Pedra da Eternidade. Shazam concede os poderes de seis deuses para Billy: a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, a resistência de Atlas, o poder de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio. Quando pronuncia a palavra “shazam”, Billy é atingido por um raio que o transforma no poderoso Capitão Marvel, um adulto.

O sucesso foi imediato Whiz Comics 02 vendeu 500 mil cópias!!!! – e é possível entender por que. Além de um belo visual, o Capitão Marvel era essencialmente uma criança, o principal público leitor de HQs da época. Poderoso como o Superman – que tinha inaugurado a Era de Ouro dos Quadrinhos ao estrear em Action Comics 01, de 1938 – o Capitão Marvel era superforte, invulnerável, voava… mas era uma criança! A identificação do público com o herói foi instantânea. Alguns historiadores afirmam que foi o sucesso de Billy Batson que fez surgir a onda dos sidekicks, os parceiros mirins dos heróis. O primeiro destes, o Robin, surgiu alguns meses depois, já em 1940, nas páginas de Detective Comics 38, quase um ano após o surgimento de seu mentor, o Batman, em Detective Comics 27, de 1939.

A revista de estreia também trouxe a introdução do maior vilão do Capitão Marvel, o maligno Doutor Sivana, o típico cientista louco, retratado como um baixinho careca, com grandes óculos de lentes redondas de fundo de garrafa e orelhas de abano, que inclusive, descobre de cara a identidade secreta de Billy Batson em Whiz Comics 04, de 1940.

A identificação com o Superman – que passava desde o visual até os poderes e o tom das histórias – renderia uma grande questão mais à frente. Mas não era descabida. Ao longo das aventuras publicadas em Whiz Comics, Billy Batson até se transformava em repórter tal qual Clark Kent. Só que um repórter-mirim para uma rádio! As vendas da revista cresceram tanto que, tal qual Superman e Batman, o Capitão Marvel ganhou uma segunda revista, de periodicidade trimestral, lançada a cada estação, chamada Captain Marvel Adventures .

Inclusive, Captain Marvel Adventures, que estreou no verão de 1941, foi criada pela dupla Joe Simon e Jack Kirby, os criadores do Capitão América da Marvel Comics (que, no entanto, só adotaria esse nome nos anos 1960 e, então, se chamava Timely Comics). Simon e Kirby eram os artistas mais incendiários do mercado: a dupla comandava a linha editorial da Timely – que tinha os sucessos Tocha Humana e Namor, o príncipe submarino – e criaram o Capitão América na passagem de 1940 para 1941, tornando Steve Rogers um dos maiores sucessos das HQs da época.

Os roteiros de Simon traziam fortes elementos de terror e a arte de Kirby era arrebatadora: cheia de movimento e fúria, de ritmo cinematográfico e inovando no posicionamento dos quadros nas páginas. Por isso, foram convidados por Wilford H. Fawcett para criar Captain Marvel Adventures por uma bolada de dinheiro. Mas Simon e Kirby eram funcionários da Timely e fizeram todo o trabalho em segredo e sem ganhar os créditos.

Como resultado, Captain Marvel Adventures 01 foi um sucesso estrondoso, a primeira revista a ultrapassar 1 milhão de unidades vendidas. Mas o dono da Timely, Martin Goodman, descobriu a artimanha e demitiu Simon e Kirby, que foram para a DC Comics.

A Família Marvel Domina os Quadrinhos

O sucesso foi tanto que, rapidamente, o Capitão Marvel começou a aparecer em outras revistas da Fawcett, como a Master Comics, mas quando isso não se mostrou suficiente, a editora começou a expandir o universo em torno do herói. Em Whiz Comics 21 (1941) estrearam os Tenentes Marvel, outros três meninos chamados Billy Batson que também se transformam gritando shazam.

Foi só o aperitivo para que Whiz Comics 25 (1941) trouxesse a estreia do Capitão Marvel Jr.: o amigo de Batson, Freddy Freeman, que tem um problema nas pernas e usa muletas quase se afoga e o herói tenta transferir seus poderes para ele. Dá certo parcialmente, e Freddy se torna um herói, usando uma variação azul do uniforme, mas sem virar um adulto – porque foi apenas uma fração do poder – e se mantendo como um adolescente quando transformado.

E como se não bastasse, em Captain Marvel Adventures 18 (1942) estreia a Mary Marvel, quando Billy Batson descobre que tem uma irmã gêmea e ela também ganha seus poderes, também se mantendo adolescente quando transformada, e não adulta.

Tanto o Capitão Marvel Jr. quanto a Mary Marvel ganhariam suas próprias aventuras, ele na Master Comics e ela na Wow! Comics, criando a ideia da Família Marvel (Marvel Family), que depois ganhou sua própria revista. Mais adiante, Captain Marvel Jr. também teria sua própria revista mensal.

A profusão de personagens não parou por aí e eles vieram de todos os tipos, desde o Tio Dudley (Tio Marvel), que não tinha superpoderes, até o Senhor Malhado, um tigre falante.

Ao fim de 1941, Bill Parker foi convocado pelo Exército dos EUA para lutar na II Guerra Mundial e teve que abandonar o roteiro das histórias do Capitão Marvel, sendo substituído por Otto Binder, que se tornaria o grande escritor do personagem. O desenhista Kurt Schaffenberg passou a desenhar parte das histórias, ao lado de C.C. Beck, que continuou.

Binder, Beck e Schaffenberg viveram o apogeu do personagem em 1942, quando Captain Marvel Adventures vendeu 14 milhões de cópias naquele ano, o que levou a revista até a ganhar uma periodicidade semanal com tiragem de 1,3 milhão de unidades!

O Capitão Marvel foi nesse período o maior sucesso entre todos os super-heróis, mais do que Superman, Batman, Capitão América e Mulher-Maravilha, que vinham atrás.

Black Adam: vilão ou anti-herói?

Embora o principal vilão do herói então fosse o Doutor Sivana, nos dias de hoje, seu oponente mais conhecido é o Adão Negro (Black Adam), que estreou em Marvel Family 01 (1945), sendo um oponente tão poderoso que obrigou a reunião, pela primeira vez de toda a Família Marvel.

O Primeiro no Cinema!

O Capitão Marvel ainda foi o primeiro super-herói dos quadrinhos a ganhar uma adaptação em live action, com atores, num seriado para os cinemas, o que ocorreu em 1941, produzida pela Republic e estrelada por Tom Tyler. Depois, vieram séries de Batman, Capitão América (em 1943 e 1944, respectivamente) e o Superman (em 1949).

O Processo e a Queda

O herói e seu alterego, Billy Batson, na capa de “Whiz Comics 22”.

Para a DC Comics, era notório que o herói da Fawcett era uma cópia descarada do homem de aço, que tinha aparecido um ano antes. Até a capa da primeira revista do “mortal mais poderoso da Terra” trazia ele arremeçando um carro, tal qual Superman havia feito em sua primeira aparição, em Action Comics 01. Seus poderes também eram muito parecidos, embora as habilidade de Billy Batson fossem mais contidas: força, velocidade, resistência, vôo, enquanto o herói da DC tinha tudo isso e mais visão de raios-x, visão de calor, superaudição etc.

A Família Marvel canta seu lema.

Com o fim da II Guerra Mundial, o interesse do grande público nos super-heróis decaiu e as vendas do Capitão Marvel caíram. por volta de 1949, as tiragens era a metade do que nos tempos áureos.

Assim como o Superboy, o Capitão Marvel Jr. também foi um grande sucesso.

Para piorar, em 1941, a National Periodicals – futura DC Comics – entrou na Justiça num processo contra a Fawcett Comics, acusando-a de plagiar o Superman. O caso se arrastou na justiça por anos, até que em 1948 foi a julgamento e o Juiz considerou que, apesar do Capitão Marvel poder ser considerado uma infração dos direitos autorais, a própria DC estava sendo negligente com os direitos do Superman, pois também corria na justiça um processo dos criadores do homem de aço, Jerry Siegel e Joe Shuster, exigindo o pagamento de royalties. Assim, o veredito dado pela Corte em 1951 foi em favor da Fawcett.

A DC Comics apelou à Suprema Corte, e o caso foi a um novo julgamento em 1953. Dessa vez, o Juiz considerou que a propriedade dos direitos autorais do Superman realmente pertenciam à DC e que o Capitão Marvel era um plágio, porém, não enquanto personagem em si, mas em relação a alguns poderes específicos e a alguns personagens e tramas específicas. Para determinar o que era o quê, o Juiz determinou um novo julgamento.

Porém, neste ponto, o longo e custoso processo judicial havia ajudado a pôs as contas da Fawcett em frangalhos, e somada à queda na venda das revistas na virada para a década de 1950, a editora preferiu um acordo extrajudicial com a DC Comics, que resultou no cancelamento do Capitão Marvel e todas as suas revistas correlatas.

A Fawcett pagou uma multa de 400 mil dólares à DC e se comprometeu a fechar as portas e encerrar as revistas, continuando a publicar apenas aquelas que já estavam rodando nas gráficas. Assim, Whiz Comics se encerrou no número 155, em junho de 1953; Captain Marvel Adventures chegou às bancas pela última vez na edição 150; e Marvel Family viu a última luz do dia no número 89, em janeiro de 1954.

Era o fim de uma era.

Coincidência ou não, vários dos artistas do personagem, como Otto Binder, Kurt Schaffenberg e C.C. Beck, seriam contratados pela DC Comics para trabalharem nas aventuras do Superman. Binder seria o criador de personagens como Supergirl e Brainiac.

A Versão Britânica

O Capitão Marvel fez sucesso nos EUA e no mundo todo, onde suas revistas eram republicadas, inclusive, no Brasil. E no Reino Unido foi um sucesso maciço, publicado pela editora L. Miller & Son.

Porém, quando a Fawcett encerrou as atividades, na passagem de 1953 para 1954, esta editora resolveu aproveitar a fragilidade de políticas de copyright e licenciamento da época para criar a sua versão do Capitão Marvel.

A editora encomendou ao escritor e desenhista Mick Anglo que adaptasse o Capitão Marvel para uma versão britânica, nascendo o Marvelman, que ao gritar a palavra Kimota (atomik ao contrário) virava um ser de grandes poderes, herdando a revista Captain Marvel britânica no número 25. Anglo produziu histórias do personagem por 10 anos até 1963, quando foi cancelado.

Mas em 1982, o escritor britânico Alan Moore (de Watchmen e V de Vingança) reviveu o Marvelman em aventuras da revista Warrior Magazine publicada na Inglaterra e fez um baita sucesso. E quando Moore cruzou o Atlântico para abalar as estruturas da DC Comics com Watchmen, Monstro do Pântano e A Piada Mortal, muitas de suas obras britânicas foram publicadas por lá e a Eclipse Comics publicou sua versão do Marvelman, mas agora, mudando o nome para Miracleman (para evitar um processo da Marvel Comics) e até as histórias antigas de Mick Anglo.

Não demorou nada e novas histórias inéditas do Miracleman foram publicadas, agora, escritas por Neil Gaiman (de Sandman). Em 2009, a Marvel Comics comprou os direitos do Marvelman original e passou a ela própria republicar o material de Moore e Gaiman.

Outro Capitão Marvel

Em 1966, a minúscula editora M.F. Enterprises lançou um herói chamado Capitão Marvel, que nada tinha a ver com o antigo, apenas usava o nome. Era um bizarro androide alienígena que tinha o poder de separar os membros do corpo.

Já uma editora poderosa no mercado, a Marvel Comics comprou o os direitos desse personagem por US$ 4.500,00. Escrutinando o mundo legal, o dono da Marvel, Martin Goodman e o editor-chefe Stan Lee descobriram que, como o Capitão Marvel da Fawcett tinha sido impedido de ser publicado por um processo de plágio, aquela editora tinha perdido o copyright do nome e a Marvel Comics, então, o registrou. Mas as leis dos EUA diziam que se o nome não foi usado, o copyright seria perdido, então, meio a toque de caixa, Stan Lee criou um novo herói com o nome Capitão Marvel, que, claro, não tinha nada, absolutamente nada, a ver com o velho Shazam.

O Capitão Marvel da Marvel

O Capitão Marvel da Marvel Comics.

O Capitão Marvel ficou no limbo por quase duas décadas e, nesse meio tempo, surgiu a Marvel Comics de Stan Lee e Jack Kirby. Inclusive, em 1968, Stan Lee e Gene Colan criaram um herói chamado Capitão Marvel, que não tinha absolutamente nada a ver com o anterior: era Mar-Vell, um alienígena da raça Kree que veio espionar a Terra e termina se aliando ao planeta.

Carol Danvers e o Capitão Marvel em seu primeiro uniforme.

Foi na segunda aventura de Mar-Vell que surgiu Carol Danvers, major da Força Aérea dos EUA, responsável pela segurança de uma base de foguetes, que viraria o interesse amoroso do Capitão Marvel.

Rick Jones troca de lugar com o Capitão Marvel.

Pouco depois, em 1970, este Capitão Marvel foi reformulado por Roy Thomas e Gil Kane e até assumiu alguns elementos do Capitão Marvel da Fawcett, quando o jovem Rick Jones e Mar-Vell ficam proibidos de existir no mesmo plano e passam a trocar de lugar, com um vindo à nossa realidade quando o outro era mandado para a Zona Negativa, bastando chocar os braceletes quânticos que carregavam.

O Capitão Marvel da Marvel passou a ser coadjuvante das revistas dos Vingadores, inclusive, participando da clássica história A Guerra Kree-Skrull, a mais importante da equipe. O personagem, então, ficou bastante popular, especialmente, a partir de 1973, quando suas aventuras foram assumidas por Jim Starlin e passaram a envolver um vilão chamado Thanos.

Mais tarde, em 1977, a coadjuvante Carol Danvers seria relançada como uma heroína chamada Ms. Marvel, que também ficou bastante popular, tinha pegada feminista e foi membro dos Vingadores. Enquanto Mar-Vell morreu em 1980 (de câncer!), Danvers continua na ativa até hoje e, em 2012, deixou a alcunha de Ms. Marvel para se tornar a nova Capitã Marvel. Da Marvel.

Superman introduz o Capitão Marvel à DC Comics.

A Volta do… Shazam?

Talvez o sucesso do Capitão Marvel da Marvel tenha feito que, em 1973, a DC Comics entrasse em um acordo com os antigos proprietários da Fawcett Comics e passou a licenciar as histórias do velho Capitão Marvel, numa situação irônica.

Porém, a DC não podia usar o nome Capitão Marvel na capa das revistas, porque a Marvel Comics agora detinha o copyright. A solução encontrada foi sempre usar o nome Shazam nas capas, enquanto no interior, ele continuava a ser chamado de Capitão Marvel. O que começou a criar na cabeça do público a ideia de que o nome dele era Shazam.

E também criou a curiosa situação na qual Marvel e DC publicavam dois heróis com o nome Capitão Marvel, inclusive, com ambos na cor vermelha!

A DC integrou o herói ao conceito do Multiverso, na qual, a realidade é formada por vários universos paralelos, cada um deles com uma Terra específica. A realidade “principal” era a Terra-1, mas havia a Terra-2 (onde Superman e Batman surgiram na época da II Guerra Mundial), a Terra-3, a Terra X onde os Nazistas tinham ganho a guerra etc. A Família Marvel e seu universo foram integrados à Terra S.

A nova revista Shazam foi escrita por Dennis O’Neil e desenhada pelo cocriador do personagem, C.C. Beck. A nova revista misturava histórias inéditas com republicações do material antigo, de modo que toda a cronologia da Fawcett era considerada canônica. Todos os elementos do Capitão Marvel foram trazidos de volta, inclusive, a Família Marvel, o Senhor Malhado e o Dr. Sivana.

Porém, apesar do alarde do lançamento, Shazam falhou em encontrar seu público e os próprios criadores não ficaram satisfeitos com os resultados. Após 10 edições, C.C. Beck abandonaria o título por diferenças criativas, não concordando com a abordagem de O’Neil, e cedendo lugar a Bob Oksner e Kurt Shaffenberger. Os roteiros mudariam futuramente para Elliot S. Maggin e E. Nelson Bridwell. Os três escritores já haviam trabalhado com sucesso no Superman.

O título foi ligeiramente reformulado a partir da edição 34 (1978), com E. Nelson Bridwell adotando tramas mais realistas e com uma arte mais realista também, se distanciando do padrão caricatural impresso por Beck desde 1939. Após uma única edição pelo celebrado Alan Weiss, a arte ficou a cargo de Don Newton, mas era tarde: Shazam foi cancelada por baixas vendas na edição 36.

Ainda assim, a fase de Bridwell e Newton continuou, com as aventuras do Capitão Marvel publicadas como histórias secundárias na revista World’s Finest Comics, que trazia as aventuras conjuntas de Superman e Batman, que a partir da edição 253 (1978) se transformou no que a DC chamava de Dollar Format, uma revista em formato magazine (maior do que a HQ padrão) e mais páginas (normalmente 100) ao custo de 1 dólar na época. Deu certo e Billy Batson continuou gritando shazam até a edição 282 (1982).

Como também era muito comum, havia grande interação entre as diferentes Terras e logo a Família Marvel estava interagindo com a Liga da Justiça. Em 1978, uma edição especial em formato tablóide trouxe a clássica aventura Superman vs. Shazam, escrita por Gerry Conway e desenhada por Rick Buckler.

Em 1982, quando a World’s Finest Comics voltou ao formato normal, as histórias do Capitão Marvel, ainda por Bridwell e Newton, migraram para a Adventure Comics, cujos números 491 e 492 encerraram essa fase.

O Capitão Marvel continuou nas bancas, e na Adventure Comics, porém, apenas trazendo republicações das histórias da época da Fawcett, entre os números 493 até a 503 (1983), quando o herói saiu de circulação de novo

Segunda Versão Live Action

Em 1974, o herói ganhou uma série para a TV, produzida pela Filmation e chamada de Shazam, que tal qual nas HQs, evitava o nome Capitão Marvel e usava o acrônimo como seu nome. Fez relativo sucesso com o público e durou três temporadas, com o herói vivido por Jackson Bostwick na primeira temporada e John Davey nas outras duas. Era um programa de baixo orçamento e o herói não tinha todos os seus superpoderes. Hoje é constrangedor.

A DC Comics apenas licenciava o Capitão Marvel, pois os direitos ainda pertenciam à Fawcett Comics, cujo espólio foi comprado pela CBS, grande emissora de TV dos EUA. Daí, o relançamento do personagem nos quadrinhos motivou à emissora a produzir um programa de baixo orçamento, que foi realizado pela Filmation.

O programa tinha bem pouco a ver com os quadrinhos. Na trama, o jovem Billy Batson (retratado como um adolescente, não criança, vivido por Michael Gray, rodava o interior dos EUA ao lado de seu Mentor (Les Tremayne) em um motorhome e se transformava no Capitão Marvel ao gritar a palavra shazam, com o herói vivido por Jackson Bostwick e depois por John Davey. O Mago que concedeu os poderes a Billy também aparecia de vez em quando, pois o garoto levava consigo um dispositivo que permitia se transportar a uma caverna mística em que os dois conversavam e também via aqueles a quem herdava os poderes: Salomão, Hércules, Atlas, Zeus, Aquiles e Mercúrio, que numa estratégia inacreditável, eram retratados como desenhos animados!

A primeira temporada teve 15 episódios, a segunda 7 e a terceira 6, exibidos entre 1974 e 1976. O programa fez sucesso à princípio e rendeu até um derivado: a CBS criou uma versão feminina do Capitão Marvel com Ísis (mais tarde exibida como The Secrets of Isis), mas comumente chamada de A Poderosa Ísis, vivida por Joanna Cameron. O programa teve duas temporadas, a primeira em 1975, com 15 episódios, e a segunda em 1976, com 7 capítulos.

Ísis foi a primeira série de TV de uma super-heroína exibida nos EUA, chegando antes da Mulher Biônica e da Mulher-Maravilha, ambas em 1976.

Shazam e Ísis inclusive tiveram crossovers, com os personagens se encontrando na telinha em episódios de 1976.

Ísis também ganhou uma versão nos quadrinhos, nas histórias do Capitão Marvel, mas a personagem pertencia à Filmation, pois era uma criação original da companhia. Ainda assim, variações dela continuaram a aparecer nas HQs, e até numa participação de um episódio da 9ª temporada de Smallville.

O Mago presenteia Billy com um celular para se comunicar com ele à distância.

O sucesso inicial de Shazam! até motivou a DC Comics a adicionar elementos da série em seus quadrinhos. A partir de Shazam 25, de 1975, com textos de E. Nelson Bridwell e desenhos de Kurt Schaffenberg, se inicia uma pequena fase com isso. Na trama, o Dr. Sivana dá início a um plano de destruição de várias cidades dos EUA, mas o Capitão Marvel não pode detê-lo porque está baseado em Fawcett City (a cidade a qual a DC Comics o localizou em seu universo).

Billy com cabelos mais longos e o tio Dudley com bigode para se aproximar da série.

Então, num golpe de sorte, a WHIZ TV onde Billy Batson trabalha o designa para cobrir o evento em um motorhome exatamente como na série. Billy vai ao encontro do Mago Shazam que lhe presenteia com um dispositivo (idêntico ao da série) com a qual pode conversar com ele e os Antigos à distância. E o Tio Dudley – o Tio Marvel – convenientemente passa a ostentar um bigode para deixá-lo parecido com o Mentor da TV e o Mago diz que ele será o Mentor de Billy em sua nova aventura.

Para completar, Billy Batson até ganha cabelos ligeiramente mais longos para casar com o (horroroso) visual da TV.

Pós-Crise

“Lendas” reintroduziu o herói ao novo universo DC pós-Crise.

Quando a DC Comics realizou o megaevento Crise nas Infinitas Terrasem 1985, para consolidar todo o Universo DCem uma única realidade (uma única Terra), a Família Marvel foi definitivamente integrada ao universo fictício da editora, embora os personagens ainda fossem apenas licenciados. Na minissérie Lendasescrita por John Ostrander e Len Wein e desenhada por John Byrne, em 1987, o Capitão Marvel fez sua primeira aparição pós-Crise e termina se integrando à Liga da Justiça pela primeira vez.

Roy Thomas – célebre escritor da Marvel Comics (e dos Vingadores) que migrou para a DC no fim dos anos 1970 – assumiu a missão de criar uma nova origem para o Capitão Marvel dentro da nova cronologia da DC Comics pós-Crise nas Infinitas Terras. Fanático pela Era de Ouro dos Quadrinhos e com uma pegada mais moderna de escrita, Thomas parecia o nome ideal para empreitada.

Logo após Crise nas Infinitas Terras, a DC lançou uma revista chamada Secrets Origins, destinada a contar as novas origens dos personagens da editora na nova cronologia e o Capitão Marvel estrelou o número 03, em 1987, com roteiro de Roy Thomas e desenhos do fabuloso Jerry Bingham.

A trama é uma bela releitura da origem clássica da Fawcett, apenas modernizando alguns conceitos e excluindo toda a Família Marvel, respondendo à tendência da DC de “enxugar” o universo de seus personagens, tal qual fizera com sucesso com o Superman – que foi desprovido de Supergirl, Superboy, Kripto o supercão e todas essas coisas.

Thomas também deu ênfase a um elemento mais dramático da origem de Billy: com o jovem ficando órfão e sendo tutelado pelo tio que está interessado apenas no dinheiro do pai dele, chegando a expulsar o jovem de casa.

A história consolidou a ideia de que, quando se transforma no Capitão Marvel, apesar do corpo adulto e poderoso, a mente permanece a da criança Billy Batson, de 10 ou 12 anos, ao contrário da versão clássica na qual o herói tem uma personalidade praticamente distinta. Esse recurso foi utilizado para contrastar o estilo “antigo” do personagem em contrapartida às histórias tipicamente sérias e violentas da época. A partir de então, passou a ser comum retratar o Capitão Marvel como ingênuo.

Paralelamente, o herói prosseguiu na Liga da Justiça em meio à célebre fase cômica da equipe, brilhantemente escrita por Keith Giffen e J.M. DeMatteise desenhada por Kevin Maguire, na qual os artistas faziam piadas constantes sobre o fato do Capitão Marvel ser um bobo (para não dizer burro), afinal, era apenas uma criança, certo?

Paralelamente, a DC pretendia dar as próprias aventuras ao Capitão Marvel e, como teste, lançou a minissérie Shazam: The New Begining, novamente escrita por Roy Thomas ao lado de sua esposa, Dann Thomas, e agora desenhada por Tom Mandrake.

Após o sucesso das 4 edições de The New Begining, a ideia era lançar uma nova revista mensal do Capitão Marvel, porém, a DC Comics entrou em conflito com Roy Thomas que tinha ideias um pouco mais ousadas para o personagem, como uma versão punk da Mary Marvel e um Capitão Marvel Jr. afrodescendente. A editora não aceitou e Thomas pediu demissão.

John Byrne, que tinha acabado de reformular o Superman com a minissérie O Homem de Aço, estabalecendo a nova cronologia do último filho de Krypton pós-Crise nas Infinitas Terras, foi convidado para desenvolver um projeto similar com o Capitão Marvel, mas nada disso deu em nada.

Outra Tentativa

“The Power of Shazam”: o personagem reencontra o sucesso brevemente.

Em 1991, a DC adquiriu definitivamente a propriedade do Capitão Marvel e toda a Família Marvel. Então, em 1994, a editora tentou fazer um reboot no personagem e dotar-lhe de significância: o artista Jerry Ordway (também vindo do Superman) escreveu, desenhou e pintou uma graphic novel chamada The Power of Shazam, que recontava a origem do Capitão Marvel, mesclando elementos da origem clássica da Fawcett juntamente à nova pós-Crise. O texto ágil e maduro e a bela arte transformaram a edição em um grande sucesso, que resultou em uma série mensal com o mesmo nome.

Essas histórias de certo modo reestabeleceram a origem e o tom do Capitão Marvel original da Fawcett, embora adaptados ao mundo moderno.

Superman vs. Capitão Marvel em “O Reino do Amanhã”, na arte pintada de Alex Ross.
O Capitão Marvel zomba do Superman.

O herói também ganhou destaque na minissérie O Reino do Amanhã, de 1996, na qual o escritor Mark Waid e o pintor Alex Ross imaginam um futuro em que os velhos heróis saíram da ativa e foram substituídos por uma nova geração de vigilantes superpoderosos, mas totalmente irresponsáveis e antiéticos, num claro manifesto contra a Era Sombria dos Quadrinhos que dominava as bandas desde a década anterior.

Na trama, um crescido Billy Batson é mantido como um serviçal por Lex Luthor, por meio de controle mental. O velho Batman descobre que, na verdade, Billy está sem seus poderes e tenta libertá-lo, mas após gritar Shazam e ganhar seus poderes de volta, a mente do rapaz não volta ao normal.

A cena de luta épica entre o Superman e o Capitão Marvel é um dos grandes destaques desta que é uma das melhores histórias dos anos 1990.

Contudo, com o cancelamento da revista The Power of Shazam!, em 1999, o herói caiu novamente no ostracismo. Ao longo dos anos seguintes, a DC tentou de diversas formas reativar o interesse do grande público pelo personagem. Os escritores Geoff Johns e David S. Goyer o introduziram nas histórias da Sociedade da Justiça, os heróis mais velhos da DC, cuja revista produzida pela dupla foi considerada uma das melhores no início dos anos 2000, mas ainda assim, não conseguiram trazer o brilho do herói de volta.

A principal consequência dessa tentativa foi o vilão Adam Negro (uma versão maligna do Capitão Marvel, inclusive com o mesmo uniforme, apenas preto) ter se tornado um dos principais opositores do Universo DC, ganhando projeção nas revistas da Sociedade da Justiça, da Liga da Justiça, do Superman e nos grandes eventos da DC na segunda metade da década de 2000, como Crise Infinita e Crise Final, publicadas entre 2005 e 2008.

Em 2006, iniciou-se a publicação da maxissérie The Trials of Shazam, escrita por Judd Winick e desenhada por Howard Potter e Mauro Casioli, que tentou consolidar uma nova versão do Capitão Marvel, chamado apenas Marvel e com uniforme branco e cabelos longos, ocupando o lugar do velho mago, enquanto Freddy Freeman se torna o novo herói, usando o nome Shazam pela primeira vez como o principal do herói.

O público até gostou do maior enfoque na magia, mas as mudanças no personagem e as histórias em si não emplacaram. mas não deu certo.

Outra tentativa e abordagem veio em seguida, com o escritor e desenhista Jeff Smith (aclamado pelo quadrinho independente Bone) criando a minissérie Shazam & A Sociedade dos Monstros, com uma abordagem infanto-juvenil (mas inteligente e agradável aos adultos, como Bone) que foi bem recebida pela crítica, mas não fez tanto sucesso.

Na trama, após recontar a origem de Billy Batson – nos parâmetros clássicos – chega à Terra o Senhor Cérebro que promove uma invasão de monstros que o Capitão Marvel terá que combater.

Finalmente: Shazam!

A DC Comics finalmente abandonou o nome Capitão Marvel em 2011 – e não exatamente por coincidência, no ano seguinte, Carol Danvers deixou de ser a Ms. Marvel para adotar o nome Capitã Marvel definitivamente.

O ex-Capitão Marvel ganhou uma versão-teste na maxissérie Flashpoint, escrita por Geoff Johns e desenhada por Andy Kubert, na qual o Flash viaja ao passado para impedir que o Flash Reverso mate a sua mãe e, com isso, cria uma realidade totalmente diferente. Nessa realidade, Billy Batson, Mary Batson, Freddy Freeman se juntam a três novos personagens, Eugene Choi, Darla Dudley e Pedro Peña (notaram a diversidade?) e o sexteto grita shazam em uníssono para se transformar em um super-herói cujo o nome é Capitão Trovão – isso mesmo Captain Thunder, aquele primeiro nome do personagem.

Claro, era “só um sonho”, pois o Flash consertou a linha temporal (mais ou menos) e deu origem ao reboot Os Novos 52, que foi lançado com a revista Justice League 01, ainda em 2011.

Preview do personagem no reboot: Harry Potter?

Foi numa história secundária de Justice League 07, de março de 2012, com roteiro de Geoff Johns e desenhos de Gary Frank, que finalmente Billy Batson estreou oficialmente com o nome Shazam, numa história que muda alguns elementos de sua origem – o nome do mago agora é O Mago – e trouxe um uniforme ligeiramente diferente, com uma capa e capuz. Batson também ganhou óculos para ficar mais parecido com o Harry Potter e a trama passou a ser bastante calcada na magia.

Shazam continuou sendo publicado em Justice League e teve sua origem recontada em detalhes em duas edições (número 0 e número 21), com esta última encerrando a temporada. Nessas histórias, todo o universo da Família Shazam foi trazido de volta, incluindo o Senhor Malhado, e os outros três garotos que também são parte da família, Eugene Choi, Darla Dudley e Pedro Peña.

No Cinema

Shazam!, o filme, irá iniciar uma nova fase na DC Films. É o primeiro herói da editora a ganhar um filme fora do elenco da Liga da Justiça após o fracasso do time nas bilheterias. Assim como Aquaman (que foi um enorme sucesso, o maior sucesso da DC desde a Trilogia Cavaleiro das Trevas), o longa tem uma pegada leve para agradar ao público, o que é condizente com o personagem original.

Caso seja um sucesso, há planos para um filme do Adão Negro protagonizado por Dwayne “The Rock” Johnson.

Shazam!

Com 80 anos de histórias e uma grande importância na história dos quadrinhos o ex-Capitão Marvel, Shazam, pode agora galgar uma maior popularidade entre o grande público. Vamos ver o que sai daí.

Encerramos com a gravura que Alex Ross criou em homenagem ao herói e divulgada esses dias.