Morreu hoje cedo, na Inglaterra, Ginger Baker, um dos mais lendários bateristas da história do rock, ex-membro da banda Cream. O músico de 80 anos estava gravemente internado num hospital há duas semanas, conforme divulgou sua família nas redes sociais, mas não resistiu e faleceu pacificamente na manhã deste domingo.

Dono de estilo percussivo de bateria, com manobras rápidas e frenéticas, Baker se tornou um dos mais influentes bateristas da história do rock e, sem dúvidas, foi uma das primeiras estrelas do gênero, atraindo atenção para si com o uso de sua bateria de dois bumbos.

Por causa disso, Baker é considerado como um dos pais do heavy metal, já que seu estilo de bateria forte, rápida e complexa virou padrão do rock mais pesado.

Nascido Peter Edward Baker em 19 de agosto de 1939, em Lewisham, no sul de Londres, filho de um pedreiro e de uma vendedora de loja de tabaco, Ginger Baker ficou órfão do pai, que morreu na II Guerra Mundial, em 1943, e cresceu como uma criança atlética, praticante do ciclismo, mas que terminou aprendendo a tocar bateria aos 15 anos.

Tocando principalmente jazz, muito rapidamente, Baker chamou atenção no circuito musical dos clubes e pubs de Londres e sua carreira deu o primeiro passo importante em 1962, quando integrou a The Blues Incorporated, banda formada por Alexis Korner que foi o embrião de fortíssima cena de R&B da Inglaterra.

No Incorporated, além de Korner na guitarra, a formação básica continha Baker na bateria, Jack Bruce no baixo, Nick Hopkins no piano; mas com o passar do tempo, o grupo virou uma espécie de conjunto itinerante, na qual membros não-fixos se revesavam no palco, o que abriu espaço para que nomes como Brian Jones (futuro membro dos Rolling Stones), Jimmy Page (futuro membro do Led Zeppelin) e vários outros tocassem no grupo.

Por causa da grande quantidade de músicos que circulavam em torno do Incorporated, várias bandas novas surgiram a partir dali, dentre elas, os Rolling Stones, os Bluesbreakers de John Mayall e a The Graham Bond Organization, que tinha Baker e Bruce unidos ao tecladista Bond.

Entre 1963 e 1965, o The Graham Bond Organization não fez sucesso de massa, mas era uma banda aclamada pela crítica e que tinha um bom número de seguidores no circuito de clubes, mas as tensas relações entre Baker e Bruce – que se odiavam e viviam brigando, inclusive, chegando a trocar socos no palco em meio aos shows – terminou com o baixista expulso do grupo.

Jack Bruce passou um ano tocando de modo meio itinerante com as bandas Bluesbreakers e Manfred Mann, antes de seu caminho cruzar com o de Baker de novo.

Em 1966, a revista Malody Maker organizou um ranking dos melhores instrumentistas do Reino Unido e o resultado foi: Eric Clapton, na guitarra; Jack Bruce no baixo; e Ginger Baker na bateria. Clapton tinha se revelado do The Yardbrids em 1963, mas quando essa banda começou a ficar popular, o purista bluesman decidiu sair e foi tocar na Bluesbreakers de John Mayall, onde encontrou a total aclamação, apelidado de “deus da guitarra”.

O Cream psicodélico em 1967.

Mas cansado das tensões com o líder Mayall, Clapton procurou Jack Bruce para que, se aproveitando da seleção da Melody Maker, montassem uma banda com os melhores instrumentistas da Inglaterra. A despeito da rivalidade de com Baker, Bruce topou e o Cream estreou em meados de 1966 já aclamado por público e crítica desde o primeiro show.

Eric Clapton, Jack Bruce, Ginger Baker of Cream London 1968 ©2002 Barrie Wentzell_Star File

A mistura de blues, jazz e rock, com guitarras amplificadas, bateria alta, som amplificado e muito improviso nas canções tornaram o Cream uma banda única e precursora da sonoridade que depois ficou mais popular ainda, com nomes como The Jimi Hendrix Experience ou Led Zeppelin.

Como resultado, entre 1966 e 1968, o Cream foi uma das bandas de maior sucesso do rock, com hits como Sunshine of your love, White room, Crossroads, Badge e muito mais.

FEBRUARY 1968: British Rock Group “Cream” poses for a February 1968 portrait. L-Rt: Eric Clapton, Ginger Baker, Jack Bruce. (Photo by Michael Ochs Archives/Getty Images)

Além de sua bateria ter parcela fundamental na sonoridade do Cream, Baker também atuava como vocalista ocasional (dividindo os microfones com Clapton e Bruce) e compondo material, como as faixas Toad (do álbum Fresh Cream), Blues condition (de Disraeli Gears) e Those are the days (de Wheels of fire), esta última provavelmente a sua canção mais conhecida.

A tensão enter Baker e Bruce e o uso de drogas pesadas por todos tornou a vida do Cream e o grupo encerrou as atividades. Clapton decidiu montar uma banda com o cantor, tecladista e guitarrista Steve Winwood, um prodígio que tinha apenas 19 anos e já tinha passado por duas bandas de sucesso – The Spencer Davis Group e Traffic.

Para o azar da dupla Clapton-Winwood, Ginger Baker soube da união e fez questão de se unir a eles. Nascia o Blind Faith, que estreou num concerto para 200 mil pessoas no Hyde Park em Londres, em junho de 1969, e gravou um único álbum homônimo que foi um grande sucesso, puxado por canções como Can’t find my way home e Presence of the Lord. Baker de novo contribuiu com material, com a faixa Sea of joy.

Mas o uso de drogas de Baker e a insatisfação de Clapton em ver a história se repetir levou ao fim prematuro do Blind Faith após sua primeira turnê.

Baker, então, se manteve unido a Winwood e montou o supergrupo Ginger Baker’s Air Force, de pegada mais jazzistica e que gravou dois álbuns em 1970 e 1971. Mas a personalidade forte e volátil de Baker impedia que trabalhasse por muito tempo com qualquer outro músico.

Baker foi para a África, se instalando na Nigéria e estabelecendo uma parceira com Fela Kuti no aclamado álbum Live, de 1971, e depois, montou o estúdio Batakota, em Lagos, o mesmo no qual o ex-Beatles Paul McCartney gravou o lendário álbum Band on the Run.

O baterista montou em seguida o Baker Gurvitz Army, ao lado dos irmãos Paul e Adrian Gurvitz, que lançou dois discos entre 1974 e 1976.

Dali em diante, a carreira de Baker entrou em declínio e o baterista apenas aparecia ocasionalmente em projetos de curta duração. Mudando-se para a Itália em busca de se livrar das drogas enquanto vivia cuidando de uma fazenda de oliveiras, Baker retornava a música esporadicamente, tocando com a banda de rock progressivo Hawkwind, entre 1980 e 1985; no disco Album da banda PIL (do ex-Sex Pistols John Lydon), em 1985; no álbum Sunrise of the Sufferbus da banda de hard rock Masters of Reallity, de 1992; e se reunindo a Jack Bruce e ao guitarrista Gary Moore no trio BBM, em 1994.

Nos últimos anos, Baker trabalha em seus próprios projetos, excursionando com alguma frequência. Em 2005, o Cream se reuniu, com Clapton, Bruce e Baker fazendo shows e lançando um concerto em CD e DVD.

Em 2016, o músico anunciou em sua conta do Twitter que não poderia mais tocar nos palcos por causa de um problema no seu coração. Ele fez uma cirurgia, mas desde então, vivia com a saúde debilitada.

Ginger Baker nunca se viu como um baterista de rock, mas como um músico de jazz, e não se encantava com sua influência aos bateristas de heavy metal, gênero que, por sinal, ele detestava, como disse certa vez numa entrevista à revista Rolling Stone.

Como Jack Bruce morreu em 2014, agora, Eric Clapton é o único sobrevivente do Cream.