Há exatos 50 anos atrás, em 18 de setembro de 1970, morria Jimi Hendrix, o maior guitarrista da história do rock, após uma overdose medicamentosa acidental aos 27 anos de idade.

Jimi Hendrix: o maior de todos os guitarristas.

James Marshall Hendrix nasceu em 27 de novembro de 1942 na cidade de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos, a mesma cidade que daria origem ao Grunge 45 anos depois. Vindo de uma família pobre e com problemas, Hendrix encontrou na música uma válvula de escape. Negro e com ascendência indígena, também, claro, viveu alguma condição de marginalidade e terminou sendo convocado a servir ao exército, em 1961, atuando no batalhão de paraquedistas por dois anos.

Hendrix (esq.) e os Squires: músico de apoio.

No exército, o guitarrista tocou em várias bandas militares, inclusive, ao lado do baixista Billy Cox, com quem faria música anos depois. Mas a displicência e indisciplina terminaram por fazer com que Hendrix fosse dispensado e o músico pegou sua guitarra e passou a rodar os EUA tocando com quem lhe pagasse. Isso o levou a tocar com muitos artistas do primeiro e do secundo escalão, como Curtis Knight, B.B. King, Little Richard, Ike & Tina Turner e o The Isley Brothers. Hendrix tocava ao vivo com esses artistas e também participou de inúmeras sessões de gravação.

Mas ser um acompanhante não era seu objetivo de vida e Hendrix decidiu permanecer em Nova York em 1965, se estabelecendo no Greenwish Village e montando a banda Jimmy James and the Blue Flames e tocando no Cafe Wha?, onde começou a burilar seu próprio som e suas composições. Dentre os músicos de sua banda estava Randy California, que mais tarde fundaria a banda Spirit, e o também guitarrista Jeff Baxter, que participaria das bandas Steely Dan e Doobie Brothers.

Demorou algum tempo, mas Hendrix começou a chamar a atenção no Greenwish Village, de modo que roqueiros famosos da época, de passagem pela cidade, começaram a ir vê-lo. Um desses foi Keith Richards, dos Rolling Stones, que ficou bastante impressionado no verão de 1966. Mas ainda mais importante do que isso foi que o guitarrista britânico levou sua então namorada, Linda Keith, que ficou totalmente fascinada pelo guitarrista de Seattle. Linda Keith passou a levar vários amigos ao show de Hendrix e um deles foi Chas Chandler, o baixista da banda The Animals, um grupo que misturava rock e R&B de bastante sucesso na época.

Desgostoso com os Animals e a indústria musical, Chandler havia decidido largar o grupo – que encontraria o seu fim logo depois – e teve a brilhante ideia de levar Hendrix para Londres, onde um cenário musical mais pujante e aberto poderia lhe acolher mais do que o americano, que o ignorara solenemente por 4 anos!

The Jimi Hendrix Experience: uma das maiores bandas da história do rock em apenas três discos.

Hendrix e Chandler aportaram em Londres e o baixista usou seus contatos no mundo musical para montar uma banda para o guitarrista, conseguir shows e até um contrato de gravação. Hendrix chegou até a tocar como convidado especial do Cream de Eric Clapton, a banda mais quente da cidade naqueles tempos, o que foi uma grande vitrine. Com Hendrix unindo-se ao baixista Noel Redding e ao baterista Mitch Mitchell, nasceu o The Jimi Hendrix Experience, cujo primeiro compacto, Hey Joe, já estreou em novembro de 1966 e fez sucesso nas paradas britânicas. Seguiu-se Purple haze, no início de 1967, que fez mais sucesso ainda e o explosivo álbum de estreia, Are You Experience?, lançado em pleno Verão do Amor e dentro do contexto de uma sequência incrível de álbuns psicodélicos de bandas britânicas, como Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band dos Beatles, Between the Bottons dos Rolling Stones e The Piper at the Gates of Dawn do Pink Floyd.

Mas o álbum de Hendrix é uma verdadeira pérola, com faixas como Love or confusion, Maniac depression, Foxy lady e Fire, todas composições do guitarrista.

Apesar de ser uma evolução do que outros guitarristas vinham desenvolvendo – em particular, Eric Clapton (no Cream), Pete Townshend (The Who) e Jeff Beck (nos Yardbirds) – o som de Hendrix foi por si só uma revolução: incorporando a estrutura do blues e os fraseados e riffs típicos do rock, Hendrix incorporou o barulho como parte de seu som, usando microfonia, distorção, feedback e vários efeitos como parte essencial de sua música. Isso era incrementado por sua performance ao vivo, com o guitarrista usando roupas espalhafatosas, coloridas e psicodélicas, e se jogando no chão, colocando a guitarra atrás de sua cabeça ou tocando com os dentes. Não apenas pelos efeitos que ele se destacava, mas por sua incrível capacidade de equacionar tudo isso com um toque enérgico, fazendo movimentos melódicos o tempo todo.

The Jimi Hendrix Experience ao vivo: potência sonora radical.

Fazendo turnês pelo Reino Unido e Europa, The Jimi Hendrix Experience se tornou uma grande sensação e o guitarrista foi rapidamente alçado como a maior estrela de seu instrumento na cena musical roqueira, pelo menos da Europa, tirando o posto confortavelmente ocupado por Eric Clapton há muitos anos. Mas nunca houve rivalidade entre eles e, ao contrário, os dois se tornaram bastante amigos. Aliás, criatura de temperamento tranquilo, Hendrix fez amizade com a nata dos músicos britânicos, como Clapton, Pete Townshend do The Who e Paul McCartney dos Beatles.

O ritual de queimar a guitarra: revolução na performance.

Mesmo sendo um astro na Inglaterra, Hendrix ainda era um total desconhecido em seu país natal. Mas quando os hippies da Califórnia decidiram montar o Monterrey Pop Festival, o primeiro dos grandes festivais de rock dos anos 1960, em agosto de 1967, foi a grande oportunidade. Paul McCartney foi um dos curadores do festival e recomendou aos americanos que escalassem o The Jimi Hendrix Experience. Tocando ao lado de grandes nomes da época, como The Who, The Mamas and the Papas, The Byrds, Buffalo Springfield e muito mais. Hendrix causou um grande espanto em sua apresentação: para fazer jus ao The Who, que costumava destruir seus instrumentos no palco ao fim do show, o guitarrista terminou seu ato colocando fogo em sua guitarra e brincando com os sons que ela produzia no processo.

A aclamação (tardia) nos EUA veio acompanhada do segundo álbum, Axis: Bold as Love, lançado no fim de 1967, com faixas como Spanish castle magic, Little wing, Waiting util tomorrow, Castles made of sand e She’s so fine (esta de autoria do baixista Noel Redding).

O sucesso nos EUA rendeu uma sequência ininterrupta de turnês ao longo do gigantesco país, fazendo o Experience uma trupe em constante movimento, o que não fez bem às relações internas do conjunto. Ao mesmo tempo, Hendrix queria explorar novos territórios, o que o levou a romper com Chas Chandler, que produziu seus dois álbuns anteriores, e a convidar vários amigos estrelados – como os membros da banda Traffic – para gravar seu terceiro disco, resultando em sua obra mais ambiciosa: Electric Ladyland, lançado em outubro de 1968, no momento em que o Experience já praticamente se desfazia e o baixista Noel Redding sequer tocava em todas as faixas. O álbum traria faixas como Voodoo child (slight return), Crosstown traffic, Burning in the midnight lamp, Still raining still dreaming e o cover imortal de All along the watchtower, de Bob Dylan.

Hendrix ao vivo em Woodstock: álbuns “novos”.

O efeito das drogas constantes afetaram o trabalho de Hendrix, antes um músico concentrado e disciplinado, e isso destruiu as relações com o Experience e, de certo modo, desvirtuou sua carreira. O Experience continuou a tocar pelos EUA e Europa ao longo do primeiro semestre de 1969, mas encerrou as atividades por volta de junho, quando Noel Redding saiu do grupo.

O guitarrista então montou uma nova banda para tocar no Festival de Woodstock, em agosto: a Gypsy Suns and Rainbow manteve Mitch Mitchell na bateria, mas trouxe Billy Cox para o baixo, Larry Lee para a guitarra base e a dupla de percussionistas Jerry Velez e Juma Sultam. Hendrix foi a última apresentação do festival e sua performance ficou lendária e marcada para história, tocando já no raiar do sol e com performances matadoras de Hey Joe e, principalmente, do Hino dos Estados Unidos repleto de sons distorcidos de guitarra que os críticos interpretaram como uma crítica à Guerra do Vietnã. A cena se tornaria mundialmente famosa ao ser incluída no filme sobre o festival lançado no ano seguinte.

Mas Gypsy Suns and Rainbow tinha tocado de improviso e com pouco ensaio e o efeito disso em Hendrix não foi positivo e o guitarrista logo montou uma terceira banda, a Band of Gyspys, com o baixista Billy Cox e o baterista Buddy Miles, todos negros. O trio tinha um som poderoso e se beneficiava dos belos vocais de apoio de Miles, e terminaram fazendo quatro históricos shows no Madison Square Garden, em Nova York, na virada do ano de 1969 para 1970, com um repertório em grande parte composto por músicas inéditas.

Hendrix aparentemente gostou bastante do resultado e reuniu o melhor dos shows e os lançou como um disco ao vivo, Band of Gypsys, em 1970.

The Cry of Love…

Mas o bom momento não durou. Insatisfeito com a própria performance, tomando drogas demais, frustrado por perceber que os fãs só queriam ouvir os velhos sucessos e não as novas canções, indeciso sobre os músicos que o acompanhavam e planejando um projeto que fosse mais audacioso ainda do que o disco de estúdio anterior, Hendrix freou sua verve ao vivo e se concentrou em gravar dúzias de canções novas em seu novo estúdio em Nova York, o Electric Lady. Para essas sessões, Hendrix trouxe Mitch Mitchell de volta à bateria e manteve Billy Cox no baixo.

No verão de 1970, o novo trio – que às vezes era anunciado como Experience e outras vezes apenas como Hendrix – e fez um circuito de festivais, como uma celebrada apresentação no Festival da Ilha de Wight, em agosto, embora tenham acontecido alguns percalços, como na Dinamarca, em 02 de setembro, onde encerrou o show após apenas três canções. No Open Air Love & Peace Festival, na Alemanha, em 06 de setembro, foi marcado por um clima ruim, com a gangue de motoqueiros Hell Angels causando brigas, e chuva e vento atrapalhando o show. Hendrix foi vaiado e discutiu com o público ao longo do concerto.

Depois, o baixista Billy Cox ficou doente e Hendrix cancelou o restante da turnê, indo para Londres passar um tempo. Foi lá em que fez seu último show: uma participação especial na apresentação do Eric Burdon’s War, banda do ex-vocalista do Animals, no Ronnie Scott’s Jazz Club, no dia 16 de setembro, apenas dois dias antes de morrer.

Jimi Hendrix: o maior de todos.

Acompanhado da namorada Monika Dannemann, Hendrix se hospedou no Sandmarkand Hotel, e passeou pela cidade que lhe acolheu no momento crucial de sua vida. No dia 17, foi para uma festa, mas ao regressar ao apartamento, o guitarrista não conseguia dormir, então, decidiu tomar um calmante que Dannemann possuía. Hendrix tinha tomado uma anfetamina mais cedo e bebido muito vinho e o calmante era de um tipo extremamente poderoso e não aqueles mais leves aos quais estava acostumado nos EUA. Como fazia sempre, Hendrix simplesmente virou o frasco na boca e tomou vários comprimidos – pelo menos uma dúzia – e foi dormir.

Sem consciência, entrou em choque e terminou se afogando no próprio vômito.

Pela manhã, Monika acordou e viu que Hendrix estava sem reação e chamou uma ambulância. O mais lendário guitarrista da história do rock foi declarado morto às 12h45 de 18 de setembro de 1970.

As gravações inacabadas – aos quais Hendrix estava sempre insatisfeito e querendo refazer – terminariam lançadas em dois álbuns póstumos, organizados pelo engenheiro de som Eddie Kramer (que acompanhou toda a sua carreira) e Mitch Mitchell, como Cry of Love (1971) e Rainbow Brigde (1972).

O legado de Hendrix sobreviveu e sobrevive até hoje. Infelizmente, sua morte não foi a primeira nem a última das célebre ocorridas nos anos 1960: Brian Jones, dos Rolling Stones, morrera em julho de 1969; a cantora Janis Joplin morreria em outubro de 1970 (apenas três semanas depois da morte de Hendrix); e Jim Morrison, o vocalista do The Doors, viria em julho de 1971. Todos aos 27 anos.

O estilo de Hendrix, cheio de fúria, distorção e exibicionismo virou a marca principal do rock mais pesado dali em diante, sendo uma pedra angular do hard rock que fez a fama de bandas como Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple; e sua velocidade, um elemento importante para a radicalização do hard rock, o heavy metal.

Mas o pioneirismo, a psicodelia, os efeitos, sua voz tranquila e bonita, suas composições interessantes e sua performance incendiária no palco fizeram história e não serão esquecidos.

Nos discos, nas músicas, nos vídeos… Hendrix irá viver para sempre.