Que triste episódio! Que tempos sombrios vive o Brasil. Tempos de ódio, de retrocesso, de desmonte da Ciência nacional e de censura. E as histórias em quadrinhos não estão livres disso tudo. Ao contrário! Num gesto repugnante, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, determinou a proibição da venda e recolhimento de uma HQ dos Jovens Vingadores, da Marvel Comics, porque a mesma trazia um beijo entre dois adolescentes gays. Sua alegativa: “proteger as crianças”.

A revista em questão é Jovens Vingadores: A Cruzada das Crianças, escrita por Allan Heinberg e desenhada por Jim Cheung. A trama mostra os Jovens Vingadores partindo numa busca à Feiticeira Escarlate, após os eventos traumáticos de Dinastia M, uma saga anterior. Mas a “polêmica” em torno da história é porque os jovens Wiccano e Hulking – espécies de versões adolescentes de Thor e Hulk, respectivamente – são gays e namorados. A trama exibe um beijo entre os personagens, mas não há nenhum conteúdo erótico na história e apenas este beijo nas quase 200 páginas da trama.

Jovens Vingadores: A Cruzada das Crianças foi publicada no formato encadernado com capa dura, como o Volume 66 dentro da Coleção Oficial de Graphics Novels da Marvel Comics, editada pela Salvat. A história em si foi publicada originalmente na revista The Young Avengers, dentro do arco The Children’s Crusade em 2010 e foi primeiramente publicada no Brasil em 2012, em Os Vingadores Especial 01 e 02, pela Panini Comics. A edição da Salvat é de 2016 e já esteve à venda na Bienal do Rio de Janeiro de 2017.

Contudo, pais de crianças viram a revista nesta Bienal e começaram a criticar o conteúdo por meio de mensagens de What’sApp e Twitter até que o vereador Alexandre Isquierdo, do Rio de Janeiro, levou a revista ao plenário da Câmara Municipal, na quinta-feira de manhã, 05 de setembro, e reclamou de que tal conteúdo esteja disponível às crianças. No rebuliço que se seguiu, ontem à noite, o prefeito Marcelo Crivella determinou a censura do material.

Lastimável!

É impressionante como defensores do bastião da moralidade se incomodam com a sexualidade alheia. Por que não cuidam da sua? Uma criança que não fosse educada em um ambiente preconceituoso veria com naturalidade o beijo entre dois homens. Veria como um gesto de amor. Mas os adultos, contaminados pelo ódio, querem proibir e perseguir as pessoas que fazem isso, num exercício fútil (mas cruel) de hipocrisia.

Nos EUA, A Cruzada das Crianças tem uma classificação indicativa T+, ou seja, é destinada a adolescentes, não a crianças. Claro, o material de super-heróis pode conter violência (gráfica e verbal) e diversos outros conteúdos que não são adequados às crianças. Quando resolveu retratar uma equipe de super-heróis adolescentes que assumem o manto dos Vingadores e vivem suas próprias aventuras, tendo dois desses membros sendo gays e namorando, a Marvel considerou esse material adequado a adolescentes, não a crianças. Os conteúdos infantis devem, claro, ter outra abordagem e serem conduzidos de um modo específico.

Se o Brasil não adota uma classificação indicativa clara na publicação de livros e HQs, isso é um assunto a ser discutido, claro; porém, a censura prévia de material é condenável em qualquer instância. Se os pais acham o material de Os Jovens Vingadores ofensivo às suas crianças, basta garantir que elas não leiam. É muito simples. Adolescentes já têm discernimento para decidirem o que podem ou devem ler, mesmo que sob orientação de adultos.

Ademais, se uma pesquisa de mercado séria fosse realizada, verificaria o material de super-heróis publicado no Brasil, especialmente da Marvel e da DC Comics, e mais ainda no formato encadernado (e em capa dura), é fundamentalmente lido por adultos. Não por crianças ou adolescentes.

Vários são os motivos, e entre eles está o fato das HQs terem dificuldade em “emplacar” com o público mais jovem, que tem hoje à sua disposição diversão em outros tipos de mídia, particularmente, as digitais. A maior parcela dos leitores é formado por jovens adultos, na casa dos 25, 30, 40 e mais anos; que foram leitores de quadrinhos nos anos 1980 e 90, fundamentalmente, num tempo em que havia menor concorrência com outras mídias.

Isso quer dizer que o impacto de A Cruzada das Crianças em crianças no Brasil seria mínimo. Quase inexistente.

Talvez, o Brasil deva adotar um regime de classificação mais nítido de leitura para crianças, adolescentes e adultos, tal qual a classificação etária do cinema; no entanto, isso é totalmente diferente de censurar uma HQ previamente.

Censurar significa adotar uma postura anti-democrática, anti-republicana, é investir no obscurantismo da população. É um ato condenável. Sempre!

A Bienal do Rio se manifestou oficialmente ainda ontem à noite e de modo correto e corajoso afirmou que não iria atender ao “pedido” do prefeito. O comunicado dizia:

A Bienal Internacional do Livro: Rio, consagrada como o maior evento literário do país, dá voz a todos os públicos, sem distinção, como uma democracia deve ser. Este é um festival plural, onde todos são bem-vindos e estão representados. Inclusive, no próximo fim de semana, a Bienal do Livro terá três painéis para debater literatura trans e LGBTQA+.

A direção do festival entende que, caso um visitante adquira uma obra que não o agrade, ele tem todo o direito de solicitar troca do produto, como prevê o Código de Defesa do Consumidor.

E como quase sempre acontece em casos desse tipo de censura, o tiro sai pela culatra: segundo o G1, todos os exemplares de A Cruzada das Crianças foram vendidos e esgotados na primeira meia-hora de funcionamento da Bienal do Rio, na manhã desta sexta-feira. Ao tentar censurar uma determinada obra, o que se faz é chamar ainda mais a atenção a ela e seu conteúdo – algo que provavelmente o censor não quer – e termina fazendo com que tal material chegue às mãos de ainda mais gente, que caso não fosse a tentativa de censura, talvez nem soubesse da existência de tal história.

Os Jovens Vingadores: A Cruzada das Crianças estava sendo vendida por valores entre R$ 15,00 e 25,00. A equipe adolescente é formada por Patriota, Rapaz de Ferro, Visão, Estatura, Gaviã Arqueira, Célere, Wiccano e Hulking, sendo estes dois últimos o casal da controvérsia.

Allan Heinberg.

O escritor Allan Heinberg é gay, tem 52 anos e também é roteirista de cinema, tendo escrito o roteiro de Mulher-Maravilha (2017) , além de inúmeras séries de TV, como Grey’s Anatomy, Sex and the City, The OC, Gilmour Girls e Scandal. Seu trabalho em Young Avengers lhe rendeu indicações ao Eisneir Awards (o Oscar dos quadrinhos), de Melhor Escritor (2006) e Melhor Série (2007).