Grandes artistas deixam grandes obras. E aí mora o problema numa sociedade capitalista voraz… Não são raros os casos em que os herdeiros criam disputas homéricas com ex-parceiros, empresários, gravadoras etc. Dos ex-Beatles John Lennon e George Harrison, passando pelo ex-Nirvana Kurt Cobain, a lista é longa! Hoje, mais um caso veio à tona: a viúva de Chris Cornell está processando uma de suas ex-bandas, a Soundgarden, por disputas quanto a royalties de canções inéditas deixadas pelo vocalista.

O Soundgarden em 2012.

Chris Cornell foi um dos grandes cantores e compositores do rock dos EUA das últimas décadas, tendo sido revelado dentro do próprio Soundgarden em meio ao movimento grunge – o mesmo do Nirvana – mas sua carreira foi além, igualmente fazendo sucesso como artista solo e no supergrupo Audioslave. O músico se suicidou em maio de 2017 em um episódio ainda meio controverso.

Segundo o TMZ, a viúva de Cornell, Vicky Cornell, estrou com um processo judicial contra o Soundgarden por causa de uma “apropriação indébita” de sete canções que o compositor deixou pré-gravadas enquanto trabalhava em mais um retorno do grupo. A viúva alega que as faixas são inteiramente compostas por Cornell e que haviam sido gravadas apenas por ele e cedidas à banda para que produzissem as versões finais.

O grupo por sua vez diz que cinco das sete canções foram coescritas com o Soundgarden e que já vinham sendo trabalhadas nos meses antes da morte do cantor.

Vicky Cornell afirma, no processo, que está apenas seguindo as recomendações expressas do marido que havia deixado uma lista de questões em relação às faixas, inclusive, o nome do produtor, o que teria feito a banda recusar. A viúva também acusa a banda de instigar os fãs do Soundgarden e quebrarem a unificação que os marcava até então.

Infelizmente, é difícil apontar “quem tem razão” em disputas desse tipo, mas é sabido pela história do rock que os herdeiros terminam comprando brigas que os artistas em si não fariam, ou contornariam de outro modo, no cara a cara com seus companheiros de trabalho.

Nirvana: Kurt Cobain, Kris Novoselic e Dave Grohl, em 1992.

Fica de exemplo o caso de Kurt Cobain: se sabe que o guitarrista e compositor tinha lá seus problemas com os outros dois membros – o baixista Kris Novoselic e o baterista Dave Grohl (hoje o bandleader do Foo Fighters) – e até houve alguma disputa sobre a autoria de faixas como Smells like teen spirit (originalmente a banda inteira foi creditada, mas Cobain tentou “renegociar” o fato depois, se apresentando como único autor, algo que ficou meio nebuloso), mas o grupo estava relativamente bem até o suicídio líder em 1994. Daí em diante, uma grande disputa judicial entre Novoselic e Grohl de um lado e a viúva de Cobain, a também musicista Courtney Love, de outro, que durou muitos anos e barrou vários lançamentos do grupo. Somente na atual década houve um acordo.

Legião Urbana: Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, em 1994.

No Brasil, temos um caso recente aparentemente ainda mais espinhoso na disputa pelo legado da Legião Urbana, a mais popular e influente banda de rock da história do país. De um lado, os ex-membros Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá e de outro o herdeiro do líder Renato Russo, seu filho, Giuliano Manfredini. Neste caso, o filho do músico também rompeu com a própria família (em especial, a mãe e a irmã de Russo). A disputa já trouxe o embarreiramento de alguns relançamentos do grupo e o conflito pelo nome do grupo e seu legado pelos ex-membros.

RPM: Paulo Pagni, Paulo Ricardo, Luiz Schiavon e Fernando Deluqui.

Outro caso recente é o do RPM, no qual havia uma disputa entre ex-membros vivos: de um lado o cantor e baixista Paulo Ricardo e de outro o tecladista Luiz Schiavon, o guitarrista Fernando Deluqui e o baterista Paulo PA Pagni. Em “vida”, a obra da banda era assinada pela dupla Ricardo e Schiavon, mas o primeiro alegava ser dono da “marca”, enquanto o trio restante lutava para continuar a usar o nome. Os últimos ganharam o processo na Justiça e Pagni morreu recentemente, em junho deste ano.

Os Beatles (Ringo Starr, Paul McCartney, George Harrison e John Lennon) em 1969.

Além das disputas, a questão da herança traz complicações à continuidade da obra do artista para a posteridade, especialmente no que diz respeito aos relançamentos e derivativos. Neste ponto, o caso dos Beatles é exemplar. John Lennon morreu precocemente, assassinado por um fã com problemas mentais aos 40 anos, em 1980; enquanto George Harrison foi vítima de um câncer, em 2001. Com suas mortes, as viúvas, Yoko Ono e Olivia Harrison, respectivamente, assumiram o controle do espólio dos ex-maridos e passaram a ter voz ativa nas decisões comerciais e artísticas dos Beatles.

Por isso, é algo doloroso ver o documentário sobre a produção do musical Beatles: Love, por exemplo, produzido pelo Cirque Du Soleil baseado na obra da banda, por meio de um espetáculo teatral (apresentado em Las Vegas) e um disco com faixas remixadas e remontadas. No filme promocional, vemos os dois membros vivos dos Beatles, Paul McCartney e Ringo Starr assistindo animados e emocionados a “tradução” de sua obra na visão de outros artistas; enquanto (pelo menos no corte do filme) apenas de Yoko Ono e Olivia Harrison vêm as reclamações e os pedidos de mudança no espetáculo, na “defesa” da obra daqueles que representam. Isso levanta muitas questões…

O caso de Chris Cornell não será o último neste capítulo obscuro rock e da indústria musical, e ainda terá grandes desdobramentos na medida em que o caso avançar.

Uma pena mesmo!

Chris Cornell nasceu em Seattle, no estado de Washington, nos EUA, em 1964, e aprendeu a tocar piano, guitarra e bateria, antes de optar pela função de vocalista, fundando o Soundgarden em 1984, e lançando seus primeiros discos a partir de 1987. A formação mais famosa da banda reunia Cornell (vocais), Kim Thayil (guitarra), Ben Shepherd (baixo) e Matt Cameron (bateria).

O grupo teve destaque na cena alternativa de rock da região e foi lançada ao estrelato quando o conterrâneo Nirvana explodiu no mundo todo em 1991 e tornou o movimento grunge a principal tendência do rock americano da década. Os álbuns do Soundgarden, Badmotorfinger (1991) e Superunknown (1994) foram fenômenos de venda, mas as conturbações da fama levaram ao fim em 1997.

Cornell se lançou na carreira solo e lançou um álbum de sucesso em 1999, mas terminou se unindo aos ex-membros do Rage Against the Machine e formou o Audioslave, em 2001, que lançou três álbuns de muito sucesso até 2006, quando se separou.

O músico retomou a carreira solo, mas o Soundgarden se reuniu em 2012 e uma de suas canções foi a música tema de Os Vingadores, por exemplo. Dali em diante, o cantor alternou entre as reuniões do Soundgarden e seu trabalho solo.

Foi em meio a uma turnê própria que Cornell se suicidou em 17 de maio de 2017, após realizar um show em Boston. Ele se enforcou com um cinto no banheiro após ter conversado com a esposa e dito que estava bem. As notícias posteriores afirmaram que uma desregulação na dose de remédios que Cornell usava para a depressão e o vício em substâncias psicoativas podem ter tido um papel no desequilíbrio emocional do músico. Ele tinha 52 anos de idade.